A cana do futuro

 

 ESPECIAL

 

Mesmo com tantas variedades desenvolvidas e disponíveis, institutos de pesquisa e setor ainda continuam em busca de uma cana que traga mais produtividade aos canaviais

 

Natália Cherubim 

Além do avanço da mecanização e do uso de tecnologias de agricultura de precisão, é inegável que muito da evolução pela qual o setor sucroenergético tem ultrapassado ao longo dos últimos anos, também é fruto do esforço das instituições de pesquisas, universidades e empresas, que se dedicam ao melhoramento genético da cana-de-açúcar e que vem desenvolvendo materiais cada vez mais regionalizados e adequados aos mais diferentes ambientes de produção. Muito mais do que isso, a evolução ainda parte do lado dos produtores, que após uma longa fase de aprendizado, adquiriram confiança nos novos materiais e passaram a ver o manejo varietal como ferramenta imprescindível na busca pela produtividade.

No final de 2015, enquanto a Monsanto anunciava que a Canavialis, empresa do grupo voltada para pesquisa e desenvolvimento de variedades de cana, encerrava suas atividades, outras duas importantes instituições lançavam novidades para o setor. Em setembro, o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) divulgou duas novas variedades e em dezembro, foi a vez da Ridesa (Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético) lançar 16 novos materiais.

Hoje, os três principais programas de melhoramento genético em cana-de-açúcar do Brasil - CTC, IAC (Instituto Agronômico) de Campinas e Ridesa -, juntos, oferecem comercialmente 137 variedades. Mas, de acordo com os dados do censo varietal de 2015 da Ridesa, os materiais RB ainda predominam as áreas de cultivo de cana no Brasil.

Alagoas, Bahia e Maranhão, têm como variedades mais cultivadas a RB92579, que compõe 34,75% desta região, seguida pela SP79-1011, que ocupa 12,88%. O Estado de Goiás é coberto, em sua maioria, pela RB867515, presente em 24,98%, seguida pela SP81-3250, com 15,73%. No Paraná, a RB867515 aparece mais uma vez como principal variedade e está presente em 45,82%, enquanto a RB966928 fica em segundo lugar, em 10,07% da área total do Estado.

Em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, a variedade mais cultivada é a RB92579, com 39,97%, seguida da RB867515, com 11,29%. Rio de Janeiro e Sergipe também optam pela RB867515, que cobre 25,81% das áreas destes estados, e pela RB72454, em outros 7,50%.

Em São Paulo e Mato Grosso do Sul, a RB867515 fica com 27,30% das áreas, enquanto a SP81-3250 está presente em 10,27%. Minas Gerais tem 35,82% de suas áreas cultivadas com a RB867515 e 9,68% com a SP81-3250.

Segundo o professor titular da Universidade Federal do Paraná e coordenador Geral da Ridesa, Edelclaiton Daros, com a liberação das dezesseis novas variedades, a rede completa um total de 94 variedades RB, liberadas desde 1970.

 

“Destas, pelo menos 20 variedades ainda estão em expressão de área de cultivo no Brasil, considerando áreas com mais de 5%. Duas tem destaque especial, como a RB72454, até 2010, e a RB867515, que são as mais cultivadas, inclusive em nível mundial. Por ordem e suas respectivas áreas de variedades RB: São Paulo (62%), Goiás (60%), Minas Gerais (63%), Paraná (84%), Mato Grosso do Sul (65%), Alagoas (65%), Mato Grosso (64%), Rio de Janeiro/Espírito Santo (63%) e Pernambuco (58%). Ao verificar estes números vemos que no Brasil representamos em torno de 70% de cultivo de variedades RB, motivo de orgulho das universidades por este trabalho, realizado sempre em parceria com o setor”, salienta Daros.

O trabalho da Ridesa é realizado em todos os estados brasileiros que cultivam a cana-de-açúcar e é sempre coordenado por uma universidade. Atualmente, a Ridesa conta com 79 bases de seleção, ou seja, do Rio Grande do Sul até o Maranhão. A seleção e as fases iniciais de pesquisa são realizadas em 30 subestações, nos estados onde se encontram as dez universidades que compõem a Ridesa. A seleção e cruzamentos são realizados nas estões de Serra do Ouro (UFAL) e Devaneio (UFRPE).

O CTC possui atualmente em seu portfólio, 25 variedades comerciais, as quais abrangem praticamente 100% das diferentes condições edafoclimáticas brasileiras. Segundo Hugo Campos, gerente de Melhoramento Genético do CTC, as variedades do centro tem uma distribuição praticamente equalizada de plantio em todo o Centro-Sul, com destaque para o Estado de São Paulo, que tem a maior concentração.

“Atualmente, as variedades mais plantadas em todo o Brasil são a CTC4, a CTC15 e a CTC9001. Visando justamente cobrir todas as regiões brasileiras, o CTC possui 24 estações experimentais nas fases de Melhoramento Genético, distribuídas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná e Tocantins”, destaca Campos.

O Programa Cana do IAC liberou, a partir de sua reestruturação no início da década de 1990, 18 variedades de cana-de-açúcar para a agroindústria e uma variedade para alimentação animal. Segundo Mauro Alexandre Xavier, pesquisador do IAC, o projeto de melhoramento do IAC prioriza a seleção e indicação de variedades de forma regional. “Dentro desse conceito destacamos a IAC87-3396, a IAC91-1099, a IACSP95-5000, a IACSP95-5094 e a IACSP97-4039 como as variedades de maior adoção pelo setor.”

O trabalho de desenvolvimento pelo IAC é validado e distribuído em diferentes regiões de produção no Centro-Sul e Centro-Oeste do Brasil. São sete estações experimentais distribuídas no Estado de SP e três pontos fora de São Paulo. Após as etapas iniciais e básicas realizadas nessas estações, o trabalho é expandido e validado em uma grande rede regional e nacional.

As variedades do Programa Cana IAC mais recentes e que estão em processo de ampliação de suas áreas são a IACSP95-5094 e a IACSP97-4039, somadas a IAC91-1099 e a IACSP95-5000. “Na visão da equipe do IAC cada vez mais haverá necessidade de produzir novas variedades, interpretar recomendação e adotar manejo em função de um conjunto de aspectos onde a base é a fitotecnia. O insumo variedade continuará com seu alto grau de importância, porém, deve ser analisado como uma engrenagem dentro de um sistema de produzir cana. Uma das linhas importantes de pesquisa continua sendo identificar variedades com capacidade de enfrentar os desafios da mecanização e produzir mais em ambientes menos favoráveis, principalmente em relação a clima e solo”, destaca Xavier.

A Jalles Machado, localizada em Goianésia, GO, tem um plantel varietal bastante diversificado e que atende às demandas de censo varietal, plantio orgânico e convencional, e irrigação. Karoline Fernandes Rodrigues, gestora de Planejamento e Pesquisa da Jalles Machado, destaca a CTC2, CTC4, CTC15, CTC23, CTC24, CTC20, CTC9003, CTC9001, IAC87-3396, IAC91-1099, IACSP95-5000, IACSP95-5094, IACSP97-4039, RB867515, RB92579 e alguns clones que estão em fase de validação.

Os motivos que levaram o grupo a plantar essas variedades são os resultados de pesquisas desenvolvidas dentro da própria empresa ao longo dos anos. Com os dados, Karoline explica que foi possível definir quais materiais se adequam melhor a região, com melhor TCH e TPH em comparação aos padrões utilizados. “Em áreas irrigadas com pivô temos utilizado variedades que respondem melhor a irrigação, e se a área for irrigada com vinhaça, podemos colocar variedades ainda mais exigentes e responsivas. Nas áreas orgânicas, no geral, temos usado variedades com bom perfilhamento e bom fechamento de entrelinhas, já que o nosso principal problema é a matocompetição.”

Rodrigo Vinchi, gerente de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Raízen, conta que nos últimos plantios do grupo as variedades mais plantadas foram RB966928, RB855156 e CTC4. A variedade SP81-3250 vem sendo substituída por materiais como CTC4, CV6654 (Canavialis) e RB92579. Já a RB867515 vem sendo substituída pela RB966928, em áreas de manejo precoce, e pela RB92579 e CTC15, em regiões com baixa incidência de ferrugem alaranjada.

“A SP81-3250, por questões fitossanitárias (ferrugem alaranjada e murcha de colletotrichum), vem perdendo performance nos últimos anos, o que torna inevitável seu processo de substituição. Já a RB867515, por se tratar de um material de baixo perfilhamento, perdeu competitividade à medida que a mecanização das lavouras se intensificou”, diz Vinchi, que ainda revela que a estratégia de manejo varietal na Raízen é construída com base na capacidade mensal de moagem das unidades e também em função do mix de ambientes de produção disponíveis.

 

AS NOVAS DO MERCADO

Durante o 9º Encontro de Variedades realizado em setembro de 2015, o CTC lançou a CTC9004M e CTC9005HP. Segundo Campos, as características dos materiais são necessárias para o salto de produtividade que o setor necessita, como hiperprecocidade e rusticidade, por exemplo.

De acordo com os dados do CTC, a variedade CTC9005HP registra alta produtividade e alto teor de sacarose, é extremamente adaptada à mecanização dos sistemas de plantio e colheita, apresentando bom fechamento de entrelinhas e rápido desenvolvimento inicial. Nas condições climáticas da região Centro-Sul não apresentou florescimento, fator que lhe confere um maior período útil de industrialização (PUI), podendo ser colhida desde o início de safra até meados de agosto.

O novo material ainda apresenta alto teor de fibra, produtividade na cana planta, sanidade, tolerância as principais doenças, como carvão, ferrugens marrom e alaranjada, mosaico e escaldadura. Além disso, é ideal para plantio em ambientes A, B e C.

A CTC9004M se destaca pela adaptação aos ambientes de baixo potencial produtivo e pela longevidade de soqueira. De porte ereto, ela despalha facilmente, possui diâmetro uniforme e tem apresentado boa colheitabilidade em áreas pré-comerciais. Além disso, segundo o pesquisador do CTC, mantém produtividade mesmo em ambientes restritivos e possui longevidade, tolerância as principais doenças, como carvão, ferrugens marrom e alaranjada, escaldadura e tolerância intermediária ao mosaico. Os seus meses de colheita são de junho a novembro e ela se adapta bem aos ambientes B, C e D.

“Buscamos sempre por variedades mais produtivas, com alto nível de açúcar e com maior adaptabilidade a solos restritivos. Além disso, todas as novas variedades lançadas pelo CTC vão ser tolerantes a doenças. Outras características importantes buscadas são o maior número de perfilhos e maior longevidade”, destaca Campos.

O Encontro Nacional da  Ridesa, realizado no dia 25 de novembro, em Ribeirão Preto, SP, marcou o lançamento de 16 novas variedades de cana desenvolvidas por algumas das universidades que compõem a rede. A UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) lançou quatro materiais: a RB975201, recomendada para ambientes A, B e C, e que se destaca pela alta velocidade de crescimento, elevada produtividade, ausência de florescimento, isoporização e resistência as principais doenças da cana; a RB975242, um material rústico recomendado para ambientes C e D, com alta produtividade, ausência de florescimento, isoporização e resistência as principais doenças da cana; a RB975952, material precoce recomendado para ambientes A, B e C, com elevado teor de sacarose, alta produtividade, difícil florescimento, pouca isoporização e resistência as principais doenças da cana; e a RB985476, que se destaca por ter alta produtividade, elevado teor de sacarose no meio da safra, elevada estabilidade de produção, resistência as principais doenças da cana e adequa-se a ambientes de A a D.

A UFAL (Universidade Federal de Alagoas) laçou a RB961552, que promete alta produtividade, bom perfilhamento, boa brotação da socaria, raro florescimento e boa resposta à fertirrigação; e a RB991536, que tem como características o bom perfilhamento, raro florescimento, crescimento ereto e resistência à ferrugem. Para ambientes A, B e C, a UFG (Universidade Federal de Goiás) desenvolveu a RB034045, que tem como características predominantes a boa brotação, o alto perfilhamento em cana-planta e cana-soca, maturação média e resistência as principais doenças da cana.

A UFPR (Universidade Federal do Paraná) lançou três novidades. A RB036066, recomendada para ambientes de A a D, com rápido crescimento inicial, elevada produtividade e estabilidade; a RB036088, com elevada produtividade, boa colheitabilidade e sanidade; e a RB036091, recomendada para ambientes A, B e C, com rápido crescimento inicial, elevada produtividade e sanidade.

A UPRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) desenvolveu a RB992506, de elevado potencial produtivo, ampla adaptabilidade da produção agrícola e bom comportamento em ambientes restritos; e a RB002754, de alto teor de sacarose, elevado potencial produtivo e ideal para colheita no início de safra.

A UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de janeiro) lançou duas variedades para ambientes B, C e D. A RB969017, de rápido crescimento inicial e bom fechamento de entrelinhas, com elevado perfilhamento e potencial produtivo. E a RB988503, com bom fechamento das entrelinhas, elevado perfilhamento e alto potencial produtivo em socarias.

Por fim, a UFV (Universidade Federal de Viçosa) desenvolveu a RB987935, que tem como características predominantes o médio teor de sacarose, a alta produtividade, uma boa brotação em colheita mecanizada, elevado perfilhamento, ótimo fechamento entrelinhas e resistência as principais doenças da cana. E a RB988082, também com médio teor de sacarose, mas com boa sanidade, responsiva aos maturadores, ampla adaptabilidade e resistência as principais doenças da cana.

“Penso que precisamos, a partir deste novo momento, centralizar os nossos esforços para alternativas. Uma delas é a cana para biomassa ou cana energia, a qual já trabalhamos desde 2008. Os resultados são bem animadores e o nosso foco é a cana Tipo I, com pol de 9 a 12 e fibra de 17 a 19, para ambientes bem restritivos e com excelente potencial de produtividade, e a cana Tipo II, com pol de 4 a 6 e fibra de 25 a 30. Acreditamos que o futuro é a energia elétrica de biomassa renovável e a cana-de-açúcar tem grande potencial”, ressalta Daros.

 

VARIEDADES X PRODUTIVIDADE

Mesmo diante da grande evolução do melhoramento genético de cana ao longo dos últimos anos, ainda não foi possível, em grande parte das lavouras, elevar as produtividades dos canaviais aos tão desejados três dígitos. Mesmo que algumas variedades tenham sido desenvolvidas para atingir este objetivo e demonstrem isso durante os testes e validações, o que tem acontecido é o contrário. A produtividade vem declinando ao longo dos últimos anos e a culpa não é somente do manejo varietal. O engenheiro agrônomo e consultor de plantadores de cana da Campo Fértil Assessoria, José Alencar Magro, destaca três fatores que estão determinando a diminuição do ATR nas sucessivas safras:

1º A falta de cuidados com a limpeza da cana: na colheita mecanizada de cana crua é levada para a usina muita palha seca e verde, além do palmito da cana, que tem baixíssimo ATR, e da grande quantidade de terra;

2º O não respeito à época certa de colheita de cada variedade: nem sempre as variedades de cana são colhidas de acordo com as características genéticas de cada uma, principalmente quanto a sua maturação, se é precoce para o início da safra, mediana para o meio e tardia para o final da safra.Nos relatórios de safra tem-se verificado que quase todas as variedades estão sendo colhidas do início ao final da safra, em quase todos os tipos de solo, indiscriminadamente. Cada variedade tem uma época ideal especificada para a colheita e é isso que proporciona o maior lucro;

3º A forma como as novas variedades são apresentadas pelas instituições: os dados divulgados pelas desenvolvedoras são de pouca consistência para dar segurança aos plantadores de cana.

“Já existem muitas e ótimas variedades liberadas que solucionam as questões do ATR, mas elas não são plantadas por falta de confiança ou são plantadas, mas colhidas com manejo indevido. É comum ouvir dos plantadores, ‘tenho pouca confiança nos dados das novas variedades, portanto continuo plantando as antigas porque já as conheço, mesmo que apresentem algum problema de doença.’ No meu trabalho de assessoria tenho verificado que as instituições de pesquisa têm grande quantidade de ótimos dados, mas os seus técnicos não apresentam estes dados de forma didática para poderem convencer os plantadores”, observa Magro.

Segundo Jose Luiz Ioriatti Dematte, especialista do Departamento de Ciências do Solo da Esalq/USP, o histórico da evolução do rendimento através da Pol% Cana nos últimos 30 anos, iniciando na safra 1984/85 até a safra 2014/15, pode ser feito através dos dados obtidos ao longo deste período  pela Orplana, onde se utilizou as equações do Manual de Instruções do Consecana, 5º Edição de 2006. No período de 1984/85 a 2000/01 foram analisadas 548 milhões de t de cana; na safra 2001/02 a 2008/09, 524 milhões de t de cana, na safra 2009/10, 517 milhões de t e na safra 2014/15, 98 milhões de t de cana.

“Ao analisar os valores da Pol% Cana e do ATR neste longo período, observa-se que mês a mês praticamente não houve aumento da Pol% Cana. Apenas tomando como exemplo os segundos períodos do meses, no caso maio, julho, setembro e novembro, não houve acréscimo e praticamente os valores são semelhantes, alterando em função da época, maio a novembro, com um máximo em agosto/setembro, como era de se esperar. O que se observa nos acréscimos ou decréscimos nos valores da Pol% Cana ao longo das safras se deve unicamente as oscilações climáticas e não as variedades, da mesma maneira que o aumento da t/ha de cana”, explica Dematte.

Em relação ao início da safra, era de se esperar aumento nos valores da Pol% Cana devido às novas variedades tidas como mais ricas para este período, porém, tal fato também não tem ocorrido. De qualquer maneira, segundo Dematte, mesmo com o esforço das instituições na obtenção de variedades comerciais, assim como ao grande número destes materiais colocados à disposição das unidades, não se tem conseguido acréscimo de ATR. “Certamente, a produtividade agrícola em função da t/ha de colmos tem evoluído para maiores também em função das condições climáticas, o que deve ter resultado em maiores Pol%, Cana/t ou ATR/t. Contudo, assim como afirma Geraldo Majela de Andrade Silva, da Orplana: ‘os dados apresentados são significativos, mas não demostram, em média, uma evolução quantitativa de açúcar na matéria-prima decorrente da introdução de novas variedades’.”

O decréscimo e, posteriormente, a eliminação de variedades se deve, principalmente, a doenças como ocorreram nos casos da descontinuação da NA 5679, SP70-1143, SP81-6163, RB72454 (esta a mais velha de todas e que foi detonada pela ferrugem alaranjada) e, atualmente, a SP81-3250. Dependendo da maior ou menor suscetibilidade a doenças a variedade pode ter maior ou menor estabilidade. Dematte conta que das 25 variedades citadas pelo CTC, assim como outras das RBs e IACs, praticamente todas apresentam determinadas restrições, de maior ou menor grau, a doenças, e neste aspecto estão as duas mais plantadas, no caso, a CTC15 (esta com a ferrugem alaranjada) e a CTC4 (esta com a ferrugem marrom).

O pesquisador da Esalq/USP alerta que é preciso verificar outros aspectos como adaptação a qualidade das terras, brotação de soqueira, adaptabilidade ao corte mecanizado e a palha, a variação de temperatura, as geadas e resistência a seca. Ou seja, optar sempre por variedades mais estáveis, pois estabilidade 100% não existe, e esquecer que ter exuberância não significa estabilidade. “Notamos que com a mesma velocidade em que as novas variedades são introduzidas, elas estão sendo, na maioria dos casos, eliminadas. Onde estaria o erro? Tudo leva a crer que estaria justamente no pouco tempo de observação antes de ser posto na área comercial. Na maioria dos casos, os testes de validação têm ficado para os usuários decidirem, o que não está correto”, comenta Dematte.

Sempre questionado sobre a razão pela qual os produtores de cana optam pelo cultivo de variedades da década de 80, o pesquisador tem uma resposta simples e objetiva. “Elas apresentam maior segurança e maior estabilidade.”

Observando os dados da Ridesa, em áreas cultivadas e plantadas em SP e MS, Dematte indica que, dentre as dez primeiras variedades cultivadas, sete são da década de 80, onde se incluem variedades precoces, entre elas as RBs 855156 e 855453, as CTCs 2 (10º lugar) e 15 (8º lugar), assim como a CTC09, em 13º terceiro lugar.

Já no plantio, nota-se que tem sido reduzida a SP81-3250 (devido a doença, ferrugem alaranjada) sendo que a RB966928, filha da RB855156, tem ocupado o segundo lugar, sendo a mais plantada no Centro-Sul. “Compare-a com a CTC9, também precoce e do ano de 96, e veja a velocidade de evolução de uma em relação a outra. As duas RBs precoces permanecem praticamente nas mesmas posições com a escalada da CTC17, também precoce, mas que infelizmente tem sido reduzida por conta do carvão. A CTC15, uma das variedades mais plantadas do CTC, que ocupava o 8º lugar passou para 4º, mas infelizmente e devido a ferrugem alaranjada, esta tendo redução. A CTC 4, atualmente uma das melhores variedades do CTC, está sendo rapidamente multiplicada na maioria das regiões, porém em regiões mais úmidas como Piracicaba, não tem permitido seu plantio devido a ferrugem marrom”, observa Dematte.

Para ele, faltam variedades precoces e tardias para solos de baixa fertilidade, onde se destaca a tradicional RB867515 que tem como inconveniente a perda de produtividade na colheita mecanizada em solos arenosos e sensibilidade ao ataque da podridão de topo. “Devido a este fato tem-se destacado a SP83-2847 e a RB92579 numa possível substituição parcial da RB867515. De qualquer maneira, na intenção de plantio analisada pelos dados da Ridesa, 50% ainda pertence às variedades da série de 1980, ou seja, maior estabilidade, onde se destaca também a SP80-1816, devido à segurança que se tem na brotação da soqueira em período extremamente seco e em solo argiloso”, frisa.

Escolher a variedade mais adequada em termos de estabilidade dependeria de uma série de fatores que devem ser colocados em consideração, segundo Dematte:

1º Condições climáticas: o Brasil apresenta uma diversidade enorme de clima, não somente na quantidade de chuvas, mas também e, principalmente, nos balanços hídricos, na umidade relativa e nos riscos de geadas. Com isso é preciso ter muito conhecimento porque o clima representa para a cultura da cana de 65% a 68% da produtividade, haja vista a baixa produtividade das safras 2013 e 2014, devido à seca, e o aumento da produtividade devido às chuvas na safra 2015, o que deve ocorrer novamente em 2016/17.

2º Qualidade das terras: dos aproximadamente 9 milhões de ha cultivados com cana, 65% apresentam baixa fertilidade e baixa retenção de umidade e com isso maior restrição na escolha de variedades. É preciso lembrar que à medida que aumentam as restrições de manejo, as variedades tornam-se mais suscetíveis a doenças e com sensível redução na estabilidade. Este é o motivo pelo qual a RB867515 vem sendo uma das mais plantadas nestes tipos de ambientes, sendo seguida pela SP83-2847, a RB92579, e as precoces como a RB855156 e, eventualmente, a RB966928.

“Para o restante das áreas, com solos de boa fertilidade, de textura média a argilosa e climaticamente favorável, há sobra de variedades. Portanto, é preciso buscar as variedades no mercado tidas como as mais estáveis em função dos ambientes onde se pretende cultivar. As boas variedades são as que combinam potencial de produtividade com estabilidade”, conclui Dematte.

 

CANA TRANSGÊNICA

Muito mais do que melhoramento genético, alguns institutos tem corrido em busca da cana transgênica, como é o caso do CTC e da Embrapa, que devem liberar seus materiais para uso comercial até 2018. Mas qual deverá ser o papel desta cana para o setor?

O avanço do aumento da produtividade agrícola em outras culturas como soja, milho e algodão, em contraste com a queda de produtividade da cana tem sido atribuído à introdução de uma série de novas tecnologias como as plantas geneticamente modificadas.

“O atual sistema de melhoramento está sendo superado e novos avanços, como a transgenia, estão se tornando realidade. Me parece ser este o caminho, porém quais seriam os critérios utilizados nestas mudanças? A introdução de material geneticamente modificado para resistência ao glifosato, por exemplo, não seria uma boa alternativa, pois como ficariam as reformas de áreas onde se utilizam as soqueiras como alternativa contra o sistema erosivo? Além disso, a introdução da cana transgênica teria que ser em variedade de elevada estabilidade, caso contrário estaríamos na mesma situação atual”, opina o pesquisador e especialista em Ciência do Solo da Esalq/USP.

Daros diz que não acredita que as variedades transgênicas serão mais produtivas que as variedades tradicionais porque a cana transgênica é oriunda de uma variedade tradicional que, na maioria dos casos, tem desempenho inferior ou, no máximo, igual as variedades comuns. “Dependendo do gene colocado poderemos ter um custo mais baixo, porém, lembro os problemas das plantas daninhas que adquirem resistência e obrigam o produtor ao uso de herbicida para seu controle. O mesmo pode acontecer com resistência a pragas. É complexo, mas vamos esperar para ver o comportamento das transgênicas no campo. Volto a insistir. A cana transgênica não será a salvação da lavoura e sim mais uma ferramenta a ser utilizada. Não devemos esperar ganhos significativos, pois ela será cultivada no mesmo ambiente, com todas as limitações e indefinições de manejo de solo, de adubação, de variedade, de tratos culturais, de mudas e de doenças”, pondera o pesquisador, que afirma que as universidades da Ridesa já têm pesquisas na área.

O consultor da Campo Fértil Assessoria, diz que tem dúvidas sobre a transgenia. “Não sei se é moralmente correto ter uma cana transgênica, considerando que se faz a cruza de genes de outras espécies de plantas e animais. Acho que ainda temos muito para explorar dentro do universo de genes da própria cana, pois ainda não sabemos dominar 100% a metodologia que já existe para melhor selecionar os materiais genéticos produzidos com a hibridação convencional”, opina.

 

A CANA DO FUTURO

Muito além das diversas variedades que foram desenvolvidas para atender as necessidades dos produtores e a iminência da transgenia em cana, ainda existem desafios que precisam ser superados. Afinal, qual deverá ser a cana do futuro?

“Apesar de termos diversas variedades disponíveis, temos perdido algumas para a ferrugem alaranjada. Características como resistência a ferrugem alaranjada, ausência de florescimento, bom perfilhamento e fechamento, são fatores que devem ser superados pelas instituições de pesquisa. Além disso, a cana do futuro deveria ter maior adaptação à mecanização,  alto TCH e TPH, porte mais ereto, amplo período de colheita e maior responsividade a irrigação”, afirma Karoline.

Para o gerente de planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Raízen, as variedades do futuro devem, acima de tudo, estarem adaptadas aos atuais níveis de mecanização da lavoura de cana. Outro ponto extremamente importante é a questão fitossanitária. Segundo ele, os programas de melhoramento precisam redobrar a atenção no que diz respeito aos níveis de susceptibilidade às principais doenças que afetam a cultura da cana.

“O parque varietal que possuímos é extremamente farto. O potencial produtivo destes materiais é altíssimo. O que tem ocasionado a baixa produtividade é basicamente a falta de investimento, de manejo e uso de algumas tecnologias já disponíveis. A cana do futuro não é muito diferente desta que está aí. Talvez precisemos de alguns avanços na área de biotecnologia que nos tragam materiais com certas resistências a fim de melhorar a produção. Acontece que, se investe muito pouco em pesquisa em cana-de-açúcar, e portanto, não devemos sonhar com grandes mudanças”, acrescenta Ismael Perina, produtor de cana e presidente do Sindicato Rural de Jaboticabal.

“Imagine a área técnica de uma usina que necessita tomar decisões relacionadas à escolha do elenco varietal num conjunto aproximado de 60 a 65 variedades liberadas (some as variedades liberadas pelo CTC, Ridesa e IAC) sem levar em consideração as antigas. Nas reuniões técnicas espalhadas na região canavieira, tem sido frequente a posição dos apresentadores de que todas as variedades são adequadas, deixando para o usuário o ônus de eventuais falhas, como já tem ocorrido. Seria muito mais adequado e prudente se os órgãos responsáveis por esta área liberassem um número bem menor de variedades, porém, adequadamente testadas e de comprovada eficiencia, reduzindo assim os riscos nas escolhas. O setor agradece”, finaliza Dematte.

Seja pela falta de manejo adequado, pela falta de conhecimento dos produtores e até mesmo por conta de desenvolvimentos que não são na prática o que prometem na teoria, o que dá para notar é que o setor continua a alguns bons passos da cana do futuro. 

 
INFORMAÇÃO NA PALMA DA MÃO

Desenvolvido há 30 anos, o censo organizado pelo CTC é responsável por reunir a informação de área cultivada de cada variedade de cana-de-açúcar de todos os programas de melhoramento genético por estágio de corte e a cada safra.

Ao todo, é possível obter informações da maior parte (70%) da área cultivada com cana em todo o Brasil. “Hoje o nosso censo possui a maior base de usinas cadastradas do mercado, possibilitando a análise de dados precisos e representativos”, explica Rubens Braga Jr., um dos desenvolvedores da metodologia de cálculo utilizada para a criação do censo.

Além do market share das variedades, por meio do censo CTC, também é possível avaliar a evolução das áreas de plantio e reforma contribuindo na estimativa de produtividade da próxima safra. Além disso, as usinas e grupos que enviam as informações solicitadas recebem um relatório digital com análises estratégicas para tomadas de decisão em fases de planejamento de plantio, por exemplo.

Como funciona?

A partir de abril deste ano, qualquer usina ou grupo pode enviar as informações de área cultivada (em uma planilha padrão) com cada variedade que possui, independentemente do programa de melhoramento genético a qual ela pertence. O endereço de envio é 
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