TECNOLOGIA AGRÍCOLA

            

Recente divulgação dos dados dos fabricantes pela Anfavea mostra que as vendas de colhedoras de cana do Brasil vêm reduzindo e sofrendo grandes mudanças

Já se vão mais de 35 anos que são fabricadas colhedoras de cana picada no Brasil. Contudo, não havia a divulgação oficial da quantidade de colhedoras produzidas, vendidas e exportadas. Responsável pela apresentação dos números e estatísticas de todos os equipamentos automotores fabricados no Brasil, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) não divulgava justamente os dados sobre colhedoras de cana por um acordo (ou desacordo) entre as indústrias. Finalmente, em 2016, a Anfavea além de passar a divulgar a mostrar tais informações, liberou dados de anos anteriores, a partir de 2013.
Os números da Figura 1 apontam que, depois de atingir um pico de 1.406 colhedoras vendidas no mercado brasileiro em 2013, estas vendas só caíram de lá para cá, com leve recuperação em 2016.
Em estudo efetuado pela RPA Consultoria considerando que as colhedoras de cana apresentavam uma vida média de 7,8 anos de idade em 2013, as vendas de colhedoras deveriam ter sido bastante superiores nestes últimos três anos,

 

 

especialmente em 2015 e 2016, como ilustra a Figura 2.
Assim, nota-se que a crise financeira que se abateu nestes últimos anos no setor sucroenergético gerou um represamento de investimentos por parte de usinas e fornecedores de cana, com a renovação das colhedoras sendo um dos investimentos represados.
A demanda reprimida, que pela análise da Figura 2 representaria 3.912 colhedoras, foi parcialmente reduzida pelo melhor desempenho das colhedoras ao longo destes anos. Levantamento efetuado pela RPA Consultoria na safra 2014/15 na região Centro-Sul apontou uma produtividade média de 432,4 toneladas/colhedora-dia. Já na safra 2015/2016, esta média elevou-se em 7,2%, atingindo 463,3 toneladas/colhedora-dia.
Mesmo assim, é possível inferir que o parque de colhedoras de cana está ficando ainda mais velho. Sem dúvida, tal fato tem gerado uma evolução rápida no conhecimento e na prática de como se obter maior disponibilidade mecânica de colhedoras cada vez mais velhas.

 

 


MUITAS MUDANÇAS NAS PARTICIPAÇÕES DE MERCADO


Outro fato relevante a ser discutido foi a grande variação na participação de mercado dos fabricantes de colhedoras nestes últimos quatro anos. Em 2013, a John Deere dominava o mercado com 60% das vendas no mercado interno, sendo que a Case IH na prática detinha o restante de participação. Este domínio da John Deere ainda cresceu mais 12,3%, chegando a 66,8% em 2014, crescimento este basicamente sobre a participação da Case IH, pois a AGCO, com sua colhedora Valtra, ainda começava a mostrar sua cara com participação de 3%. Contudo, em 2015, ano em que a Valtra lançou seu novo modelo, a BE 1035e, a Case IH recuperou-se, chegando a 37%, fazendo com que a John Deere retornasse ao patamar que tinha em 2013.

 

 

No ano passado, a John Deere praticamente manteve sua participação, sendo que o fato novo relevante foi o crescimento bastante significativo de 58% das vendas da Valtra, saindo de 3,6% para 5,7% de participação no mercado.
MERCADO INCIPIENTE DE USADAS ATRAPALHA
Obviamente que os preços de aquisição estão pesando bastante na decisão de compra de colhedoras neste momento de crise financeira do setor sucroenergético. Por isso que a colhedora mais barata, da Valtra, foi a que teve maior crescimento na participação de vendas, principalmente frente à fatia de mercado da Case IH. Mas também interfere na decisão de compra, ou melhor, no adiamento dela, o fato do mercado de colhedoras usadas (de “segunda mão”) ainda ser irrelevante, fazendo com que o preço ofertado nas colhedoras usadas seja muito baixo.
A Figura 4 mostra que, enquanto um carro com cinco anos de idade vale pouco mais da metade do preço do mesmo veículo quando novo, uma colhedora com os mesmos cinco anos vale praticamente 1/5 do preço da colhedora nova.

 

 

 

 


VENDAS SÃO SAZONAIS


A análise das vendas mensais de colhedoras de 2013 a 2016 mostrou que há uma forte sazonalidade nas vendas de colhedoras de cana no país. A Figura 5 ilustra que de dezembro a abril, justamente a entressafra da região Centro-Sul, é o período de maior venda de colhedoras, sendo que estes cinco meses representam 59,6% de todas as vendas do ano.
Mas a Figura 5 também mostra que o mês de outubro vem crescendo nas vendas de colhedoras, faltando pouco para alcançar os meses de dezembro e de janeiro. Isso pode ser explicado por usinas que despertaram para a queda de produtividade das colhedoras no final da safra e que adiantam a entrega das suas compras de colhedoras do ano seguinte para o mês de outubro, podendo estas máquinas novas ajudar na colheita do final da safra. Menos de 20% das vendas anuais ocorrem entre os cinco meses que vão de junho a setembro, sugerindo que este período pode ser mais interessante para se conseguir melhores preços nas negociações das colhedoras.

 

 

 


SÓ TRÊS ESTADOS COMPRAM 80% DAS COLHEDORAS


Quando falamos de colhedoras de cana no Brasil, praticamente estamos falando de três estados que representaram 79,2% do total de vendas no país nos anos de 2015 e 2016: São Paulo (58,3%), Goiás (11,7%) e Minas Gerais (9,2%). Vale lembrar que, em 2016, estes mesmos três estados tiveram 72,8% de toda a área de cana colhida, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
A presença dos estados do Norte e do Nordeste atingiu meros 1,42% nas vendas de colhedoras no país neste período, mostrando sua inexpressiva representatividade no contexto de colheita mecanizada de cana, mesmo tendo 10,2% da área de cana colhida na safra 2016/2017.

 


EXPORTAÇÃO JÁ FOI MELHOR


O mercado de colhedoras de cana fabricadas no Brasil não é movido somente por vendas internas. Em 2013, ano de maior número de colhedoras exportadas, as vendas externas representaram 16,6% do total de colhedoras fabricadas aqui, como mostra a Figura 7.
No ano seguinte, com a queda nas vendas internas, aumentaram as vendas para fora, chegando a 20,2% da produção. Infelizmente, no mesmo compasso de redução das vendas no mercado interno, também caíram as exportações de colhedoras, atingindo em 2016 o pior resultado desta série de quatro anos, com 11,3% das máquinas produzidas sendo enviadas para o exterior.
Contudo, se a John Deere possui a liderança na participação de venda de colhedoras internamente no Brasil, no caso de exportação o domínio incontestável é da Case IH, com uma média de 95,1% das exportações de 2013 a 2016, sendo que o auge foi em 2014, com 98,1% do tal de colhedoras exportadas, como mostra a Figura 7.

 

 


A inexpressiva exportação de colhedoras da fábrica brasileira da John Deere denota que sua unidade, localizada em Catalão, em Goiás, é quase que exclusivamente voltada para atender o mercado brasileiro, ao passo que a fábrica da Case IH, situada em Piracicaba, no Estado de São Paulo, também atende o mercado internacional.

 

 

 

 

 

 

 


JOHN DEERE POSSUI MAIOR FÁBRICA

No tocante à capacidade de produção de cada fabricante, como cada um deles possui apenas uma fábrica de colhedoras instalada no Brasil – a fábrica da Valtra, única ainda não citada neste artigo, localiza-se em Ribeirão Preto, SP – por suas produções nos últimos anos podemos inferir sua capacidade instalada.
A Figura 8 apresenta as produções dos três fabricantes, sendo que somente a da Valtra mostrou crescimento de produção no período considerado.
Considerando o recorde de produção das fábricas da Case IH e John Deere em 2013 e somando o melhor resultado da fábrica da Valtra de 2016, poderíamos conceber uma capacidade instalada no Brasil ao final de 2016 de 1.484 colhedoras de cana, com a John Deere possuindo 57,5%, seguida da Case IH com 39,4% e finalizando com a Valtra com 3,1%.
Obviamente estes números de capacidade são apenas um referencial e possuem falhas, pois as fábricas podem mudar suas linhas de fabricação de colhedoras de cana para colhedoras de outras culturas, como de café, assim como para outros equipamentos, como pulverizadores autopropelidos.
Espero que esta avaliação aqui apresentada possa lastrear tanto análises e decisões de fabricantes quanto de compradores de colhedoras de cana, de forma a pavimentar um mercado cada vez mais profissional e alinhado com as demandas do setor canavieiro brasileiro

* Ricardo Pinto é engenheiro agrícola, administrador de empresas e mestre em Agronomia, além de sócio-fundador da RPA Consultoria, com 30 anos de experiência no setor sucroenergético, sendo 23 anos como consultor