por Super User
Os veículos elétricos vão estar na berlinda nos próximos dias.
 
Na corrida para cumprir as normas mais rígidas dos governos contra a emissão de gases do efeito estufa, as montadoras vão apresentar novos veículos alimentados por baterias durante o Salão do Automóvel de Los Angeles, que começa na sexta-feira. Os lançamentos, que imitam vários outros que as montadoras da Europa fizeram de carros desse tipo em outubro, serão seguidos, em dezembro, pelo início das vendas do Chevrolet Bolt, daGeneral Motors Co. O modelo custará US$ 35 mil nos Estados Unidos e irá concorrer com o Model 3, da também americana Tesla Motors Inc.
 
O que está faltando para esses veículos, porém, são compradores. As montadoras estão penando com um excesso de estoques de sedãs e cupês, preteridos pela forte demanda por utilitários esportivos e caminhonetes. A adição de veículos elétricos a essas opções poderá agravar o excesso de oferta se os consumidores continuarem preferindo picapes e utilitários esportivos aos carros elétricos.
 
As vendas de veículos elétricos cresceram globalmente neste ano, alta essa gerada, principalmente, pelos consumidores chineses que se beneficiaram de um generoso subsídio fiscal e outros incentivos. Mas o volume total continua representando menos de 1% dos estimados 83 milhões de veículos leves que serão vendidos este ano. E com exceção dos caros modelos elétricos da Tesla, carros como o Leaf, da Nissan Motor Co., e o i3, daBMW AG, não conquistaram uma grande legião de fãs, levando muitas montadoras a afirmar que não está claro se a demanda por carros elétricos irá florescer.
 
Essa é uma notícia ruim para executivos tentando cumprir os padrões mais severos de emissões de gases. China, Europa e Estados Unidos criaram regulações que estimulam o desenvolvimento de carros elétricos. Mas não é certeza se os incentivos fiscais e todo o esforço para reduzir o custo das baterias poderão impulsionar a demanda no curto prazo.
 
A agência de classificação de crédito Moody’s Investors Service prevê que, até 2020, 19 novos modelos de carros elétricos serão lançados só nos EUA, potencialmente triplicando o número atualmente disponível. Entre as montadoras presentes no Salão do Automóvel de Los Angeles, que vai até o dia 27, estarão a Jaguar, unidade da indiana Tata Motors Ltd., e a sul-coreana Hyundai Motor Co., que devem informar como se encontram na corrida da eletrificação. A Fiat Chrysler Automobiles NV irá exibir, pela primeira vez, uma versão “plug-in” de sua popular minivan Pacífica, um pouco antes do início do evento na cidade californiana.
 
As montadoras europeias ficaram mais otimistas com os carros elétricos depois do escândalo das fraudes nos testes de emissões da Volkswagen AG, que manchou a imagem dos veículos a diesel como alternativa verde aos movidos a gasolina. As alemãs Volkswagen e Daimler AG, controladora da Mercedez-Benz, que juntas vendem 13 milhões de veículos por ano, estimam que os carros elétricos representarão entre 15% e 30% de todas as vendas de veículos até 2025.
Mas nem todo mundo está tão otimista.
 
No salão de Paris, por exemplo, o diretor de vendas da BMW AG, Ian Robertson, disse que o diesel continuará sendo a fonte de energia preferida na Europa, mesmo depois dos problemas da Volkswagen. “Vemos alguns híbridos plug-in a gasolina substituindo [carros a] diesel, mas é inconclusivo”, disse ele. “Não parece haver um ponto de inflexão [...] no curto prazo.”
 
A firma de pesquisa IHS Automotive prevê que o lançamento de novos veículos elétricos multiplique por quatro as vendas anuais desses modelos, para cerca de 320 mil em 2020, o que ainda assim seria menos de 2% do mercado atual. Para vendê-los, será preciso um forte incentivo do governo, se a gasolina continuar barata e os americanos continuarem preferindo utilitários esportivos, prevê a IHS.
 
“Ainda não há um mercado suficiente para justificar todo o desenvolvimento e esforço dedicados aos carros elétricos”, diz Paul Lacy, analista da IHS.
 
A Toyota Motor Corp., crítica dos veículos puramente elétricos e altamente dependente das vendas de caminhonetes e veículos híbridos, que consomem gasolina na maior parte das viagens, informou na terça-feira que está relutantemente mudando de direção. “Embora os carros elétricos apresentem problemas como alcance, tempo de recarga e desempenho da bateria, dependendo do cenário energético de cada país e região, assim como da infraestrutura, gostaríamos de estar prontos para comercializá-los”, disse Takahiko Ijichi, diretor executivo da Toyota.
 
A Agência Internacional de Energia informou, em sua análise anual do setor de veículos elétricos, que ele “exigirá um apoio expressivo de políticas” para ganhar força. Ressaltando a dificuldade em casar objetivos de vendas ambiciosos com a demanda real, o Japão cortou pela metade a sua meta, que agora é de um milhão de veículos elétricos e mais de um milhão de postos de recarga até 2020. Há pontos positivos, como os grandes investimentos em curso nos EUA, China e Europa para estações de recarga. O custo das baterias de íons de lítio caiu 65% desde 2010 — para em torno de US$ 350 por quilômetro por hora no ano passado — e devem continuar recuando, dizem analistas.
 
Isso poderia levar a um declínio nos custos de desenvolvimento de carros elétricos, enquanto crescem os custos para criar motores convencionais. “Em algum momento, essas duas curvas vão se cruzar”, diz o diretor-presidente da Volkswagen, Matthias Müller. “Exatamente quando isso vai acontecer, não podemos dizer.”
 
Mike O’Brien, diretor de planejamento de produto da Hyundai, disse na semana passada que a montadora não espera que governos ou flutuações do preço do petróleo levem a mudanças. “O mercado vai crescer e os ‘millenials’ [consumidores nascidos a partir dos anos 80] serão o principal agente”, disse. Mudanças demográficas e a urbanização “irão contribuir, por si só, para uma mudança significativa na adoção de carros elétricos, independentemente do preço do combustível e da regulação”.