Adesão exponencial aos 2 turnos no CCT

 

GESTÃO

 

Desde que foi lançada em 2013, a opção dos 2 turnos de 10 horas no CCT vem sendo rapidamente adotada por usinas e fornecedores de cana
 
*Ricardo Pinto
 

Era novembro de 2012 estava como mediador de um workshop sobre ganho de desempenho do CTT – o CCT mecanizado – das unidades da usina Santa Adélia, em Jaboticabal. A discussão era sobre como poderíamos aumentar o número de horas trabalhadas por dia de cada colhedora para atingirmos uma média entre 13 e 14 horas por dia. De repente, o diretor agrícola fez uma pergunta bastante capciosa: “Mesmo que consigamos chegar a 14 horas de tempo trabalhado por dia de cada colhedora, por que tenho de pagar por 24 horas de operadores disponíveis, convivendo com 10 horas de salários desperdiçados ao dia?”

A partir daquele momento foi estabelecido um projeto no qual o objetivo era encontrar uma alternativa para reduzir este desperdício.

 

AGENDANDO O ACASO

Para conseguir entender melhor o problema do “desperdício de 10 horas por dia” de salário de operadores de colhedoras e, consequentemente, de operadores de veículos de transbordo, fizemos uma análise do que seria um dia padrão das colhedoras, conforme mostra a Figura 1.

Das 10 horas paradas, buscamos identificar quais destes tempos parados poderiam acontecer num horário pré-definido do dia, quando não houvesse operadores na colhedora.

 

Figura 1 – Dia padrão de uma colhedora que trabalha 14 horas em 3 turnos de 8 horas (em horas)

 

• 3 horas perdidas para refeições poderiam ser atendidas por operadores “almocistas”;

• 0,67 hora de abastecimento/lubrificação poderiam ocorrer em dois períodos diários através de atendimento do comboísta, já que a colhedora não possui autonomia de tanque de combustível para somente uma abastecida por dia;

• 0,33 hora de lavagem de elevador, que poderia ocorrer em horários pré-definidos do dia através de atendimento do motorista do caminhão pipa;

• 0,50 hora de check list de operadores, que poderiam ser feitos por operadores “intervalistas”, ou seja, aqueles que permanecem nas janelas para auxiliar os comboístas, pipeiros e mecânicos;

• 0,50 hora de verificação/troca de faquinhas, que também poderiam ser feitas pelos operadores “intervalistas”.

Estes tempos totalizam 5 horas diárias. Então surgiu a ideia de fazermos 2 paradas de 2 horas entre as jornadas de 10 horas para que estes serviços fossem feitos na frota de CTT, de forma a conseguir que, durante as 20 horas diárias de jornada paga dos operadores, conseguíssemos obter as mesmas 14 horas de trabalho diário de cada colhedora.

Além disso, os operadores intervalistas também tirariam as horas de almoço das 2 equipes de operadores da frente de CTT ao longo das 10 horas de jornadas deles, respeitando as 2 primeiras horas e as 2 últimas horas no turno de 10 horas sem haver refeição. Pronto! A legislação trabalhista estava atendida, os operadores que permanecessem na usina teriam um ganho salarial pelo aumento de horas extras e a usina poderia enxugar em 20% seu quadro de funcionários de CTT, com redução de 8% a até 11% na sua Folha de Pagamento.

 

Figura 2 – Exemplo de turnos de 10 horas sem superposição entre as frentes de CCT para não faltar cana na indústria

2 TURNOS DA RPA

Assim, o modelo de 2 turnos da RPA Consultoria ficou configurado com 2 janelas de 2 horas entre os 2 turnos de 10 horas de cada frente, sendo estas janelas em horários diferentes entre as frentes, para não impactar a entrega de cana na usina. As 10 horas da frente são compostas de 7:20 de horas normais dos operadores (sistema 5 x 1) com mais 1:40 horas extras, totalizando 9h00 de trabalho diário. Além disso, os operadores gozam efetivamente de mais 1 hora de refeição, o que totaliza as 10 horas, como ilustra a Figura 2.

COM MOTORISTAS CANAVIEIROS É DIFERENTE

Se a usina processa cana ininterruptamente, os caminhões de cana devem puxar cana o tempo todo, caso contrário haverá falta de cana na indústria. As frentes de colhedoras e VT podem ter “janelas paradas”, o que é mitigado pelo Controle de Tráfego da usina intercalando viagens de caminhões de cana para as frentes ativas. Contudo, os caminhões canavieiros não podem ter estas janelas paradas.

A saída para os caminhões pode ser de manter os 3 turnos de 8 horas – mais fácil – ou de adotar os 5 turnos de 10 horas, que costumamos chamar de sistema “Santa Adélia”, porque foi inventado pela equipe deste grupo. Neste caso, são necessários caminhões em número par e múltiplos de 5. Conforme a Figura 3 mostra, teremos 5 turnos fixos de 10 horas para motoristas. Se a usina tiver 20 caminhões canavieiros, cada turno deverá ter 10 motoristas contratados, o que fará com que sempre, em qualquer hora, haja 20 motoristas com os 20 caminhões.

Neste caso, para 20 caminhões serão contratados 10 motoristas por turno de 5 turnos, que totaliza 50 funcionários. Isso dá 2,5 motoristas por caminhão. Como será no sistema 5 x 1, devemos acrescentar mais 20% de motoristas folguistas, o que redundará em 3,0 motoristas por caminhão, 16,7% a menos do que no caso de 3 turnos de 8 horas, que usa 3,6 motoristas por caminhão.

OUTROS SISTEMAS DE 2 TURNOS

Algumas usinas passaram a adotar variações no sistema de turnos de 10 horas proposto pela RPA Consultoria. As variações mais adotadas são duas:

Frente com janelão (parado) de 4 horas: exemplos de usinas que adotam são a Santa Isabel (duas usinas), São José da Estiva, Ferrari, Baldin, Itajobi e Aralco (três usinas);

Frente coringa no janelão de 4 horas: exemplos de usinas que optaram por este sistema são a Colombo (quatro usinas) e Abengoa (duas usinas). A Clealco deverá entrar neste sistema em 2016.

Na minha opinião, o primeiro sistema implica em se trabalhar com a frota um pouco maior para que não haja falta de cana na indústria. Isso porque uma frente parando 4 horas realmente impacta no fluxo de cana que chega à indústria. Já o segundo sistema basicamente não busca rearranjar os tempos parados, como é proposta dos 2 turnos da RPA Consultoria. Ele simplesmente faz com que uma frente coringa cubra os dois janelões de 4 horas de duas frentes com uma terceira equipe.

Quando calculamos os custos envolvidos com Folha de Pagamento (com todos os encargos e reflexos) e com o Transporte de Pessoal, o sistema de duas janelas de 2 horas proposto pela RPA é o de menor custo.

EVOLUÇÃO EXPONENCIAL DOS 2 TURNOS

Em 2016, outras oito usinas poderão adotar os 2 turnos de 10 horas com 2 janelas de 2 horas. Dentre elas estão Della Colletta, Cerradão, Água Bonita, Ester e Quatá.

Se considerarmos desde 2013, a evolução na mudança de 3 turnos de 8 horas para 2 turnos tem mostrado um crescimento exponencial, como ilustra a Figura 4.

HORAS EXTRAS HABITUAIS

Há grande questionamento do sistema de 2 turnos configurar horas extras habituais, principalmente de advogados e pessoal da área jurídica desconhecedores da realidade das usinas. Isso porque nos 3 turnos de 8 horas já há horas extras rotineiramente pagas aos funcionários de CTT das usinas, já que o mesmo ônibus que trás uma turma leva a outra embora e o atraso de apenas 1 funcionário afeta todos os demais da sua equipe e da outra.

Além disso, este assunto expõe um conflito entre a CLT, a Norma Constitucional e as leis Ordinárias. Isso porque a Constituição Federal de 1988, no seu Artigo 7º, define que os tabalhadores urbanos e rurais têm o direito de receber remuneração pelo seu serviço extraordinário em 50% acima do seu trabalho normal. Paralelamente, a Súmula nº 291 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), define que um serviço suplementar prestado com habitualidade por mais de um ano assegura ao empregado o direito à indenização correspondente ao valor de um mês das horas suprimidas, total ou parcialmente, para cada ano ou fração igual ou superior a seis meses de prestação de serviço acima da jornada normal. O próprio TST define uma regra de indenização para quando horas extras habituais são suprimidas!

Finalmente, a grande maioria dos Acordos Coletivos de Trabalho das usinas apresenta uma cláusula de prorrogação do trabalho, que define que o horário normal possa ser estendido em até 2 horas extras. O que se sugere é que o regime de pagamento de horas extras aconteça apenas ao longo da safra, parando na entressafra, haja vista a sazonalidade operacional de uma agroindústria como a canavieira.

Figura 3 – Exemplo de 5 turnos fixos de 10 horas para motoristas de caminhões canavieiros

TEM MAIS VANTAGENS?

Realmente tem. Os 2 turnos não compensam somente pela redução de custos. A primeira grande vantagem adicional é que, como o sistema reduz em 20% o quadro de funcionários, este enxugamento ocorrerá junto aos piores funcionários, provocando uma seleção positiva do quadro de colaboradores.

Outra vantagem é que, quanto mais velha a frota, melhor é adotar os 2 turnos, pois ele estabelece 2 períodos diários para se fazer não só o abastecimento e a lubrificação da frota de CTT, mas também para se realizar inspeções, check lists de manutenção e até pequenas manutenções preventivas, sem que o pessoal da produção fique “fungando no cangote” da equipe de manutenção. Afinal, a frente estará parada nestas 2 janelas.

Não só a disponibilidade mecânica dos equipamentos melhora, como passa a existir menor conflito entre as áreas de Manutenção e Produção.

Finalmente, vários exemplos de implantação bem sucedida de 2 turnos em usinas provam que diminui o número de horas da indústria parada por falta de cana na safra. E os 2 turnos de 12 horas? Isso fica para um próximo artigo. 

* Ricardo Pinto é diretor da RPA Consultoria e da revista RPAnews e também é um dos idealizadores do sistema de 2 turnos com 2 janelas de 2 horas