GESTÃO

 

Precisamos falar sobre isso para que possamos, de um lado, como empresa, avaliar e tomar posições sobre situações extremas relacionadas ao desgaste das pessoas no âmbito do trabalho e a real causa dele, e de outro, como profissionais, o entendimento sobre a pressão que é inerente ao exercício profissional, fruto de desafios, estratégias, metas e resultados a serem alcançados

*Beatriz Resende

Nos últimos tempos, temos lido e ouvido sobre as síndromes emocionais associadas aos desgastes no ambiente de trabalho. A mais citada tem sido a Síndrome de Burnout (A doença do esgotamento profissional), que causa um estresse como consequência do ritmo que o mundo organizacional e o mercado de trabalho se mostram na atualidade: cenários competitivos; pressão por resultados continuados; maior exigência em todos os níveis; inseguranças e incertezas; desencantos e desesperanças; entre muitos outros fatores que a cada década vêm trazendo pesos maiores a quem esteve ou está nos processos profissionais, sejam dentro de empresas, como colaboradores, ou disputando espaços no mercado, como empreendedores.

Sempre ouvimos falar que o progresso e a evolução traziam junto consigo efeitos colaterais de grande monta. O que afeta diretamente o ser humano é o que mexe com seu equilíbrio nos aspectos psicofísicos. Temos aguentado muitas situações e considero que as pessoas tenham um bom grau de resiliência no geral, mas também temos um número alto de pessoas que têm se afetado mais quando se deparam com dificuldades que as colocam num sentimento de pressão extrema, impotência, incompetência ou insegurança e ansiedade sobre ser capaz de algo.

O que eu gostaria de compartilhar nesse artigo, como uma visão, pois não tenho a capacidade em nível científico de falar sobre o assunto do ponto de vista clínico e terapêutico, é sobre a distinção entre o que as pessoas podem estar sofrendo de fato nas empresas, e o que diz respeito a ambientes e relações que podem ser melhorados e evoluídos, ou também o quanto as pessoas estão pouco tolerantes e indisponíveis para buscar se fortalecer para viver o papel profissional dentro das adaptações que estamos sendo obrigados a buscar. Realmente, querendo ou não, muita coisa mudou, trazendo características e novos elementos que estão nos conduzindo para que busquemos também mudar, aprimorar ou se fortalecer para dar conta das novas missões, hoje mais complexas e mais abrangentes, regadas de notas mais picantes de exigência quanto a capacidades, ritmos, agilidade, entregas, decisões acertadas, demonstração de maturidade, polivalência, inovação, entre muitos outros, o que nos leva a ter que trabalhar em níveis altos com o sentido de superação. Esta é a energia que está no ar. Boa ou ruim, ela está aqui e atingindo a todos nós.

Um dos pilares da empregabilidade é a busca do equilíbrio da saúde física, mental, emocional e espiritual. O mercado e seus marcos regulatórios nos mostram que entre outros pontos como competência, rede estratégica de relacionamento, marca/imagem, ética, boas experiências, saúde financeira, estar consciente dos nossos pontos fortes e fragilidades, buscando o equilíbrio mental e emocional que nos dê sustento para ser um profissional do século XXI, é hoje um bastião para que o profissional esteja pronto para esses novos desafios.

Vemos problemas originados pelas várias situações: pessoas que precisam se fortalecer para o cenário aqui tratado; pessoas que realmente passam por situações extremas dentro das empresas, por problemas de gestão e de relacionamentos mal conduzidos e monitorados; e até profissionais que dizem não querer trabalhar com cobrança mínima de chefia e regras internas. Sim, temos de tudo! O importante é a atenção para que empresas, áreas de RH, consultores e os próprios profissionais saibam se posicionar no entendimento particular dos problemas. As perguntas que quero deixar para esse público são:

• Empresas: vocês têm ciência e monitoram a qualidade das relações, do tratamento; da comunicação; dos atos das lideranças; da aplicação da cobrança e do grau de exigência a que os colaboradores são submetidos? Isso é fundamental para que não se tenha um ambiente doente e destrutivo.

• Profissionais: vocês têm sabido distinguir e buscar suporte e apoio entre situações inerentes ao trabalho e que exigem de vocês busca constante de evolução, mas que por si só não conotam abuso? Que na verdade é preciso evoluir mesmo para continuar a ter oportunidades, que isso faz parte do jogo? E a questão é: eu quero fazer parte do jogo nesse lugar?

• RH´s: têm conseguido fazer um trabalho para que as partes façam suas lições de casa de forma correta e adequada? Estamos falando aqui das políticas e normas, das ações de gestão, da qualidade da comunicação e transparência, da capacidade das suas lideranças, do seu papel de monitor e facilitador, de entender, claramente e com isenção, onde estão os pontos da doença empresarial e profissional? Têm capacidade e credibilidade para direcionar o que precisa ser eliminado ou potencializado?

• Consultores, apoiadores, aconselhadores e outros: já temos tratado as empresas e suas situações de forma menos padronizada, com visão e modelos únicos de soluções em gestão de gente?

Sim, trabalhar hoje é muito mais difícil do que foi um dia. Mas isso é natural. A pergunta é: estamos prontos o suficiente para lidar com cenários diversos? Se não, o que falta para buscar ajuda? A dificuldade é maior, mas temos muito mais ferramentas à nossa disposição hoje do que antes: basta a gente procurar e se responsabilizar por essa mudança.

Para finalizar aqui vai uma visão muito particular (me perdoem se ela possa ferir as vossas): como eu acredito que o ser humano se apresenta nas diversas portas da sua vida a partir do que ele é, a fragilidade sentida hoje nas empresas é reflexo da fragilidade que o ser humano vive aqui fora. Carregamos tudo isso e não ficamos com tensão e estresse somente pelas questões que vivemos nas nossas empresas. A meu ver, vivemos um estresse crônico, fruto desse tempo, desse olhar de mundo, dessa ansiedade globalizada, dessa estrutura dura e rígida que nos leva a buscar modelos para sobreviver.

Não tiro a importância do assunto no olhar da saúde organizacional, e luto por ele. Mas podemos buscar entendimento em outras bases, em outras instâncias, até para atuar melhor na busca de minimizar o cenário preocupante que temos lidado.

* Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreiras da Dra. Empresa Consultoria Empresarial