ESPECIAL

Considerando o clima como um dos fatores que mais impactaram a produtividade dos canaviais do Centro-Sul nas últimas safras, a irrigação pode ser uma importante ferramenta para dar maior estabilidade à produção

Natália Cherubin

Ao longo dos últimos dez anos, a maior região produtora de cana do Brasil, o Centro-Sul, tem registrado grandes variações na produtividade dos seus canaviais. Para se ter uma ideia, enquanto na safra 2009/10 a região atingia uma média de produtividade de 89 t/ha, tendo batido 93 t/ha no Estado de SP, dois anos depois, no ciclo 2011/12, os canaviais do Centro-Sul registravam uma queda de TCH de 23,6%, para 68 t/ha, número que nesta safra (2016/17) deverá fechar em 75 t/ha. Se a comparação for feita entre as safras 2009/10 e 2016/17, a queda de TCH chega a 15,7%.

Fatores edafoclimáticos, estresse hídrico, capacidade do solo em armazenar e disponibilizar água à cultura, ambientes de produção, tratos culturais, variedades cultivadas, época de colheita e idade dos canaviais, são alguns dos itens que podem impactar diretamente o TCH. No entanto, a redução da produtividade média dos canaviais da região Centro-Sul também é decorrente das modificações que o sistema de produção vem sofrendo nos últimos anos, como a rápida adoção da colheita e plantio mecanizados; a expansão da cultura para novas regiões cujo regime de precipitações submete a cultura de ciclo semi-perene a um estresse hídrico mais acentuadado e a solos com menor capacidade de armazenamento de água; e o uso de variedades de cana não adaptadas a essas novas regiões.

No entanto, parece que o grande vilão das últimas safras foi mesmo o clima. E isso é quase um consenso entre os especialistas consultados pela RPAnews para esta reportagem. O setor tem enfrentado anos de regimes com precipitações variáveis e com menores volumes de chuva, o que no caso da cana comprometeu as últimas as safras. Até mesmo as geadas, que ocorreram em algumas regiões produtoras, também foram determinantes para a queda do TCH.

Apegando-se ao fator clima e considerando a irregularidade das chuvas e as estiagens como importantes causas para a queda da produtividade de algumas regiões produtoras nos últimos ciclos, principalmente no Oeste e Noroeste Paulista, Goiás, Mato Grosso, Triângulo Mineiro e Norte e Leste do Mato Grosso do Sul, uma das ferramentas disponíveis e que já tem sido utilizada por algumas unidades como instrumento fundamental para manter a estabilidade da produção é a irrigação, seja ela plena, complementar ou de salvamento.

De acordo com o engenheiro Agrícola, consultor técnico e gerente de Projetos em Fertirrigação e Irrigação da HidroEng Consultoria, Osvaldo Arce de Brito, as unidades localizadas nestas regiões sofrem com um clima predominantemente mais seco durante quase toda safra, o que apesar de colaborar com a colheita, faz com que seja necessário pensar na verticalização da produção ou no aumento de área cultivada, já que a partir do mês de maio as produtividades destes canaviais tendem a cair por conta da estiagem.

Veronez: “Devemos olhar a irrigação não só como um seguro, mas também como uma técnica que aliada a outras práticas culturais consegue garantir e aumentar a produção sem o aumento de novas áreas, ou seja, conseguimos a tão desejada verticalização da produção”Veronez: “Devemos olhar a irrigação não só como um seguro, mas também como uma técnica que aliada a outras práticas culturais consegue garantir e aumentar a produção sem o aumento de novas áreas, ou seja, conseguimos a tão desejada verticalização da produção”

“Nestes casos, a irrigação se torna uma ferramenta importante para melhorar os resultados de produtividade nesse período. Lembramos que a cana colhida no início de safra, quando irrigada, também apresenta um ótimo custo-benefício. Além disso, temos que lembrar que a técnica garante níveis de produtividades acima da média, com a garantia de se ter uma produção anual e um canavial com maior longevidade, pois reduz o estresse hídrico da cultura nos meses mais secos e potencializa os ganhos relativos aos tratos culturais disponibilizados à cultura”, afirma Brito.

Para muitas unidades, a irrigação tem funcionado como um seguro para a lavoura, pois se bem planejada e projetada, segundo Sérgio Antônio Veronez de Sousa, engenheiro agrônomo e diretor da Veronez Projetos e Consultoria, pode garantir maior equilíbrio na produção, evitando quebras que sempre ocorrem quando se confia apenas nas chuvas. “Devemos olhar a irrigação não só como um seguro, mas também como uma técnica que, aliada a outras práticas culturais, consegue garantir e aumentar a produção sem o aumento de novas áreas, ou seja, conseguimos a tão desejada verticalização da produção reduzindo, de forma muito significativa, não só a incorporação de novas áreas como também todos os custos de produção da usina.”

O GIFC (Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-açúcar) fez um estudo para analisar quais foram os motivos que levaram seis usinas a chegarem a produtividades de 100 t/ha na safra 2014/15, enquanto o restante das unidades ficou na média de 70,5 t/ha. São elas as unidades Agrovale, localizada em Juazeiro, BA, Cerradinho Bioenergia, de Chapadão do Céu, GO, Aroeira, que fica em Tupaciguara, MG, Buriti, de Buritizal, SP, Jalles Machado/Unidade Otávio Lage, de Goianésia, GO, e Santo Ângelo, de Pirajuba, MG.

Segundo Marco Viana, superintendente do GIFC, com exceção da Agrovale, que possui toda sua área irrigada de forma plena, foi possível identificar que as boas produtividades agrícolas das outras cinco usinas pouco têm a ver com mudanças radicais no sistema de produção da cana, como novas variedades, novos espaçamentos, novos softwares de controle planejamento, novos preparos de solo etc. O que se identificou em comum nestas usinas é que elas trabalham bem os oito pilares da alta produtividade agrícola:

1) Estande sem falhas;

2) Redução de perdas na colheita;

3) Estratégias adequadas de plantio;

4) Caminhamento coerente de safra;

5) Nutrição arrojada da cana;

6) Fatores redutores de produtividade agrícola sob controle (pragas, mato e doenças);

7) Ciclo produtivo ótimo;

8) Irrigação econômica.

“Usinas como a Jalles Machado e a Bevap utilizam irrigação de salvamento e apresentam bons resultados. No entanto, não foi a irrigação de salvamento que resolveu o problema da produtividade. Em 2016, algumas destas usinas já vêm mostrando queda na produtividade dos canaviais irrigados com salvamento. Então, reforço mais uma vez que esses resultados dependem também das condições edafoclimáticas e das boas práticas agrícolas que devem ser associadas à irrigação. As usinas até o ano passado estavam com bons resultados, mas agora já indicam queda de produtividade entre 15% e 20%. Isso indica que só a irrigação por salvamento não é a solução e sim uma ferramenta a mais”, destaca Viana.

A FAVOR DA ESTABILIDADE
De acordo com Lance, enquanto algumas tecnologias altamente difundidas no setor buscam incrementar de 3% a 4% em produtividade, a irrigação apresenta, constantemente, ganhos acima de 70% a 90%De acordo com Lance, enquanto algumas tecnologias altamente difundidas no setor buscam incrementar de 3% a 4% em produtividade, a irrigação apresenta, constantemente, ganhos acima de 70% a 90%

Melhor planejamento no uso das áreas plantadas, ao permitir menor dependência das chuvas; estabilidade de produção; segurança do capital investido na produção, minimizando o risco de veranico em períodos sensíveis; maior qualidade da produção, proporcionada pelo ciclo mais homogêneo; exploração de uma maior gama de janela produtiva, permitindo a introdução de outras culturas com foco em rentabilidade ou rotação de cultura; e ainda aumento na produtividade, diante da possibilidade de adotar melhores índices de tecnologia na produção sem a limitação do insumo água, são alguns dos benefícios que a irrigação pode proporcionar a culturas como a cana-de-açúcar.

A Usina Santa Vitória Açúcar e Álcool, localizada no Triângulo Mineiro, é uma das unidades que apostaram na irrigação como ferramenta para a estabilidade da sua produção. Mesmo que ainda em processo de implementação de um projeto que inclui três modalidades: fertirrigação, irrigação complementar e de salvamento, a usina já registrou ganhos de até 30 t/ha.

Alexandre Nicodemo, gerente geral da Santa Vitória Açúcar e Álcool (SVAA), explica que para cada modalidade existe um potencial de ganho de produtividade. “Nas áreas onde irrigamos com pivô (irrigação complementar), tivemos um ganho de aproximadamente 30 t/ha, um resultado que confere com a literatura, que garante um ganho de 10 t/ha a cada 100 mm de água reposta do déficit hídrico. Sobre a irrigação de salvamento, ainda não temos dados estatísticos, mas já verificamos em campo melhor brotação, perfilhamento e vigor nas áreas irrigadas contra as áreas não irrigadas. Já nas áreas fertirrigadas, apesar de não termos um histórico longo, se compararmos as áreas beneficiadas com vinhaça com áreas não beneficiadas, verificamos um ganho variando entre 5 e 10 t/ha”, revela.

A SVAA está localizada em uma região onde o déficit hídrico chega a 600 mm por ano. Além disso, cerca de 70% da área está localizada em ambiente de produção D e E, com baixa capacidade de retenção de água e fertilidade natural. A unidade trabalha com sistemas de pivô central rebocável, alas móveis ehidro roll. “A irrigação é uma ferramenta imprescindível para o aumento de produtividade e principalmente para a estabilidade da produção de nossos canaviais. Há cinco anos, a produtividade era de 53 t/ha e em 2015, o TCH médio subiu para 79,5. Isso é resultado da interação de diversos fatores como nutrição, manejo de variedades, qualidade de plantio, bem como irrigação e fertirrigação”, destaca o gerente geral da SVAA.

Com plantio e colheita 100% mecanizados e uma lavoura própria de 11,5 mil ha, dos quais em 53% se faz a irrigação plena, nos outros 20% se faz irrigação por salvamento, deixando 27% em sequeiro, a Vale do Paracatu Agroenergia, localizada no Noroeste de Minas Gerais, na cidade de Paracatu, deve fechar a safra 2016/17 com uma produtividade média de 93 t/ha.

Segundo Bruno Teixeira, gerente Agrícola da Destilaria Vale do Paracatu, a estrutura utilizada hoje para sua irrigação conta com 40 pivôs centrais, dois rebocáveis e 32 carretéis. “O manejo de irrigação em cana planta via pivô é realizado conforme a necessidade. Mas, geralmente, a lâmina de água é de 60 mm por pivô/mês. Em cana soca, a irrigação é realizada durante sete meses, com 60 mm/pivô/mês, o que dá uma média de 200 mm por ciclo.”

Segundo Figueiredo, a expansão do plantio de cana na região Centro-Sul tem levado à exploração de regiões com déficits hídricos mais acentuados, ampliando a necessidade de irrigação com a finalidade de equilibrar a distribuição pluviométrica e garantir a umidade adequada durante todo o desenvolvimento do canavialSegundo Figueiredo, a expansão do plantio de cana na região Centro-Sul tem levado à exploração de regiões com déficits hídricos mais acentuados, ampliando a necessidade de irrigação com a finalidade de equilibrar a distribuição pluviométrica e garantir a umidade adequada durante todo o desenvolvimento do canavial

Já os carreteis em cana planta são utilizados para a fertirrigação. São 60 mm/ha, sendo duas lâminas de 30 mm, e em cana soca a aplicação de vinhaça diluída é de 30 mm/ha/ano. “Ainda utilizamos os carreteis para irrigação de salvamento com de 40 mm/ha/ano de água limpa”, detalha Teixeira.

Na safra 2015/16, a usina produziu 1,06 milhões de t de cana com uma produtividade média de 92 t/ha. Este ano, a expectativa é fechar a produção 1,25 milhões de t, com uma produtividade média de 93 t/ha. O gerente Agrícola da Vale do Paracatu, revelou que é possível notar uma grande diferença entre as produtividades médias de acordo o tipo de manejo da irrigação que é realizado. “Nos 53% das áreas onde fizemos a irrigação plena, o TCH da cana bateu 101. Nas áreas onde fizemos a irrigação por salvamento ou fertirrigação, ou seja, 20%, a produtividade chegou a 89 t/ha e a cana de sequeiro, 27% da área, atingiu 77 t/ha.”

Para Leandro Lance, gerente de Desenvolvimento de Mercado e Inovação da Naandanjain, apesar da queda da produtividade ser fruto de vários fatores, a possibilidade de elevar rapidamente a produtividade sem nenhuma dúvida passa pela irrigação.

“Nenhuma tecnologia disponível atualmente permite ganhos de produtividade tão significativos quanto a irrigação. Enquanto algumas tecnologias altamente difundidas no setor buscam incrementar de 3% a 4%, a irrigação apresenta, constantemente, ganhos acima de 70% a 90%. Na região Centro-Sul temos várias regiões extremamente responsivas a irrigação, seja por apresentarem déficit hídrico elevado, por apresentarem conflitos por terras para a produção ou simplesmente pelo elevado custo de comprar ou alugar essas terras”, enfatiza.

Segundo Brito, só a irrigação de salvamento, quer seja com água limpa ou vinhaça mais água residuária, tem garantido um melhor stand de plantas (maior perfilhamento/brotação de cana soca), além de um aumento da idade fisiológica (a cana atinge o início da estação chuvosa em um estado de crescimento mais avançado do que uma cana não tratada com salvamento) da cana de uma safra para outra, uma combinação que resulta em ganhos de longevidade e produtividade em relação aos canaviais de sequeiro.

“Praticamente todas as usinas realizam irrigação de salvamento, porém muitas ainda não realizam um manejo hídrico eficaz. Esse manejo é fundamental para atingir o máximo potencial do sistema de irrigação. É importantíssimo que os colaboradores dos setores de irrigação de cada usina tenham consciência de que eles têm em suas mãos a ferramenta mais eficaz para elevar a produtividade dos canaviais. Sabendo desta nobre função, cabe a cada um desempenhá-la agregando cada vez mais tecnologias”, acrescenta Lance.

Paulo Alexandre Monteiro de Figueiredo, engenheiro agrônomo, pesquisador e atual diretor da FCAT (Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas da Unesp – Campus de Dracena), explica que a irrigação da cana-de-açúcar, seja de natureza suplementar ou plena, representa uma alternativa viável à produção e à melhoria da produtividade, desde que observada as necessidades hídricas da cultura e os custos para a implantação, manutenção e manejo dos diferentes sistemas de irrigação.

“A irrigação, sendo considerada uma prática agrícola voltada para os tratos culturais de cana planta e soca, sofre grande influência da caracterização e definição das potencialidades regionais. Nesse sentido, na região Centro-Sul, assim como em outras regiões, o papel da irrigação é reduzir o déficit hídrico, além de ajustar o manejo da cultura para uma nova realidade. Em áreas irrigadas com pivô central e gotejamento, o ganho de produtividade agrícola médio gravita em torno de 15 t/ha a 30 t/ha. No entanto, em algumas situações o ganho pode chegar a 50 t/ha”, afirma o pesquisador.

Ele explica que, ao se irrigar uma cana que foi recentemente plantada, a mesma passa do estado embrionário para o estado ativo de forma mais rápida, devido a maior presença da água, acelerando assim o metabolismo da futura planta. Dessa forma, o aproveitamento dos adubos e corretivos pela planta deve ser significativamente maior, fazendo com que os tratos culturais de cana planta sejam mais eficientes. Em cana soca a utilização da irrigação acelera a formação das raízes novas, sem que necessariamente ocorra a morte das raízes mais velhas, possibilitando assim uma rebrota mais precoce.

 

A FAVOR DA ESTABILIDADE

Melhor planejamento no uso das áreas plantadas, ao permitir menor dependência das chuvas; estabilidade de produção; segurança do capital investido na produção, minimizando o risco de veranico em períodos sensíveis; maior qualidade da produção, proporcionada pelo ciclo mais homogêneo; exploração de uma maior gama de janela produtiva, permitindo a introdução de outras culturas com foco em rentabilidade ou rotação de cultura; e ainda aumento na produtividade, diante da possibilidade de adotar melhores índices de tecnologia na produção sem a limitação do insumo água, são alguns dos benefícios que a irrigação pode proporcionar a culturas como a cana-de-açúcar.

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Variedades irrigadas, por exemplo, apresentam aumento do sistema radicular significativo quando expostos à maior disponibilidade de água no solo, o que possibilita uma melhor arquitetura e maior absorção de água pela planta. Como resultado, ao longo dos ciclos a produtividade agroindustrial tende a se manter estável. Além disso, em função do maior aporte fisiológico, a cana irrigada tende a apresentar maiores valores para ATR, quando comparada com aquelas cultivadas em sequeiro.

“A crescente incorporação de novas áreas de lavouras de cana-de-açúcar na região Centro-Sul do Brasil tem levado à exploração de regiões com déficits hídricos mais acentuados, ampliando a necessidade de irrigação com a finalidade de equilibrar a distribuição pluviométrica e garantir a umidade adequada durante todo o crescimento e desenvolvimento da cana-de-açúcar. Em Goiás e Mato Grosso do Sul, por exemplo, o uso da irrigação, seja de vinhaça mais resíduos ou água limpa, é essencial para o processo de brotação ou rebrota”, destaca o pesquisador.

MENOS ÁGUA PARA MAIS CANA

Imagine chegar a produtividades de mais de 200 t/ha? Segundo pesquisa em irrigação realizada pela Embrapa Cerrados junto a usinas parceiras, com a prática é possível aumentar a produtividade da cana nas regiões de Cerrados. Dados coletados nos experimentos mostram que em cana planta a irrigação permite atingir produtividades de até 255 t/ha com a primeira soca de até 220 t/ha para as melhores variedades, índices muito superiores a média da região Centro-Sul do País, normalmente inferior a 80 t/ha.

Já o ATR, no sistema irrigado tem atingido 38 t/ha na cana planta e 31 t/ha na cana soca, enquanto a região Centro-Sul produz em média 12 t/ha. Com esses níveis de produtividade da cana irrigada, os investimentos em irrigação são pagos já no primeiro ou segundo corte, segundo o pesquisador Vinicius Bufon.

“A irrigação também promove a verticalização da produção de palhada da cana, cada vez mais importante para a receita das usinas. O sistema de produção irrigado produz, em média, três vezes mais palhada que o sistema utilizado atualmente. A produtividade aumenta significativamente até regimes hídricos entre 50% e 70% do atendimento da evapotranspiração potencial da cultura para a maioria das variedades avaliadas. Isso indica que a maioria dos sistemas de irrigação instalados nas usinas está subdimensionado para atingir a máxima produtividade”, confirma o pesquisador.

Bufon ainda destaca que, além dos ganhos em produtividade, o sistema de produção irrigado permite atingir eficiência no uso da água maior que o do sistema de sequeiro, ou seja, produzir mais cana e açúcar consumindo menos água. “Enquanto um sistema de sequeiro produz em toro de 7 kg de cana e 1,4 kg de açúcar para cada metro cúbico de água que consome, o sistema irrigado pode produzir até 40 kg de cana e 3,1 kg de açúcar com a mesma quantidade de água. O pesquisador destaca o potencial do sistema de produção para, onde houver água disponível, poupar os recursos hídricos do País, o que representa um diferencial de sustentabilidade.”

 

 
KNOW-HOW NORDESTINO

O aumento da produtividade é, indubitavelmente, o grande desafio para os produtores de cana-de-açúcar do Nordeste, onde a precipitação pluvial, em muitos locais, é distribuída irregularmente no decorrer do ano, resultando numa menor taxa de armazenamento de água no solo durante o período seco. Esse fato causa uma redução na evapotranspiração e, consequentemente, no crescimento e na produtividade da cultura da cana-de-açúcar, sendo necessário, na maioria das vezes, o uso da irrigação.

A principal ferramenta utilizada por alguns produtores no Nordeste do país para viabilizar a produção da cana é a irrigação plena, caso da Agrovale, que a pratica desde sua fundação, há 44 anos. Cid Eduardo Porto Filho, diretor Agrícola da Agrovale, afirma que a empresa contemplou a irrigação como ponto fundamental de viabilidade do projeto. “A Agrovale, desde a sua criação e plantio das primeiras canas, sempre foi 100% irrigada. Na região semiárida (caatinga baiana), onde estamos instalados, sem irrigação não se produz, porque as precipitações pluviométricas anuais são de no máximo 500 mm, então não há cultura de produção anual que resista.”

Os principais itens analisados antes do projeto ser finalizado foram o clima (balanço hídrico), o solo (classificação pedológica), sistematização, mão de obra, importação inicial de tecnologias de irrigação, variedades adaptadas à caatinga (semiárido), disponibilidade de água e projetos de infraestrutura para adução, condução e modelagem de gestão da água.

A produtividade histórica da usina até 2011 era 90 t/ha. Mas nos últimos cinco anos a média subiu para 105 t/ha, havendo áreas comerciais em gotejo subterrâneo onde as produtividades já alcançaram médias de 270 t/ha em cana planta. “O aumento da produtividade agroindustrial que temos hoje deve-se inicialmente ao modelo de gestão aplicado, onde são identificados os fatores mais importantes para a geração de produção, ou seja, tecnologia de ponta em irrigação, fertirrigação, manejos de safra, tratos culturais, nos diversos métodos utilizados, tendo como gerador de referência os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento internos, ampliando com assertividade técnica e econômica as novas formas de produzir”, explica o diretor Agrícola da Agrovale.

 

Agrovale em 1975 e hoje, com irrigação plena em 100% de seus canaviais

 

POTENCIAL DE IRRIGAÇÃO

Segundo o estudo “Análise Territorial para o Desenvolvimento da Agricultura Irrigada”, elaborado pelo Ministério da Integração Nacional em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), o Brasil tem potencial para expandir as terras irrigadas em até 61 milhões de ha, o que equivale a 10 vezes o tamanho atual, que é de 6,1 milhões de ha. O maior potencial de expansão está na região Centro-Oeste, sendo que, o Mato Grosso do Sul tem um potencial para irrigar aproximadamente 4,5 milhões de ha. 

Os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia e Goiás concentram 68% da área irrigada no Brasil, que atualmente é cerca de 6 milhões de ha no total, segundo estimativas da Agência Nacional de Águas (ANA). “A parte específica do setor canavieiro é de aproximadamente 20% desse total, mas é importante informar que esse quantitativo pode mudar com a conclusão de um estudo específico contratado pela ANA acerca da irrigação de cana, que tem previsão para conclusão em dezembro”, afirmou a ANA via assessoria de comunicação.

O GIFC acredita que o melhor uso possível da água disponível, considerando as questões ambientais e legais, pode direcionar o aumento de produtividade necessária para garantir a sustentabilidade do setor. Mas Viana destaca que o melhor uso da água é apenas um dos itens fundamentais para que as unidades atinjam o máximo potencial genético da cana-de-açúcar. “A prática do uso da nutrição arrojada e fatores dos redutores da produtividade agrícola sob controle, considerando que a planta não sofrerá estresse, ou seja, estará sempre com a necessidade de água atendida, é fundamental para direcionarmos as nossas ações de planejamento técnico e operacional.”

O superintendente do GIFC adiciona ainda que a definição de lâminas e também dos sistemas de irrigação que eventualmente serão utilizados deverão respeitar uma lógica econômica que precisa ser testada por modelos matemáticos concisos que garantam, antes de tudo, a sustentabilidade econômica e financeira do uso da água que venha a ser transferida de mananciais, respeitando as regras ambientais e legais. “As pessoas já estão convencidas que o bom manejo da água e a irrigação são saídas para o aumento da produtividade. A partir de 2017 os números tendem a sair dos 1,2 milhão de ha irrigados para 2 milhões, como já estimou a RPA Consultoria. Isso virá com a retomada do setor. O GIFC entende que há falta de recursos, mas não falta de convicção sobre os benefícios da irrigação. No ano que vem tudo indica que as empresas vão retomar os investimentos. Temos conhecimento dos projetos da BP, Raízen, e outras grandes usinas que estão convencidas e devem retomar os investimentos nesta área.”

 ESPECIAL

Mesmo com a concorrência acirrada da Tailândia, o aumento do consumo de açúcar nos países do Sudeste Asiático deve sustentar as exportações da commodity brasileira até 2020

 

Natália Cherubin

Indonésia, Bangladesh, Malásia e China. Desde o início deste ano, tem se tornado cada vez mais comum avistar navios destes países, historicamente importadores de açúcar da Tailândia, atracados nos portos brasileiros à espera de carregamentos de açúcar. Nem mesmo a Índia, um dos principais produtores mundiais, que chegou no ano passado a exportar açúcar para outros países, escapou de recorrer a commodity brasileira.

A falta de oferta do produto na região do Sudeste Asiático, provocado tanto pela quebra de safra dos importantes polos produtores e exportadores, ocasionada tanto por conta da seca que atingiu a região, quanto pelo contrabando do adoçante para a China, são alguns dos motivos que vem transformando o mercado mundial de açúcar, que deverá ser bastante positivo para o Brasil até 2020.

Só em julho deste ano, as exportações brasileiras de açúcar alcançaram 2,9 milhões de t elevando o acumulado de doze meses para 26,75 milhões de t (de agosto de 2015 até julho de 2016), 10,4% a mais do que o mesmo período do ano passado, segundo Arnaldo Luiz Corrêa, diretor da Archer Consulting. “O acumulado no ano safra (de abril até agosto) soma 9,1 milhões de t, o maior volume desta década.”

Boa parte deste aumento é consequência do crescimento da demanda de alguns países asiáticos pela commodity brasileira, que vem se tornando mais intensa desde fevereiro deste ano, período que corresponde a entressafra da região Centro-Sul. De acordo com João Paulo Botelho, analista de açúcar e etanol da INTL FCStone, entre fevereiro e abril de 2016, os volumes de exportação para essa região chegaram a 367 mil t, volume 87% maior do que a média exportada no mesmo período dos últimos três anos.

Em 2015, de acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), dos 24,03 milhões de t de açúcar exportados para 129 países, 2,51 milhões de t foram para a China, primeiro no ranking dos cinco maiores importadores do açúcar brasileiro. Em segundo lugar está Bangladesh, que importou 2,47 milhões t, em terceiro a Argélia, com 1,63 milhão de t, em quarto a Nigéria, com 1,34 milhão de t e em quinto vem a Rússia, que importou 1,04 milhão de t. Somente estes cinco países importaram 37,4% de toda a exportação brasileira e vale destacar que os dois primeiros lugares e o quinto são países asiáticos, o que nos faz pensar: será a Ásia o grande mercado para o açúcar brasileiro também no futuro?

Segundo Antonio de Padua Rodrigues, diretor Técnico da Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), desde 2012, os chineses são os principais compradores de açúcar. No acumulado de janeiro a julho deste ano, o Brasil exportou um valor recorde para o período. Foram enviadas 1,6 milhão de t para a China, um crescimento de 36,3% em relação ao volume comercializado para o país nos seis primeiros meses de 2015.

Para a safra 2016/17, há perspectivas de aumento nas exportações de açúcar brasileiro para a China, já que haverá queda de produção no país asiático e aumento de consumo. A previsão é que o consumo de açúcar na China cresça para 15,4 milhões de t em 2015/16, ante 15,2 milhões em 2014/15. A China se apresenta como o maior importador de açúcar do mundo, o principal destino do açúcar brasileiro e se manterá como principal importador do açúcar brasileiro, posto anteriormente ocupado pela Rússia.


CLIMA, OFERTA E DEMANDA GLOBAL

O consumo de açúcar no mundo cresce a cada ano de 1,5% a 2,0%, taxa bastante consistente ao longo do tempo, segundo Andy Duff, analista de Commodities e especialista do Setor de Açúcar e Etanol do Rabobank. No entanto, a produção mundial de açúcar segue muito mais volátil, impactada principalmente pelo clima e pelos próprios preços, que nos anos anteriores foram baixos e desestimularam investimentos em novas áreas de cana e beterraba, impactando também na manutenção dos canaviais, que foi reduzida. “Assim, chegamos na safra 2015/16 com uma queda da produção mundial de açúcar, depois de vários anos de preço mundial em queda, junto com o El Niño, fenômeno que impactou a produção na Ásia e até no Nordeste do Brasil.”

A crescente demanda da indústria de alimentos e bebidas na Ásia, juntamente com anos seguidos de produções menores de açúcar, tem empurrado o estoque de açúcar da Ásia para baixas históricas. Segundo os dados do último relatório do Rabobank, de agosto, depois de um 2015/16 ruim, o El Niño tem impactado a produção de açúcar em 2016/17, tornando a região dependente do açúcar importado diante da crescente demanda doméstica industrial.

 

Duff explica que ao longo dos últimos dez anos, a produção de açúcar na Ásia assistiu um forte crescimento, que direcionou os estoques para níveis recordes. Durante este período, 2008/09 foi o único ano a ter um déficit na oferta e demanda regional, causado por uma redução acentuada na produção de açúcar da Índia, segundo maior produtor do mundo, que viu sua produção cair para 16 milhões de t.

Em 2015/16, a Ásia testemunha o seu primeiro ano de déficit depois de mais de cinco anos. A produção de açúcar chinês caiu em mais de 2,3 milhões de t (valor bruto), comparado a 2014/15. Já a produção indiana, deve encolher em mais de 4 milhões de t, empurrando a Ásia para um déficit total de quase 2 milhões de t.

“A Índia deve ver uma queda na sua produção também para o ciclo 2016/17, devido a secas ocorridas entre 2014/15 e 2015/16 no país. Deste modo, espera-se que o país também seja um grande importador de açúcar para o ciclo 2016/17. Já a produção de açúcar da Tailândia continua sujeita a restrições devido ao plantio de cana inferior previsto para 2015/16 o que, portanto, não vai ajudar a reduzir o gap regional”, destaca Duff.

Na China, os preços domésticos continuam deprimidos, apesar dos esforços dos governos locais para fortalecê-los, o que está restringindo o aumento da produção de cana-de-açúcar. No Vietnã, a falta inovação e investimentos, combinado com o clima ruim, causou uma grande queda na expectativa de produção. Já a Indonésia, que caminha para ser auto-suficiente em açúcar, ainda continuará a ser um importador líquido no curto e médio prazo.

 

Com um gap de cerca de 3 milhões de t em 2016/17 e suprimentos baixos no mercado mundial de açúcar, a indústria de alimentos e bebidas da região estão enfrentando mais um ano de déficit de açúcar. Em nível global, enquanto na Europa e no Brasil estão previstos uma melhora na produção do próximo ano, o Rabobank espera outro déficit mundial de açúcar de 5,5 milhões de t em 2016/17. Diante disso, os preços do açúcar devem permanecer bem apoiados ao longo dos próximos 12 meses.

“A demanda industrial para o açúcar continua forte e deve crescer à medida que o aumento da prosperidade na Ásia continue a impulsionar o crescimento do consumo de alimentos e bebidas industrializadas. Enquanto a maioria dos países criaram políticas como as tarifas de importação e preços mínimos para compra de cana, afim de influenciar e estabilizar o abastecimento interno e os preços do açúcar, usuários industriais permanecem abertos ao risco de preços mais elevados e/ou rupturas de fornecimento. Compradores industriais deverão, portanto, ter que considerar estratégias financeiras e operacionais para mitigar esses riscos de preços”, detalha relatório do Rabobank.

Outro ponto que tem ajudado o mercado brasileiro foi a queda nos preços do petróleo e a desvalorização cambial, o que fez com que os preços do frete para a Ásia, principal região compradora do produto, tenham ficado mais competitivos, 50% inferiores aos praticados em 2015.

“O preço do frete, tanto marítimo como o rodoviário, quando cotados em dólar, apresentaram uma retração significativa nos últimos meses de dezembro de 2015, além da variação cambial e da queda do preço do petróleo, a desaceleração da economia chinesa fez com que a demanda pelas commoditiesagrícolas ficasse menor, liberando maior espaço nos navios e contribuindo para preços mais competitivos”, avalia Botelho.

Ainda segundo o analista da INTL FCStone, a retração nos preços do frete beneficiou mais o Brasil do que os demais países produtores em relação aos mercados mais disputados, que são o Oriente Médio e a Ásia. Além disso, o real desvalorizado faz com que o açúcar fique mais barato para quem compra e garante maior rentabilidade ao produtor brasileiro. “No mercado asiático e no Oriente Médio, a Tailândia e a Índia são as principais concorrentes da Brasil pela maior proximidade, o que gera custos menores com transporte. Com a queda no preço do frete e o dólar valorizado, o açúcar nacional atinge maior competitividade. Diante deste cenário, a tendência é que a participação do Brasil no mercado internacional seja ampliada”, observa.

 

CONTRABANDO DE AÇÚCAR

Além das quebras de safras nos países do Sudeste Asiático e da redução dos preços dos fretes, outro fator que propiciou a construção da atual realidade do mercado mundial de açúcar foi o aumento do contrabando do produto para a China, que ocorreu no final do ano passado e início deste, e que pode ter chegado a cerca de 1,2 milhão de t do comércio global, segundo Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro.

Os contrabandos ocorreram porque, em 2015, o governo chinês passou a regular a liberação de licenças de importação de açúcar, retirando a automaticidade do processo no momento de quebra de safra no país. Segundo Botelho, como uma quantidade elevada de açúcar, que já havia sido contratada por algumas refinarias, ficou parada no porto, os comerciantes de Myanmar começaram a comprar da Índia e da Tailândia para colocar o produto ilegalmente na China, via terrestre, entre os meses de janeiro de 2015 a março de 2016.

A Tailândia chegou a exportar, apenas por navio, quatro vezes mais açúcar para Myanmar durante seu período de safra (de novembro do ano passado a março deste ano). O volume, de 356 mil t, porém, indica apenas uma parcela do que pode ter sido contrabandeado à China via Myanmar, já que não há registros da quantidade exportada por terra. Segundo Botelho, o surto de contrabando só terminou quando os preços internacionais subiram muito, o que fez com que o comércio ilegal deixasse de ser lucrativo.

 

ÁSIA: O PRESENTE E O FUTURO

Ao analisar atentamente o cenário atual e as perspectivas dos especialistas para o futuro do açúcar no mercado asiático, fica fácil responder à pergunta feita no início desta reportagem: O mercado asiático é e continuará sendo o futuro para o açúcar brasileiro? A resposta é sim! “A Ásia é o gigante de consumo, representando 47% do consumo global e cresce robustamente em decorrência do crescimento da população, do crescimento da renda e das mudanças em alimentação que acompanham a urbanização da população”, afirma Duff.

De acordo com previsões da Archer Consulting, a demanda por açúcar para exportação deverá saltar de 25,57 milhões de t na safra 2017/18 para 28 milhões de t na safra 2021/22, um incremento de 6,04%. Considerando também o consumo de etanol anidro e hidratado, e o consumo doméstico do açúcar, que deve pular dos 11,6 milhões de t em 2017/18, para 12,46 milhões de t, o volume de cana necessário para os próximos cinco anos deverá ser de 226 milhões de t. “Como o crescimento mundial de consumo se concentra em grande parte na Ásia, não é difícil assumir que eles serão nosso grande mercado. Só China e Índia juntas, crescem em consumo até 2020, mais de 6 milhões de t”, destaca Corrêa.

O relatório do Rabobank mostra que o consumo asiático de alimentos e bebidas industrializadas é o que irá conduzir o crescimento da demanda por açúcar. “A Ásia tem estabelecido um ritmo de crescimento do setor de alimentos e bebidas industrializados desde 1990, impulsionado principalmente pelo crescimento da China. Com o rápido crescimento projetado para a Índia e o Sudeste da Ásia, acreditamos que esta tendência - da Ásia impulsionando o crescimento mundial assim como a prosperidade econômica da região - provavelmente persistirá, embora a uma taxa mais baixa. Sem surpresa, o Vietnã está na liderança dos países em crescimento na Ásia, a uma taxa de dois dígitos ao ano”, afirma o relatório.

No entanto, em termos absolutos, é a China quem lidera o ranking de crescimento, sendo responsável por mais de 60% do aumento regional no volume de consumo de alimentos e bebidas industrializadas ao longo da última década. Apesar da recente desaceleração econômica da China, que poderá criar um entrave ao crescimento da demanda, por outro lado, segundo o Rabobank, a Índia deverá aumentar o consumo de alimentos e bebidas industrializadas nos próximos três anos.

Os refrigerantes têm sido um dos grandes responsáveis pelo aumento do volume do consumo de açúcar na Ásia. Embora as previsões para o crescimento do consumo de refrigerantes tenham sido reduzidas na Ásia, a projeção de crescimento é permanece à frente da maioria das outras regiões do mundo. A indústria de laticínios, panificação e biscoitos, são outros segmentos-chave de interesse para a indústria de açúcar. Ambos deverão crescer a uma taxa estável nos próximos anos.

Segundo Duff, em geral, o crescimento da indústria alimentícia mantém-se forte diante do mercado mundial. Embora a taxa de crescimento global para a Ásia tenha diminuído, a região continua a ser extremamente importante, representando quase 40% do crescimento do volume mundial entre 2015 e 2018. “Espera-se que este padrão se repita no período de projeção. Exceto para áreas emergentes tais como o Oriente Médio e África, o Sudeste Asiático vai crescer à frente de todas as outras regiões.”

A demanda regional da Ásia por açúcar, hoje de quase 50% da demanda total mundial, é projetada para crescer robustamente nos próximos anos (só a África, entre os continentes, está projetada para crescer a uma taxa maior), segundo o analista de commodities e especialista do setor de açúcar e etanol do Rabobank. “Dado que a capacidade desses países para produzir mais açúcar seja limitada pela falta de terra nova para agricultura, esse crescimento provavelmente aumentará a necessidade da região de importar cada vez mais açúcar, e o Brasil é muito bem posicionado para fornecer uma boa parte desse fluxo adicional ao comércio internacional”, afirma Duff.

A China continuará sendo o importador mais relevante, segundo Botelho, por dois motivos: crescimento da população e redução na produção. Com a rápida urbanização, ou seja, com uma população muito grande indo para as cidades, o que acaba aumentando o consumo de refrigerantes, bebidas açucaradas e alimentos industrializados, faz com que se aumente também a demanda de açúcar do país.

O consumo tem aumentado de forma constante e a produção passou por uma redução muito grande nos últimos anos. O setor canavieiro de Guangxi, a principal província canavieira da China, tem tido problemas com a produtividade e falta de manejo e mecanização em suas áreas de plantio de cana, o que faz com que o país passe a priorizar outras culturas que são mais difíceis de serem importadas, como as hortaliças, muito usadas no consumo local. Considerando todos estes fatores, há uma situação estrutural de déficit de açúcar crescente na China.

“Até o momento, o governo chinês tem tentado diminuir o volume de importações através de barreiras, mas é algo que provavelmente não será possível de se manter em longo prazo apenas por controle alfandegário. Então, esse ano o governo chinês poderá vender os estoques de açúcar e colocar no mercado afim de diminuir o preço doméstico e manter as importações relativamente baixas. Mas isso é algo limitado. Eles podem fazer isso durante esse ano e no próximo já não terão este estoque. Sendo assim, a tendência é que a China se torne cada vez mais importador de açúcar”, afirma o especialista da INTL FCStone.

 

Em 2015, segundo o Mapa, o Brasil exportou
24,03 milhões de t de açúcar para 129 países.

ranking foi o seguinte:

1º China

2,51 milhões de t

2º Bangladesh

2,47 milhões de t

3º Argélia

1,63 milhão de t

4º Nigéria

1,34 milhão de t

 Rússia

1,04 milhão de t

Assim, somente estes cinco países importaram 37,4% de toda a exportação brasileira. Vale ressaltar que os dois primeiros lugares e o quinto são países asiáticos, o grande mercado do açúcar brasileiro do presente e do futuro.

A CONCORRÊNCIA DA TAILÂNDIA

Apesar da elevação dos preços da commodity na Tailândia, por conta da quebra da safra local, estimada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em 10% no atual ciclo 2015/16 - para 9,74 milhões de t -, após uma forte seca no ano passado, o país, segundo maior exportador global de açúcar, atrás do Brasil, é o único que pode fazer a diferença na oferta de açúcar para os próximos anos. Segundo dados da Archer Consulting, a perspectiva é que a Tailândia produza cerca de 12 milhões de t na safra 2016/17, 12,5 milhões em 2017/18 e aumente para 13 milhões de t na safra 2018/19.

“Por mais que tenhamos cada vez mais potencial de crescimento na exportação, teremos na Ásia o principal concorrente, a Tailândia, que também terá um grande potencial de produção e poderá ser uma grande concorrente. A disputa será de market share será acirrada”, conclui Botelho.

 

BRASIL X TAILÂNDIA

Apesar do mercado da América Latina também ter sua importância para o Brasil, o analista de açúcar e etanol da INTL FCStone, João Paulo Botelho, afirma que muito mais importante do que conseguir se livrar das tarifas do Mercosul ao açúcar brasileiro, é o Governo continuar focado na ação junto à OMC (Organização Mundial do Comércio) contra os subsídios aos produtores de açúcar concedidos pelo governo da Tailândia, maior concorrente do Brasil na produção da commodity. A medida, solicitada pela Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), foi autorizada pelo conselho de ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex) em março deste ano. No entanto, a expectativa é de que o processo se desenrole por até três anos e ainda há dúvidas quanto a uma vitória brasileira.

A Tailândia elevou em 2014 o valor pago pela tonelada de cana para 160 bahts (US$ 4,50). O incentivo é válido para cerca de 300 mil produtores e para um total de 103,67 milhões de t, o que acarreta em um gasto de 16,59 bilhões de bahts (US$ 466,79 milhões). O Brasil também questiona o aumento da área plantada com cana na Tailândia nos últimos anos, mesmo em meio à queda constante dos preços internacionais do açúcar.

Na safra 2011/12, eram 1,28 milhão de ha, número que subiu em 2014/15 para 1,51 milhão de ha. Por fim, o governo brasileiro também pede informações sobre os custos de logística e sobre como são estabelecidas as cotações internas do açúcar, que ficam acima das do mercado internacional.

A Tailândia instaurou um sistema de controle de preços que garante um valor elevado para o açúcar produzido para consumo interno, e concede subvenções para a produção excedente, destinada à exportação. O país também realiza pagamentos adicionais aos produtores de cana-de-açúcar e libera subsídios para transformar arrozais em plantações de cana. Esta política, de acordo com o Brasil, viola as normas do comércio internacional. “Se o governo brasileiro tiver um resultado positivo contra a Tailândia, será uma vitória importantíssima para o setor sucroenergético nacional”, afirma Botelho.

 
ETANOL BRASILEIRO RUMO À CHINA?

Muito além da demanda por alimentos, o setor sucroenergético nacional pode começar a se preparar para atender uma possível demanda da China por etanol. Isto porque, o gigante asiático, maior comprador mundial de açúcar e principal destino das exportações brasileiras, enfrenta enormes desafios diante das altas taxas de crescimento demográfico e da necessidade de melhora na qualidade de vida da sua população.

Antonio de Padua Rodrigues, diretor Técnico da Unica, destaca a importância de se estreitar o relacionamento entre Brasil e China não apenas para incrementar o comércio entre as duas nações, como também para promover o desenvolvimento sustentável no maior país emissor de gases de efeito estufa do planeta. “Visto que a China anunciou a aprovação do acordo global sobre o clima, podemos buscar mais espaço para o etanol de cana. Tendo a matriz energética muito dependente do carvão e petróleo, os chineses terão que fazer um enorme esforço, nos próximos 15 anos, para diversificar fontes de energia limpa”, avalia.

Donos de uma frota automotiva composta por mais de 217 milhões de veículos, quase todos movidos por combustíveis fósseis e diante dos altos níveis de poluição de algumas cidades, inclusive já considerados alarmantes pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a China deverá ser um provável destino para o etanol brasileiro.

 

 

 

Q

 
 

 ESPECIAL

 

Depois de três anos sem condições financeiras para renovação tecnológica do parque industrial, o horizonte positivo poderá permitir novos investimentos em melhorias de processos. No entanto, o que a indústria do futuro precisará?

 

Natália Cherubin

A palavra que a cadeia produtiva sucroenergética não aguenta mais ouvir e repetir é: crise, a qual o setor vai saindo aos poucos, após cinco tortuosos anos, rumo a tão aguardada retomada. Total? Ainda não, mas com horizonte mais positivo do que nos anos anteriores e diante de uma luz, lá no final do túnel, propiciada pelo atual mercado e pelas boas perspectivas para o futuro tanto do açúcar quanto do etanol.

Louro Fernandes: “uma usina ou destilaria necessita aplicar pelo menos de 5% a 6% do seu faturamento líquido para manter seu parque produtivo atualizado tecnologicamente e em boas condições operacionais, o que não ocorreu nos últimos três anos”Louro Fernandes: “uma usina ou destilaria necessita aplicar pelo menos de 5% a 6% do seu faturamento líquido para manter seu parque produtivo atualizado tecnologicamente e em boas condições operacionais, o que não ocorreu nos últimos três anos”

Embora a escalada dos preços do açúcar no Brasil e o maior consumo de etanol tenham tornado a atividade mais rentável, ainda é insuficiente para estimular as usinas a reverem seus investimentos, afinal, muitas unidades relutam em ampliar as suas capacidades industriais já que ainda lidam com a ressaca da dívida herdada do último ciclo de expansão. Além disso, ao mesmo tempo em que o consumo de etanol e os preços do açúcar sobem, a política do governo para o etanol segue ainda muito nebulosa, gerando insegurança entre os investidores.

Apesar de continuar aguardando por políticas públicas, especialistas acreditam que o setor já se encontra na fase de transição entre a recuperação, que deverá iniciar em curto prazo, e a efetiva retomada, que poderá ocorrer já em médio prazo. “O setor sucroenergético deverá despender capital ao menos para fazer as manutenções das plantas, que rapidamente caminham, em grande parte, para uma deterioração bem acima daquela que seria aceitável, podendo comprometer os resultados operacionais já em 2017. Portanto, acredito que poderemos, já nos próximos meses, verificar uma retomada da atividade especialmente com relação à manutenção, mas também, em pequena escala, de algumas ampliações que já estão inclusive em fase de execução. Os investimentos significativos, porém, certamente virão apenas e tão somente se houver uma correção nas condições macroeconômicas do País”, afirma Paulo Gallo, presidente do Ceise-BR (Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis).

Seja em curto ou médio prazo, as indústrias que pretendem aumentar as suas capacidades de produção ou melhorar suas eficiências, precisarão atualizar algumas tecnologias de processos que foram deixadas de lado no momento de corte de gastos. Teremos um mercado preparado para atender a demanda por novas tecnologias? Muito mais do que isso, as tecnologias já existentes trazem melhorias consistentes em eficiência? Qual é a indústria que o setor quer no futuro? Tentaremos, ao longo desta reportagem e com a ajuda de alguns especialistas, responder a estas difíceis questões.

Francisco Oscar Louro Fernandes, sócio-diretor da Sucrotec Assessoria e Consultoria, afirma que analisando os dados da amostra de usinas da Sucrotec percebe-se uma nítida dificuldade das unidades em manter a atualização tecnológica do parque industrial e agrícola durante os últimos três anos. “É possível observar queda no volume de recursos aplicados na compra de ativos e na reposição da depreciação de máquinas e equipamentos, que também ficou comprometida nos últimos anos.”

Considerando o total de compra de ativos, exceto o plantio de cana, a amostra da Sucrotec revela que na primeira década do século XXI, entre 2001 e 2010, as usinas sucroenergéticas aplicavam de 10% a 11% das suas receitas líquidas em máquinas e equipamentos. Nos três anos seguintes, de 2011 a 2013, a média caiu para 7% e nos últimos três anos, entre 2014 e 2016, a média despencou para apenas 3% das receitas. O sócio-diretor da Sucrotec diz que nestes montantes não foram incluídos grandes investimentos realizados por algumas empresas em aumento de produção ou mesmo em novas unidades de produção.

“Nossa experiência mostra que uma usina ou destilaria necessita aplicar pelo menos de 5% a 6% do seu faturamento líquido para manter seu parque produtivo atualizado tecnologicamente e em boas condições operacionais, o que não ocorreu nos últimos três anos, principalmente devido à baixa rentabilidade do açúcar e do etanol, além do comprometimento com o pagamento de juros e do alto estoque de dívida que algumas usinas apresentam”, destaca Louro Fernandes.

 

DEIXADO DE LADO

É difícil especificar exatamente onde e em quanto a falta de investimentos impactou no aumento dos custos na indústria, mas o que se pode afirmar é que a queda de produtividade é decorrente de equipamentos desatualizados, paradas não programadas, necessidade de terceirização excessiva ou falhas no recebimento de matéria-prima, causadas por insuficiência de equipamentos próprios e tantos outros transtornos decorrentes da falta de investimentos.

Segundo Marcelo Fernandes, gerente da Fourteam, devido às restrições no fluxo de caixa, a área mais prejudicada foi a manutenção da indústria, que agora está cobrando seu preço, com usinas apresentando interrupções de moagem por falhas e aumentos em seus custos operacionais. “Isto não significa que as unidades estejam sucateadas, mas é claro que grande parte da indústria carece de reformas adequadas. Desculpe-me pelo neologismo, mas hoje a indústria precisa muito mais de um Revamp do que de um Retrofit. A nossa indústria foi modernizada ao final da década passada e hoje precisa somente de uma boa reforma para se manter.”

Antonio Viesser, diretor Adjunto Industrial do Polo SP da Tonon Bioenergia, afirma que muitos grupos deixaram de fazer até mesmo as manutenções de rotina, o que trouxe ainda mais dificuldades para estas unidades, já que a falta de manutenção traz baixos índices de disponibilidade, o que, por conseguinte, reduz a eficiência industrial.

Para Luiz Antonio de Oliveira, gerente Comercial da Procknor Engenharia, o fato das indústrias estarem deixando de lado as manutenções necessárias para uma boa conservação do seu patrimônio, tem afetado desde o preparo, a extração, passando pelo tratamento do caldo, evaporação, cozimento, fermentação e destilaria até a geração de vapor e energia elétrica.

“As nossas indústrias tem assumido correr um grande risco, não realizando as manutenções essenciais para uma operação segura e eficiente. Esta negligência tem aumentado as estatísticas de acidentes e gerado muitos prejuízos. E não haverá milagre. Para grandes doenças serão necessárias grandes doses de remédio. Neste caso, muito dinheiro para recuperar e substituir equipamentos, estruturas e acessórios que atualmente encontram-se, em boa parte das indústrias, abandonadas e sucateadas , e, em alguns casos, de forma irrecuperável”, observa Oliveira.

 

P&D

Muito além da falta de investimentos em novas tecnologias pelas usinas, ainda existem gaps tecnológicos a serem resolvidos, muitos deles por falta de iniciativas em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Segundo Fernandes, no Brasil os recursos para P&D são irrisórios, menos que 1,2% do PIB. Deste percentual, nem 1% é gasto em P&D para o setor sucroenergético. E tem mais. Dos parcos recursos de P&D do setor nem 20% é gasto com a área industrial. “Resumindo, para  indústria não se gasta em P&D nem 0,005%. É um verdadeiro escândalo!”

Antonio Marcos Furco, diretor da M Furco Engenharia, diz que apesar de não notar grandes paralisações em projetos de P&D para o setor, haja vista os desenvolvimentos em etanol de segunda geração e incremento das tecnologias de cogeração entre tantas outras, principalmente no setor agrícola, onde os programas são de mais longo prazo, observa-se que o desenvolvimento da área industrial tem perdido lentamente seus centros de pesquisa muito antes da atual crise.

“Esta ausência será sentida mais a médio prazo. Acredito que por enquanto, o mercado ainda segue abastecido por técnicos remanescentes daqueles tempos. Em outros setores a globalização até cobre a ausência de novos desenvolvimentos, porém no setor industrial sucroenergético torna-se mais difícil porque o Brasil esta à frente dos desenvolvimentos das tecnologias.”

Por outro lado, Furco acredita que a experiência tem mostrado que a escassez de recursos para grandes projetos faz com que pequenas unidades produtoras, por falta de recursos, obriguem seus técnicos a criarem soluções inteligentes. A crise acaba acelerando a criação de soluções de engenharia de emergência mais baratas e inteligentes. “A área que mais evoluiu nos tempos de crise é, sem dúvida, a operacional, catalisada pela necessidade e busca de soluções.”

Na contramão da estagnação, a Zanini Renk tem trabalhado no desenvolvimento de novas tecnologias e é a única indústria do setor de bens de capital que investe 2% de seu faturamento em projetos de inovação.

“Possuímos um Comitê de Inovação e Tecnologia, com participação de membros externos dedicados. Nos últimos anos todas as linhas de redutores industriais passaram por importantes transformações objetivando agregar conceitos tecnológicos de ponta aliados à redução de custos”, afirmam Cristiane Câmara Braz, gerente de Marketing e Gustavo Weber, gerente de Inovação e Engenharia de Produtos da Zanini Renk.

 

GAPS E DESAFIOS DA INDÚSTRIA
Gallo destaca a automação dos processos como um dos grandes responsáveis pelos ganhos de produtividade nos últimos anosGallo destaca a automação dos processos como um dos grandes responsáveis pelos ganhos de produtividade nos últimos anos

Um dos maiores gaps da indústria é o processo de fermentação, uma verdadeira vilã, segundo Viesser. Isto porque, a maioria das usinas contam com reatores ultrapassados. “Existem unidades que ainda fazem uso de serpentinas ao invés de trocadores de calor, além disso, a falta de controles de automação nesta área também enfrenta carência por parte das unidades, já que os recursos financeiros são limitados. Se não bastasse isso, ainda temos a cultura de achar que tudo que não serve para os outros processos devem ser enviados para a fermentação”, observa.

Já para o gerente e consultor da Fourteam, os maiores gaps ainda estão na dificuldade de reduzir a umidade do bagaço e melhorar o sistema de limpeza e separação de palha da cana, um dos processos mais importantes para a entrada de uma matéria-prima de maior qualidade.

Henrique Berbert de Amorim Neto, diretor Operacional da Fermentec, também acredita que o maior desafio das usinas ainda é trazer uma matéria-prima de melhor qualidade, o que consequentemente trará aumento de eficiência. “Outro desafio que merece maior atenção é o teor alcoólico. Vemos poucas unidades que trabalham com uma média de 11% a 11,05 % de teor alcoólico, enquanto a média do setor é de 8%, o que faz com que estas usinas cheguem a gastar de R$ 5 a R$ 6 milhões em distribuição de vinhaça por conta do teor alcoólico muito baixo. A primeira coisa em que os técnicos das usinas colocam a culpa é na levedura, e, muitas vezes, se esquecem de fazer o básico, o feijão com arroz.”

Leonardo Zanini Cherubim, diretor de Engenharia e Maurício Jorge Moisés, diretor de Negócios da Caldema, acreditam que a presença de resíduos sólidos vegetais e minerais no processo de tratamento de caldo, que influi sobretudo na cor do açúcar e nos pontos pretos insolúveis, é um dos principais gaps hoje existentes nas usinas. Isso porque os grandes compradores de açúcar, que são as grandes indústrias alimentícias e de bebidas, estão cada vez mais exigentes nesta questão.

Além disso, eles apontam que ainda existem muitas caldeiras operando com baixa eficiência de combustão devido às características do combustível para a qual as mesmas não foram projetadas.

“Existem tecnologias disponíveis para elevar esta eficiência, no entanto, é preciso avaliar e comparar a substituição das atuais tecnologias por outras mais modernas e que sejam aptas a utilizar os combustíveis (bagaço de cana) atuais. Outro importante fator a ser considerado é a produção específica de vapor e energia térmica que a caldeira pode oferecer. Isto depende de tecnologias disponíveis e que fazem grande diferença quando aplicadas adequadamente. Me refiro ao aumento de pressão, temperatura, utilização de ciclo regenerativo, reaquecimento e sistema de combustão mais eficiente”, salientam.

Antonio Carlos Junqueira Rodrigues, engenheiro mecânico da EcoAlba Engenharia, crê que o maior problema da indústria hoje é a redução da produtividade na operação de extração. “Enquanto seguimos com o modelo sul-africano de quatro rolos, com um não desprezível input de energia – seja na forma de vapor ou eletricidade -, os australianos estão modernizando suas instalações ou mesmo aumentando sua capacidade produtiva com moendas de dois rolos. Eles estão jogando o argumento de que o difusor consome menos energia! Isto somente é verdadeiro quando a comparação envolve moendas de quatro rolos como as nossas”, destaca.

Além dos modelos de moendas, Rodrigues aponta outras lacunas a serem resolvidas na indústria:

- Matéria-prima: cana crua com menos impurezas vegetais e minerais;

- Limpeza de cana a seco: atingir um nível de separação total da matéria estranha não inferior a 85%, no curto prazo, e de não menos de 90% no médio prazo;

- Preparo: somente um desfibrador de alimentação vertical, pesado, com martelos utilizando cabeças postiças de carboneto de tungstênio, vida útil não inferior a 600 mil t de cana e índice de preparo não inferior a 90%;

- Primeiro terno: provido de Continuous Pressure Feeder, com extração de caldo de 78% a 82%;

- Embebição: com taxa não inferior a 250% de fibra, controlada pelo brix do caldo misto, que deve ser da ordem de 13,5%. (A moenda não pode mais ser penalizada pela incapacidade dos engenheiros de processo em encontrar soluções custo-efetivas, confiáveis, de alta disponibilidade e mantenabilidade para o aquecimento do caldo, a evaporação e o cozimento do açúcar);

- Número de ternos: não mais do que cinco ternos, sendo o primeiro e o quinto providos de Continuous Pressure Feeder e os demais ternos com dois rolos, providos de dispositivos de controle de reabsorção.;

- Extração da bateria: maior que 96,5%, para uma cana de pol não inferior a 14,2%, e fibra na ordem de 12,5%;

- Máxima umidade do bagaço em 50% e máxima pol do bagaço de 1,9%;

- Moagens horárias: as mesmas obtidas pelas bitolas atualmente disponíveis.

“O Brasil está fechado dentro da sua ultrapassada tecnologia de alimentação do primeiro terno. Não há nenhum avanço buscando uma maior densidade da cana na alimentação desse terno, nem na busca de elevar a sua extração de caldo para, digamos, 78 %”, afirma Rodrigues.

Ele adiciona que na “era da cana integral”, em que se aumenta a quantidade de palha e terra entregues para as usinas, a densidade da cana diminuiu, o que faz com que nem o uso das calhas Donnelly sejam a solução para a queda da taxa de moagem.

“Sabe-se há muito tempo que a partir de uma determinada altura, algo ao redor de 2,7 m de altura, entre o centro da esteira de alimentação e o centro do rolo superior, os aumentos da densidade da cana na boca da moenda produzidos pelas calhas Donnelly são pouco significativos. Ou seja, as calhas Donnelly atuais não compensam a queda da densidade da cana provocada pela palha. E não adianta aumentar a sua altura! Resultado: a cana integral crua está provocando uma inquietante queda na taxa de moagem. Ao retirar o caldo da boca da moenda, o rolo lótus abriu espaço para uma cana de baixa densidade, e a moagem se aproximou dos valores antes praticados. Ou seja, a nossa tecnologia de alimentação do primeiro terno, importada via África do Sul da Austrália, chegou ao seu limite. Daí para frente, somente instalando uma moenda de maior bitola, em substituição ao primeiro terno atual, para recuperar, com folga, a moagem perdida! E ninguém quer falar de um Continuous Pressure Feeder no primeiro terno”, critica Rodrigues.

 

INOVAÇÕES E EVOLUÇÕES

Mesmo com gaps em tecnologias e P&D, e os desafios que ainda precisam ser enfrentados, a própria crise fomentou o aparecimento de novas tecnologias para contrapor o momento atual da indústria.

Tecnologias que são aplicadas para redução das perdas de açúcares e para melhorar os produtos finais são as que estão em maior evidência, segundo Fernandes. “Outro exemplo é com os ganhos que as usinas podem obter com a vinhaça, excelente fonte de material orgânico, ideal para geração de gás metano e consequentemente energia, seja para movimentar máquinas agrícolas ou até mesmo gerar energia elétrica, embora esta seja a alternativa menos rentável.”

Para Furco, o setor de extração foi o que mais se desenvolveu nas últimas décadas no Brasil, crescendo em  volume de cana moída por unidade, aumento da extração e a redução de umidade. Apesar disso, ele acredita ser possível melhorar ainda mais e, partindo deste, ponto “vejo que temos que avançar na qualidade de nossos equipamentos mecânicos e principalmente na manutenção, seja corretiva ou preventiva, melhorando o seu nível de utilização.”

Gallo destaca a automação dos processos como um dos grandes responsáveis pelos ganhos de produtividade nos últimos anos. “A automação, através de diversas técnicas, tais como a robótica – nos segmentos que estas tecnologias sejam aplicáveis, podem trazer ótimos resultados em eficiência. Porém, é importante destacar que muito mais do que tecnologias, vamos precisar aprimorar a gestão dos negócios, com foco no desenvolvimento humano e no planejamento estratégico, além de introduzir uma cultura que nos permita um rígido acompanhamento de produção.”

Oliveira também acredita que as crises geram oportunidades e destaca algumas vertentes de tecnologia em desenvolvimento para melhorar a eficiência da indústria, algumas já consolidadas, como caldeiras de leito fluidizado borbulhante, cozimento contínuo, concentração de vinhaça, condensação evaporativa e mais recentemente há movimentos para:

- Diminuição da temperatura na fermentação, com utilização de chillers de compressão e adsorção, que propicia uma maior produção, podendo chegar à patamares entre 30% a 40% de incremento na produção de etanol;

- Desenvolvimento de sistemas energéticos a partir da produção e uso do biogás, e o tratamento anaeróbio de efluentes industriais;

- Uso de ciclos de reaquecimento de água e vapor em termelétricas;

- A contínua busca para dominar a tecnologia do etanol celulósico, ainda não consolidada completamente;

“Infelizmente a crise nos faz repensar algumas coisas, mas sabemos que existem inúmeros movimentos visando fazer do limão a limonada, e isso de certa forma tem feito diferença. Entre elas podemos destacar a otimização dos equipamentos, os controles de automação, investimentos em recursos humanos, ou seja, em treinamentos, e a adoção da Gestão à 
Vista, uma gestão à base de um sistema que possibilite que os principais itens de controle estejam em fácil acesso a toda a equipe, seja através de gráficos, dados ou informações gerenciais que permitam uma rápida e fácil visualização e interpretação. Na Tonon temos melhorado, na medida do possível, o nível de automação, os treinamentos e adotado a Gestão à Vista”, conta o diretor Adjunto Industrial da Tonon Bioenergia.

Cherubim e Moisés destacam as evoluções das caldeiras de leito fluidizado borbulhante, mais adequadas para queima da palha, e os últimos modelos de caldeiras com queima sobre grelha convencional, que hoje vem embarcadas com tecnologias mais modernas.

“Os modelos de caldeiras ainda mais utilizadas pelas usinas são as com queima em grelha convencional tipo basculante ou Flat Pin Hole, instaladas há mais de duas décadas. No entanto, apesar da superioridade tecnológica das caldeiras de leito fluidizado borbulhante, a adoção da tecnologia em larga escala vai depender da viabilidade econômica e não somente técnica. Dessa forma, sua incorporação se dará diante de uma boa remuneração advinda da exportação de energia elétrica. Deve-se levar em consideração também a estabilidade que a caldeira de leito fluidizado borbulhante propicia para o processo industrial, resultando em ganhos de produção.”

Umas das últimas tecnologias do mercado foram trazidas pela Equilíbrio. A empresa desenvolveu uma peneira rotativa para caldo misto, desenvolvida para atuar na separação dos resíduos sólidos, como bagacilhos e minerais na segunda etapa da filtragem do caldo misto, melhorando a qualidade do produto antes deste seguir para o tratamento.

De acordo com Carlos Alberto Celeste Jorge, presidente da Equilíbrio, não existe tecnologia similar para o tratamento do caldo misto no segundo peneiramento que tenha ganhos tão expressivos.

“No nosso último estudo de caso, em uma usina sucroenergética de grande porte, pudemos constatar um aumento na eficiência de retenção de sólidos de 67,4% para 92,6%, um ganho de mais de 25%. Já na produção da torta de filtro, notamos uma redução de 25 para 15 kg/t, isto é, um ganho de 10 kg/t de torta, que se transformou em açúcar e também em bagaço, combustível para as caldeiras. Outros ganhos que podemos citar com a instalação da PRP são a economia no consumo de energia elétrica e a redução nos custos de manutenção mecânica das usinas, como bombas e tubulações.”

Ainda de acordo com Jorge, a tecnologia, que tem um pay-back entre quatro e seis meses, traz aumento de 0,2% na eficiência do tratamento de caldo, número bastante expressivo para as usinas.

Tercio Dalla Vecchia, diretor da Reunion Engenharia, revela que a empresa está trazendo, a partir de agora, uma nova tecnologia em caldeira direto da Dinamarca, que permite fazer a queima do fardo de palha sem que seja preciso triturá-lo antes. “A tecnologia permite melhor queima tanto da palha que vem junto com a colheita da cana, quanto para a palha que vem em forma de fardos.”

Para Cristiane e Weber, o sistema de monitoramento de redutores em tempo real tem trazido um ganho interessante para as usinas. Atualmente, a maioria dos redutores planetários são instalados com sistemas de monitoramento, que permite aos usuários e a empresa monitorar diversas variáveis que contribuem positivamente ou não para a performance do redutor. A mensuração dos dados ajuda os usuários na preservação da vida útil do equipamento e detecção antecipada de potenciais falhas.

Apesar dos avanços nas aplicações dos redutores, a visão de futuro da empresa, em termos de desenvolvimento, está voltada para a conectividade alinhada ao movimento da indústria 4.0. Neste sentido a Zanini Renk lança na Fenasucro 2016, o Optmax, uma solução integrada para monitoramento, simulação e otimização dos processos da usina.

“O Optmax é um sistema integrado de gestão operacional de processos industriais que permite, por meio de sensores ópticos, a leitura em tempo real da cana-de-açúcar e de seus insumos. As informações coletadas são direcionadas para um software dedicado que calcula o balanço de massa e energia dos processos da usina, identificando os pontos que estão fora da faixa operacional esperada. Uma revolução que chega para adicionar ainda mais inteligência e alta performance aos processos industriais da usina”, revelam.

 

A INDÚSTRIA DO FUTURO
Viesser: “na Tonon temos melhorado, na medida do possível, o nível de automação, os treinamentos e adotado a Gestão à Vista”Viesser: “na Tonon temos melhorado, na medida do possível, o nível de automação, os treinamentos e adotado a Gestão à Vista”

Com tantos desafios ainda a serem superados, pedi aos especialistas que opinassem sobre qual seria a indústria do futuro em termos de eficiência, produtividade e tecnologias.

Furco diz ser difícil olhar de forma única para tal questão, mas acredita que a indústria do futuro terá avançado nas soluções mecânicas, que ainda são rudimentares em alguns pontos; na busca por mais análises e controles, não admitindo perdas indeterminadas ao redor de 2% e, após o domínio destes, colocá-los sobre controle em tempo real intensificando a automação; ter avançado na recuperação de energia a níveis acima de 150 Kwh/t de cana, aumentando a geração e reduzindo o consumo pelo uso intensivo da eletrificação; e terá saído do discurso da falta de mão de obra qualificada para um sistema de formação, implantação, remuneração e promoção por meritocracia.

“Na minha opinião os grandes avanços em termos de novas tecnologias capazes de revolucionar a indústria já estão em desenvolvimento, mas ainda levarão alguns anos para se consolidarem. Eu vejo um futuro com as variedades transgênicas de cana-de-açúcar, cuja tecnologia tem o potencial de mudar os paradigmas de rendimento agrícola - toneladas de cana produzidas por hectare, para níveis muito mais altos que os atuais, reduzindo o custo unitário de produção para toda a cadeia de forma substancial”, destaca o sócio-diretor da Sucrotec.

Além de acreditar numa indústria com uma melhor matéria-prima, plantada e colhida com tecnologias mais evoluídas e menos onerosas, ele vê a cogeração como um instrumento de melhora da rentabilidade e atratividade do setor, principalmente quando os equipamentos, técnicas de captura e utilização da palha da cana-de-açúcar se mostrarem mais bem resolvidos em termos de custo e operacionalidade.

Para Paulo Dédalo, engenheiro mecânico e consultor industrial da Viva Engenharia, a indústria do futuro será muito automatizada. “Sem dúvida as automações serão a bola do momento para explorar as tendências, processos e tecnologias. Materiais autorreparáveis e autolimpantes integrarão os processos e as manutenções serão pró-ativas. A tecnologia digital empregada na indústria irá interagir com o homem de maneira mais intuitiva e rápida, e a impressora 3D modificará muita coisa na indústria.”

Gallo diz que esperar que a indústria do futuro tenha eficiência máxima é utópico, mas diz que as indústrias deverão buscar ter os melhores patamares possíveis, levando os equipamentos industriais a operarem próximos às suas especificações originais de projeto. Para isso, é preciso melhorar a operação destes equipamentos, buscando os melhores resultados com os menores consumos de insumos e matérias-primas. “Automatizar a operação destes equipamentos é um passo fundamental, mas é preciso que se estabeleçam os padrões mínimos de produtividade desejada, com o estabelecimento claro de KPIs (Indicadores chave de processo), comparáveis a outras plantas similares, para efeitos de benchmarking – e aí entram as boas práticas de gestão.”

Ainda de acordo com ele, para que a indústria tenha máxima eficiência é preciso resolver os grandes desafios da agrícola, como aumentar a produtividade dos canaviais tanto em termos de quantidade de cana por hectare, quanto em rendimento das plantações em teor de sacarose e, além disto, reduzir o consumo de água e aumentar a resistência dos canaviais às pragas biológicas que afetam sobremaneira a produção.

Para Oliveira, além de melhorias de processos existe um fator muito importante que é o fator humano. Nos últimos anos vem ocorrendo um fenômeno nas indústrias chamado turnover ou alta rotatividade de profissionais. “Mas o que isso tem a ver com melhorias de eficiência? A nossa indústria ainda não possui um nível adequado de maturidade e isso é refletivo na falta de procedimentos registrados de processo. Com a alta rotatividade de profissionais ocorre a perda dos ativos intelectuais e com a falta de registro, a perda dos procedimentos das melhores práticas de processo. A indústria do futuro ideal certamente terá maior preocupação com a taxa de turnover, que deve ser constantemente analisada e avaliada, pois seus impactos são diretos na produtividade e nas eficiências dos processos.”

A usina do futuro, segundo Fernandes, deverá ser aquela com capacidade de processar eficientemente qualquer tipo de cana, tenha ela 20% de ART e 12% de fibra ou 10% de ART e 25% de fibra, como a cana energia, durante 330 dias consecutivos, e que seja capaz de produzir diretamente açúcar branco de 50 ICU de cor, sem necessidade de refinação, através de ultrafiltração. Simultaneamente, ela deve ser capaz de processar vinhos com teor alcoólico mínimo de 15° GL, adotando as boas práticas das cervejarias, como por exemplo, uso intensivo de água gelada. Também deverá contar com processos eficientes de destilação-concentração de vinhaça integrado-desidratação, adotando técnicas mais modernas, como por exemplo, a pervaporação. No que concerne à geração e exportação de energia elétrica, a usina do futuro deverá produzir 200 kW por t de cana e exportar 170 kW por t cana, processando o bagaço e a palha disponível da cana.

“Para alcançarmos tal usina num futuro próximo, é imprescindível aumentar expressivamente os investimentos em P&D e que haja uma mudança de postura dos diretores e gerentes, para que pensem constantemente ‘fora da caixa’, aceitem desafios e recusem o desestimulante ‘não dá para fazer, nunca foi tentado’. Alguém acha que estes resultados são utopia? Dê uma olhada para os últimos 15-20 anos e relembre o patamar que estava nossa agroindústria e onde ela se encontra hoje. Tínhamos perdas de 20% do açúcar processado e hoje estamos em 10%. Eficiências dos sonhos? Perdas máximas de 5% na indústria! Possível? Sim, mas somente com incremento em P&D e a formação de um dream team de pesquisadores, como nos áureos tempos do Proálcool”, conclui o gerente da Fourteam.

 

Além do modelo de moenda utilizado pelas usinas, Rodrigues aponta outros gaps a serem resolvidos:

- Matéria-prima: cana crua sem impurezas vegetais e minerais;

- Limpeza de cana a seco: atingir um nível de separação total da matéria estranha não inferior a 85%, no curto prazo, e de não menos de 90% no médio prazo;

- Preparo: somente um desfibrador de alimentação vertical, pesado, com martelos utilizando cabeças postiças de carboneto de tungstênio, vida útil não inferior a 600 mil t de cana e índice de preparo não inferior a 90%;

- Primeiro terno: provido de Continuous Pressure Feeder, com extração de caldo de 78% a 82%;

- Embebição: com taxa não inferior a 250% fibra, controlada pelo brix do caldo misto, que deve ser da ordem de 13,5%. (A moenda não pode mais ser penalizada pela incapacidade dos engenheiros de processo em encontrar soluções custo-efetivas, confiáveis, de alta disponibilidade e mantenabilidade para o aquecimento do caldo, a evaporação e o cozimento do açúcar);

- Número de ternos: não mais do que cinco ternos, sendo o primeiro e o quinto providos de Continuous Pressure Feeder e os demais ternos com dois rolos, providos de dispositivos de controle de reabsorção.;

- Extração da bateria: maior que 96,5%, para uma cana de pol não inferior a 14,2%, e fibra na ordem de 12,5%;

- Máxima umidade do bagaço em 50% e máxima pol do bagaço de 1,9%;

- Moagens horárias: as mesmas obtidas pelas bitolas atualmente disponíveis.

 

 ESPECIAL

 

 
Afinal, você sabe qual é a melhor opção para os canaviais? Com a escolha correta, especialistas dizem ser possível reduzir a compactação do solo e o consumo de combustível nas operações agrícolas

 

Embora a mecanização da colheita de cana-de-açúcar tenha reduzido os custos da operação, resolvendo a questão da queimada e da falta de mão de obra, traz como um dos impactos negativos a compactação dos solos, um problema que se tornou um dos mais preocupantes para os produtores de cana, uma vez que causa redução da produtividade e, consequentemente, prejuízos financeiros ao produtor.

A compactação depende da natureza do solo, sua umidade, a cultura plantada e a carga aplicada na superfície. No caso da cana-de-açúcar, a passagem sucessiva de máquinas gera processos de compressão e de arrancamentos, o que reduz a capacidade de circulação do ar, de infiltração e de enraizamento da planta, trazendo impactos econômicos, como a redução dos rendimentos agronômicos, risco de desenvolvimento de fungos/pragas e necessidade de recorrer a trabalhos de regeneração como a descompactação, a qual consome combustível e tempo.

Por isso mesmo, tentar evitar ou minimizar os efeitos da compactação do solo fica muito mais barato do que arcar com os custos das operações mecânicas necessárias para a quebra da camada compactada, que exigem tratores de alta potência e envolvem grandes gastos. Mas como fazer isto?

Segundo trabalho desenvolvido pelo engenheiro agrônomo Oswaldo Julio Vischi Filho, junto à Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, umas das soluções é conhecer a capacidade de suporte de carga dos solos e as pressões sobre eles exercidas pelos maquinários pesados empregados, dimensionando-os de forma a não causarem danos à estrutura física dos terrenos.

Dentro desta questão, a escolha correta dos pneus agrícolas, por exemplo, pode ser um fator importante para a redução da compactação. Kléber Pereira Lanças, professor Titular do Departamento de Engenharia Rural da FCA/Unesp de Botucatu e coordenador do Nempa (Núcleo de Ensaios de Máquinas e Pneus Agroflorestais), afirma que o peso das máquinas agrícolas no solo, assim como a ação dos seus órgãos ativos, tais como discos de corte, faquinhas, hastes e os rodados como esteiras e pneus, são hoje os principais causadores da compactação dos canaviais, pois eles transferem todo o peso da máquina para o solo. Portanto, saber utilizar corretamente os pneus pode diminuir significativamente a compactação.

“A área de contato do pneu com o solo (que distribui a força na forma de pressão) é a responsável pela maior ou menor compactação, juntamente com o peso do rodado. Como a cultura de cana-de-açúcar apresenta uma grande movimentação de máquinas principalmente na colheita, com certeza, a seleção e a regulagem correta dos pneus influência bastante nos níveis de compactação”, adiciona.

Hoje o setor tem a sua disposição dois modelos para aplicação nos canaviais: os pneus diagonais e os radiais. No entanto, o modelo que continua predominando dentro do setor ainda é o diagonal. Isto ocorre, segundo o especialista em Motomecanização e diretor da Sigma Consultoria, Luiz Nitsch, devido à crise e a necessidade de redução dos custos de manutenção automotiva, o que faz com que os pneus diagonais voltem a ser a primeira opção do produtor, como transcorreu por décadas.

O cenário hoje é mais ou menos assim:

- Em veículos leves e utilitários já é maciça a aplicação de radiais;

- Em caminhões plataformas e rebocadores (cavalos tratores) já é grande, porém não absoluta, a aplicação de radiais;

- Em caminhões auxiliares, como comboios, caçambas, carros-oficina, pipas etc, não existe predominância nem de radiais nem de diagonais, pois ambos são utilizados;

- Em reboques canavieiros é maciça a aplicação de diagonais;

- Em tratores agrícolas predominam, por pequena margem, os radiais sobre os diagonais.

- E em transbordos ainda predominam os diagonais.

 

DIAGONAIS X RADIAIS: AFINAL, QUAL É A DIFERENÇA?

Você que não tem muita intimidade com o mundo dos pneus deve estar se perguntando: mas afinal, qual é a diferença estrutural entre os pneus diagonais e radiais, e o que fazem deles melhores ou piores para as aplicações nos canaviais?

Os pneus foram introduzidos no meio agrícola a partir da década de 30 e essa inovação tecnológica trouxe uma série de vantagens aos equipamentos responsáveis por desenvolver tração. Várias pesquisas foram desenvolvidas a fim de incrementar o desempenho dos pneus e, em meados dos anos 40, foi desenvolvido o pneu de construção radial, que dispõe suas lonas formando um ângulo de 90º com o eixo de rotação, enquanto o pneu diagonal apresenta ângulo de aproximadamente 45º.

Segundo Nitsch, nos pneus diagonais, também chamados bias ou convencionais, as lonas que compõem a carcaça do pneu (aonde é vulcanizada a banda de rodagem) são sobrepostas de modo transverso. O topo e os flancos não são interdependentes e as deformações e flexões de uma parte são transmitidas à outra. A sobreposição das lonas forma uma camada espessa, menos flexível e mais propensa ao aquecimento. E as lonas utilizadas são fabricadas normalmente com fibras têxteis.

Já um pneu radial é composto, por um lado, por uma carcaça flexível, disposta de maneira radial, e por outro, por armadura metálica que estabiliza a banda de rodagem. O trabalho dos flancos é, portanto, independente do trabalho da banda de rolamento. “O resultado disto é vantajoso em relação ao diagonal, no que se refere ao contato da banda de rodagem no solo em curvas, pois sendo a carcaça mais flexível, a área de banda se mantém ‘colada’ ao piso. Todavia, o flanco (lateral do pneu) do pneu radial é mais frágil quando agredido por agentes externos, tais como paus, pedras, cantos de guia etc. O diagonal, neste aspecto é bem mais resistente”, afirma Nitsch.

Além de maior contato com o solo, os especialistas em geral afirmam que os radiais causam menor compactação do solo. Segundo Lanças, os pneus radiais, por sua constituição (fibras radiais e lonas) apresentam uma maior aptidão ao gerarem maiores áreas de contato com o solo e, portanto, menores pressões nestes, enquanto os pneus diagonais apresentam a necessidade de terem maior pressão e, desta forma, acabam gerando menores áreas de contato, influenciando na tração e na compactação.

Dois pneus de mesmas medidas, mas um sendo radial e o outro diagonal apresentam diferentes footprints. De acordo com Christian Mendonça, diretor de Comércio e Marketing da Michelin na América Latina, empresa percursora na fabricação de pneus radiais, além da maior estabilidade no solo, este modelo de pneu fornece uma força de tração e potência na barra 8,5% maior, índice de patinagem 28% menor, velocidade de deslocamento 7% maior e redução de pegada (footprint) de até 31%, uma diferença que sobe para 70% quando compara-se aos pneus com tecnologia Ultraflex.”

Mauro Oliveira, gerente de Vendas para América do Sul da Trelleborg, resume as principais vantagens dos pneus radiais:

- Maior absorção a impactos;

- Redução no consumo combustível (l/h);

- Maior produtividade ha/h;

- Maior conforto para o operador e menor vibração no trator;

- Maior área de contato e menor compactação do solo;

- Maior poder de tração;

- Desgaste regular do pneu;

- Menor aquecimento do pneu, o que proporciona maior durabilidade;

- Menor resistência ao rolamento;

- E maior vida útil.

Se o modelo radial parece oferecer mais benefícios em suas aplicações no campo, por que no mercado brasileiro de pneus agrícolas eles ocupam apenas 6%, enquanto na Europa 87% do mercado é dominado por radiais? A preferência, não só das usinas, mas também de outros segmentos do agronegócio, segundo Nitsch, se dá principalmente pela diferença de custo entre os dois tipos de pneus. “O valor do pneu diagonal é, em média, 35% a 44% mais barato que o modelo radial.”

Lanças acredita que além do valor ser mais alto, em algumas situações o produtor opta pelos diagonais porque os radiais, por terem o flancos menos resistente, sofrem avarias por corte, o que inviabiliza sua utilização ou reparo. “Estes casos acontecem em locais que estão sendo desbravados, locais com pedras e em sistema de plantio direto na palha, onde os colmos da cultura anterior provocam micro fissuras nos pneus que vão se intensificando até seu descarte. O algodão e a floresta plantada são algumas dessas culturas. Por outro lado, apesar dos pneus radiais serem mais caros, apresentam uma vida útil maior (em solos limpos, sem a presença de tocos, raízes e pedras) e, em muitos casos, a avaliação do custo/benefício acaba sendo mais favorável a eles.”

Oliveira afirma que as razões que mais contam na hora da escolha dos pneus pelas usinas e produtores de cana são:

- O custo inicial de aquisição, que no caso do pneu diagonal é menor se comparado ao radial, porém o correto seria considerar o valor do produto durante toda sua vida útil;

- A dificuldade em acompanhar toda a vida útil dos produtos e compará-los. O pneu de construção radial sempre vai proporcionar um menor custo por hora trabalhada, se comparado com o seu concorrente diagonal na mesma condição de trabalho.

- A dificuldade de agregar outros benefícios na composição de custos da empresa. Por exemplo: um trator equipado com pneus radiais produz mais (ha/h) com menos (l/ha), além do ganho agronômico da menor compactação do solo.

- E a questão cultural, que leva o produtor a imaginar que todo pneu agrícola vai ser sucateado por acidente e, devido a isso, prefere adquirir um produto mais barato.

Para Mendonça, os principais fatores que fazem com que os produtores utilizem menos pneus radiais é a falta de informação e conhecimento. “O agricultor sempre se preocupou em obter as máquinas mais modernas do mercado, mas se esqueceram de conferir as tecnologias em pneus. O que acontece também é que as áreas de compras das unidades sempre deram foco ao preço de saída do pneu e nunca pensaram nos benefícios gerais e a longo prazo das tecnologias radiais. Fizemos testes de consumo de combustível e observamos que é possível reduzir em até 31%, então, se você coloca isso na ponta do lápis, percebe um custo-benefício muito grande.”

 

MERCADO DE RADIAIS E DIAGONAIS

Com o intuito de aumentar o uso de pneus radiais no Brasil, a Michelin passa a produzir pneus agrícolas no Brasil a partir deste ano, em sua fábrica localizada no Rio de Janeiro. Além da tecnologia radial, a empresa levará à sua linha de produção agrícola, a tecnologia Ultraflex, uma inovação que permite o trabalho sob baixa pressão, compactando menos o solo e obtendo melhor rendimento.

“Ao iniciar a fabricação de pneus agrícolas na América do Sul, a Michelin tem o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de uma produção agrícola com a preservação máxima do solo”, afirmou Nour Bouhassoun, presidente da Michelin na América do Sul, durante inauguração da linha de produção no Brasil, que ocorreu no último mês de junho.

Os modelos radiais voltados ao setor canavieiro produzidos no Brasil a partir de agora serão o CargoxBib - destinado aos veículos de transporte de cana-de-açúcar e carretas agrícolas – que tem como características maior resistência de rolagem, capacidade de carga e proteção do solo, possibilitando o transporte de cargas pesadas em baixas pressões e/ou em alta velocidade; o MachxBib, destinado a tratores de alta potência e que proporciona economia de combustível e tração (transferência de torque), podendo ser utilizado para carregar grandes cargas sob pressões ultrabaixas; e o AxioBib, desenvolvido para máquinas agrícolas de alta potência (de mais de 250 cv), oferecendo melhor tração e menor resistência à rodagem. Isto significa, segundo Mendonça, um ganho de produtividade com menor tempo trabalhado e economia de combustível.

“Este modelo é o único com a denominação IF (Increased Flexion - que em português significa “Flexão Aumentada” ou “Maior Flexão”), estabelecida pela Tire and Rim Association dos Estados Unidos. Segundo um estudo independente realizado pela universidade britânica Harper Adams, o aumento de produtividade de uma lavoura é de 4% quando todas as máquinas envolvidas na produção têm os pneus radiais substituídos por pneus com a tecnologia Michelin Ultraflex IF (Increased Flexion) e VF (Very High Flexion)”, destaca.

Resultados do uso de pneus radiais na Ferrari Agroindústria, localizada em Porto Ferrari, SP, mostram que a unidade reduziu em 55% os gastos com pneus de 2010 a 2015. De acordo com o gerente de Manutenção Automotiva da Ferrari Agroindústria, Edimilson Gomes Leal, até 2010 observava-se uma grande incidência de perdas causadas principalmente por fogo, estouro e pela baixa vida útil dos pneus. “A partir de 2010, decidimos utilizar uma linha de pneus da Michelin para equipar parte dos nossos equipamentos e, ano a ano, fomos acrescentando mais pneus radiais. A consequência disso foi um maior desempenho, menor custo operacional e menor consumo de combustível”, afirma.

Julio Malvestiti, supervisor de Planejamento e Controle de Manutenção da Ferrari Agroindústria, revela que fazendo uma comparação entre os pneus dos transbordos que foram trocados entre 2009 e 2015, observou-se que o consumo de 0,471 l/km caiu para 0,432 l/km, ou seja, houve uma economia real de 8,3% na troca dos diagonais pelos radiais.

“O segundo aspecto, e talvez o mais importante, é a redução de sucateamento, ou seja, perdas de pneus. Em 2010 nós tivemos um sucateamento de 111 pneus, gastando R$ 458 mil. Foi quando iniciamos a aplicação dos pneus Michelin. Em 2011 nós observamos os primeiros resultados. Sucateamos 68 pneus ao gasto de R$ 284 mil. Em 2012 o resultado melhorou mais ainda. No entanto, neste mesmo ano de 2012, a empresa optou por avaliar um pneu de outra marca e imediatamente, em 2013, saímos de um sucateamento de 53 pneus para 97, gastando R$ 399 mil. A partir daí tomou-se a decisão de usar somente os pneus Michelin e, em 2014 voltamos a sucatear 68 pneus, gastando R$ 252 mil. O ápice da aplicação ocorreu em 2015, quando reduzimos o sucateamento para 44 pneus, o menor número da história, com um gasto de R$ 206 mil. Resumindo os resultados, conseguimos uma redução de 55% de gastos com pneus de 2010 para 2015”, revela.

Os testes realizados pela usina, mostraram ainda que, enquanto a marca A proporcionou uma vida útil de 11 mil km e a B de 14 mil km, com a Michelin atingiu-se uma vida útil de 31 mil km, ou seja, um resultado 162% maior. Se o foco for o salto por tonelada, ou seja, reais gastos com pneus de alta flutuação por tonelada, a empresa obteve uma redução de 64%.

“Outro ponto analisado foi a aplicação de pneus Ultraflex nos tratores de 200 cv. Com o uso de outros pneus radiais, o consumo era de 24,57 l/ha e quando começamos a utilizar a tecnologia flex, passamos para 21,19 l/ha, uma redução de 10,7% l por ha. Em resumo, esta experiência tem como destaque a redução de combustível, aumento na produção ha por hora, a redução de reais por pneu, ou seja, uma compra menor de pneu, mesmo pagando mais caro. E também uma redução significativa da manutenção em campo”, aponta o supervisor de Planejamento e Controle de Manutenção da Ferrari Agroindústria.

Com a produção do pneu no Brasil, a Michelin vai ampliar parceria com fabricantes de máquinas, que agora sairão de fábrica com os pneus da marca. A Antoniosi, fabricante de plantadoras de cana, transbordos e outros implementos, é uma destas empresas. “A Michelin tem sido um grande parceiro da Antoniosi com um pneu de grande performance e que tem trazido grandes benefícios aos nossos clientes. Nós fizemos vários ensaios no campo e comprovamos a eficiência dos pneus radiais. Isso tem trazido aos nossos clientes uma economia confirmada de 5% de combustível”, afirmou Alex Antoniosi, diretor da Antoniosi.

Apesar de acreditar que a tendência é a migração para pneus agrícolas radiais, a Pirelli afirma que os líderes de vendas no segmento agrícola da marca ainda são os pneus da linha diagonal - a TM95, que conta com mais de 40 pneus diferentes entre medidas e capacidades de carga, e que atualmente é o líder de vendas no Brasil, tanto no mercado de reposição quanto no equipamento original. “Os de construção convencional ainda representam 93% do total de mercado, mas isso deverá mudar nos próximos anos”, salienta Alexandre Stucchi, gerente de Marketing da Pirelli.

Hoje, os modelos da Pirelli mais usados no setor canavieiro são os da família PHP, principalmente nas medidas 710/70R38 e 600/65R28, que equipam tratores de alta potência, e os pneus das famílias HF75 e o radial HF85, cuja principal característica é a alta flutuação.

“O HF85 possui estrutura reforçada com cinturas metálicas, banda de rodagem mais plana com melhor distribuição de peso e desenho da banda que garante excelente autolimpeza, além de maior estabilidade e conforto. Como benefícios, o HF85 tem alto índice de carga mesmo em velocidades superiores aos 65 km/h, baixa compactação do solo, baixa rumorosidade e excelente tratividade. Já a linha PHP, a segunda geração de pneus radiais agrícolas desenvolvida no Brasil, possui rendimento quilométrico até três vezes superior a um pneu convencional equivalente, além de ajudar na economia de combustível e redução de emissão de CO2. ”

Os consagrados FG85 e TG85 também são opções da Pirelli desenvolvidas especialmente para o setor e contam com tecnologia HETT (High Elongation Technology for Truck), que permite à borracha estar em volta dos fios metálicos, conferindo ainda mais resistência às deformações e aos impactos.

Além das consagradas linhas de pneus convencionais para tratores e máquinas agrícolas - a TM95, TM75, MB39, TD500 e RA45, a empresa oferece diagonais de alta flutuação, como o HF75, que foi produzido com o objetivo de minimizar a compactação do solo e aumentar a capacidade de carga do veículo com melhor tração, graças ao desenho diferenciado do fundo da banda de rodagem.

A Trelleborg, desde seu início no Brasil, tem buscado trazer soluções para o setor canavieiro. Segundo Oliveira, a empresa desenvolveu o primeiro pneu agrícola para transbordo de cana usando o conceito de baixa compactação do solo e, recentemente, desenvolveu uma linha de pneus radiais - a TM800 Sugarcane.

“A nossa linha de radiais para o setor canavieiro abrange pneus para tratores, pulverizadores, transbordos e carretas. O diferencial está na tecnologia aplicada. São pneus com menor pressão de inflação, diminuindo a compactação do solo – conceitos IF e VF, ou seja, possuem a mesma capacidade de carga, porém com menor pressão; são fabricados sob o preceito da Blue Tecnology, um processo que permite uma produção mais sustentável e pneus de maior performance, aumentando a eficiência produtiva da operação, reduzindo o consumo de combustível e, consequentemente, a emissão de CO2; e possuem Progressive Traction, que ganhou vários prêmios de tecnologia no mundo, onde através do especial desenho das garras conseguimos maior poder de tração, ganhando na eficiência operacional e reduzindo o consumo de combustível”, detalha Oliveira.

No mercado de convencionais o grande destaque da companhia é a linha de pneus diagonais cinturados (bias-belt) para tratores e implementos. Segundo Oliveira, a tecnologia bias-belt proporciona benefícios idênticos aos pneus radiais. “Apesar das tecnologias oferecidas, a maior parte de pneus para tratores e equipamentos agrícolas comercializadas para o segmento sucroalcooleiro pela Trelleborg são de construção radial e acreditamos que essa tendência vai se manter, pois de cada dez agricultores que conhecem ou tem a oportunidade de avaliar o seu trator com pneus radiais, a esmagadora maioria (9 X 1), se mantem fiel ao pneu de tecnologia radial. ”

Stéfano Mercúrio, gestor da Linha Pesada da Dpaschoal, afirma que os modelos radiais mais vendidos para o setor são o 710/70R38 e o 600/65R28. No entanto, os mais usados em transbordos ainda são os diagonais de alta flutuação e de dimensão 600/50-22,5. “Agora já possuímos também o pneu 600/50R22,5 radial, que busca oferecer uma menor compactação do solo e maior performance. No entanto, 95% dos pneus agrícolas comercializados pela Dpaschoal ainda são diagonais. O mais vendido para a aplicação em transbordo são os da linha Superflot.”

PRESSÃO CORRETA

O pneu, em contato com o solo, constitui uma solução que permite limitar a prensagem e a formação de sulcos. Neste domínio, a qualidade de um pneu agrícola reside em sua capacidade de suportar cargas pesadíssimas com pressão muito baixa. A pressão de um pneu é quase idêntica à pressão média exercida sobre o solo. Por exemplo, se a pressão no pneu é de 15 PSI, a pressão exercida sobre o solo será de aproximadamente 1 kg/cm2. Assim, quanto maior for a pressão do pneu, maior será a pressão sobre o solo e mais elevado o nível de compactação e de formação de sulcos. Mas como então melhor dimensionar esta pressão?

Para Nitsch, a questão da calibração da pressão de inflagem do pneu, seja ele do tipo que for, veicular, agrícola ou industrial é, sem a menor dúvida, o fator mais importante na vida útil de um pneu. Lenta, mas gradualmente, os gestores automotivos têm dado cada vez mais importância à calibração dos pneus, inclusive encurtando os períodos de verificação da pressão recomendada para o trabalho específico.

“Usinas com Gestão Automotiva competente, aperfeiçoaram seus pits tops e borracharias, equipando-as com dispositivos especiais para calibragem múltipla de pneus, reduzindo significativamente os tempos gastos nestas operações. A opção de um calibrador portátil alimentado pela pressão dos freios pneumáticos também ajuda sobremaneira a manutenção da calibração. Estes equipamentos garantem a calibração correta dos pneus veiculares e agrícolas, cujos valores de inflagem devem ser aqueles recomendados pelos fabricantes. Por fim, a aferição periódica da profundidade com o uso de um medidor especial, determina o momento correto de remover o pneu para reforma”, explica.

 

QUAL ESCOLHER?

Mesmo que os modelos radiais do mercado aparentem ser muito melhores para as aplicações nos canaviais, é preciso estudar caso a caso. Nitsch destaca que existem benefícios para ambos os tipos de pneus. “Usinas bem organizadas, por exemplo, possuem em seus bancos de dados o custo histórico por km/horas de utilização. Então, não há argumento técnico no mundo que consiga convencer um bom gestor de que ele deve mudar a especificação de um pneu que historicamente é mais econômico do que outro!”

Ainda de acordo com ele, é preciso lembrar que o custo histórico abrange todas as vidas de um pneu, desde novo (primeira vida) até o descarte (após a derradeira ressolagem). “Olhando por este lado, estatisticamente, os pneus radiais proporcionam mais reformas e furam menos, enquanto os diagonais são muito pouco afetados por impactos no flanco. O descarte ideal de um pneu é a senilidade, ou seja, a impossibilidade de uma nova ressolagem. Mas, infelizmente, em média, menos de 44% dos pneus veiculares e 35% dos agrícolas ‘morrem de óbito natural’. Impactos na banda de rodagem e flanco, fissuras circunferenciais próximas ao talão e queimaduras no talão geradas por superaquecimento dos freios, são as causas campeãs da morte prematura dos pneus”, enfatiza Nitsch.

Para Lança, como no futuro da cana-de-açúcar está a adoção do tráfego controlado e o sistema de piloto automático para todas as fases da cultura, desde o preparo do solo, plantio, tratos culturais até a colheita, sendo todos eles mecanizados, os pneus muito provavelmente sofrerão diversas modificações e surgirão novas opções. “Provavelmente, a era da radialização dos pneus já esteja iniciando sua entrada para a história”, finaliza.

 

 ESPECIAL

 

O que podemos vislumbrar para daqui dez anos? Teremos o plantio comercial de MPB? A tão esperada cana semente? Ou deveremos continuar com o plantio mecanizado convencional, só que com máquinas mais avançadas?
 

Mesmo com todas as atenções voltadas para a expansão e desenvolvimento da colheita mecanizada, acelerada graças à assinatura do protocolo ambiental, os últimos dez anos também foram marcados, sem dúvida, por grandes mudanças no sistema de plantio de cana, que agora começa a vislumbrar, num horizonte não tão distante, uma evolução ou quem sabe uma verdadeira revolução, não só na forma de se pensar o plantio, mas principalmente na forma de fazê-lo. Será o futuro do plantio o MPB? Ou teremos finalmente a tão esperada cana semente? Ou ainda vamos continuar o modelo de plantio mecanizado convencional de cana tolete, mas com máquinas mais avançadas? Qual é a sua aposta?

Por volta de 2010, ao mesmo tempo em que as fabricantes de máquinas se esforçavam para evoluir os projetos de suas plantadoras, nasciam novos estudos e ideias sobre qual seria o modelo de cana ideal para o plantio. Em 2011, após quatro anos de estudos, surgia o Plene, método desenvolvido pela Syngenta e que preconizava o plantio de mini toletes previamente tratados com produtos químicos adicionados diretamente à gema da cana. Estes pequenos toletes tinham 4 cm e vinham tratados contra doenças e pragas, permitindo que fosse possível fazer um plantio com apenas 2 t de colmo por ha, uma enorme evolução diante do que até então era feito, plantio de colmos de 40 cm e com o gasto de, pelo menos, 12 t de colmos por ha (no método manual).

O idealizador do projeto foi o pesquisador Antonio Carlos Nascimento que contou, em entrevista concedida na época do lançamento do Plene, que apesar da ideia de mini toletes já existir há mais de 20 anos, a inserção de produtos químicos na gema da cana com o objetivo proteger suas propriedades germinativas era algo que ainda não havia sido estudada.

Depois de seu lançamento em 2011, a empresa chegou a vender R$ 400 milhões em Plene para grandes grupos do setor sucroenergético. A primeira a assinar contrato com a Syngenta para a aquisição do produto foi a Usina Guaíra, de Guaíra, SP. Depois vieram algumas usinas do Grupo Guarani, uma usina de Moçambique, na África, o Grupo São Martinho e a usina Diana, que chegou a investir quase R$ 90 mil em 35 ha de sua área.

A Syngenta também investiu pesado. Injetou R$ 119 milhões na construção de uma fábrica em Itápolis, SP, e em pesquisa e desenvolvimento da tecnologia, que chegou a ser disseminada em 600 ha comerciais até aquele ano, com previsão de, até 2015, ter pelo menos 350 mil ha em todo o País. Mas acabou não dando certo. Isto porque, o shelf-life (vida útil) do Plene, por ser muito curto, inviabilizou a sua produção em larga escala, fazendo com que a empresa retornasse o desenvolvimento para o laboratório em 2012 para reformulação.

Um ano depois, em 2013, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) apresentava a Muda Pré-Brotada (MBP), uma técnica desenvolvida com o intuito de aumentar a eficiência e os ganhos econômicos na implantação de viveiros, replantio de áreas comerciais, renovação e expansão de áreas de cana-de-açúcar, contribuindo para uma rápida produção de mudas, associando alto padrão de fitossanidade, vigor e uniformidade de plantio.

 

EVOLUÇÃO DO SISTEMA MPB

Cury faz o plantio de MPB em método de Meiosi e, a partir de 2016, o fará também em Cantonsi na sua propriedade, localizada na região de Ituverava, SP (Foto: Tadeu Cury)Cury faz o plantio de MPB em método de Meiosi e, a partir de 2016, o fará também em Cantonsi na sua propriedade, localizada na região de Ituverava, SP (Foto: Tadeu Cury)

Apesar de ainda não existir um balanço concreto sobre o número de unidades produtoras de cana que já fazem o uso do MPB, depois de lançada no mercado em 2013, é perceptível, ao conversar com produtores e usinas, que a sua adesão foi enorme. Melhorar a qualidade das mudas, aumentando sua sanidade, facilitar a disseminação de novas variedades de cana e trazer aumento de produtividade eram algumas das premissas da tecnologia. Três anos se passaram e pergunto aos especialistas e produtores: isto de fato se cumpriu?

Cristiano Peraceli, gerente de marketing para Cultura de Cana da Basf, avalia que a expansão da tecnologia está dentro do planejamento estabelecido e com resultados extremamente positivos em relação àprodutividade da cana, que chega a aumentar em até 40%. “Vale destacar também que os plantios são mais uniformes e isentos de doenças, principalmente do sphenophorus levis, praga que tem um alto poder destruidor.”

Para Erich Stingel, gerente de Supply Chain do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), o novo sistema traz, de fato, aumento nas taxas de multiplicação, se comparado ao sistema convencional de plantio, e tem sido uma oportunidade interessante para disseminação rápida de novas variedades de cana, permitindo que os produtores usufruam mais rapidamente dos benefícios decorrentes do uso de variedades mais modernas em escala comercial.

“A redução dos riscos de disseminação de pragas e doenças e a expectativa de ganhos de produtividade também tem despertado o interesse dos produtores. Contudo, é importante lembrar que, para que realmente haja um aumento de produtividade nos hectares plantados com mudas pré-brotadas, além da escolha de variedades de alto potencial genético, é necessário que o material utilizado na sua produção seja extraído de viveiros com alto vigor e qualidade fitossanitária”, adiciona.

Ismael Perina, produtor de cana e presidente do Sindicato Rural de Jaboticabal, faz uso do sistema de mudas pré-brotadas Agmusa e diz que fica emocionado ao falar sobre a evolução da tecnologia e sua contribuição para os canaviais.

Ele começou a plantar MPB há três anos e, desde lá, a cada ano, tem se empolgado cada vez mais com os resultados e a melhoria dos canaviais que tem implantado em sua fazenda. “Durante um bom período fomos os grandes responsáveis por disseminar doenças, ervas daninhas e pragas através do transporte de colmos que serviriam como mudas, mas o sistema MPB acabou com isso. Um canavial formado com muda de qualidade e com isenção de pragas e doenças é insumo fundamental para produtividade.”

Perina utiliza as mudas pré-brotadas basicamente em método Meiosi (Método Inter-rotacional Ocorrendo Simultaneamente) para a formação de áreas comerciais e afirma que os resultados têm sido surpreendentes. “O grande ganho é na redução do custo de plantio, que chega a ser de R$ 2.500 por ha. A sanidade e qualidade são premissas básicas para produtividade e o que posso adiantar é que em boa parte das áreas que tenho plantado desta forma, a produtividade superou 110 t/ha nos primeiros três cortes já realizados. Entendo isso como um ponto significativo. Não me passa hoje pela cabeça que algum produtor plante alguma área comercial sem que a base de sua formação não tenha vindo de viveiros de qualidade, com sanidade e verificações constantes de pureza. Aliás, no ‘bê-á-bá’ da produção agrícola, seja ela qual for, a semente tem que ser boa. E com a cana não pode ser diferente”, destaca.

Tadeu Nascimento Cury, produtor de cana da região de Ituverava, SP, começou a fazer o uso de MPB na safra 2015/16, quando foi plantada uma área de 30 ha, e tem obtido bons resultados também. Suas mudas são compradas exclusivamente com a Syngenta porque, segundo o produtor, além da empresa ter acumulando muito conhecimento ao longo dos anos com o desenvolvimento do Plene, também oferece mudas mais rustificadas e com substrato maior que o da concorrência, tornando-as mais resistentes no campo.

“A escolha pelo uso das mudas provenientes de meristema, ao invés das mudas provenientes de uma seção do tolete (mini rebolo), se deram por conta não só da alta sanidade como também pelo maior perfilhamento. Se por um lado a muda proveniente de meristema tem maior sanidade, por outro, as mudas advindas dos mini rebolos são mais rústicas e garantem um mínimo de nutrição para a planta, conferindo uma maior resistência ao estresse hídrico. Mesmo assim, observamos que as mudas provenientes de meristema têm um maior perfilhamento em relação às plantas de MPB”, aponta o produtor, que nesta safra já programou o plantio de 35 ha de mudas pré-brotadas.

Edivaldo Rio, professor e especialista em agronegócio da UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais), conta que nos experimentos e trabalhos acadêmicos realizados no campo da universidade, no qual se faz o uso das mesmas variedades de cana utilizadas nas usinas do Triângulo Mineiro, o sistema MPB, comparado ao sistema tradicional (plantio mecanizado ou semi-mecanizado), mostrou uma redução significativa da necessidade de replantio, que caiu para 0,04%.

“Outro benefício observado foi a redução da necessidade de adubação no plantio, assim como a facilidade de se realizar um sistema de irrigação simples de gotejamento, que facilmente pode ser transformado para uma realidade comercial”, afirma o pesquisador.

O Grupo Biosev produz e utiliza MPBs há várias safras, mas foi a partir de 2014 que o trabalho com esse sistema de plantio se intensificou na companhia. Segundo Ricardo Lopes, diretor Agrícola da Biosev, na última safra, a empresa plantou aproximadamente 3 milhões de mudas, o que é equivalente a uma área de 225 ha. “Atualmente, o plantio de MPB na Biosev tem como foco a formação de viveiros e introdução de variedades promissoras. Assim, temos conseguido garantir uma melhor sanidade das mudas e um plantio sem falhas e, em função dessa melhora, temos conseguido um avanço no rendimento das mudas, quando comparado ao plantio convencional. Cabe ressaltar que uma boa opção tem sido a prática do plantio em Meiosi também.”

 

ENFRENTANDO DESAFIOS

Um dos principais gargalos do sistema MPB apontados pelos produtores era a necessidade da irrigação e, principalmente, o alto custo das mudas, situação que vem, segundo Alessandra Durigan, gestora técnica da Canaoeste, sendo superada.

“No plantio de MPB, a irrigação é necessária, com maior e menor frequência, respectivamente, nas fases de pegamento e desenvolvimento das mudas. Tem que ter umidade no solo para uma boa performancedo material. Mas, caso o plantio seja realizado no período chuvoso e a chuvas forem bem distribuídas, a prática da irrigação pode até ser abolida. No caso do custo das mudas, atualmente temos no mercado mudas a preços mais acessíveis, mas preços estes que ainda podem melhorar, e muito! De qualquer forma, acredito que o importante é considerarmos o retorno a médio e longo prazo em produtividade agrícola e longevidade do canavial, desta forma, chegaremos à conclusão que todo o investimento inicial compensa, seja para a instalação de viveiros ou plantios comerciais. Outro ponto a ser analisado é a produção de MPB pelo próprio produtor, que diminui consideravelmente os custos”, afirma a gestora técnica da Canaoeste.

De acordo com Dario William Sodre, diretor da D2G Consultoria, usinas e produtores que estão desenvolvendo seus viveiros e produzindo a MPB internamente têm conseguindo custos na faixa de R$ 0,20 por muda, valor que no mercado chega a custar até R$ 1 por muda. “Tão logo seja difundida a tecnologia em maior escala, a tendência é que os custos adequem-se ao patamar, pois tecnicamente esse tipo de plantio apresenta as melhores condições geométricas de alocação de mudas, permitindo uma melhor utilização de água, nutrientes e luz para o desenvolvimento das plantas.”

Cury diz que apesar de ser necessária quando o plantio é feito em meados de junho a outubro, a irrigação não precisa ser vista como um gargalo, pois é uma operação simples de ser feita. “De novembro a fevereiro, não vejo tanta necessidade de irrigação (com um regime normal de chuvas). No primeiro ano de plantio de MPB, fizemos em novembro no método de Meiosi, havendo a necessidade de irrigação, e obtivemos excelentes taxas de multiplicação. Mas daqui para frente (de 2016 a diante), plantaremos MPB em método Cantosi em dezembro, após dez meses desdobraremos em Meiosi com tolete, e novamente desdobramos as Meiosis de fevereiro a março. Desta maneira, acabamos com a necessidade de irrigação no plantio da Cantosi em dezembro com MPB, e na Meiosi de outubro usaremos o tolete (provenientes da Cantosi plantada em dezembro) que tem maior resistência à seca. Desta maneira, diminuiremos os riscos de perdas por falta de água.”

Quanto o custo por muda, Cury afirma que quando se pensa em viveiro de mudas onde 1 hectare de MPB plantará 37 ha, o custo torna-se extremamente acessível financeiramente e agronomicamente. “Os ganhos são muitos, sendo ganhos mensuráveis e não mensuráveis. Entre os mensuráveis destaco a diminuição do consumo de mudas por hectare, a diminuição do custo de plantio, por não utilizar caminhões e guinchos, e o aumento da produtividade devido à sanidade. Entre os fatores não mensuráveis, temos a prevenção contra o Sphenophorus na área, possibilidade de venda de mudas a terceiros e, devido ao alto custo de implantação, acabamos zelando melhor por nossos viveiros de mudas e ainda desenvolvemos uma cultura de planejamento”, salienta Cury.

Mauro Alexandre Xavier, pesquisador do IAC, afirma que os desafios de custo e necessidade de irrigação são importantes, porém destaca ser necessário tratar as MPBs como uma engrenagem dentro de um sistema de produzir cana. Isso significa que é preciso rever e ajustar janelas de plantio e modelos e estratégias de produção de MPBs. “Certamente, dentro desta visão, haverá maiores possiblidades de tratar esses pontos considerados gargalos por alguns produtores.”

 

MPB EM PLANTIO COMERCIAL: VIÁVEL?

Alguns produtores e usinas têm testado pequenas áreas com MPB em plantio comercial. Este é o caso de Ismael Perina, que tem testado o sistema, no entanto, apenas com o intuito de gerar resultados. “Entendo ser a Meiosi o ‘pulo do gato’ para termos sucesso com essa tecnologia. Os custos são reduzidos assustadoramente e a qualidade e sanidade agregados de forma muito simples. E estou falando de redução de custos da ordem de 25% a 30% na atividade de plantio. É muita coisa. Com isso, posso ter canaviais comerciais com características de viveiro primário.”

Cury não faz plantio de MPB em áreas comerciais e crê que não seja viável devido ao alto custo de implantação. “Vejo a MPB no futuro exclusivamente para o replantio de falhas, onde, diga-se de passagem, ajudará, e muito, na questão da longevidade dos canaviais.”

Stingel afirma que já existem projetos utilizando mudas pré-brotadas para plantios de áreas mais extensas em andamento e é provável que estas iniciativas se multipliquem nos próximos anos. Todavia, acredita que o uso deste sistema em larga escala pelo setor só acontecerá se houver redução significativa do preço das mudas, aumento dos rendimentos de plantio e redução da dependência de irrigação após o plantio.

“Ainda hoje os custos de implantação de um canavial com mudas pré-brotadas são mais elevados, quando comparados ao plantio convencional, limitando o uso do sistema. Contudo, quando todos os critérios de qualidade são observados ao longo do processo de produção de MPB e o sistema é utilizado para acelerar o crescimento de variedades mais modernas, é possível verificar ganhos significativos de produtividade, o que justifica o investimento. Já a necessidade de irrigação após o plantio, pode ser considerada uma barreira importante ao uso das mudas pré-brotadas em larga escala, uma vez que a irrigação com água não é uma técnica usual para grande parte dos produtores. Já existem estudos em andamento, que buscam reduzir a dependência de irrigação para o estabelecimento das mudas, mas até o momento não existe nada de concreto, fazendo com que os produtores concentrem os plantios de mudas pré-brotadas nos períodos chuvosos. Outro aspecto relevante para ampliar o uso deste sistema é o desenvolvimento de máquinas de plantio que proporcionem menor demanda de mão de obra e aumentem o rendimento da operação, reduzindo os custos do processo”, observa Stingel.

Para Sodre é possível vislumbrar MPB em áreas comerciais, no entanto, isto dependerá do processo de transferência de conhecimento. “Se compararmos somente o custo da muda, a conta não fecha, mas tem que fazer o balanço total do ciclo. Esta proposta ainda irá contribuir para uma nova forma de plantio de cana nos próximos anos, no entanto, a tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento, principalmente em nível de plantios de larga escala.”

Experimentos realizados na UEMG estão revelando que pode haver potencial para o plantio comercial de MPB que, segundo Rios, só não é viável hoje por aspectos como: mecanização do plantio, preparo de solo diferenciado, sistema de adubação não tradicional e sistema de irrigação por covas.

“A maior deficiência encontrada nos experimentos, quando olhamos o lado comercial, é justamente a falta de tecnologia totalmente mecanizada em todas as etapas deste sistema, a começar com o preparo dos mini rebolos. Ainda não chegamos a um sistema automático que faça a 

leitura, por exemplo, da gema sem a interferência humana. Por consequência, esse processo ainda deve ser realizado de forma semi-mecanizado. Então, se os processos ainda precisam da interferência humana, não acho viável”, afirma.

Mas já existem estudos, inclusive com experimentos, para o desenvolvimento de um tubete produzido com a palha da cana que deverá facilitar o sistema de plantio, eliminando duas ações no momento do plantio e da adubação. “Buscamos uma logística de plantio mais eficaz. A ideia é acabar com a necessidade de sacar as mudas de dentro do tubetes, como ocorre nos tubetes de PVC, e fazer a aplicação do adubo necessário para o primeiro ciclo de crescimento já no tubete. Ainda não temos nenhum resultado positivo ou mesmo perspectivas sobre a produção de uma plantadora ou guilhotina, o que achamos ser necessário, mas já temos a produção dos tubetes pré-adubados na qual usamos 100% da palha da cana para a sua fabricação e os resultados vem sendo testados e validados nos experimentos.”

 

TECNOLOGIA EM TRANSPLANTIO: SOLUÇÃO PARA O AUMENTO DE ESCALA?

Com o intuito de atender rapidamente ao plantio de MPB, várias empresas fabricantes de máquinas notaram que era possível fazer o plantio dos tubetes de cana com o uso de máquinas usadas em outras culturas como a do tomate, fazendo poucas ou até mesmo nenhuma adaptação. E deu certo. Várias máquinas transplantadoras de abacaxi e tomate rodam plantando MPB. No entanto, a busca atual por melhorias no rendimento e na redução de custos com mão de obra, tem feito com que algumas empresas busquem tecnologias específicas para a cana.

A DMB iniciou um trabalho, em parceria com a Basf, para o desenvolvimento de uma transplantadora de mudas, entre 2012 e 2013, e trouxe ao mercado a primeira máquina voltada ao plantio de viveiros primários.

“Nossa máquina para plantio de MPB tem tecnologia nacional e nasceu de um projeto específico para a cultura da cana, mas com alguns conceitos vindos de máquinas de outras culturas. Ela realiza todas as operações para o plantio das mudas, desde a sulcação, adubação, aplicação de defensivos, cobrição e transplantio das mudas, sem a necessidade de duas ou mais operações, como ocorre com a maioria das plantadoras adaptadas de outras culturas”, destaca Rodrigo Salgado de Carvalho, gestor de Negócios da DMB, que revela que a expansão desta tecnologia está caminhando em duas frentes para a empresa. Uma com o pensamento na formação de viveiros e outra, ainda em processo embrionário, pensando já na questão de plantios comerciais com uso do MPB.

A Motoagro foi uma das empresas que descobriu um novo nicho de mercado com as mudas pré-brotadas. De acordo com Wagner Guidi, diretor comercial da Motoagro, a partir do modelo PMA1800, uma plantadora de mudas de abacaxi, a empresa identificou que poderia agilizar o plantio de outras culturas como a cana. “Hoje, este modelo de transplantadora de mudas da Motoagro já faz o plantio de mais de 1 milhão de mudas de MPB nas principais regiões produtoras do Brasil.”

Segundo Guidi já existem alguns produtores fazendo plantio comercial no sistema Meiosi e Cantosi com a transplantadora da empresa, que apresenta um rendimento de até 42 mil mudas de MPB a cada oito horas trabalhadas.

No entanto, para Cury, as transplantadoras de MPB ainda têm muito a evoluir. No ano passado, o produtor relata que fez o plantio de 15 ha com a transplantadora da empresa fornecedora das mudas e os outros 15 hectares foram plantados manualmente com matracas. “O que descobrimos, infelizmente, foi que o rendimento operacional e a qualidade foram muito melhores na operação manual do que com o uso da transplantadora. Mas de qualquer forma, nem mesmo a melhoria das transplantadoras de MPB trarão o plantio de MPB para as áreas comerciais. Não é possível por dois motivos: pelo alto custo das mudas e também pelo risco de falta de água para os MPBs plantados, sendo um alto risco para um custo alto de investimento.”

Adiantando-se aos possíveis desdobramentos do plantio de MPB, a TMA, empresa fabricante de plantadoras e distribuidoras de cana, já divulgou ao mercado o protótipo de uma transplantadora automatizada. A transplantadora, chamada TMPB, vem sendo desenvolvida desde 2013 e tem como principal destaque o pacote tecnológico da automação, que acaba com a necessidade de mão-de-obra para o transplantio das mudas.

Segundo Márcio Leão, gerente comercial corporativo da TMA, os experimentos com cana já foram realizados em áreas da companhia, mas novos testes serão realizados nos canaviais da Usina São Martinho a partir de agosto. “Houve muita procura de outras usinas interessadas em conhecer na prática a máquina e vê-la trabalhando no campo, então acredito que conseguiremos testá-la em outras unidades.”

A expectativa é que a máquina comece a ser comercializada no plantio de 2017. “Acreditamos que esta nova tecnologia poderá auxiliar num possível plantio comercial de MPB, pois é uma máquina que tem uma performance de plantio excelente, visando principalmente o alto rendimento com qualidade e sem falhas.”

A Basf também está desenvolvendo dois modelos de transplantadoras, que atualmente encontram-se em fase de teste e validação, mas que devem sim colaborar com o uso de MPB em plantio comercial. Segundo gerente de marketing para Cultura de Cana da Basf, uma delas é automática e voltada para o plantio em duas linhas e a outra é semi automática para plantio em uma linha.

 

CANA SEMENTE

A Usina Guaíra, primeira unidade sucroalcooleira a investir no Plene, chegou a fazer o uso da tecnologia em 80 ha de sua unidade. Gustavo Villa Gomes, diretor agrícola da Usina Guaíra, que acompanhou todo o processo, conta que apesar do canavial pós-Plene ter apresentado falhas em algumas linhas de plantio, o que fez com que se deduzisse que existia algum problema no tratamento daqueles toletes, o projeto não foi abandonado.

Mesmo com a Syngenta retornando com a tecnologia para o laboratório, Gomes conta que os 80 ha com o Plene permaneceram na unidade e já estão em seu quinto corte. No entanto, a cana da área experimental foi remanejada para mudas nos três primeiros cortes e agora, em seu quarto corte, partiu para a indústria. “Usei essa cana para muda durante muito tempo, porque o Plene tinha uma pureza genética e uma sanidade muito boa. Agora, em seu quarto corte ela foi para estágio comercial.”

Gomes não tem dados atualizados sobre o canavial que foi para a indústria, mas confirma que o modelo de plantio reduz significativamente o uso de mudas por hectare, assim como prometia a Syngenta. “Usamos menos toneladas por ha. Na época, usamos de 6 a 8 mini toletes por metro, ou seja, muito menos do que se faz no plantio convencional mecanizado.”

Com a reformulação do Plene, já divulgada em 2014, a Syngenta deverá trazer ao mercado a tão esperada cana semente a partir de 2017. O Novo Plene, ou Plene Emerald (esmeralda, referência à cor verde das cápsulas) promete substituir o sistema tradicional de plantio com colmos ou mudas por pequenas cápsulas que contem várias gemas. Segundo a empresa, que não quis se manifestar sobre a etapa atual em que a tecnologia se encontra até o fechamento desta edição, uma das vantagens será a grande redução no volume de material a ser movimentado nas áreas de formação dos canaviais.

Além disso, com vida útil significativamente mais longa em comparação ao conceito original do Plene, o novo produto deve melhorar a logística e tornar a tecnologia amplamente disponível. O shelf-life do Plene Emerald tem uma performance superior: pode ficar alguns meses armazenado com resfriamento até 12°C, dando mais flexibilidade tanto à Syngenta quanto ao produtor, segundo informações divulgadas por Daniel Bachner, diretor de Cana-de-Açúcar e Novas Soluções Latino-América da Syngenta. “Em nossas comunicações sobre o Plene Emerald, temos afirmado aos produtores que a nova tecnologia do produto vai trazer uma mudança, não apenas no plantio, mas também no processo de comercialização e exportação.”

O volume de cana no plantio também diminui drasticamente. Se no sistema convencional mecanizado são usadas 20 t de mudas por ha, no sistema desenvolvido pela Syngenta, serão precisos apenas 150 kg de cápsulas, de acordo com Bachner. Com isso, o equipamento de plantio pode ser menor e mais leve, reduzindo a compactação do solo. O menor volume também permitirá o uso de tratores de menor potência e o aumento no número de linhas, resultando em ganho de velocidade e eficiência do plantio. Será possível plantar até 90 ha por dia com uma máquina.

A previsão ainda é de que a tecnologia dispense a necessidade de formação de áreas de viveiro nos canaviais, o que vai permitir com que essa parcela do terreno possa ser destinada ao plantio comercial, aumentando a produção de açúcar, etanol e energia.

As sementes estão sendo produzidas em ambiente controlado e encontram-se em fase de adaptação às condições dos campos brasileiros nas principais regiões produtoras do Sudeste e do Centro-Oeste. O diretor agrícola da Usina Guaíra, uma das parceiras da Syngenta, revelou, em conversa com a RPAnews, que os testes com o Plene Emerald dentro da unidade devem começar ainda este ano.

O acordo de licenciamento exclusivo com a canadense New Energy Farms para acesso à tecnologia CEEDS é o que permitirá a produção do Plene Emerald em escala comercial. O plano é tornar a tecnologia amplamente disponível, com a abertura de novas biofábricas no país. Existe também um modelo de maquinário que estará disponível para os plantios comerciais em 2017, mas a empresa ainda não definiu os preços das sementes de cana.

 

O FUTURO

Perina revela que nas áreas de plantio de MPB em Meiosi a produtividade superou 110 t/ha nos primeiro três cortes já realizadosPerina revela que nas áreas de plantio de MPB em Meiosi a produtividade superou 110 t/ha nos primeiro três cortes já realizados

Pedimos a todos os entrevistados que respondessem como eles viam, daqui dez anos, o futuro do plantio de cana. O CTC, de acordo com Stingel, acredita que, no longo prazo, uma tecnologia que irá revolucionar o mercado de plantio é a semente de cana. Por isso, está desenvolvendo um projeto inovador que pretende solucionar as grandes barreiras enfrentadas pelo setor atualmente, como logística, sanidade, elevada demanda de áreas de viveiro, entre outras. “As pesquisas estão em andamento, mas já é possível dizer que será uma tecnologia que deverá revolucionar o mercado.”

O gestor de negócios da DMB, acredita que no médio prazo o plantio de cana deverá passar por algumas mudanças devido às novas tecnologias que estão chegando, mas o maior percentual ainda permanecerá com o plantio mecanizado convencional, principalmente devido às novas tecnologias empregadas nas plantadoras de cana automatizadas, que promovem consumo de mudas até 45% abaixo da média nacional que trabalha hoje com 20 t/ha. “Já o plantio de MPB, cana semente ou outra tecnologia semelhante, ainda requer muitos estudos e testes para comprovação de sua eficácia em plantios comerciais devido ás condições climáticas, cada vez mais adversas, profundidade de plantio, conformação dos sulcos, tipos de solos, declividade da área e das restrições do uso da água, que já encontramos nos dias de hoje.”

Para Sodre o setor também deverá continuar, ainda por muitos anos, com o plantio convencional de toletes, mas com aumento e consolidação do plantio de MPB. “Ainda acredito que, nas próximas duas décadas, o plantio com toletes será utilizado e melhorado. Com relaçãà cana semente, particularmente não conheço todo estágio de evolução desse processo, mas é um target para o futuro sim.”

Alessandra vê o MPB como parte deste futuro, assim como o plantio mecanizado convencional e a cana semente. “Vejo a operação de plantio totalmente mecanizada, sendo ela realizada com mudas convencionais ou com MPB ou com cana semente. O importante é que os custos sejam compatíveis com a realidade dos produtores e que a produtividade e longevidade do canavial sejam boas para que eles se mantenham na atividade.”

De acordo com o professor e pesquisador da UEMG, o plantio mecanizado é o que temos hoje para suprir a demanda industrial do setor, porém, os custos, que já foram reduzidos, se comparados ao manual, vêm sendo questionados a todo instante diante dos novos sistemas. “Em minha opinião é o sistema MPB que vai revelar o futuro! Experimentos realizados por nossos discentes mostram viabilidades tanto para o sistema de plantio MPB, como no sistema de plantio direto de mini-rebolo (praticamente o sistema Plene) sem o uso de tratamento algum, que também tem se mostrando muito eficiente e com ótimos resultados.”

“O plantio de MPB irá evoluir muito nos próximos anos, aja visto os investimentos de várias usinas no desenvolvimento de sua própria estrutura de produção e desenvolvimento dessas mudas. Porém, esta tecnologia não irá substituir o plantio mecanizado convencional, e sim complementar. Agora aguardamos a cana semente, que promete bastante também”, afirma o gerente comercial corporativo da TMA.

O diretor agrícola da Usina Guaíra, que realiza 100% do seu plantio com o uso de plantadoras convencionais e distribuidoras de toletes, diz que torce para um futuro em que exista cana semente. “O plantio atual convencional mecanizado tem gerado muito desgaste e falhas no plantio. Eu acredito que daqui dez anos tenhamos uma revolução. E que essa revolução seja a cana semente. Essa é a nossa aposta! Mas isso não vai ser de uma hora para a outra.”

Enquanto a semente não chega, Gomes conta que única opção no momento será trocar, em pelo menos uma frente de plantio, as plantadoras antigas por modelos automatizadas, buscando redução do gasto de mudas.

Já para o produtor da região de Ituverava, Cury, nos próximos dez anos o setor continuará “enterrando açúcar, etanol e energia no solo através do plantio via toletes, seja mecanizado ou manual. Mas em um horizonte maior que dez anos, confio que teremos o plantio de cana-de-açúcar através de sementes, onde os plantios serão feitos com máquinas de menor potência e maior agilidade. Inclusive, há empresas que pesquisam a semente de cana que dizem que o plantio poderá ser feito com plantadoras de grãos. Isso seria uma revolução no setor, onde a mesmas máquinas que fazem os plantios de grãos na rotação de cultura, também farão os plantios de cana-de-açúcar. Isso sim é um sonho para o produtor rural. Em resumo prevejo no futuro assim: a implantação do canavial via semente e MPB para reposição de falhas. Esse sim seria o casamento perfeito entre as tecnologias!”

 ESPECIAL

Parece até estranho ao passar por canaviais, observar máquinas que geralmente vemos trabalhando na construção civil operando no campo. Mas isto tem se tornado uma cena cada vez mais comum dentro do setor sucroenergético, que tem expandido o uso destas máquinas, da chamada linha amarela, tanto em operações de sistematização e preparo de solo, quanto na indústria, na movimentação do bagaço. E acredite. Após a mecanização da lavoura, elas têm tido papel fundamental e impactado diretamente nas operações agrícolas, umas vez que facilitam o trânsito de caminhões, tratores, implementos e outras máquinas agrícolas durante a safra.

As “amarelas” atuam principalmente no processo de preparo de solo, nas operações de construção e manutenção de dispositivos para controle da erosão, como terraços, cacimbas, lombadas, escoadouros de águas (como as vírgulas, sangras etc), nos demais processos de conservação de estradas e carreadores internos, e ainda, na movimentação de insumos agrícolas no campo. Na indústria, atuam na movimentação de bagaço e alimentação de caldeiras.

O nivelamento do solo e as operações de terraceamento são extremamente importantes para a colheita mecanizada de cana-de-açúcar. Motoniveladoras, pás carregadoras, escavadeiras e retroescavadeiras são as responsáveis pelas operações de drenagem das áreas, construção de curvas de nível e abertura de valas e valetas. Além disso, tanto a retroescavadeira como as minicarregadoras, os manipuladores telescópicos e as pás carregadoras, são bastante utilizados na manutenção das fazendas e manuseio de insumos da colheita e bagaço da cana.

De acordo com Afférri, a melhoria de estradas impacta diretamente na eficiência da operação de transporte de cana para a usinaDe acordo com Afférri, a melhoria de estradas impacta diretamente na eficiência da operação de transporte de cana para a usina

Segundo o gerente de marketing de produto da Case Construction, Carlos Eduardo França, com os equipamentos adequados é muito mais fácil padronizar o tamanho dos talhões, a largura dos carreadores, padronizar as áreas de carregamento e os modelos de curva de nível a serem adotados.

“Quando as usinas começaram a expandir o uso da linha amarela mais sistematicamente, houve otimização do desempenho das máquinas agrícolas. Ou seja, quando se tem um nivelamento de solo bem feito, valetas e curvas de nível simétricas, obtém-se uma maior produtividade na operação das máquinas agrícolas. Isso faz com que as colhedoras consigam colher a cana de forma padronizada, deixando o toco sempre do mesmo tamanho.”

MAIS EFICIÊNCIA NAS OPERAÇÕES AGRÍCOLAS

De acordo com Antonio Zattoni Afférri, sócio e consultor da RPA Consultoria, a melhoria de estradas impacta diretamente na eficiência da operação de transporte de cana para a usina. “Há quatro variáveis que classificam a estrada: superfície, alinhamento horizontal, alinhamento vertical e largura. Nós da RPA usamos uma metodologia para avaliar se uma estrada possui características que proporcionam ao tipo de caminhão empregado no transporte de matéria-prima para a usina, seu melhor rendimento energético. Estas quatro variáveis juntas são classificadas, segundo esta metodologia, possibilitando a usina identificar qual a prioridade nas operações de conservação e manutenção das estradas que trariam maior rendimento energético dos caminhões disponíveis na frota de transporte de cana.”

Em um exemplo teórico, é possível observar a variação negativa do rendimento energético de quatro tipos diferentes de composição para transporte (rodotrem, treminhão, biminhão (o Romeu e Julieta) e caminhão solteiro) em função do tipo de estrada, onde a variação de 1 a 15 corresponde a uma classificação obtida por meio de um levantamento de campo realizado pela RPA e a qual permite diagnosticar as principais variáveis que necessitam serem modificadas para otimização do transporte (Figura 1).

Ao observar na classificação de estradas (Figura 2) na qual existem três parâmetros: GH excelente, pista dupla, revestimento primário; GH boa, pista dupla, sem revestimento; ou GH média, pista simples e sem revestimentos, é possível notar que há uma redução na velocidade, neste caso considerando o uso de rodotrens, quando a estrada se encontra na categoria terciária.

“Para entender melhor, pista dupla significa que nesta estrada é possível cruzar veículos, quando em sentido contrário, sem maiores dificuldades, com largura > =7 m e GH = geometria horizontal, ou seja, alinhamento horizontal (zig-zag). Pode-se depreender, observando as Figuras 1 e 2, que o rodotrem apresenta melhores resultados com estradas com classificação até 5, ficando os modelos intermediários sem alteração significativa até a classe 10, que seria uma estrada com GH, boa pista dupla e com revestimento primário. E acima desta classificação só o caminhão solteiro mantem um desempenho, do ponto de vista energético, significativo. Entende-se por fim que, quanto maior a velocidade de deslocamento obtida numa estrada, menos caminhões serão necessários para o transporte da cana do campo para a usina, possibilitando uma otimização do dimensionamento da frota”, salienta Afférri.

Eduardo Neves, diretor de Operações da Biosev, afirma que as máquinas da linha amarela possuem uma versatilidade que permite agilidade na operação de campo com economia de tempo e combustível. Com a adoção desse sistema tem sido possível aperfeiçoar a construção das curvas de nível, devido ao uso de uma equipe de profissionais reduzida e menor tempo gasto para finalizar o projeto.

“Todo o transporte de cana hoje é feito por meio de reboques e semirreboques que são tracionados por caminhões, o que faz com que a conservação das estradas contribua de forma relevante na disponibilidade destes equipamentos, na redução dos custos com peças e pneus, e no fluxo de entrega de cana na usina”, destaca Neves.

Hoje estas máquinas fazem parte do cotidiano das operações no cultivo e processamento da cana-de-açúcar da Biosev. Sua utilização é vasta, passando por várias áreas do processo. Mas, segundo Neves, as principais utilizações acontecem na construção e conservação de estradas e carreadores, no carregamento e descarregamento de insumos (calcário, gesso, torta de filtro etc), na sistematização de áreas de plantio e construção de curvas de nível, e na construção e limpeza de canais.

ADAPTAÇÕES

Antigamente era comum que as usinas fizessem estas operações com tratores adaptados. Mas isso ficou no passado. Segundo Luiz Nitsch, diretor da Sigma Consultoria Automotiva e especialista em Motomecanização, pouquíssimas são as usinas que rodam com adaptações porque não compensa.

“É muita manutenção e pouco rendimento. Os tratores agrícolas não são adequados para tais serviços. Por exemplo, antigamente tentou-se adaptar lâminas e caçambas em tratores agrícolas, todavia, o rendimento de tal configuração ficava muito aquém de uma carregadora articulada ou uma motoniveladora convencional. Uma tentativa recente pode ter seu nicho em usinas: trata-se de uma motoniveladora de pequeno porte, ótima para acerto de estradas, com dois eixos trativos, um dianteiro e outro traseiro, equipada ainda com levante hidráulico de três pontos. Assim, têm-se, numa mesma máquina, as características de um trator agrícola 4X4 e uma máquina industrial de pequeno porte. Pelo menos, acho bastante inteligente e prática esta configuração. Por outro lado, no caso exemplar da pá carregadora do bagaço na indústria, é imprescindível que ela seja equipada com um sistema automático de limpeza de seus radiadores”, explica Nitsch.

Ainda de acordo com ele, um trator agrícola adaptado dificilmente será equipado com os dispositivos presentes nas máquinas específicas para tais tarefas, gerando muitas paradas diárias para limpeza manual do radiador do motor. “O uso de máquinas específicas e a consequente melhora das operações, impactam de 8% a 16% no custo total da tonelada do CTT (Corte Transbordamento e Transporte).

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AMARELAS PARA O CAMPO

As vendas de máquinas e equipamentos de construção para o segmento da agricultura nos últimos anos teve crescimento significativo. As grandes fabricantes de equipamentos agrícolas e que também atuam no segmento de construção tem apostado na sinergia entre as duas áreas para alavancar as vendas. Isso é tão verdade que as marcas participam de grandes feiras agropecuárias com as duas linhas de produtos, facilitando a vida do produtor e empresário que precisa adquirir uma máquina de construção para operar na propriedade, além de tratores, plantadoras, colhedoras e implementos.

De acordo com a Case Construction, as vendas desta linha para o agronegócio vêm crescendo a cada ano e representaram, até o final de 2015, cerca de 10% do volume total de vendas da marca. Diante desta realidade, novas fabricantes vêm não só entrando neste nicho de mercado, como também desenvolvendo algumas soluções específicas para o uso em usinas de cana-de-açúcar.

 

A Case Construction foi pioneira no desenvolvimento de pás carregadoras em versão canavieira. O modelo 721E foi desenvolvido especialmente para movimentação e carregamento de bagaço de cana, para abastecimento das caldeiras e construção de curvas de nível. Elas possuem pré-filtro de ar ciclônico para o motor e ar condicionado, tela protetora no alternador e ventilador reversível - reduzindo o número de paradas e facilitando a limpeza. “Estes diferenciais aumentam a produtividade no carregamento de bagaço de cana, que é feito num ambiente com partículas suspensas e que podem causar obstrução de radiadores e filtros, causando até faíscas”, explica França.

Quatro modelos foram adaptados ao trabalho em usinas de cana, além da 721E, com motor de até 195 hp, os modelos 621D e W20E, que foram desenvolvidas para o mercado de fertilizantes, também têm os diferenciais da versão canavieira acrescidas de pintura especial para proteção contra ambientes corrosivos: eliminação das quinas vivas, tubos pintados em vez de bicromatizados, cabos elétricos com proteção de silicone e pintura mais espessa, à base de fosfato de zinco, para aumentar a proteção contra corrosão, o que confere durabilidade da máquina que trabalha em ambiente corrosivo, como no carregamento de fertilizantes. O modelo 821E é equipado com motor de maior potência, até 227 hp, e com a caçamba reforçada de 5 m³, o que confere, segundo França, maior produtividade na movimentação e carregamento de bagaço de cana.

A motoniveladora 865B, muito usada para obras de infraestrutura em canaviais, construção de curvas de nível e escarificação do solo, vem equipada com motor turbo-alimentado de alto desempenho, com potência de 170 hp, lâmina de 3.962 mm (13’) e rippertraseiro. “As escavadeiras hidráulicas CX220B e CX160B também tem sido muito utilizadas em pequenas e médias escavações, carregamento de materiais e terra.”

A Retroescavadeira 580M 4X4, utilizada no plantio, no carregamento de materiais, na construção e manutenção de fazendas e usinas de cana-de-açúcar, vem com um motor com baixo consumo de combustível, variações de potência líquida entre 75 hp e 85 hp e peso operacional de 6.522 kg.

Apesar de aparentar maior simplicidade em tecnologias embarcadas, se comparadas às máquinas agrícolas e as adicionais tecnologias de agricultura de precisão, a linha amarela também conta com o sistema de telemetria, o qual possibilita que se faça o monitoramento de todos os equipamentos e sua localização via satélite. “Temos também o sistema Machine Control que é o controle via satélite da lâmina das motoniveladoras e da caçamba da escavadeira, no qual o usuário determina qual o tipo de nivelamento quer fazer naquele terreno, qual inclinação, medida e etc, e a máquina faz tudo sozinha”, afirma França.

Já as pás carregadoras, podem ser equipadas com sistema de High Control que, quando a máquina atinge 4 km/h, ativa automaticamente o sistema de amortecimento do braço para quando estiver trafegando em terrenos irregulares, não haver perda de matérias da caçamba.

A John Deere é mais uma fabricante tradicional agrícola que enxergou na construção civil um nicho de mercado. Recém-entrada no mercado (em 2012), a empresa também começou focada na sinergia entre agrícola e civil, e apostou em desenvolvimentos pensando no mercado sucroenergético, um dos maiores consumidores deste tipo de máquina no agronegócio, segundo Luis Viegas, gerente de marketing de Produtos para John Deere Construction.

A empresa oferece para o setor pás carregadoras, motoniveladoras e escavadeiras.

Em produção no Brasil existem cinco modelos de pás carregadoras, sendo a menor delas o modelo 524K, que é inclusive a mais vendida para o setor agrícola por ser de menor porte. “Mas o modelo mais utilizado no mercado sucroalcooleiro é a 624K, também usada no manuseio de fertilizantes.

“As máquinas John Deere possuem algumas condições que se adaptam muito melhor ao ambiente agrícola. Um exemplo dessa melhor adaptação é o sistema de refrigeração nas carregadoras. Na operação de carregamento de bagaço, que é realizada em um ambiente de muita fuligem, é preciso ter um sistema de arrefecimento muito eficiente para que radiadores não fiquem bloqueados constantemente exigindo muitas paradas. Na carregadora da John Deere nós usamos um sistema de radiadores adaptados para este tipo de operação, onde é possível operar em ambientes de alta densidade de fuligem de forma eficiente”, detalha Viegas.

Além disso, a carregadora tem um sistema automático de reversão do ventilador do motor para que, em determinados períodos de tempo, o sistema reverta o sentido e expulse a sujeira que se acumulou, mantendo o radiador limpo por mais tempo. “As adaptações para uso agrícola são fundamentais. Se compararmos as máquinas que tem os radiadores em um sistema convencional, de sanduíche, essa máquina vai parar muito menos para manutenção e limpeza e se você acrescentar ainda um ventilador reversível, um pré-cleaner, que é um pré-filtro, tanto no ar condicionado da cabine quanto no ar do motor, isso também vai melhorar cada vez mais a eficiência”, complementa.

Além das pás carregadoras, a marca também fabrica retroescavadeiras, com a parte frontal equipada com caçamba para carregamento, e parte traseira com uma caçamba para escavação. Dessa forma, a máquina pode ser muito utilizada para abertura de valas, manutenção de estradas, canais de irrigação e carregamento e manuseio de materiais.

As motoniveladoras também vêm embarcadas com tecnologias como o sistema de trava do diferencial automático, o que faz com que a máquina evite quebras de correntes por fazer curvas com o diferencial bloqueado. Com essa trava do diferencial automático, a máquina fica mais inteligente, evitando quebras e, consequentemente, paradas de operação. “Tanto as pás carregadoras, quanto as motoniveladoras vem com um monitor de diagnóstico muito completo, que dá ao usuário não só os códigos de falha com também uma descrição completa do problema e também possíveis soluções, o que facilita para que a máquina tenha o menor tempo de parada, propiciando manutenção rápida e maior produtividade”, enfatiza Viegas.

Dentro do conceito de tecnologia inteligente, a John Deere tem pacote com soluções tecnológicas para otimizar os trabalhos, como o WorkSight, que abrange desde informações de utilização e códigos de falha, volumes carregados e pré-diagnósticos, até a interação remota com o equipamento.

“Além deste pacote, temos o JDLink Machine Monitoring System, que é um sistema que fornece a localização da máquina, medidas de utilização e um rastreamento de manutenção por meio de um site de simples navegação, e o Service Advisor Remote Dealer Diagnostics – outra solução exclusiva da John Deere que permite que o distribuidor se conecte automaticamente à máquina para visualizar diagnósticos de problemas e dados de performance. Se uma atualização de um software é necessária, o distribuidor pode fazer atualização à distância, o que reduz significativamente o tempo e o custo associados aos reparos de equipamentos”, adiciona.

A New Holland Construction tem como protagonistas as retroescavadeiras e pás carregadoras, mas também oferece modelos de escavadeiras hidráulicas, manipuladores telescópicos e tratores de esteira. Segundo Marcos Rocha, gerente de marketing de Produto da New Holland Construction para a América Latina, a pá carregadora 12D tem mostrado elevado desempenho, baixo custo e facilidade de manutenção. Além disso, apresenta bons resultados em economia de combustível (devido à relação ideal entre peso e potência), mais força e capacidade de carga.

O modelo também conta com ventilador reversível, que é incorporado ao radiador do equipamento para aplicação em locais com grande concentração de poeira e partículas em suspensão, como é o caso da indústria de cana. A inversão da hélice é acionada automaticamente a cada 20 minutos ou manualmente, por meio de um botão instalado no console, de forma a evitar paradas desnecessárias da máquina para a limpeza do radiador. Além disso, os modelos versão bagaço de cana deixam a linha de montagem com eixos dianteiros e traseiros reforçados (Heavy Duty), com sistema automático antipatinagem, reduções finais nos planetários e eixo traseiro com oscilação vertical.

De acordo com Rocha, os dispositivos proporcionam maior tração no momento do carregamento, evitando também o desgaste acentuado dos pneus. “A maioria das operações com bagaço ocorre empurrando o material e carregando-o, o que resulta em esforços exacerbados nos eixos da carregadora. Por esse motivo, os eixos dianteiros e traseiros são extremamente robustos e dimensionados para absorver impactos”, explica.

Tanto as pás carregadoras, quanto os tratores de esteira vem sendo muito utilizados pelo setor e tem proporcionado ganhos expressivos nas operações. Na operação de curvas de nível, em que se usam pás carregadoras, ele afirma que foram feitos alguns testes com o trator de esteira D140B, onde se obteve um incremento de produção em torno de 23%.

“A boa performance se dá pela força de tração do trator e da sua maior capacidade de desagregar o material. O equipamento transmite a potência necessária para empurrar lâminas cheias, inclusive nas curvas, e os seus componentes reduzem o número de passagens necessárias para movimentar o material, melhorando a produtividade e reduzindo o custo operacional por metro cúbico”, afirma Rocha que adiciona que os modelos da companhia também vêm equipadas com o sistema de telemetria Machine Control.

Fonte: RPA Consultoria

FOCADA EM BIOMASSA

Pensando no Brasil como um dos sete países que mais investem em energia limpa e observando o universo sucroenergético como um nicho de mercado importante neste sentido, a JCB, fabricante de retroescavadeiras, escavadeiras de esteiras e pás carregadoras, tem apostado em diferentes aplicações para o seu manipulador telescópico, máquina na qual é líder mundial em vendas.

De acordo com Michael Steenmeijer, gerente nacional de vendas da divisão agrícola da JCB, a produção sustentável de biomassa está em expansão e é um caminho sem volta. “Usinas localizadas em regiões como Centro-sul e Centro-Oeste vem investindo na produção de biomassa, onde já conseguimos comprovar que nossas máquinas atendem perfeitamente às demandas do setor, oferecendo uma solução eficiente e econômica na manipulação de materiais”.

Steenmeijer afirma que a JCB é a única empresa que tem uma configuração agrícola para o manipulador, usados desde a movimentação dos fardos de palha de cana – empilhando e carregando os caminhões que vão do campo até a indústria, onde também realizam com alta eficiência e segurança o descarregamento – até a organização do pátio e alimentação dos fardos no triturador.

“Como oferece maior altura de elevação e mais produtividade no deslocamento de materiais, o manipulador substitui de forma adequada outros equipamentos que atualmente são adaptados para utilização nas operações – como carregadeiras de cana, tratores acoplados com pás carregadoras – e que não são ideais para o trabalho desempenhado”, explica.

Profissionalizar as operações foi justamente o que a Usina Ferrari buscou ao adquirir dois manipuladores telescópicos 541-70 da companhia, localizada em Porto Ferreira, SP, e que tem uma produção de 3 milhões de t de cana por ano.

Edimilson Gomes Leal, gerente de manutenção da empresa, afirmou que é importante investir em máquinas mais eficientes para cada tipo de operação. Na usina, as máquinas são operadas na movimentação de fardos de palha de cana-de-açúcar. No campo, vão trabalhar no recolhimento e carregamento dos fardos, no empilhamento do material e abastecimento dos rodotrens, que realizam o transporte até os depósitos.

CHINESA APOSTA NO MERCADO AGRÍCOLA
Neves: “a conservação das estradas contribui de forma relevante na disponibilidade, na redução dos custos de peças e pneus, e no fluxo de entrega de cana na usina”Neves: “a conservação das estradas contribui de forma relevante na disponibilidade, na redução dos custos de peças e pneus, e no fluxo de entrega de cana na usina”

Assim como na indústria automobilística, no mercado de máquinas de construção também tem crescido a participação de novos players da China. Este ano, durante a Agrishow 2016, a chinesa XCMG, lançou opções para aplicação agrícola e florestal.

A empresa inaugurou sua fábrica em Pouso Alegre, MG, em 2014, com capacidade anual de produção de 7 mil máquinas, entre caminhões guindaste, pás carregadoras, escavadeiras, motoniveladoras e rolos compactadores, todos com a possibilidade de aquisição através do Finame.

Segundo Ednilson Kimura, diretor de Manufatura da XCMG, a empresa entra no mercado agrícola com a experiência no mercado chinês como seu principal diferencial. “As nossas máquinas são fabricadas com tecnologia XCMG, com alto nível de automação. Além de alguns implementos serem fabricados na China, a empresa também tem parceria com fabricantes nacionais de implementos, 53 revendedores e 16 redes concessionárias espalhadas pelo Brasil. Quando a gente fala em China, estamos falando de volumes de produção muito maiores, o que significa nível de automação também muito maior. Além disso, os nossos implementos que vem da China tem a característica de produtividade aliado ao baixíssimo custo, o que dá maior competitividade a marca no Brasil.”

Para o mercado canavieiro a XCMG oferece modelos de pás carregadoras, já pensadas para uso deste segmento, com uma grande capacidade de movimentação e de estabilidade na pega do material. Os modelos LW300BR, LW400BR, e LW500BR contam com caixa de velocidades controlada eletronicamente e freio banhado a óleo, reduzindo consideravelmente o ruído, melhorando o conforto do operador e facilitando a manutenção. “Temos tecnologia exclusiva e de patente XCMG que aumenta a eficiência no transporte da cana sem que haja desperdício. Ela combina tecnologia e robustez”, Kimura.

A empresa oferece também um modelo de retroescavadeira, a XT870BR, com altura de descarga de cerca de 3 m e força de levantamento de 66kN. “A retroescavadeira apresenta tecnologia alternativa de bomba dupla. Em operação de baixo fluxo de alta pressão, com cargas leves, ativando as duas bombas, permite uma economia de consumo e eficiência na operação”, comenta.

Na linha de motoniveladoras, a empresa tem o modelo GR1803BR que é uma evolução da já existente GR180BR, utilizando agora motor adequado às novas regras de emissões MAR-I. Já as escavadeiras modelos XE150BR, XE240BR, e, XE370BR foram desenvolvidas baseadas nas atuais escavadeiras de 21 t, atentando-se as reais condições de trabalho no Brasil. “Os modelos são equipados com motor Cummins Brasil e tiveram as capacidades da caçamba adaptadas para as necessidades do mercado brasileiro”, diz.

FINAME AGRÍCOLA

A grande novidade para este mercado foram as condições especiais de financiamento, lançadas em março deste ano pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O banco liberou o uso do Finame Agrícola também para a compra de máquinas de construção, já que essas são muito utilizadas no agronegócio.

As regras, de acordo com o gerente Nacional de Vendas da Case, Reinaldo Remião, determinam que o equipamento seja novo, com índice de nacionalização em valor e peso de, no mínimo 60%, e credenciado pelo BNDES.

 

 

 

 
 
 
 
 
 

 ESPECIAL

Como as unidades sucroenergéticas cuidam da sua segurança?
E como deveriam fazer? Especialistas discutem sobre como desenvolver uma gestão estratégica, evitando prejuízos financeiros e morais


O cenário brasileiro atual nos mostra que a corrupção existe nas mais diferentes esferas, sejam elas políticas, econômicas ou até mesmo sociais. Dentro das empresas, as perdas por roubos, furtos e fraudes, tanto causadas por agentes internos quanto externos, podem chegar a ser maior do que 1,5% do seu faturamento. E acredite. Dentro das companhias do agronegócio isto não é diferente. Falando especificamente sobre as usinas sucroenergéticas, os delitos podem envolver desde desvios e roubo de combustíveis, defensivos agrícolas, peças de máquinas agrícolas e equipamentos industriais, até mesmo sabotagem de processos industriais ou incêndios no campo. Diante desta realidade, inclusive muito pouco divulgada pelo setor, achamos ser preciso discutir como fazer uma boa gestão de riscos, assegurando tanto o patrimônio material quanto humano, garantindo a competitividade e ainda evitando prejuízos econômicos e morais para a companhia.

A RPAnews tentou contato com diversos grandes grupos e usinas do setor a fim de saber como estas empresas fazem a sua gestão patrimonial e como os casos de roubos, fraudes ou desvios, quando ocorrem, são solucionados. Até o fechamento desta edição nenhuma das unidades contatadas quiseram se pronunciar sobre o tema, mas especialistas em segurança e RH vão nos ajudar a debater o assunto, que ainda parece causar certo desconforto dentro do setor. É preciso falar sobre gestão da segurança patrimonial dentro das usinas!

Grande parte das unidades sucroenergéticas possui um quadro orgânico de segurança patrimonial terceirizado e tocado por empresas especialistas. Mas, segundo José Darciso Rui, presidente-executivo do Gerhai (Grupo de Estudos em Recursos Humanos na Agroindústria), algumas ainda tem um quadro orgânico próprio formado, em geral, por um coordenador ou gerente de Segurança Patrimonial, com líderes em cada turno de trabalho (24 horas) e vigilantes armados, ou ainda, vigias desarmados. No caso da terceirização com empresa especializada (previsto em Lei) a estrutura é quase semelhante, porém, a figura de um coordenador ou gerente pode ser substituída pela estrutura da prestadora de serviços.

“Recordo-me de muitos casos de furtos e desvios de produtos, peças, equipamentos e veículos dentro das empresas do setor, porém, a situação melhorou consideravelmente após implantação de sistemas de vigilância eletrônicos e de serviços especializados. Mesmo assim, os casos ainda ocorrem e a prevenção só pode ser feita com o investimento em tecnologia de ponta em segurança patrimonial e de empresas qualificadas e que possam antever situações de risco. Inclusive, acredito que a segurança é feita de modo mais tranquila e confortável para os colaboradores e usina, quando o serviço é feito por uma empresa especializada.”

Gustavo Steffen de Azevedo Figueiredo e Humberto Filipi dos Reis Pereira, diretores operacionais do Grupo SP Segurança, empresa especializada em Segurança Patrimonial, e que atende o grupo GVO (Grupo Virgolino de Oliveira), destacam que, se não há dentro da usina um sistema de segurança patrimonial preventivo e um núcleo interno especializado em sindicâncias, ocorrerão perdas patrimoniais consideráveis.

“Verificamos que a maior incidência é relacionada aos crimes contra o patrimônio (furto, roubo, apropriação indébita, dano qualificado, esbulho possessório etc) definidos no título II do vigente Código Penal Brasileiro. Contudo, também existem outros fatos que constituem crimes, como falsificação de documentos ou uso deles para o fim de auferir vantagens econômicas ou benefícios impróprios em prejuízo das usinas, como na hipótese de colaboradores que falsificam atestados médicos ou compram tais documentos para justificar faltas indevidas ao turno de trabalho”, revelam.

Os especialistas do Grupo SP Segurança destacam que, se não há dentro da usina um sistema de segurança patrimonial preventivo e um núcleo interno especializado em sindicâncias, ocorrerão perdas patrimoniais consideráveisOs especialistas do Grupo SP Segurança destacam que, se não há dentro da usina um sistema de segurança patrimonial preventivo e um núcleo interno especializado em sindicâncias, ocorrerão perdas patrimoniais consideráveis

Alexandre Tavares, da Artan Segurança, afirma que existem casos de verdadeiras quadrilhas dentro das empresas. Ele conta que tem o conhecimento de um caso em uma usina de etanol em que o desvio superou os R$ 2 milhões. “A base para uma empresa estar preparada para isso são procedimentos rígidos em todo o processo. Desde a contratação de funcionários, investigação social e procedimentos de segurança.”

João Gumercindo de Almeida Guedes, coronel da Reserva do Exército Brasileiro e advogado especializado em Inteligência e David Silva, especialista em Segurança e diretor técnico da ABSO (Associação Brasileira dos Profissionais em Segurança Orgânica) destacam os impactos causados pela falta de uma boa gestão da segurança patrimonial:

Prejuízo financeiro: tendo em vista perda de insumos; perda de tempo por retrabalho; perda de oportunidade na colocação do produto em tempo hábil nos postos de vendas, facilitando a ação do concorrente; perda com furtos e desvios de produtos acabados, peças de reposição ou peças de máquinas e equipamentos;

Prejuízo da imagem: considerando que o não cumprimento dos prazos de entrega ou entrega de quantidade aquém da combinada, desgastam a imagem e ocasionam prejuízos financeiros, pois o cliente pode trocar de fornecedor;

Prejuízo na confiança: furtos, roubos e entregas não realizadas conduzirão a investigações ou busca de responsáveis, trazendo mal estar interno e (ou) externo, afetando a confiança e a credibilidade da empresa;

Prejuízo à continuidade dos negócios: a perda da confiança e a perda de imagem estão diretamente ligadas à continuidade dos negócios e às finanças.

Segundo os especialistas da SP Segurança, a situação fica ainda mais agravada quando não há um setor da empresa incumbido de realizar a apuração de atos de improbidade cometidos por colaboradores, cujo desfecho pode ser a rescisão do contrato por justa causa ou a aplicação de outra penalidade prevista no âmbito do Direito do Trabalho. “O mais sério de todos os impactos que uma usina pode sofrer pela falta de atenção a tais desmandos é a falência gradual, cuja constatação é feita quando já é tarde demais para reverter o quadro.”

 
INDENTIFICAR E PREVENIR

Como comentado por especialistas, sem dúvida, os furtos internos nas organizações denotam da fragilidade dos sistemas de segurança, principalmente porque, geralmente, os funcionários envolvidos com o crime tem a confiança do empregador, que muitas vezes leva tempo até descobrir o que está acontecendo. Em muitos casos, fica difícil até mesmo quantificar o volume exato da perda, já que um funcionário mal intencionado pode lesar uma corporação durante anos sem ser notado, gerando um prejuízo incalculável ao empregador.

Inúmeros são os fatores que propiciam os crimes dentro das corporações, mas, segundo Guedes e Silva, os principais são:

- Falta de cultura de segurança: o entendimento e aceitação das políticas e regras de segurança em todos níveis hierárquicos da empresa;

- Falta de acurado processo seletivo de pessoas, de prestadores de serviço ou de empresas terceirizadas, e o acompanhamento das mesmas;

- Inexistência de processos, políticas e procedimentos de segurança apropriados para todos os níveis e setores da empresa;

- Não apuração fidedigna dos fatos relacionados a roubos, furtos e desvios, incluindo aqueles de baixa importância e valor;

- Falta de equipe especializada, treinada e capacitada nas funções estratégicas, táticas e operacionais de modo que possa planejar processos que impeçam ou dificultem roubos e furtos, que saibam implementar as medidas previstas nos planos, que fiscalize os procedimentos em execução e que possa investigar eventos dessa natureza para a identificação de responsáveis e correção de processos;

- Falta de punição após identificação dos responsáveis;

- A não correção ou a implantação de processos que dificultem ou evitem novos eventos;

- A lentidão na comunicação de roubos e furtos, perdendo-se o princípio da oportunidade;

- E a falta de investimentos em sistemas de prevenção.

Alex Stradioto, gerente de Planejamento e Projetos do Grupo Belfort Segurança, diz que ausência de um plano de segurança bem amarrando e que faça o regimento de todas as políticas de segurança em cada um dos setores nevrálgicos das usinas, assim como a falta de investimento em dispositivos de mitigação de segurança eletrônica e em softwares gerenciadores de integração de sistemas seguros e confiáveis; a falta de implantação e estabelecimento de auditorias de processo periódicas internas junto às áreas mais visadas da empresa; e a falta de palestras de segurança e orientação aos colaboradores, são alguns dos fatores que aumentam as chances de crimes.

Para prevenirem-se, as empresas devem, primeiramente, saber identificar os casos, porque as ocorrências podem ser as mesmas, mas os riscos são diferentes. Para tanto, segundo Guedes e Silva, há a necessidade de se fazer um levantamento das fraquezas, ameaças existentes e a análise dos riscos.

“Identificadas as fraquezas e ameaças (que podem envolver pessoas, procedimentos/processos e tecnologia), traça–se um plano de segurança apropriado para fazer frente às ameaças e eliminar ou reduzir as fraquezas. O próximo passo é discutir o plano de segurança com o proprietário (chefe da planta, gestor de segurança ou empresa encarregada do processo produtivo – distributivo). E depois de discutido o planejamento, inicia-se a execução dentro de cronograma estipulado. Por último, o planejamento deve incluir permanentes verificações (análises e inspeções) para retroalimentar o processo, corrigir rumos, eliminar novas ameaças, identificar possíveis fraquezas futuras e possibilitar ações preventivas”, explicam.

Segundo Luciana Zillmer, gerente comercial do Grupo Impacto Ribeirão Preto e Wlauder Robson Gonçalves, Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública e consultor de Segurança do Grupo Impacto, inicialmente, deve ficar claro para o gestor da empresa que a prevenção é o melhor investimento na área de segurança.

“Os investimentos, após a ocorrência da ação criminosa, desde o simples furto de uma peça ou um grande roubo, irá gerar ações reativas e com custos quase sempre elevados. O que se percebe na prática é que, além dos custos diretos experimentados pela contratação do efetivo de segurança, compra de equipamentos e para a implementação da infraestrutura, existem os que não são mensurados, como o tempo em que os colaboradores discutem o que ocorreu, reuniões da alta direção para discussão do fato, desconfiança entre os colaboradores e a sensação de insegurança. Então, se o gestor da empresa investir na prevenção, suas perdas serão menores. Neste sentido, o gestor deve buscar no mercado um especialista na área de segurança para avaliar a a atual situação da sua companhia”, afirmam.

Os especialistas do Grupo SP Segurança observam que um percentual muito alto de usinas e de grandes companhias não dispõe de um sistema efetivo de segurança privada para agir de forma profilática e reduzir a incidência de crimes contra o patrimônio para um nível suportável, mesmo porque a contratação de um serviço especializado custa mais, o que leva muitas empresas a buscar uma proteção patrimonial de baixo valor, cujo efeito é a geração de insegurança e a sensação de impunidade daqueles que habitualmente desviam bens, produtos e outros insumos do empreendimento.

Algumas usinas contratam porteiros para o controle de acesso e vigilantes para a realização de rondas internas. Outras, inadvertidamente, contratam porteiros para fazer o controle de acesso na portaria principal e também para fazer o ciclo de rondas internas, incorrendo em desvio de função o que, segundo os especialistas do Grupo SP, pode dar ensejo a reclamações trabalhistas futuras, onerando sobremaneira o passivo da empresa, uma vez que o salário da categoria dos vigilantes é maior e ainda conta com o adicional de 30% referente ao risco de vida por atividade perigosa. “Existem também, empresas que buscam uma proteção mais completa, fazendo investimentos na contratação de empresas especializadas em segurança e controle de acesso, como também com a instalação de sistemas eletrônicos de segurança relacionados à CFTV (Circuito Fechado de Televisão) de câmeras e barreiras sensorizadas.”

 

OS 15 CRIMES MAIS COMUNS NAS USINAS SUCROENERGÉTICAS

1.Desvio e roubo de defensivos agrícolas

2.Desvio ou roubo de insumos agrícolas, que podem ser:

Insumos mecânicos: Todos os equipamentos e máquinas usadas para a preparação e manutenção dos produtos (tratores, sistemas de irrigação etc)

Insumos biológicos: Elementos que são de origem vegetal ou animal (adubos, plantas etc)

3. Fraude no sistema: desvio seguido de roubo de combustível (etanol)

4. Roubo de carga de açúcar refinado

5.Desvio e furto nas oficinas agrícolas e industriais (borracharia, almoxarifado

de peças e abastecimento e combustível)

6.Fraude nos caminhões oficina que servem as frentes de colheita

7.Espionagem industrial

8.Sabotagem na moagem

9.Sabotagem na caldeira

10.Sabotagem no fornecimento de água

11.Sabotagem na concentração bagacin

12.Invasão seguida de roubo em unidades que mantém instituições

bancárias e ou ATMs de abastecimento

13.Sequestro, aproveitando-se das facilidades geográficas e da falta de

uma efetiva escolta de acompanhamento e proteção

14.Invasões do MST

15.Incêndio criminoso no campo

 
GESTÃO ESTRATÉGICA DA SEGURANÇA

Uma boa gestão da segurança dentro das empresas sucroalcooleiras pode começar, antes de tudo, pela escolha de boas empresas ou especialistas em segurança empresarial, que dominem o tema segurança corporativa, segurança de transporte de carga e que tenha bom trânsito e diálogo com outros setores da empresa, podendo difundir suas ideias e elaborar planos prevencionistas, antecipando-se a possíveis problemas.

De acordo com Guedes e Silva, o especialista em segurança deve efetuar o levantamento e análise dos riscos e construir um plano diretor de segurança que consiga eliminar ou reduzir os riscos. Este plano deve contemplar a política, a diretriz e os procedimentos de segurança; os recursos humanos, com quadro de segurança apropriado; e os processos e sistemas de segurança eletrônica e demais contingências. “O bom especialista em segurança escolherá sua equipe de segurança e se responsabilizará pelos seus atos, estando atento as políticas e procedimentos de rotina, aos procedimentos extraordinários e aos procedimentos que estejam além dos previstos (mesmo que extraordinariamente). O mais importante é entender que o modelo de segurança, embora tenha um princípio, não é único, ou seja, cada planta tem sua particularidade e poderá impor processos diferenciados”, destacam.

Para Stradioto, o primeiro passo para uma boa gestão é ter uma consultoria de segurança que possa dar a usina uma fotografia geral das reais condições de segurança da planta, seus aspectos e pontos vulneráveis, o funcionamento da operação, suas falhas, aspectos a serem corrigidos e implementados, disposição tática da segurança e seu redimensionamento e, por fim, o diagnóstico de segurança e as sugestões de melhoria do sistema, com a implementação do SIS (Sistema Integrado de Segurança) e o conceito de trinômio de segurança implementado (homens-tecnologia-processos).

Ele complementa que um projeto de segurança deve contemplar:

- o diagnóstico de segurança (identificação das vulnerabilidades e recomendações gerais de melhoria de segurança);

- um plano diretor de segurança (diagnóstico + análise de riscos + planejamento das recomendações gerais de melhoria de segurança e do orçamento em prioridade de implantação, conforme os riscos);

- e procedimentos de segurança (elaboração de manual de normas e procedimentos e administração contingencial para atuar em situações críticas, emergências e rotinas).

Vanderlei Pivoto, gerente comercial da Security Segurança e Serviços, afirma que é essencial identificar possíveis riscos, refletir sobre o contexto estratégico da empresa e definir três conceitos: interno, externo e de gestão de riscos. “O conceito interno vai definir as normas de uma organização, sua cultura, objetivos estratégicos, estrutura organizacional e ambiente interno. O conceito externo é onde estão as variáveis incontroláveis como política, tecnologia, economia, recursos naturais e localização física da empresa. Já o conceito de gestão de riscos se refere à política da empresa sobre o assunto, ou seja, como os riscos são gerenciados e as metodologias e critérios são escolhidos. É imprescindível se fazer as perguntas: o que pode acontecer a uma empresa? Como e por que pode acontecer? E a partir daí iniciar o planejamento de segurança.”

Stradioto diz que ausência de um plano que faça o regimento de todas as políticas de segurança em cada um dos setores nevrálgicos das usinas, assim como a falta de investimento em dispositivos de mitigação de segurança e orientação do colaboradores, são alguns dos fatores que aumentam as chances de crimesStradioto diz que ausência de um plano que faça o regimento de todas as políticas de segurança em cada um dos setores nevrálgicos das usinas, assim como a falta de investimento em dispositivos de mitigação de segurança e orientação do colaboradores, são alguns dos fatores que aumentam as chances de crimes

A empresa atende há mais de 15 anos um tradicional grupo sucroalcooleiro do Estado de São Paulo, realizando a segurança de seis unidades. “Durante esse período, nossa atuação impediu com sucesso a ocorrência de diversas ações delituosas. Para atender o grupo, mantemos uma supervisão dedicada e permanente para o pronto atendimento das demandas”, afirma a diretora de RH da Security Segurança e Serviços, Renata De Luca.

Afirmar categoricamente que exista uma fórmula ideal para oferecer segurança absoluta não existe. Na verdade é possível minimizar os riscos de ocorrências desfavoráveis ao patrimônio empresarial através da implementação de sistemas que se completam. Neste caso, os especialistas do Grupo SP Segurança sugerem a adoção de sistemas de segurança distintos, contudo, com desenvolvimento em simetria, conjugando a tecnologia com a experiência humana. “Além de atuar na prevenção de crimes, também atuamos no processo de apuração interna de fatos que se caracterizam como atos de improbidade de colaboradores e prestadores de serviços contra o patrimônio de seus empregadores. Logo, são duas frentes de trabalho imprescindíveis para manter a integralidade econômica de grandes companhias.”

Para prevenção, a SP Segurança desenvolve inspeções técnicas, que têm por objeto realizar uma análise criteriosa sobre a eficácia do procedimento de segurança feita pelos porteiros e vigilantes, apresentando relatório com sugestões para melhoria dos serviços; treinamento para todo contingente operacional, objetivando alcançar índices satisfatórios de integração entre a equipe e mantendo o foco na execução do procedimento padrão sugerido; avaliação da operacionalidade dos sistemas de segurança eletrônica instalados na área interna das empresas (CFTV, barreiras sensorizadas e alarmes), sugerindo a incrementação para servir ao fim que se destina; verificação do sistema de rastreamento e bloqueio dos veículos que compõem a frota das empresas clientes; e apreciação do procedimento destinado à guarda dos veículos, tratores e maquinários agrícolas quando em operações externas, dando parecer opinativo. Já na segunda frente de trabalho, a empresa presta assessoria para o início, o desenvolvimento e a conclusão de sindicâncias internas para apuração de atos faltosos de colaboradores que danificam ou subtraem bens, produtos ou insumos, e quando utilizam de patrimônio ou serviços da empresa em benefício próprio, podendo resultar em rescisões por justa causa ou outras penalidades previstas na legislação trabalhista.

A SP Segurança trabalha com a ideia da criação de um núcleo sindicante no contexto empresarial, fazendo com que o corpo de empregados tome conhecimento de que a direção passa a ter interesse em identificar e responsabilizar aqueles que estão atuando de forma desleal, surtindo um efeito psicológico de grande valia para o empreendimento, pois desencoraja empregados inidôneos a continuar com a prática furtiva. O projeto trabalha ainda com a ideia de implantar um núcleo ombudsman adaptado a realidade do meio empresarial sucroenergético, além de maximizar o nível de segurança patrimonial.

“Como toda companhia conta com um quadro de colaboradores cuja maioria é dotada de boa índole, discordando da atuação ilegal de alguns que se aproveitam da confiabilidade que lhes é depositada, uma das estratégias é passar a ter contato (pessoal ou por meio de uma linha telefônica “disque reclamações”) com essa parcela de trabalhadores que sentem indignação com a falta de caráter dos dissidentes, passando o núcleo sindicante a ser nutrido com valiosas informações, colocadas à prévia avaliação dos acionistas ou dos diretores, a fim de ser decidido sobre a deflagração do procedimento interno de apuração ou não”, detalham os especialistas do Grupo SP Segurança.

 

O PAPEL DO RH
Segundo Gonçalves, ao fazer um checklist de 200 itens para identificar quais são as medidas preventivas, corretivas e as oportunidades de melhoria para o sistema de segurança, o RH terá um documento para nortear suas ações junto à alta direção da empresaSegundo Gonçalves, ao fazer um checklist de 200 itens para identificar quais são as medidas preventivas, corretivas e as oportunidades de melhoria para o sistema de segurança, o RH terá um documento para nortear suas ações junto à alta direção da empresa

No caso de terceirização, a atribuição de recursos humanos (ou outra área responsável por terceiros) é de fazer a gestão do contrato de serviços dentro de suas especificações fazendo com que o mesmo seja cumprido em sua totalidade. Segundo Rui, inclui-se a isso toda a  parte legal relativa aos empregados da contratada bem como da parte tributária, fiscal e regulamentos junto a Policia Civil, Federal e Ministério do Exército, quando de suas obrigações.

“Quando se fala em RH na gestão da segurança patrimonial me preocupo com a situação das usinas que tem corpo orgânico de segurança próprio. Pois, além de todos os requisitos obrigatórios atribuídos acima, temos a situação da responsabilidade civil e criminal em caso de incidente e/ou acidente oriundo de algum ato dos vigilantes (situação da segurança armada)”, destaca.

Segundo Luciana e Gonçalves, o papel do Ré de diagnosticar a segurança da empresa antes da ocorrência da ação criminosa, verificar se a mesma está dimensionada para inibir as ameaças existentes e recorrer à expertise de profissional especializado, assim que detectada a falha.

“Ao RH cabe administrar a segurança utilizando o conhecimento especializado de profissionais da área para minimizar suas perdas e aumentar a sensação de segurança dos seus colaboradores, da mesma forma como recorre aos profissionais do direito, psicologia, contabilidade, entre outros. Esta área deve aplicar um checklist de 200 itens para identificar quais são as medidas preventivas, corretivas e as oportunidades de melhoria para o sistema de segurança. Com isto, o RH terá um documento para nortear suas ações junto à alta direção da empresa”, afirma Gonlçaves.

Para Guedes e Silvao RH tem fundamental importância na gestão da segurança naquilo que diz respeito ao recrutamento, à seleção, à contratação, ao treinamento e à demissão de empregados. “O RH tem que trabalhar em consonância aos preceitos da política de segurança, de forma que diminua a possibilidade de contratação de pessoas indesejadas, envolvidas ou comprometidas com o crime, que sejam vulneráveis a ação de criminosos ou possam repassar informações sigilosas ou comprometedoras para pessoas não autorizadas ou mal intencionadas. O RH também deve estar atento à legislação trabalhista, objetivando evitar possíveis ações nessa área, decorrente de eventos (ligadas à segurança) que poderiam ser tratados ou contornados.”

 

TRABALHO CONJUNTO

A segurança de uma companhia é responsabilidade de todos. A cooperação deve vir de seus administradores, das empresas prestadoras de serviço contratadas, dos terceiros e, especialmente, dos próprios colaboradores. O respeito aos regulamentos e as políticas de segurança estabelecidas, a disciplina, o cuidando com os bens que a empresa coloca à disposição, evitando ocasiões para o surgimento de ladrões e vândalos, a prevenção contra acidentes, além da preservação dos bens e das áreas comuns, dos espaços administrativos e operacionais, são fundamentais para que o sistema de segurança implantado funcione de forma efetiva.

O alto investimento em maquinário, equipamentos e mão de obra, aliado ao fato de que as usinas sucroalcooleiras estão localizadas em áreas rurais geralmente afastadas, as tornam bastante vulneráveis e alvos potenciais a inúmeras ações delituosas promovidas por criminosos internos e externos. O setor sucroalcooleiro tem sido vítima constante face os índices crescentes e constantes da criminalidade materializada em roubo, furtos, sequestro e sabotagens, causando prejuízos impactantes no negócio, principalmente devido ao atual momento econômico e à organização e audácia cada vez maior dos criminosos.

Por isso a importância de um plano de segurança patrimonial. O trabalho inicial do estudo e consultoria é de suma importância na criação de procedimentos administrativos e operacionais que visem o controle da matéria-prima e do produto acabado, bem como do estoque e dos meios de transporte, através da idealização e aprovação do plano de segurança, que tem como objetivo de detectar, identificar, analisar, qualificar e apresentar as ameaças, especificando e priorizando a distribuição dos recursos, proporcionalmente ao grau de risco e de acordo com a política adotada para o controle de risco.

É importante que os líderes da empresa multipliquem a conscientização, a importância da segurança, e seu fiel cumprimento por todos, disponibilizem todos os recursos, auditando e gerenciando todos os processos da organização e assegurem que os padrões e procedimentos sejam conhecidos, entendidos e aplicados a todos os terceiros, prestadores de serviço, visitantes parceiros e fornecedores.

Estabelecer melhoria e manutenção contínua dos processos e planos de ações voltados à prevenção de riscos ao patrimônio e pessoas; estabelecer avaliações periódicas do comportamento de segurança e as ações corretivas e preventivas; promover constantes treinamentos de capacitação e desenvolvimento das equipes de segurança internas com palestras de conscientização de segurança e treinamentos técnicos práticos a equipe operacional de segurança em campo; e estabelecer auditorias de medição da eficiência do sistema implantado (pessoas, tecnologias, processos de trabalho ou instalações) são essenciais para a identificação dos riscos e compreensão de suas origens. “A compreensão da origem do risco é imperiosa para a eficácia no tratamento e prevenção, ou seja, o que, como e quando vamos nos dedicar e investir para nos adiantarmos a sua materialização e tomar medidas eficazes para mitigá-lo”, finaliza Stradioto.

 

 

 

 
 

 

 

 ESPECIAL

 

Mesmo com tantas variedades desenvolvidas e disponíveis, institutos de pesquisa e setor ainda continuam em busca de uma cana que traga mais produtividade aos canaviais

 

Natália Cherubim 

Além do avanço da mecanização e do uso de tecnologias de agricultura de precisão, é inegável que muito da evolução pela qual o setor sucroenergético tem ultrapassado ao longo dos últimos anos, também é fruto do esforço das instituições de pesquisas, universidades e empresas, que se dedicam ao melhoramento genético da cana-de-açúcar e que vem desenvolvendo materiais cada vez mais regionalizados e adequados aos mais diferentes ambientes de produção. Muito mais do que isso, a evolução ainda parte do lado dos produtores, que após uma longa fase de aprendizado, adquiriram confiança nos novos materiais e passaram a ver o manejo varietal como ferramenta imprescindível na busca pela produtividade.

No final de 2015, enquanto a Monsanto anunciava que a Canavialis, empresa do grupo voltada para pesquisa e desenvolvimento de variedades de cana, encerrava suas atividades, outras duas importantes instituições lançavam novidades para o setor. Em setembro, o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) divulgou duas novas variedades e em dezembro, foi a vez da Ridesa (Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético) lançar 16 novos materiais.

Hoje, os três principais programas de melhoramento genético em cana-de-açúcar do Brasil - CTC, IAC (Instituto Agronômico) de Campinas e Ridesa -, juntos, oferecem comercialmente 137 variedades. Mas, de acordo com os dados do censo varietal de 2015 da Ridesa, os materiais RB ainda predominam as áreas de cultivo de cana no Brasil.

Alagoas, Bahia e Maranhão, têm como variedades mais cultivadas a RB92579, que compõe 34,75% desta região, seguida pela SP79-1011, que ocupa 12,88%. O Estado de Goiás é coberto, em sua maioria, pela RB867515, presente em 24,98%, seguida pela SP81-3250, com 15,73%. No Paraná, a RB867515 aparece mais uma vez como principal variedade e está presente em 45,82%, enquanto a RB966928 fica em segundo lugar, em 10,07% da área total do Estado.

Em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí, a variedade mais cultivada é a RB92579, com 39,97%, seguida da RB867515, com 11,29%. Rio de Janeiro e Sergipe também optam pela RB867515, que cobre 25,81% das áreas destes estados, e pela RB72454, em outros 7,50%.

Em São Paulo e Mato Grosso do Sul, a RB867515 fica com 27,30% das áreas, enquanto a SP81-3250 está presente em 10,27%. Minas Gerais tem 35,82% de suas áreas cultivadas com a RB867515 e 9,68% com a SP81-3250.

Segundo o professor titular da Universidade Federal do Paraná e coordenador Geral da Ridesa, Edelclaiton Daros, com a liberação das dezesseis novas variedades, a rede completa um total de 94 variedades RB, liberadas desde 1970.

 

“Destas, pelo menos 20 variedades ainda estão em expressão de área de cultivo no Brasil, considerando áreas com mais de 5%. Duas tem destaque especial, como a RB72454, até 2010, e a RB867515, que são as mais cultivadas, inclusive em nível mundial. Por ordem e suas respectivas áreas de variedades RB: São Paulo (62%), Goiás (60%), Minas Gerais (63%), Paraná (84%), Mato Grosso do Sul (65%), Alagoas (65%), Mato Grosso (64%), Rio de Janeiro/Espírito Santo (63%) e Pernambuco (58%). Ao verificar estes números vemos que no Brasil representamos em torno de 70% de cultivo de variedades RB, motivo de orgulho das universidades por este trabalho, realizado sempre em parceria com o setor”, salienta Daros.

O trabalho da Ridesa é realizado em todos os estados brasileiros que cultivam a cana-de-açúcar e é sempre coordenado por uma universidade. Atualmente, a Ridesa conta com 79 bases de seleção, ou seja, do Rio Grande do Sul até o Maranhão. A seleção e as fases iniciais de pesquisa são realizadas em 30 subestações, nos estados onde se encontram as dez universidades que compõem a Ridesa. A seleção e cruzamentos são realizados nas estões de Serra do Ouro (UFAL) e Devaneio (UFRPE).

O CTC possui atualmente em seu portfólio, 25 variedades comerciais, as quais abrangem praticamente 100% das diferentes condições edafoclimáticas brasileiras. Segundo Hugo Campos, gerente de Melhoramento Genético do CTC, as variedades do centro tem uma distribuição praticamente equalizada de plantio em todo o Centro-Sul, com destaque para o Estado de São Paulo, que tem a maior concentração.

“Atualmente, as variedades mais plantadas em todo o Brasil são a CTC4, a CTC15 e a CTC9001. Visando justamente cobrir todas as regiões brasileiras, o CTC possui 24 estações experimentais nas fases de Melhoramento Genético, distribuídas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná e Tocantins”, destaca Campos.

O Programa Cana do IAC liberou, a partir de sua reestruturação no início da década de 1990, 18 variedades de cana-de-açúcar para a agroindústria e uma variedade para alimentação animal. Segundo Mauro Alexandre Xavier, pesquisador do IAC, o projeto de melhoramento do IAC prioriza a seleção e indicação de variedades de forma regional. “Dentro desse conceito destacamos a IAC87-3396, a IAC91-1099, a IACSP95-5000, a IACSP95-5094 e a IACSP97-4039 como as variedades de maior adoção pelo setor.”

O trabalho de desenvolvimento pelo IAC é validado e distribuído em diferentes regiões de produção no Centro-Sul e Centro-Oeste do Brasil. São sete estações experimentais distribuídas no Estado de SP e três pontos fora de São Paulo. Após as etapas iniciais e básicas realizadas nessas estações, o trabalho é expandido e validado em uma grande rede regional e nacional.

As variedades do Programa Cana IAC mais recentes e que estão em processo de ampliação de suas áreas são a IACSP95-5094 e a IACSP97-4039, somadas a IAC91-1099 e a IACSP95-5000. “Na visão da equipe do IAC cada vez mais haverá necessidade de produzir novas variedades, interpretar recomendação e adotar manejo em função de um conjunto de aspectos onde a base é a fitotecnia. O insumo variedade continuará com seu alto grau de importância, porém, deve ser analisado como uma engrenagem dentro de um sistema de produzir cana. Uma das linhas importantes de pesquisa continua sendo identificar variedades com capacidade de enfrentar os desafios da mecanização e produzir mais em ambientes menos favoráveis, principalmente em relação a clima e solo”, destaca Xavier.

A Jalles Machado, localizada em Goianésia, GO, tem um plantel varietal bastante diversificado e que atende às demandas de censo varietal, plantio orgânico e convencional, e irrigação. Karoline Fernandes Rodrigues, gestora de Planejamento e Pesquisa da Jalles Machado, destaca a CTC2, CTC4, CTC15, CTC23, CTC24, CTC20, CTC9003, CTC9001, IAC87-3396, IAC91-1099, IACSP95-5000, IACSP95-5094, IACSP97-4039, RB867515, RB92579 e alguns clones que estão em fase de validação.

Os motivos que levaram o grupo a plantar essas variedades são os resultados de pesquisas desenvolvidas dentro da própria empresa ao longo dos anos. Com os dados, Karoline explica que foi possível definir quais materiais se adequam melhor a região, com melhor TCH e TPH em comparação aos padrões utilizados. “Em áreas irrigadas com pivô temos utilizado variedades que respondem melhor a irrigação, e se a área for irrigada com vinhaça, podemos colocar variedades ainda mais exigentes e responsivas. Nas áreas orgânicas, no geral, temos usado variedades com bom perfilhamento e bom fechamento de entrelinhas, já que o nosso principal problema é a matocompetição.”

Rodrigo Vinchi, gerente de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Raízen, conta que nos últimos plantios do grupo as variedades mais plantadas foram RB966928, RB855156 e CTC4. A variedade SP81-3250 vem sendo substituída por materiais como CTC4, CV6654 (Canavialis) e RB92579. Já a RB867515 vem sendo substituída pela RB966928, em áreas de manejo precoce, e pela RB92579 e CTC15, em regiões com baixa incidência de ferrugem alaranjada.

“A SP81-3250, por questões fitossanitárias (ferrugem alaranjada e murcha de colletotrichum), vem perdendo performance nos últimos anos, o que torna inevitável seu processo de substituição. Já a RB867515, por se tratar de um material de baixo perfilhamento, perdeu competitividade à medida que a mecanização das lavouras se intensificou”, diz Vinchi, que ainda revela que a estratégia de manejo varietal na Raízen é construída com base na capacidade mensal de moagem das unidades e também em função do mix de ambientes de produção disponíveis.

 

AS NOVAS DO MERCADO

Durante o 9º Encontro de Variedades realizado em setembro de 2015, o CTC lançou a CTC9004M e CTC9005HP. Segundo Campos, as características dos materiais são necessárias para o salto de produtividade que o setor necessita, como hiperprecocidade e rusticidade, por exemplo.

De acordo com os dados do CTC, a variedade CTC9005HP registra alta produtividade e alto teor de sacarose, é extremamente adaptada à mecanização dos sistemas de plantio e colheita, apresentando bom fechamento de entrelinhas e rápido desenvolvimento inicial. Nas condições climáticas da região Centro-Sul não apresentou florescimento, fator que lhe confere um maior período útil de industrialização (PUI), podendo ser colhida desde o início de safra até meados de agosto.

O novo material ainda apresenta alto teor de fibra, produtividade na cana planta, sanidade, tolerância as principais doenças, como carvão, ferrugens marrom e alaranjada, mosaico e escaldadura. Além disso, é ideal para plantio em ambientes A, B e C.

A CTC9004M se destaca pela adaptação aos ambientes de baixo potencial produtivo e pela longevidade de soqueira. De porte ereto, ela despalha facilmente, possui diâmetro uniforme e tem apresentado boa colheitabilidade em áreas pré-comerciais. Além disso, segundo o pesquisador do CTC, mantém produtividade mesmo em ambientes restritivos e possui longevidade, tolerância as principais doenças, como carvão, ferrugens marrom e alaranjada, escaldadura e tolerância intermediária ao mosaico. Os seus meses de colheita são de junho a novembro e ela se adapta bem aos ambientes B, C e D.

“Buscamos sempre por variedades mais produtivas, com alto nível de açúcar e com maior adaptabilidade a solos restritivos. Além disso, todas as novas variedades lançadas pelo CTC vão ser tolerantes a doenças. Outras características importantes buscadas são o maior número de perfilhos e maior longevidade”, destaca Campos.

O Encontro Nacional da  Ridesa, realizado no dia 25 de novembro, em Ribeirão Preto, SP, marcou o lançamento de 16 novas variedades de cana desenvolvidas por algumas das universidades que compõem a rede. A UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) lançou quatro materiais: a RB975201, recomendada para ambientes A, B e C, e que se destaca pela alta velocidade de crescimento, elevada produtividade, ausência de florescimento, isoporização e resistência as principais doenças da cana; a RB975242, um material rústico recomendado para ambientes C e D, com alta produtividade, ausência de florescimento, isoporização e resistência as principais doenças da cana; a RB975952, material precoce recomendado para ambientes A, B e C, com elevado teor de sacarose, alta produtividade, difícil florescimento, pouca isoporização e resistência as principais doenças da cana; e a RB985476, que se destaca por ter alta produtividade, elevado teor de sacarose no meio da safra, elevada estabilidade de produção, resistência as principais doenças da cana e adequa-se a ambientes de A a D.

A UFAL (Universidade Federal de Alagoas) laçou a RB961552, que promete alta produtividade, bom perfilhamento, boa brotação da socaria, raro florescimento e boa resposta à fertirrigação; e a RB991536, que tem como características o bom perfilhamento, raro florescimento, crescimento ereto e resistência à ferrugem. Para ambientes A, B e C, a UFG (Universidade Federal de Goiás) desenvolveu a RB034045, que tem como características predominantes a boa brotação, o alto perfilhamento em cana-planta e cana-soca, maturação média e resistência as principais doenças da cana.

A UFPR (Universidade Federal do Paraná) lançou três novidades. A RB036066, recomendada para ambientes de A a D, com rápido crescimento inicial, elevada produtividade e estabilidade; a RB036088, com elevada produtividade, boa colheitabilidade e sanidade; e a RB036091, recomendada para ambientes A, B e C, com rápido crescimento inicial, elevada produtividade e sanidade.

A UPRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) desenvolveu a RB992506, de elevado potencial produtivo, ampla adaptabilidade da produção agrícola e bom comportamento em ambientes restritos; e a RB002754, de alto teor de sacarose, elevado potencial produtivo e ideal para colheita no início de safra.

A UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de janeiro) lançou duas variedades para ambientes B, C e D. A RB969017, de rápido crescimento inicial e bom fechamento de entrelinhas, com elevado perfilhamento e potencial produtivo. E a RB988503, com bom fechamento das entrelinhas, elevado perfilhamento e alto potencial produtivo em socarias.

Por fim, a UFV (Universidade Federal de Viçosa) desenvolveu a RB987935, que tem como características predominantes o médio teor de sacarose, a alta produtividade, uma boa brotação em colheita mecanizada, elevado perfilhamento, ótimo fechamento entrelinhas e resistência as principais doenças da cana. E a RB988082, também com médio teor de sacarose, mas com boa sanidade, responsiva aos maturadores, ampla adaptabilidade e resistência as principais doenças da cana.

“Penso que precisamos, a partir deste novo momento, centralizar os nossos esforços para alternativas. Uma delas é a cana para biomassa ou cana energia, a qual já trabalhamos desde 2008. Os resultados são bem animadores e o nosso foco é a cana Tipo I, com pol de 9 a 12 e fibra de 17 a 19, para ambientes bem restritivos e com excelente potencial de produtividade, e a cana Tipo II, com pol de 4 a 6 e fibra de 25 a 30. Acreditamos que o futuro é a energia elétrica de biomassa renovável e a cana-de-açúcar tem grande potencial”, ressalta Daros.

 

VARIEDADES X PRODUTIVIDADE

Mesmo diante da grande evolução do melhoramento genético de cana ao longo dos últimos anos, ainda não foi possível, em grande parte das lavouras, elevar as produtividades dos canaviais aos tão desejados três dígitos. Mesmo que algumas variedades tenham sido desenvolvidas para atingir este objetivo e demonstrem isso durante os testes e validações, o que tem acontecido é o contrário. A produtividade vem declinando ao longo dos últimos anos e a culpa não é somente do manejo varietal. O engenheiro agrônomo e consultor de plantadores de cana da Campo Fértil Assessoria, José Alencar Magro, destaca três fatores que estão determinando a diminuição do ATR nas sucessivas safras:

1º A falta de cuidados com a limpeza da cana: na colheita mecanizada de cana crua é levada para a usina muita palha seca e verde, além do palmito da cana, que tem baixíssimo ATR, e da grande quantidade de terra;

2º O não respeito à época certa de colheita de cada variedade: nem sempre as variedades de cana são colhidas de acordo com as características genéticas de cada uma, principalmente quanto a sua maturação, se é precoce para o início da safra, mediana para o meio e tardia para o final da safra.Nos relatórios de safra tem-se verificado que quase todas as variedades estão sendo colhidas do início ao final da safra, em quase todos os tipos de solo, indiscriminadamente. Cada variedade tem uma época ideal especificada para a colheita e é isso que proporciona o maior lucro;

3º A forma como as novas variedades são apresentadas pelas instituições: os dados divulgados pelas desenvolvedoras são de pouca consistência para dar segurança aos plantadores de cana.

“Já existem muitas e ótimas variedades liberadas que solucionam as questões do ATR, mas elas não são plantadas por falta de confiança ou são plantadas, mas colhidas com manejo indevido. É comum ouvir dos plantadores, ‘tenho pouca confiança nos dados das novas variedades, portanto continuo plantando as antigas porque já as conheço, mesmo que apresentem algum problema de doença.’ No meu trabalho de assessoria tenho verificado que as instituições de pesquisa têm grande quantidade de ótimos dados, mas os seus técnicos não apresentam estes dados de forma didática para poderem convencer os plantadores”, observa Magro.

Segundo Jose Luiz Ioriatti Dematte, especialista do Departamento de Ciências do Solo da Esalq/USP, o histórico da evolução do rendimento através da Pol% Cana nos últimos 30 anos, iniciando na safra 1984/85 até a safra 2014/15, pode ser feito através dos dados obtidos ao longo deste período  pela Orplana, onde se utilizou as equações do Manual de Instruções do Consecana, 5º Edição de 2006. No período de 1984/85 a 2000/01 foram analisadas 548 milhões de t de cana; na safra 2001/02 a 2008/09, 524 milhões de t de cana, na safra 2009/10, 517 milhões de t e na safra 2014/15, 98 milhões de t de cana.

“Ao analisar os valores da Pol% Cana e do ATR neste longo período, observa-se que mês a mês praticamente não houve aumento da Pol% Cana. Apenas tomando como exemplo os segundos períodos do meses, no caso maio, julho, setembro e novembro, não houve acréscimo e praticamente os valores são semelhantes, alterando em função da época, maio a novembro, com um máximo em agosto/setembro, como era de se esperar. O que se observa nos acréscimos ou decréscimos nos valores da Pol% Cana ao longo das safras se deve unicamente as oscilações climáticas e não as variedades, da mesma maneira que o aumento da t/ha de cana”, explica Dematte.

Em relação ao início da safra, era de se esperar aumento nos valores da Pol% Cana devido às novas variedades tidas como mais ricas para este período, porém, tal fato também não tem ocorrido. De qualquer maneira, segundo Dematte, mesmo com o esforço das instituições na obtenção de variedades comerciais, assim como ao grande número destes materiais colocados à disposição das unidades, não se tem conseguido acréscimo de ATR. “Certamente, a produtividade agrícola em função da t/ha de colmos tem evoluído para maiores também em função das condições climáticas, o que deve ter resultado em maiores Pol%, Cana/t ou ATR/t. Contudo, assim como afirma Geraldo Majela de Andrade Silva, da Orplana: ‘os dados apresentados são significativos, mas não demostram, em média, uma evolução quantitativa de açúcar na matéria-prima decorrente da introdução de novas variedades’.”

O decréscimo e, posteriormente, a eliminação de variedades se deve, principalmente, a doenças como ocorreram nos casos da descontinuação da NA 5679, SP70-1143, SP81-6163, RB72454 (esta a mais velha de todas e que foi detonada pela ferrugem alaranjada) e, atualmente, a SP81-3250. Dependendo da maior ou menor suscetibilidade a doenças a variedade pode ter maior ou menor estabilidade. Dematte conta que das 25 variedades citadas pelo CTC, assim como outras das RBs e IACs, praticamente todas apresentam determinadas restrições, de maior ou menor grau, a doenças, e neste aspecto estão as duas mais plantadas, no caso, a CTC15 (esta com a ferrugem alaranjada) e a CTC4 (esta com a ferrugem marrom).

O pesquisador da Esalq/USP alerta que é preciso verificar outros aspectos como adaptação a qualidade das terras, brotação de soqueira, adaptabilidade ao corte mecanizado e a palha, a variação de temperatura, as geadas e resistência a seca. Ou seja, optar sempre por variedades mais estáveis, pois estabilidade 100% não existe, e esquecer que ter exuberância não significa estabilidade. “Notamos que com a mesma velocidade em que as novas variedades são introduzidas, elas estão sendo, na maioria dos casos, eliminadas. Onde estaria o erro? Tudo leva a crer que estaria justamente no pouco tempo de observação antes de ser posto na área comercial. Na maioria dos casos, os testes de validação têm ficado para os usuários decidirem, o que não está correto”, comenta Dematte.

Sempre questionado sobre a razão pela qual os produtores de cana optam pelo cultivo de variedades da década de 80, o pesquisador tem uma resposta simples e objetiva. “Elas apresentam maior segurança e maior estabilidade.”

Observando os dados da Ridesa, em áreas cultivadas e plantadas em SP e MS, Dematte indica que, dentre as dez primeiras variedades cultivadas, sete são da década de 80, onde se incluem variedades precoces, entre elas as RBs 855156 e 855453, as CTCs 2 (10º lugar) e 15 (8º lugar), assim como a CTC09, em 13º terceiro lugar.

Já no plantio, nota-se que tem sido reduzida a SP81-3250 (devido a doença, ferrugem alaranjada) sendo que a RB966928, filha da RB855156, tem ocupado o segundo lugar, sendo a mais plantada no Centro-Sul. “Compare-a com a CTC9, também precoce e do ano de 96, e veja a velocidade de evolução de uma em relação a outra. As duas RBs precoces permanecem praticamente nas mesmas posições com a escalada da CTC17, também precoce, mas que infelizmente tem sido reduzida por conta do carvão. A CTC15, uma das variedades mais plantadas do CTC, que ocupava o 8º lugar passou para 4º, mas infelizmente e devido a ferrugem alaranjada, esta tendo redução. A CTC 4, atualmente uma das melhores variedades do CTC, está sendo rapidamente multiplicada na maioria das regiões, porém em regiões mais úmidas como Piracicaba, não tem permitido seu plantio devido a ferrugem marrom”, observa Dematte.

Para ele, faltam variedades precoces e tardias para solos de baixa fertilidade, onde se destaca a tradicional RB867515 que tem como inconveniente a perda de produtividade na colheita mecanizada em solos arenosos e sensibilidade ao ataque da podridão de topo. “Devido a este fato tem-se destacado a SP83-2847 e a RB92579 numa possível substituição parcial da RB867515. De qualquer maneira, na intenção de plantio analisada pelos dados da Ridesa, 50% ainda pertence às variedades da série de 1980, ou seja, maior estabilidade, onde se destaca também a SP80-1816, devido à segurança que se tem na brotação da soqueira em período extremamente seco e em solo argiloso”, frisa.

Escolher a variedade mais adequada em termos de estabilidade dependeria de uma série de fatores que devem ser colocados em consideração, segundo Dematte:

1º Condições climáticas: o Brasil apresenta uma diversidade enorme de clima, não somente na quantidade de chuvas, mas também e, principalmente, nos balanços hídricos, na umidade relativa e nos riscos de geadas. Com isso é preciso ter muito conhecimento porque o clima representa para a cultura da cana de 65% a 68% da produtividade, haja vista a baixa produtividade das safras 2013 e 2014, devido à seca, e o aumento da produtividade devido às chuvas na safra 2015, o que deve ocorrer novamente em 2016/17.

2º Qualidade das terras: dos aproximadamente 9 milhões de ha cultivados com cana, 65% apresentam baixa fertilidade e baixa retenção de umidade e com isso maior restrição na escolha de variedades. É preciso lembrar que à medida que aumentam as restrições de manejo, as variedades tornam-se mais suscetíveis a doenças e com sensível redução na estabilidade. Este é o motivo pelo qual a RB867515 vem sendo uma das mais plantadas nestes tipos de ambientes, sendo seguida pela SP83-2847, a RB92579, e as precoces como a RB855156 e, eventualmente, a RB966928.

“Para o restante das áreas, com solos de boa fertilidade, de textura média a argilosa e climaticamente favorável, há sobra de variedades. Portanto, é preciso buscar as variedades no mercado tidas como as mais estáveis em função dos ambientes onde se pretende cultivar. As boas variedades são as que combinam potencial de produtividade com estabilidade”, conclui Dematte.

 

CANA TRANSGÊNICA

Muito mais do que melhoramento genético, alguns institutos tem corrido em busca da cana transgênica, como é o caso do CTC e da Embrapa, que devem liberar seus materiais para uso comercial até 2018. Mas qual deverá ser o papel desta cana para o setor?

O avanço do aumento da produtividade agrícola em outras culturas como soja, milho e algodão, em contraste com a queda de produtividade da cana tem sido atribuído à introdução de uma série de novas tecnologias como as plantas geneticamente modificadas.

“O atual sistema de melhoramento está sendo superado e novos avanços, como a transgenia, estão se tornando realidade. Me parece ser este o caminho, porém quais seriam os critérios utilizados nestas mudanças? A introdução de material geneticamente modificado para resistência ao glifosato, por exemplo, não seria uma boa alternativa, pois como ficariam as reformas de áreas onde se utilizam as soqueiras como alternativa contra o sistema erosivo? Além disso, a introdução da cana transgênica teria que ser em variedade de elevada estabilidade, caso contrário estaríamos na mesma situação atual”, opina o pesquisador e especialista em Ciência do Solo da Esalq/USP.

Daros diz que não acredita que as variedades transgênicas serão mais produtivas que as variedades tradicionais porque a cana transgênica é oriunda de uma variedade tradicional que, na maioria dos casos, tem desempenho inferior ou, no máximo, igual as variedades comuns. “Dependendo do gene colocado poderemos ter um custo mais baixo, porém, lembro os problemas das plantas daninhas que adquirem resistência e obrigam o produtor ao uso de herbicida para seu controle. O mesmo pode acontecer com resistência a pragas. É complexo, mas vamos esperar para ver o comportamento das transgênicas no campo. Volto a insistir. A cana transgênica não será a salvação da lavoura e sim mais uma ferramenta a ser utilizada. Não devemos esperar ganhos significativos, pois ela será cultivada no mesmo ambiente, com todas as limitações e indefinições de manejo de solo, de adubação, de variedade, de tratos culturais, de mudas e de doenças”, pondera o pesquisador, que afirma que as universidades da Ridesa já têm pesquisas na área.

O consultor da Campo Fértil Assessoria, diz que tem dúvidas sobre a transgenia. “Não sei se é moralmente correto ter uma cana transgênica, considerando que se faz a cruza de genes de outras espécies de plantas e animais. Acho que ainda temos muito para explorar dentro do universo de genes da própria cana, pois ainda não sabemos dominar 100% a metodologia que já existe para melhor selecionar os materiais genéticos produzidos com a hibridação convencional”, opina.

 

A CANA DO FUTURO

Muito além das diversas variedades que foram desenvolvidas para atender as necessidades dos produtores e a iminência da transgenia em cana, ainda existem desafios que precisam ser superados. Afinal, qual deverá ser a cana do futuro?

“Apesar de termos diversas variedades disponíveis, temos perdido algumas para a ferrugem alaranjada. Características como resistência a ferrugem alaranjada, ausência de florescimento, bom perfilhamento e fechamento, são fatores que devem ser superados pelas instituições de pesquisa. Além disso, a cana do futuro deveria ter maior adaptação à mecanização,  alto TCH e TPH, porte mais ereto, amplo período de colheita e maior responsividade a irrigação”, afirma Karoline.

Para o gerente de planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Raízen, as variedades do futuro devem, acima de tudo, estarem adaptadas aos atuais níveis de mecanização da lavoura de cana. Outro ponto extremamente importante é a questão fitossanitária. Segundo ele, os programas de melhoramento precisam redobrar a atenção no que diz respeito aos níveis de susceptibilidade às principais doenças que afetam a cultura da cana.

“O parque varietal que possuímos é extremamente farto. O potencial produtivo destes materiais é altíssimo. O que tem ocasionado a baixa produtividade é basicamente a falta de investimento, de manejo e uso de algumas tecnologias já disponíveis. A cana do futuro não é muito diferente desta que está aí. Talvez precisemos de alguns avanços na área de biotecnologia que nos tragam materiais com certas resistências a fim de melhorar a produção. Acontece que, se investe muito pouco em pesquisa em cana-de-açúcar, e portanto, não devemos sonhar com grandes mudanças”, acrescenta Ismael Perina, produtor de cana e presidente do Sindicato Rural de Jaboticabal.

“Imagine a área técnica de uma usina que necessita tomar decisões relacionadas à escolha do elenco varietal num conjunto aproximado de 60 a 65 variedades liberadas (some as variedades liberadas pelo CTC, Ridesa e IAC) sem levar em consideração as antigas. Nas reuniões técnicas espalhadas na região canavieira, tem sido frequente a posição dos apresentadores de que todas as variedades são adequadas, deixando para o usuário o ônus de eventuais falhas, como já tem ocorrido. Seria muito mais adequado e prudente se os órgãos responsáveis por esta área liberassem um número bem menor de variedades, porém, adequadamente testadas e de comprovada eficiencia, reduzindo assim os riscos nas escolhas. O setor agradece”, finaliza Dematte.

Seja pela falta de manejo adequado, pela falta de conhecimento dos produtores e até mesmo por conta de desenvolvimentos que não são na prática o que prometem na teoria, o que dá para notar é que o setor continua a alguns bons passos da cana do futuro. 

 
INFORMAÇÃO NA PALMA DA MÃO

Desenvolvido há 30 anos, o censo organizado pelo CTC é responsável por reunir a informação de área cultivada de cada variedade de cana-de-açúcar de todos os programas de melhoramento genético por estágio de corte e a cada safra.

Ao todo, é possível obter informações da maior parte (70%) da área cultivada com cana em todo o Brasil. “Hoje o nosso censo possui a maior base de usinas cadastradas do mercado, possibilitando a análise de dados precisos e representativos”, explica Rubens Braga Jr., um dos desenvolvedores da metodologia de cálculo utilizada para a criação do censo.

Além do market share das variedades, por meio do censo CTC, também é possível avaliar a evolução das áreas de plantio e reforma contribuindo na estimativa de produtividade da próxima safra. Além disso, as usinas e grupos que enviam as informações solicitadas recebem um relatório digital com análises estratégicas para tomadas de decisão em fases de planejamento de plantio, por exemplo.

Como funciona?

A partir de abril deste ano, qualquer usina ou grupo pode enviar as informações de área cultivada (em uma planilha padrão) com cada variedade que possui, independentemente do programa de melhoramento genético a qual ela pertence. O endereço de envio é 
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 ESPECIAL

 

 

O ano de 2015 acabou e levou consigo os maus ventos da crise. Ainda que a melhora dos preços não seja o suficiente para a retomada de alguns grupos, principalmente os mais endividados, o novo horizonte já sinaliza que bons ventos virão.

 

Ao contrário do que ocorre com a economia brasileira, o cenário prospectado para o setor sucroenergético em 2016, segundo especialistas e economistas, será positivo e de recuperação. E muito do que vem por aí é reflexo dos acontecimentos de 2015, um ano de transição para o setor, segundo Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar).

Após um período de preços da gasolina constantes e um mercado mundial de açúcar superavitário, iniciou-se um novo momento, de receitas mais construtivas para o setor. O reajuste de 3% na gasolina, do Pis/Cofins em R$ 0,12/l, o reestabelecimento da Cide em R$ 0,10/l sobre a gasolina, e o novo reajuste nos preços da gasolina, em 6%, feitos em meados de setembro de 2015, foram suficientes para aumentar a competividade do etanol hidratado em mais de R$ 0,20/l.

Além da alteração dos tributos federais e do aumento do preço de realização da Petrobras, alguns estados alteraram a alíquota do ICMS do etanol e da gasolina. Minas Gerais elevou o ICMS da gasolina para 29% e reduziu o hidratado para 14%, proporcionando uma grande mudança no mercado de etanol hidratado no Estado. Outros estados também aumentaram a alíquota do ICMS da gasolina.

Outro ponto fundamental, segundo Rodrigues, foi a desvalorização do real atingindo a casa dos R$ 4 por dólar, aumentando a competitividade dos produtos destinados à exportação. “Sem dúvida alguma, esses fatores impactaram os preços do açúcar, do etanol e da cana-de-açúcar a partir do mês de outubro, trazendo maior rentabilidade à atividade de muitas empresas.”

Evidentemente que nem todas as empresas aproveitaram a melhora de preços observada no final da safra 2015/16, visto que não formaram estoques durante o período produtivo. “Para essas empresas que venderam toda a produção no período de moagem, ainda vamos observar um aumento de custos devido à valorização do kg do ATR, que impacta o desembolso com a compra de cana-de-açúcar de fornecedores e o pagamento de parcerias”, destaca o diretor técnico da Unica.

As condições climáticas também foram altamente favoráveis ao desenvolvimento da cana-de-açúcar. Mesmo com um canavial envelhecido, a produtividade observada na safra 2015/16 deve fechar próxima a 83 t/ha, um incremento de 12% em relação à safra anterior. Por outro lado, segundo Rodrigues, a quantidade de ATR por tonelada deve ficar 5 kg por t, volume aquém do índice registrado na safra 2014/15. Desta forma, o crescimento de 5% na moagem deve ser praticamente anulado pela redução da quantidade de produto obtido por tonelada de cana processada. O incremento em produto nessa safra deverá ser menor que 1% quando comparado com a safra anterior.”

“O ano também foi marcado pela reabertura de cinco unidades, que voltaram a operar, como foi o caso da Sapucaia/RJ, Cruangi/PE, Uruba/AL, Energética São Simão/GO e Dracena/SP. Outro fato marcante foi os preços do açúcar que subiram de um patamar de 11 a 12 cents de dólar por libra para o patamar de 14 a 15 cents no início do quarto trimestre”, complementa Ricardo Pinto, sócio-diretor da RPA Consultoria.

Enquanto cinco usinas voltaram a moer, outras cinco pararam de funcionar – Capricho/AL, Ecoenergia/RN, Canabrava/RJ, Iracema-Itaí/SP e Bom Retiro/SP, uma declarou falência (Albertina) e outras 12 usinas, entre elas, Madhu/SP, Revati/SP, Vale do Ivaí/PR, Cambuí/PR, Santa Cândida/SP, Paraíso/SP, Vista Alegre/MS, Santa Helena/MS, Paraíso/RJ, Unialco/SP, Alcoovale/MS e Decal/GO, entraram em recuperação judicial. “Diversas indústrias de bem de capital do setor também entraram em recuperação judicial, como é o caso da Dedini, Zanini e Simisa”, adiciona Ricardo Pinto.

Segundo o diretor técnico da Unica, a partir deste ano, muitas empresas vão ter resultados mais positivos, melhorando seu ambiente de negócios e permitindo eventuais renegociações de suas dívidasSegundo o diretor técnico da Unica, a partir deste ano, muitas empresas vão ter resultados mais positivos, melhorando seu ambiente de negócios e permitindo eventuais renegociações de suas dívidasCENÁRIOS PARA 2016

Mesmo com a maioria das projeções positivas para o setor sucroenergético, todos os cenários previstos dependem, porém, tanto do que vai acontecer no mercado nacional e internacional, quanto do que vai acontecer com o clima daqui para frente.

Mario Campos, presidente da Siamig (Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais) acredita que o setor tem tudo para sair da crise, mas destaca que é preciso não só que os produtores continuem em busca do aumento da produtividade agrícola e da redução dos custos de produção, como também de estarem atentos ao que acontece no mercado e de consumo de combustíveis.

“O ano vai ser melhor porque há possibilidade de continuidade do preço valorizado do etanol no mercado interno, além da volta do açúcar com um valor mais rentável e capaz de gerar uma receita em moeda forte. O dólar desvalorizado tornou o açúcar brasileiro muito competitivo e se o efeito cambial inicialmente teve um impacto na oneração da dívida, no médio prazo será positivo e o setor começará a ter receita em dólar, o que pode contribuir para a renegociação da dívida e de novos créditos. O preço melhor do açúcar no mercado internacional reflete também nos preços do mercado interno. Acreditamos que será um ano de consolidação do mercado do etanol junto com a volta do açúcar como produto rentável para o setor”, opina Campos.

Para o Estado de Minas a tendência, segundo ele, é que se repita a mesma safra de 2015/16 e que a produtividade se mantenha alta, sendo possível ainda, que haja maior renovação de canaviais para 2017.

O diretor técnico da Unica também enxerga, a partir de 2016, um futuro positivo para o setor. De acordo com ele, nada indica que o nível atual da taxa de câmbio será alterado e mesmo com a queda no preço do petróleo, também não deverá haver alterações no preço de venda da gasolina, dada a necessidade de caixa e endividamento da Petrobras. Além disso, o governo federal também discute a necessidade de ampliação de receita, o que pode impactar no preço da gasolina com o incremento da Cide ou a reforma do Pis/Cofins.

“No mercado de açúcar, o Brasil é um dos poucos países que pode suprir o incremento na demanda mundial do produto. Sob o ponto de vista da oferta, se observa uma série de ajustes dentro das empresas, com reforma de canaviais, manutenção de máquinas e equipamentos, e melhorais industriais. Não há, entretanto, cenário ainda para novos investimentos. Muitas empresas, sem dúvida alguma, irão ter resultados mais positivos melhorando seu ambiente de negócios e permitindo eventuais renegociações de suas dívidas junto ao sistema financeiro. Outras, com alto grau de endividamento, devem continuar em uma situação difícil”, prevê Rodrigues.

Ricardo Pinto acredita que o setor canavieiro sai da crise de preços que tinha entrado desde a safra 2012/13 e deve manter os bons valores, pelo menos até a safra 2018/19.Ricardo Pinto acredita que o setor canavieiro sai da crise de preços que tinha entrado desde a safra 2012/13 e deve manter os bons valores, pelo menos até a safra 2018/19.

Apesar de ainda ser muito cedo para definir números de produção para a safra 2015/16, que encerra no final de março de 2016, o diretor técnico da Unica afirma que, ao que tudo indica, a oferta de cana ficará em torno 620 a 630 milhões de t. “Mas continua o questionamento sobre as condições climáticas e a possibilidade de observamos outra safra com elevado volume de cana-de-açúcar não processada”, alerta.

A RPA Consultoria estima que o preço do ATR deva fechar em R$ 0,5531/kg em março de 2016. Este mesmo fechamento para março de 2017 (referente à safra 2016/17) está estimado em R$ 0,6177/kg, um crescimento que se deve ao aumento médio de 21,1% nos preços dos açúcares e a uma queda média de 3,3% nos preços do etanol carburante entre as duas safras.Logo, poderá haver uma alta de 11,68% no preço do ATR, lembrando que já terá havido uma correção de 16,1% no preço dele da safra 2014/15 para a safra 2015/16.

O diretor e consultor da RPA explica que se adicionarmos a este fator de aumento do preço do ATR um crescimento no teor de ATR da cana de pelo menos 3 kg/t de cana – haja vista que a safra 2015/16 teve ATR menor que 132 kg/t de cana no Estado de São Paulo -, o preço médio da tonelada de cana vendida por fornecedores às usinas na safra 2016/17 poderá subir em 14,2% em relação ao preço de 2015/16, que terá subido 12,7% em relação à safra 2014/15.

“Estima-se que entre 7% e 8% da cana processada até 31/12/2015 no Centro-Sul deva ter ficado em pé, o que significa entre 41,6 e 47,5 milhões de t de cana. Esta cana bisada costuma ser colhida no início da safra seguinte, quando ganha peso (após passar pelo verão chuvoso), mas incorpora brotos chupões ao lado de cana isoporisada, o que também dificulta sua colheita. Todavia, se o volume é grande, a cana bisada sendo colhida primeiro empurra as demais canas, fazendo-as serem colhidas com mais meses e, dependendo do planejamento de colheita da usina, possibilita o melhor ATR destas canas”, detalha Ricardo Pinto.

Contudo, dado o momento do setor e do mercado, entre janeiro e março de 2016, período oficialmente ainda considerado da safra 2015/16 (que se encerra em 31/03/2016), o setor vai ter até 30 milhões de t de cana processadas no Centro-Sul. Isso faz com que fiquem nos canaviais, em abril, ao redor de 15 milhões de t, que poderão ganhar peso de até 20%, chegando a 18 milhões de t. Esta cana é que será efetivamente processada na safra 2016/17 como cana bis, empurrando o restante dos canaviais.

Caso se confirme a entrada do La Niña a partir do outono de 2016 (março a junho), este cenário climático, segundo o Ricardo Pinto, poderia fazer o próximo período de safra ser bem mais seco do que foi em 2015, talvez parecido com 2014, o que possibilitaria que mais cana fosse processada por mês, deixando a cana bisada e a que ganhou maior produtividade dos meses iniciais de safra – canaviais estes que empurram a cana soca -, acabarem-se por volta de agosto a setembro.

Campos acredita que, além de investimentos em pesquisa e desenvolvimento para aumento de produtividade, um dos maiores desafios do setor é a modificação da legislação quanto ao transporte de canaCampos acredita que, além de investimentos em pesquisa e desenvolvimento para aumento de produtividade, um dos maiores desafios do setor é a modificação da legislação quanto ao transporte de cana

“Assim, haveria um adiantamento das canas a serem colhidas daí em diante, que perderiam produtividade agrícola em comparação a 2015. Isso geraria uma demanda forte por parte das usinas do Centro-Sul de encerrar a safra até final de novembro ou início de dezembro de 2016. Logo, os canaviais colhidos em dezembro de 2015 e fevereiro de 2016 poderiam ser bisados para 2017. Estamos falando de aproximadamente 39 milhões de t de cana. Este é um cenário que apontaria uma moagem para o Centro-Sul de abril ao final de novembro (safra 2016/17) de pouco mais de 580 milhões de t de cana. Contudo, no ano todo de 2016, a moagem terá sido de 610 a 615 milhões de t”, estima o consultor da RPA.

Imaginando outro cenário, em que o período de moagem não seja tão seco, o setor poderá adentrar dezembro com uma moagem a partir de abril de aproximadamente 610 milhões de t de cana. Haveria então um montante bem menor de cana bis para 2017 em relação ao cenário anterior. Neste caso, o ano todo de 2016 terá processado 640 milhões de t de cana.

“Os cenários apontam que poderemos ter uma safra em 2016 (de janeiro a dezembro) de 610 a 640 milhões de t de cana no Centro-Sul, dependendo do clima ao longo do período de moagem. Isso fará de 2016/17 uma safra bastante atípica, aliás, como têm sido todas as últimas safras”, aposta Ricardo Pinto.

MIX EQUILIBRADO

O mix de produção não deve mudar muito nesta safra. Mesmo que algumas unidades produtoras aumentem a produção de açúcar dado à possibilidade do aumento na moagem, Rodrigues acredita que o etanol hidratado vai continuar sendo o produto de maior liquidez, com a possibilidade de bons preços ao produtor.

Para Ricardo Pinto, o mix deverá voltar a ser mais equilibrado por conta dos preços do açúcar. “O dólar alto atuando na leve recuperação do preço do açúcar, que saiu de um patamar de 11 a 12 cents por libra, no início de 2015, para 14 a 15 cents no final do mesmo ano, já apontou para margens de até 30%. Ambos os fatores devem continuar a subir em 2016 – o dólar e o preço do açúcar –, mostrando uma conjuntura bastante atrativa para as usinas brasileiras. As exportações de etanol também se mostram atrativas, caso haja redução de preços domésticos no meio de 2016.”

André Rocha, presidente-executivo dos Sindicatos da Indústria de Fabricação de Açúcar e de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg/Sifaçúcar) e presidente do Fórum Sucroenergético, apesar de achar ainda muito cedo para qualquer prospecção, diz que, a princípio, acredita que o mix vai ser muito parecido com o da safra 2015/16, porque além da forte demanda, o etanol tem uma maior liquidez. “Agora, tem uma questão a ser ponderada. Como é que vai ser a situação econômica? Há uma expectativa que continue uma retração das atividades econômicas e isso acaba fazendo com que se reduza o consumo tanto de combustíveis como de alimento. A safra vai ser mais alcooleira, mas talvez, até o seu final, ela vire mais açucareira.”

Já Guilherme Nastari, diretor da consultoria Datagro, afirmou em entrevista, que a safra 2016/17 deverá ser menos alcooleira caso não haja nenhuma mudança no preço da gasolina ou elevação da incidência da Cide na gasolina. Isso porque o cenário para o açúcar tende a melhorar caso se confirme o déficit no ciclo mundial 2015/16. “A previsão de déficit mundial de açúcar no ciclo 2015/16, que inicia em 1 de outubro, deve, no médio prazo, ser um fator de alta nas cotações”, afirmou.

No início do mês de janeiro, a consultoria Datagro divulgou dados sobre a safra canavieira 2016/17, na qual estima que a região Centro-Sul produzirá de 610 a 630 milhões de t de cana, com uma produção de açúcar que deve ficar entre 33,5 a 34,5 milhões de t e a de etanol, de 28 a 28,6 bilhões de l.

BIOELETRICIDADE

Rocha: “Aqui nas novas fronteiras, estamos cada vez mais utilizando variedades de cana específicas para a região e temos conseguido melhorar a produtividade em função disso. Mas o desafio é desmitificar a irrigação”Rocha: “Aqui nas novas fronteiras, estamos cada vez mais utilizando variedades de cana específicas para a região e temos conseguido melhorar a produtividade em função disso. Mas o desafio é desmitificar a irrigação”

Há dois mercados no setor de energia elétrica, o Ambiente de Contratação Livre (ACL) e o Ambiente de Contratação Regulada (ACR). No ACR, onde ocorrem os leilões regulados promovidos pelo Governo Federal e considerado o principal ambiente para viabilização de novos projetos, o preço tem melhorado nos últimos anos.

A expectativa do setor sucroenergético é que não haja retrocesso no processo de melhora dos preços-teto para os próximos leilões. Essa continuidade é condição essencial para o retorno do investimento em bioeletricidade, de forma contínua e robusta, segundo o diretor técnico da Unica.

“No ACL, o gerador a biomassa tem a opção de vender diretamente sua energia para o consumidor livre/especial ou para um comercializador de energia. O ACL está passando por uma nova onda de migração dos consumidores – que saem do ACR para o ACL – em virtude da alta das tarifas reguladas praticadas pelas distribuidoras, mas os preços estão distantes dos valores praticados nos últimos anos em virtude da melhoria recente das condições hidrológicas e da queda no consumo de energia. Em 2015, estima-se uma queda de consumo de energia no ACL em 5%”, diz.

Campos acredita que a bioeletricidade não vai ter preços tão remuneradores como dos últimos anos em função da forte queda da economia brasileira, que reduziu bastante a demanda por energia, juntamente com a recomposição dos reservatórios na região Sudeste-Sul, o que está levando o preço da energia para baixo e também o mercado de energia.

“Nas últimas três safras, a cogeração foi altamente rentável e houve um aumento expressivo da venda. Na safra 2016/17, porém, acredito que o consumo de energia de bagaço de cana deverá ficar estagnado”, afirma o presidente da Siamig.

DESAFIOS

O estoque da dívida do setor ainda é alto e as condições de juros elevados e redução do crédito dificultam sua rolagem, apesar das boas perspectivas para o setor. Campos acredita que além dos juros elevados e redução de crédito, o segundo desafio este ano será retomar o consumo de etanol a patamares do ano passado já a partir de abril.

“Há necessidade da aceleração dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas variedades e técnicas para aumento da produtividade agrícola, além de aumentar o percentual de renovação do canavial, a fim de reduzir sua idade média. No mercado de açúcar vamos ter que captar as necessidades do consumidor e as mudanças que vêm ocorrendo no setor de alimentos, a fim de que a perda de mercado seja a menor possível. O setor tem que entender como a indústria de alimentos vai implementar a possibilidade de mistura do açúcar com adoçante. Outro desafio é a modificação da legislação quanto ao transporte de cana”, salienta o presidente da Siamig.

Rocha acha que o grande desafio para as empresas continua na questão agrícola. “O desafio é melhorar a colheita mecanizada. Nós ainda estamos em época de aprendizagem e de tentar levar cada vez menos impureza para as indústrias. Então, acho que esse é um desafio. Aqui nas novas fronteiras, estamos cada vez mais utilizando variedades de cana específicas para a região e temos conseguido melhorar a produtividade em função disso. Outro desafio é desmitificar a irrigação”, opina.

Para Ricardo Pinto, o excesso de cana bis vai acabar tirando do radar das usinas a priorização de busca de ganho da produtividade agrícola em 2016, inclusive pela diminuição da renovação dos canaviais, o que poderá fazer com que a produtividade agrícola de 2017/18 decline novamente.

Na indústria, o setor ainda vive um excesso de capacidade industrial, que em 2015 não foi atendido por conta das chuvas durante a safra. Em 2016, segundo o consultor, o setor poderá ter baixas produtividades nos canaviais de final de ciclo (novembro em diante), forçando com que a safra não seja comprida e que haja cana bis para o início de 2017 no Centro-Sul.

Haverá pouco investimento industrial em 2016, segundo ele, mas que se mostrará necessário a partir de 2017, principalmente para recuperação de unidades industriais que estiverem paradas e que, por conta do aumento da demanda de açúcar e etanol, terão viabilidade em retornarem à produção.

Em síntese, acreditamos que o setor canavieiro saiu da crise de preços que tinha entrado desde a safra 2012/13. Mesmo com os desafios que se mostram este ano, a perspectiva de bons preços da cana deve projetar-se para, pelo menos, até a safra 2018/2019. Que venham três safras de ‘vacas gordas’, depois de quatro safras de ‘vacas magras’”, finaliza. 

 
ADEUS ANO VELHO!
OS BONS E MAUS ACONTECIMENTOS DE 2015
 

1. A mistura de anidro na gasolina subiu de 25% para 27% em 16 de março de 2015, podendo implicar em aumento do consumo de quase 900 milhões de l no ano;

2. A volta da Cide na gasolina voltou para ajudar as contas do governo e deixar o hidratado ainda mais atrativo do que a gasolina na bomba;

3. O ICMS do etanol hidratado em MG diminuiu de 19% para 14% no final de março, enquanto o mesmo imposto sobre a gasolina subiu de 27% para 29% como compensação;

4. Houve dois aumentos do preço da gasolina pela Petrobrás;

5. As vendas de etanol hidratado chegaram a subir quase 50% em relação ao ano de 2014, a partir de abril;

6. Cinco usinas voltaram a funcionar: Sapucaia/RJ, Cruangi/PE, Uruba/AL, Energética São Simão/GO e Dracena/SP;

7. O açúcar subiu de um patamar de 11 a 12 cents de dólar por libra para o patamar de 14 a 15 cents no início do quarto trimestre;

8. O dólar subiu 46,8% entre primeiro e último dia de 2015;

9. Se preço do ATR fechar em março/2016 a R$ 0,5531/kg, terá havido um aumento de 16,1% frente ao preço anterior, de R$ 0,4763/kg da safra 2014/15.

 

1. Uma usina faliu: Albertina/SP;

2. Cinco usinas pararam de funcionar: Capricho/AL, Ecoenergia/RN, Canabrava/RJ, Iracema-Itaí/SP e Bom Retiro/SP;

3. 12 usinas entraram em recuperação judicial: Madhu/SP, Revati/SP, Vale do Ivaí/PR, Cambuí/PR, Santa Cândida/SP, Paraíso/SP, Vista Alegre/MS, Santa Helena/MS, Paraíso/RJ, Unialco/SP, Alcoovale/MS e Decal/GO;

4.Indústrias de bem de capital do setor entraram em recuperação judicial, como Dedini, Zanini e Simisa;

 

 ESPECIAL

 

 
Gestão estratégicas da saúde nas usinas

Mesmo em tempos de crise, é preciso olhar os benefícios à saúde do trabalhador como uma ferramenta importante para a gestão de pessoas e retenção de talentos

Natália Cherubin

Oferecer benefícios à saúde do trabalhador deixou de ser, há um bom tempo, obrigação para usinas e produtores de cana. Mesmo não havendo uma lei que obrigue que as companhias ofereçam planos de saúde a todos os seus funcionários, o investimento nestes benefícios é visto como uma maneira de garantir não só o bem-estar como também a saúde do trabalhador, considerada de responsabilidade de seus empregadores, segundo o Ministério da Saúde.

Muito mais do que isso, a assistência à saúde tornou-se uma das ferramentas mais importantes para a gestão de pessoas dentro destas companhias, por colaborar com a atração e a retenção de talentos, uma vez que a sua implantação favorece não só a empresa como também o trabalhador.

A preocupação com a saúde dos trabalhadores tem sido um ponto de destaque no setor sucroenergético desde a década de 70. Segundo José Darciso Rui, diretor executivo do Gerhai (Grupo de Estudos em Recursos Humanos da Agroindústria), desde os anos 70, já havia uma forte preocupação das usinas com relação a esta questão. “Naquela época, era muito comum que as usinas tivessem convênios com hospitais, médicos, clínicas, dentistas e laboratórios. Com o tempo, o modelo foi se aperfeiçoando e foram surgindo os contratos com empresas especializadas em planos de saúde”, afirma Rui.

A Jalles Machado investe na qualidade de vida de seus colaboradores e de seus familiares. O departamento de Responsabilidade e Assistência Social, em Goianésia, possui ampla estrutura, com consultórios médicos e odontológicos, sala de curativos e exames, farmácia e uma equipe treinada para prestar atendimento aos usuários (Créditos: Jalles Machado)A Jalles Machado investe na qualidade de vida de seus colaboradores e de seus familiares. O departamento de Responsabilidade e Assistência Social, em Goianésia, possui ampla estrutura, com consultórios médicos e odontológicos, sala de curativos e exames, farmácia e uma equipe treinada para prestar atendimento aos usuários (Créditos: Jalles Machado)
 

De acordo com ele, um dos principais motivos para o surgimento desta modalidade de beneficio é a questão social, ou seja, a responsabilidade social que a empresa tem com sua comunidade, visto que os planos de saúde contemplam empregados e, muitas vezes, seus familiares. “Por trás disso ainda existe a satisfação do empregado, que nada mais é que uma forma de medir a sustentabilidade do clima interno e comprometimento dos trabalhadores”, completa.

Até 2013, a Lei nº 4.870, de 1965, obrigava os produtores de cana-de-açúcar a oferecer, entre outros benefícios, um percentual de seu faturamento na concessão de assistência médico-hospitalar a todos os seus empregados. Fábio Luiz Pereira da Silva, sócio coordenador da área trabalhista do escritório Pereira Advogados, lembra, no entanto, que o Plano de Assistência Social (PAS), instrumento de arrecadação assistencialista do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), não está mais em vigor desde o advento da Lei nº 12.865, de 2013.

Em casos de atividades de risco, no entanto, as usinas continuam tendo de elaborar o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e ou o Programa de Gestão de Segurança, Saúde e Meio Ambiente de Trabalho Rural (PGSSTR), além do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), conforme estabelecem as Normas Regulamentadoras (NR) do Ministério do Trabalho. “Estes programas é que vão orientar as ações preventivas com relação à saúde e segurança dos trabalhadores em todos os setores das empresas e são coordenados por profissionais das respectivas áreas (Saúde e Segurança no Trabalho). Estas ações implicam em risco de imposição de multa pelas autoridades competentes, além de influenciar negativamente em casos de acidente no trabalho ou doenças decorrentes do serviço, já que são itens de cumprimento obrigatório pelos empregadores”, salienta o advogado.

Hoje não existe nenhuma obrigação legal que imponha as empresas a exigência de concessão de plano de saúde aos seus empregados. Este tipo de benefício geralmente é estabelecido por liberalidade das usinas ou mediante previsão na norma coletiva da categoria. No entanto, mesmo depois da revogação dos artigos que dispunham tal obrigação, o setor continuou a oferecer benefício de saúde a todos os seus empregados e melhorou a sua administração.

PLANOS E SUAS MODALIDADES

As empresas definem a operadora do plano de saúde e quanto será o subsídio para o plano de cada funcionário. Geralmente, esse subsídio é de 30%, 70% ou 100%. É preciso definir ainda quais as condições para a cobertura de dependentes, se serão cônjuges e filhos e até que idade.

Segundo Guilherme da Luz, editor do portal Plano de Saúde, em artigo publicado no site Empreender Saúde, é importante que a política adotada seja clara para evitar conflitos futuros. A adesão ao plano deve ser voluntária, o empregado deve manifestar sua vontade, aceitando o benefício por escrito. “Se o subsídio for parcial, o empregado deverá contribuir com alguma parte, que será descontada diretamente da folha de pagamento. Esse desconto também deve ser autorizado pelo funcionário por escrito”, diz.

As empresas podem oferecer tipos de cobertura diferenciados para cada grupo de funcionários. Planos sofisticados podem ser destinados aos profissionais mais qualificados ou com mais tempo de casa. Entretanto, a diferença deve ser restrita ao tipo de acomodação hospitalar e não ao atendimento médico e exames clínicos, para que isso não seja visto como discriminação.

“É preciso também existir segurança quanto à sustentabilidade da política de plano de saúde, que não pode deixar de existir de uma hora para outra. A empresa, pequena ou não, precisa avaliar sua capacidade de manutenção do benefício. As formas de concessão podem mudar, mas uma vez que é incorporado, passa a fazer parte da remuneração do empregado e a retirada pode gerar conflitos trabalhistas. Para deixar de manter o plano de saúde o empreendedor precisa se justificar tecnicamente, mas ainda assim, corre-se o risco de ser processado por sindicatos na justiça do trabalho”, destaca Luz.

Os planos de saúde oferecidos pelas usinas sucroenergéticas vão desde as modalidades mais básicas, denominadas standard, até os mais completos e de maior qualidade. Beatriz Resende, consultora organizacional, palestrante e conselheira de carreiras da Coerhência Integrando Negócios & Pessoas, diz que apesar de algumas usinas optarem por oferecer um plano único a todos, uma grande maioria diferencia os benefícios por cargo. “É uma forma de trabalhar a atratividade e retenção para cargos considerados mais estratégicos para a organização”, explica.

Rui diz que é difícil precisar quantas usinas oferecem benefícios de saúde aos seus funcionários, no entanto, das unidades que hoje fazem parte do Gerhai, 70% oferecem planos de saúde.

“Grande parte das usinas tem este serviço terceirizado com empresa especializada em saúde. A modalidade vai desde o plano com consultas e exames, passando por internações e procedimentos de alta complexidade até plano odontológico. O importante é que o parceiro contratado pela usina cumpra todas as determinações da ANS (Agência Nacional da Saúde) colocando à disposição dos empregados e seus dependentes a melhor opção”, explica.

De forma geral, segundo Erotides Gil Bosshard, especialista em Relações Trabalhistas, Negociação Sindical e Direção de Recursos Humanos, as usinas oferecem planos que cobrem 100% das despesas hospitalares e parte das consultas médicas. “O mesmo acontece com planos mais seletivos, por exemplo, aqueles que oferecem atendimento em consultório de especialista com hora marcada, nos quais a contribuição do empregado é estabelecida por valor fixo mensal.”

Rui, no entanto, destaca que um bom plano de saúde, com todas as coberturas, é barato quando comparado com os benefícios que trazem as empresas e seus colaboradores. “O custo pode variar muito em razão da quantidade de vidas seguradas, localização da empresa e estrutura física do local/região. Mas é possível encontrar valores muito acessíveis com operadoras de ponta”, enfatiza.

 
A Jalles Machado investe na qualidade de vida de seus colaboradores e de seus familiares. O departamento de Responsabilidade e Assistência Social, em Goianésia, possui ampla estrutura, com consultórios médicos e odontológicos, sala de curativos e exames, farmácia e uma equipe treinada para prestar atendimento aos usuários (Créditos: Jalles Machado)A Jalles Machado investe na qualidade de vida de seus colaboradores e de seus familiares. O departamento de Responsabilidade e Assistência Social, em Goianésia, possui ampla estrutura, com consultórios médicos e odontológicos, sala de curativos e exames, farmácia e uma equipe treinada para prestar atendimento aos usuários (Créditos: Jalles Machado)

A Unimed Nordeste Paulista afirma que atende 18 unidades sucroalcooleiras com planos de saúde que cobrem desde consultas, exames, procedimentos ambulatoriais até cirurgias e terapias. De acordo com José Geraldo Fernandes Vieira, responsável pelo departamento atuarial da Unimed Nordeste Paulista, existe um mix de características que podem compor os planos de saúde, que podem ser de abrangência municipal, estadual e nacional, e ainda possuir cobertura ambulatorial, hospitalar com e sem obstetrícia ou qualquer outra combinação desejada. Também oferece opções de pré-pagamento com e sem coparticipação ou pós-pagamento (custo operacional). As acomodações em internações, que podem ser individuais ou coletivas, também são opcionais.

“Algumas companhias, normalmente multinacionais e com milhares de funcionários, optam pelo plano em pós-pagamento (administrado) ou custo operacional. Ao invés de realizar pagamentos fixos mensais para um seguro-saúde, a empresa paga os custos das ocorrências – consultas, procedimentos médico-hospitalares e outros. Esses pagamentos por utilização são até 20% menores do que os pagos aos produtos de pré-pagamento. Como o plano de saúde administrado pertence à própria empresa, esta pode definir e customizar benefícios e regras de utilização”, explica Vieira.

Uma usina localizada no Estado de São Paulo, conta que 100% dos seus funcionários recebem auxilio saúde. Através da operadora Unimed, a usina oferece a modalidade na qual subsidia 50% das consultas e exames de baixa complexidade. “O valor a ser descontado do colaborador respeita o limite de 10% do valor do salário por parcela”, afirma o departamento de RH da usina.

A outra modalidade é a de pré-pagamento, ou seja, opcional ao colaborador e extensivo a seus dependentes. O pagamento da mensalidade é feito pelo próprio colaborador, que paga um valor bem mais baixo do que se ele fosse fazer o plano de saúde por conta própria.

Outra usina, localizada próxima a Patrocínio Paulista, SP, que também não quis se identificar, afirmou que de um total de 941 funcionários, 591 recebem assistência médica, que é oferecida em duas modalidades. Com atendimento médico e ambulatorial, porém com diferenciação de acomodação que pode ser em enfermaria ou apartamento individual, dependendo do cargo ocupado pelo funcionário. “Hoje a empresa procura dar o benefício e arcar com parte dos custos. Parte da mensalidade é absorvida pela empresa que custeia quase todos os exames laboratoriais. É primordial o acompanhamento médico pela equipe do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), afim de melhor gerenciar a saúde do trabalhador dentro das áreas ocupacionais”, disse o responsável pela área desta usina.

Ainda de acordo com ele, os benefícios à saúde são muito valorizados pelos funcionários e também pelos candidatos a vagas. “Além do custo ser menor mensalmente (plano empresarial global), do que o próprio colaborador ter um plano unitário, as tratativas são mais rápidas, pois a empresa acaba fazendo quase tudo para o trabalhador.”

Poucas unidades sucroalcooleiras ainda mantêm o serviço tradicional da época do PAS, com ambulatório médico e convênios com hospitais, clínicas e médicos individualmente. O Grupo Jalles Machado, localizado em Goianésia, GO, é uma delas. A empresa oferece plano de saúde aos seus colaboradores e dependentes nos serviços médico-hospitalares, ambulatoriais e laboratoriais para exames de alta complexidade, e ainda possui ambulatório médico na cidade e na Indústria, localizada na Zona Rural, com profissionais capacitados, convênios com hospitais, clínicas e laboratórios em Goianésia, Anápolis e Goiânia, GO.

São 3.446 beneficiários, entre funcionários e dependentes, distribuídos entre 3.333 beneficiários de contratos indeterminados, modalidade enfermaria e 113 beneficiários que desfrutam da modalidade apartamento. Apesar disso, as coberturas são as mesmas.

“Valorizamos e respeitamos os nossos colaboradores investindo na sua qualidade de vida e de seus familiares. O nosso departamento de Responsabilidade e Assistência Social, em Goianésia, possui uma ampla estrutura, com consultórios médicos e odontológicos, sala de curativos e exames, farmácia e uma equipe treinada para prestar atendimento aos usuários”, diz a gerente de Recursos Humanos da Jalles Machado, Mônica Arruda.

Além disso, a usina oferece outras ações como atendimento domiciliar, com assistência social, e campanhas educativas com o objetivo de chamar a atenção para a importância de hábitos saudáveis para se prevenir doenças e também esclarecer dúvidas e levar conhecimento.

“Acreditamos que a gestão própria, com um acompanhamento de perto das ações, possibilita melhorias na qualidade do atendimento, redução de custos e maior satisfação dos nossos colaboradores e demais usuários do plano de saúde”, acrescenta Mônica.

GESTÃO É A CHAVE

Sabe-se que uma das maiores despesas da área de RH é com assistência médica. Diante disso, como melhor gerenciar esse benefício, dentro das estratégias da companhia e de forma que seja favorável tanto para o empregador quanto para o trabalhador?

Beatriz afirma que apesar de ser uma despesa alta, gastar com saúde do trabalhador é algo extremamente necessário para que a usina ou produtor possa garantir a segurança dos profissionais e seus dependentes. “A assistência médica assegura que eles trabalhem satisfeitos, reconhecendo que a empresa oferta boas condições de trabalho e qualidade de vida no exercício das suas funções.”

De acordo com a consultora, o gerenciamento eficaz desse benefício passa, em primeiro lugar, por uma boa condição de negociação que a empresa faz com a operadora ou seguradora de saúde. É importante não somente pensar nos valores, mas também na qualidade de atendimento, na facilidade de assistência à empresa cliente, na qualidade dos serviços em geral, na parceria estreitada entre as partes e na solução rápida de problemas.

Para Vieira, gerenciar os gastos com saúde é uma tarefa complexa, no entanto, é preciso considerar que o plano de saúde é um dos maiores desejos de todos os empregados, já que o sistema público não atende às necessidades básicas da população. “Devido a essa expectativa, os RH’s e setor de suprimentos das usinas se veem um fogo cruzado entre optar por um plano de baixíssimo custo, com atendimento precário, ou aquele com a mais ampla cobertura de atendimento, mas com custo um pouco maior. A saída tem sido fazer um mix entre estas possibilidades, ou seja, um plano com bom atendimento e preço adequado.”

Beatriz acreidta que as empresas ainda têm um grande gap quanto a utilizar essa ferramenta como pacote de atração de executivos e outros cargos-chave da empresa. “Há anos ouvimos sobre a prática dos benefícios flexíveis, mas constata-se que é muito pouco utilizada nas empresas em geral. Nas usinas, é quase nulo. Minha visão, de quem trabalhou na área de remuneração por muitos anos e ainda transita sobre o tema, é de que não só a assistência médica, mas os demais benefícios deveriam ser tratados não como recurso obrigatório no contrato de trabalho, mas estratégico e voltado a reconhecimento, valorização e incremento de carreira”, aponta Beatriz.

Segundo Beatriz, não só a assistência médica, mas os demais benefícios deveriam ser tratados não como recurso obrigatório no contrato de trabalho, mas estratégico e voltado a reconhecimento, valorização e incremento de carreiraSegundo Beatriz, não só a assistência médica, mas os demais benefícios deveriam ser tratados não como recurso obrigatório no contrato de trabalho, mas estratégico e voltado a reconhecimento, valorização e incremento de carreira

A consultora ainda destaca que a gestão de benefícios perdeu muita força nos últimos anos à medida que as empresas começaram a tratá-la como uma operação automática dentro do RH.

“Trabalhando há 26 anos com RH, vi todos os subprocessos evoluírem e ganharem novos modelos, ferramentas, discursos etc. No entanto, a gestão de benefícios, área atrelada à de remuneração na maior parte das empresas de segmentos diversos, ainda se mantém dentro do setor canavieiro “escondida” no Departamento Pessoal, com pouca ênfase na prática, ou no status de área independente do Serviço Social, o que acaba por enfatizá-lo como mérito legal e social ao invés de estratégico.”

Segundo Vieira, a gestão do beneficio deve contemplar uma ação conjunta entre a empresa contratante e a operadora de plano de saúde. No contexto corporativo atual, onde a satisfação em trabalhar na empresa e a crença nos valores das companhias é cada vez mais valorizado, o salário já não é suficiente para retenção de talentos. Neste contexto, os benefícios, em especial a saúde, podem agregar muito valor.

“O acompanhamento e a gestão mais próximos, observando a evolução do contrato de saúde permitem ao RH agir antecipadamente para controlar seus custos e eventuais problemas por meio de ações preventivas. É notório que a viabilidade econômica do contrato é fator relevante para a manutenção da qualidade do atendimento, portanto, o gerenciamento do beneficio deve contemplar aspectos financeiros e assistenciais”, afirma o responsável pelo departamento atuarial da Unimed Nordeste Paulista.

Para Rui, a melhor alternativa de gerir este benefício é contratando uma empresa especializada no assunto, porque é ela quem vai garantir um custo fixo mensal, sem riscos de estouro nas contas do benefício, melhor controle de gestão de absenteísmo, maior cobertura e maior satisfação dos empregados.

Mônica diz que a Jalles Machado adota algumas ações para evitar custos desnecessários na gestão da saúde dos funcionários tais como, campanhas educativas para prevenção da saúde e conscientização dos colaboradores com relação ao uso correto do plano. “Não temos consultoria ou corretora administrando o nosso plano. A nossa gestão inclui acompanhamento diretamente com o plano de saúde e acreditamos que este acompanhamento, mais de perto, possibilita melhorias na qualidade do atendimento, redução de custos e satisfação dos nossos trabalhadores.”

A usina localizada em SP, diz que busca, sempre junto à operadora de saúde, uma melhor condição de custo e atendimento para o colaborador, com resultado favorável tanto para a empresa, quanto em satisfação. “Não temos a prática da gestão de saúde ser realizada por consultorias ou corretoras. Assumimos esse papel e isto propicia um controle maior nas negociações, de forma a buscarmos aquilo que atenda melhor o nosso colaborador e as estratégias da empresa”, afirma o departamento de RH da empresa.

Ao enxergar a saúde apenas por um viés financeiro, boa parte das empresas deixa tudo nas mãos das corretoras e consultorias e não se apropria da própria gestão de saúde. Mas é importante que as empresas acompanhem tudo mais de perto.

“Enquanto o benefício for visto como uma atividade transacional/operacional de RH e sua concessão como obrigação somente, e não com a gestão estratégica dela para a atração, valorização, reconhecimento e fidelização de bons colaboradores, as empresas agirão dessa forma: rezando para fazer um bom contrato que as livre do maior número de problemas possíveis, repassando as diretrizes e informações de forma automática, não querendo nada diferente para não dar trabalho, reclamando dos colaboradores que não valorizam o que tem. Isso é o que temos visto. Na verdade, na maior parte dos casos, sempre foi assim”, afirma Beatriz.

No momento que esse item passou a ser visto dentro da remuneração estratégica como um salário indireto de alta importância dentro do conceito de pacote atrativo para ofertar aos candidatos de peso que se quer inserir nas empresas, os RH´s tiveram mais trabalho para tirar o benefício do foco da obrigação e voltá-lo ao foco estratégico. Beatriz diz que, infelizmente, a maioria não soube colocar esta visão em prática e nem potencializar o valor do benefício como um ponto positivo no contrato de trabalho.

“Acompanhar a evolução dos contratos, não só em valores e condições, mas também na qualidade do que é ofertado, garantido e realizado, faz-se uma gestão mais adequada e eficaz. Ganha a empresa, ganham os colaboradores que ficam cada vez mais satisfeitos, honrando e se fidelizando a empresa em que trabalham”, recomenda a consultora.

Para Bosshard, o fato de contratar corretoras e consultorias especializadas em gestão de planos de saúde não significa propriamente que a empresa contratante enxergue a saúde apenas por um viés financeiro. Ele acredita que a expertise destas empresas promove maior eficácia na prestação dos serviços das operadoras dos planos de saúde, com importante vantagem de custo para as empresas e melhor atendimento aos empregados.

SAÚDE EM ÉPOCA DE CRISE
Segundo Rui, mesmo em momentos de crise é necessário ter criatividade para dar aos empregados o melhor com custo menor, o que faz com que o plano de saúde torne-se uma ferramenta de gestão que vem ajudar na satisfação dos empregadosSegundo Rui, mesmo em momentos de crise é necessário ter criatividade para dar aos empregados o melhor com custo menor, o que faz com que o plano de saúde torne-se uma ferramenta de gestão que vem ajudar na satisfação dos empregados

As empresas brasileiras tiveram um aumento médio de 14,8% nos custos de planos de saúde para funcionários em 2015. O custo médio per capta do benefício saltou de R$ 196,17, em 2014, para R$ 225,23 este ano. Com o avanço, os gastos com planos de saúde passaram a representar o equivalente a 11,54% dos gastos das empresas com a folha de pagamentos. Em 2012, o índice representava o equivalente a 10,38% da folha das organizações pesquisadas.

Os dados são de um estudo realizado pela Mercer Marsh Benefícios, divisão de consultoria e gestão de benefícios da Marsh, líder em corretagem de seguros e gerenciamento de riscos. O estudo ouviu 513 companhias, de 31 segmentos da economia. Cerca de 60% da amostra foi composta por empresas com mais de R$ 100 milhões de faturamento ao ano, sendo 69% multinacionais e 31% de empresas de capital nacional. O conjunto da amostra abriga 1,2 milhão de colaboradores e 2 milhões de segurados (incluindo dependentes).

De acordo com o levantamento, 51% das empresas já adotam o modelo de compartilhamento do financiamento dos planos de saúde com os colaboradores. Eles subsidiam, em média, 78% dos custos fixos dos planos.

Mesmo com algumas adaptações, Beatriz não acredita que as empresas cortaram ou vão cortar este tipo de benefício, mesmo em momentos como este. Empresas que estejam pensando em dar um up grade no plano ou na política de benefícios poderão adiar para um momento em que a situação esteja mais equilibrada.

“Empresas que não fornecem esse benefício até então, passando por crise, deverão adiar a implantação por mais tempo. Mas, para usinas que já oferecem estes benefícios, talvez a melhor medida a ser tomada seja restringir o número de guias por funcionário e período, caso o plano de saúde tenha a sistemática de geração e guia para aprovação da consulta”, observa a consultora.

Segundo Rui, em momentos de crise é necessário criatividade para dar aos empregados o melhor com custo menor. “Assim, o plano de saúde torna-se uma ferramenta de gestão que vem ajudar na satisfação dos empregados com uma redução de custos na área social (encargos). É importante frisar que saúde não tem crise e um empregado bem cuidado física e psicologicamente traz resultados mais expressivos que outros que não tem a saúde em dia.”

Para Bosshard, em casos extremos de crise, as empresas devem propor aos empregados que passem a participar custeando parte do plano médico ou se já participam, que suportem um acréscimo na sua contribuição. Nessa hipótese é fundamental que, ao negociar tal condição, a empresa demonstre ao pessoal sua real situação e informe todas as medidas já tomadas para reduzir seus custos em outras áreas, não dispondo de alternativa.

Vieria diz que o foco é ter o menor preço possível, presando pela garantia integral do atendimento. “A Unimed disponibiliza todos os produtos e soluções para atender as restrições orçamentárias das usinas. É importante ressaltar que não existe receita de bolo, atualmente os tratamentos médicos estão cada vez mais caros, seja em função dos avanços tecnológicos, como também pelo envelhecimento populacional. As saídas encontradas são mesmo os planos com coparticipação, atendimento em determinadas cidades e investimento em prevenção de doenças.”

 

ALÉM DOS PLANOS

Muitas empresas, na melhor intenção de fazer o bem para todos, investem em academias e outras ações de promoção da saúde como palestras antitabagismo etc. Isto, segundo especialistas, às vezes não tem o retorno esperado. Como então fazer a gestão destas ações em prol da saúde dos trabalhadores de forma a obter mais retorno e evitar gastos desnecessários?

A pesquisa da Mercer Marsh Benefícios mostra que apenas 32% das empresas brasileiras adotam algum programa de qualidade de vida e só 20% mantém programas realmente estruturados em torno do tema. Deste universo de 20% que adotam programas estruturados, 85% patrocinam programas de vacinação para seus funcionários, 63% mantém programas de atividades físicas para os colaboradores, 62% adotam programas de nutrição saudável, 53% adotam iniciativas para cuidar da saúde emocional dos colaboradores e 34% adotam alguma iniciativa de prevenção de DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis).

Ainda considerando 20% das empresas que adotam programas estruturados de qualidade de vida, 66% estão trabalhando para diminuir ou eliminar riscos cuidando da ergonomia no ambiente de trabalho, 54% patrocinam check-ups dos funcionários, 47% realizam mapeamentos de perfil de saúde dos colaboradores, 44% adotam mapeamentos para saúde bucal, 35% mantém programas para ajudar os colaboradores a abandonar o consumo do cigarro e 26% mantém programas de ortopedia.

Beatriz diz que o discurso da “Qualidade de Vida no Trabalho” (QVT) fez com que as empresas do setor sucroalcooleiro incrementassem a gestão de pessoas com programas, novas instalações, projetos de melhoria de qualidade de vida etc, ações que favorecem os profissionais dando-os a oportunidade de usufruir de alguns recursos com maior facilidade do que teriam fora da empresa.

Dentro das práticas de gestão de pessoas, investir em campanhas de conscientização sobre Qualidade, Segurança, Saúde, Relações Harmoniosas e outros temas, sempre foi e será atividade curricular da área de RH. Não é novidade. No entanto, o que se vê, segundo Beatriz, é que mesmo sendo feito e depois incrementado com o discurso da QVT, muitos problemas em geral não são resolvidos.

Os maiores problemas, e aqueles que estão hoje impactando no custo da empresa relacionado à saúde ocupacional, estão ligados a fatores como estresse, fadiga emocional, depressão e outras somatizações, frutos de insatisfações, medos, inseguranças, desencantos e infelicidades.

“Portanto não adianta somente oferecer academia, palestras, locais agradáveis de convivência, entre outros recursos, se não investimos na qualidade das relações, no clima interno, na qualidade de líderes e gestores e em áreas de RH que tenham o olhar para essa situação e não só para cumprimento de protocolos. Estamos pagando um alto custo pela baixa qualidade de tudo isso. Pessoas continuarão ficando doentes e as empresas gastando mais se não olharem mais a fundo para esse cenário. Com certeza a crise que vivemos nos últimos dois anos piorou e ainda vai piorar esse cenário”, alerta a especialista e consultora da Coerhência.

Para Bosshard mais importante do que realizar ações é garantir que elas sejam precedidas de informações positivas para que o empregado compreenda e aceite que é para o seu bem, libertando-se do paradigma pelo qual tudo que vem do patrão é para beneficio do próprio patrão.

“Tornar as empresas brasileiras competitivas passa pela melhoria da produtividade e a eficiência do trabalho que se consegue com maior qualificação das empresas e do seu pessoal. E, para isso, é fundamental o comprometimento que advém do ambiente de trabalho positivo em que o trabalhador reconhecerá a necessidade de melhor qualificar-se. Ações que preocupem-se com a saúde do trabalhador são uma importante aliada para se conseguir o ambiente propício pra tal fim.”

O investimento em plano de saúde para funcionários muitas vezes é alto, mas esse é até um ponto positivo quando utilizado como parte da política de valorização da empresa. Afinal, oferecer benefícios à saúde mostra o respeito da empresa para com seus colaboradores.

“Os benefícios são quantificáveis tanto para a empresa quanto para o empregado. É uma via de mão dupla. Promove a satisfação, motivação, retenção de talentos, atração de bons profissionais, melhor remuneração (equiparada ao mercado sem encargos sociais), maior produtividade e ainda, tranquilidade à família”, finaliza Rui.

   
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