Quais são os fatos e impactos no açúcar neste mês?

* Prof. Dr. Marcos Fava Neves
-  Com uma mudança impressionante no mix de produção de mais de 5,6% em relação a 2015/16 (40,65% da cana destinada a açúcar para 46,29%), fechada a safra 2016/17 (dados da UNICA), produzimos 14,11% a mais de açúcar que no ano anterior, mesmo tendo  menos cana.

A produção saltou de 31,22 para 35,62 milhões de toneladas. Só o Brasil foi responsável por colocar 4,4 milhões de toneladas a mais no mercado mundial, contribuindo fortemente para a queda dos preços.

-  Archer Consulting: primeiro trimestre foi ruim para o açúcar. Preços caíram quase 14% no período, e foi pior ainda em reais, pois a moeda se valorizou. Com o preço de R$ 1,205 por tonelada, perdeu-se mais de R$ 550 por tonelada no trimestre. Quando comparado com outras commodities, o açúcar só não caiu mais que o suco de laranja. De acordo com a empresa, são fatores baixistas: real mais forte diminui preço interno da gasolina e piora a rentabilidade do etanol; início da safra; aumento da posição vendida dos fundos; abril-maio-junho-julho são meses sazonalmente mais fracos; safra no Centro-Sul acima de 610 milhões de toneladas; Europa produzindo mais de 20 milhões de toneladas de açúcar; números de superávit mundial ao redor de 3 milhões de toneladas; o preço do petróleo no mercado internacional (Archer Consulting). Podemos aqui somar o efeito Índia, que falaremos mais adiante.

-  Seu modelo de preços prevê para maio 16,51 centavos de dólar por libra-peso. Até final de março, 17,071 milhões de toneladas foram fixadas, o que dá 64,4% de um provável total de 26,5 milhões de toneladas a serem exportadas a um preço médio de 17,73 centavos de dólar por libra-peso ou R$ 1.503,90 por tonelada FOB, um valor em reais quase 20% superior à safra anterior.

-  Preços muito bons do açúcar geraram esta reação da produção, como era esperado. Porém, na faixa atual de preços (16 a 17 cents) já começa a arrefecer a produção e o etanol ganha atratividade. Maiores quedas de preços serão freadas por estas duas importantes forças. Veremos mais adiante o problema do etanol, fruto do título deste artigo.

-  Datagro: a safra global 2017/2018 (de outubro de 2017 a setembro de 2018) teria superávit de 1,5 milhão de toneladas.

-  Exportamos em março 1,596 milhão de toneladas de açúcar, 12,5% a menos que as 1,823 milhão de toneladas de fevereiro e incríveis 23,2% a menos que o volume de março de 2016. Tivemos também queda no valor que entrou no Brasil, de US$ 790,7 milhões em fevereiro para US$ 734,8 milhões em março. Porém foi 17% acima de março de 2016, refletindo os preços melhores. Fechado o primeiro trimestre exportador, estamos com 10,3% a menos que o ano passado, com 5,632 milhões de toneladas mas com valor de US$ 2,480 bilhões (33,3% a mais).

-  OIA (Organização Internacional do Açúcar) explica que os preços menores (vieram de mais de 19 centavos de dólar por libra-peso para menos de 17) refletem menor importação pela Índia (abre autorização para a importação de 500 mil toneladas de açúcar, sendo que eram esperadas 2 milhões de toneladas) e safra sem grandes problemas climáticos no Centro-Sul do Brasil. O refinado também cai de US$ 534,35 por tonelada para US$ 476,10 por tonelada no mês de março.

-  FCStone: União Europeia produzirá 18,24 milhões de toneladas de açúcar na safra 2017/18, 16,6% a mais que nesta safra. Em 2005/06 produziram 19,3 milhões de toneladas. Deve se tornar exportador de açúcar em alguns anos. Produtores aumentaram os plantios, mesmo com preços menores pois a beterraba apresenta remuneração comparativamente maior em relação às outras commodities. Os mais competitivos devem tomar espaço e observaremos onda de fusões e aquisições. Vale ressaltar que o Brasil já não destina seu açúcar ao bloco, que corresponde a menos de 3% de nossas exportações.

-  A reforma da política da União Europeia (estabelecida em 2005 para evitar exportações subsidiadas, proteger a indústria local e suprir o mercado industrial) baseia-se na eliminação de cotas de produção e de preços mínimos tanto ao açúcar quanto à beterraba, que deverão seguir preços de mercado.

-  Enfim:notícias para o açúcar no mês não foram boas. Como ninguém gostaria que o Brasil tivesse frustração de safra (exceto nossos concorrentes) resta neste curto prazo torcer pelo crescimento do consumo do hidratado como fator principal e pela redução dos juros no Brasil e aumento nos EUA.

 

Quais são os fatos e impactos no etanol neste mês?

 

ü  UNICA: finalizando a safra 2016/2017 comercializamos no Centro Sul 25,97 bilhões de litros de etanol (24,61 bilhões no mercado interno e 1,36 bilhão exportados). De hidratado foram vendidos 14,33 bilhões de litros, uma perda de 17,36% quando comparado 2015/2016. De anidro foram vendidos 10,28 bilhões de litros, 2,69% a mais.

ü  Exportamos apenas 53,9 milhões de litros neste mês de março, contra 207,1 milhões de litros no mesmo mês de 2016 (volume 74% menor). Em receitas, março de 2016 trouxe US$ 106,1 milhões e o de 2017, apenas US$ 34,5 milhões (67,5% a menos). Fechando um trimestre de exportações de etanol, mandamos 217,5 milhões de litros (65,7% a menos em relação ao ano passado) e com valor de vendas 52,2% menor, ficando em US$ 149,5 milhões.

ü  Se a exportação vai mal, ganhou muita força a importação. Neste mês foram quase 300 milhões de litros de etanol. No primeiro trimestre foram comprados 735,33 milhões de litros, 413,38% a mais. Somente em março gastamos US$ 148,78 milhões em importações, e no trimestre US$ 364,27 milhões (primeiro trimestre de 2016 foram US$ 63,06 milhões). As importações nesta entressafra devem ter passado de 800 milhões de litros, 7 vezes mais que na anterior. É o tema que mais esquentou o setor neste período. Parte deste estrago foi causado pelo estado do Maranhão, com uma desoneração fiscal que motivou a importação deste produto usando seu porto.

ü  Esta importação, que prejudicou principalmente as Usinas no Nordeste, levou uma parcela do setor a pedir uma taxa entre 15% a 20% de tributos sobre o combustível importado. A UNICA chegou a um pedido de alíquota de 16% à partir de cálculo de diferença do impacto ambiental gerado pelo milho e pela cana, com base em suas emissões de carbono.

ü  Com pedidos distintos a cadeia produtiva mostrou falta de coordenação.

ü  É um tema polêmico. Eu sou a favor do livre comércio, portanto contra levantar tributos como forma de barreira ao acesso a mercados. Lógico que se o produto tem subsídio na origem, ai não estamos falando de concorrência justa e uma equalização de entrada é justificável. Não é o caso.

ü  Fora isto, o tratamento para quem importa etanol e quem aqui produz e segue as regras da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para o abastecimento de etanol anidro deve ser o mesmo. Usinas necessitam armazenar produto na entressafra e tem graves problemas de custo financeiro e fluxo de caixa na produção do etanol anidro. Empresas puramente importadoras não arcam com este ônus.  Isto contribuiu para a queda de preços mesmo na entressafra.

ü  Neste momento acho melhor deixar como está, pois o problema já aconteceu e agora com a entrada da safra não teremos mais grande volume de importação (até porque quem importou começou a perder dinheiro) e brevemente, no âmbito do RenovaBio, com a diferenciação tributária por emissões de carbono, naturalmente será colocado um diferencial tributário entre o etanol de milho e o de cana.

ü  Portanto a solução desta situação de grande volume de importações passa: a) pelo controle das licenças de importação, b) pela correção da distorção criada pelo Maranhão e c) diferenciação tributária no RenovaBio que deve ter sua implementação acelerada.

ü  A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) declarou em consulta feita pelo Ministério das Minas e Energia (MME) que: o etanol brasileiro pode representar solução muito mais rápida, eficiente, economicamente viável e amigável ao meio ambiente do que a eletrificação dos veículos para reduzir consumo de combustíveis fósseis e suas emissões de poluentes e gases de efeito estufa, o CO2. Trata-se de importante apoio ao RenovaBio, que prevê levantarmos a produção para 54 bilhões de litros em 2030.

ü  Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao Ministério de Minas e Energia), se até 2030 o setor de cana ficar quase que estagnado, aumentando a produção em apenas 9 bilhões, teríamos uma oferta passando de 29 bilhões para 38 bilhões de litros. Considerando os outros fins de utilização do etanol, sobrariam 33 bilhões de litros em 2030, e sua participação nos carros de ciclo Otto viria de 38% em 2015 para 26% em 2030 no hidratado e o Brasil teria que importar 7 bilhões de litros de gasolina em 2030 (15 a 18% da demanda). Se a produção de etanol ficar em 31 bilhões de litros teríamos que trazer de fora do Brasil cerca de 10,5 bilhões de litros, 25% da demanda.

ü  Em relação às emissões dos diversos tipos de combustíveis, vale destacar o novo estudo da AEA. Segundo esta, quando se considera as emissões de CO2 (gramas por megajoule) estas são muito equivalentes na comparação da gasolina e do etanol. Porém, quando se considera todo o ciclo produtivo, esta conta muda sensivelmente a favor do etanol. Nesta conta, o etanol emite 27 gramas de CO2 por megajoule gasto em toda sua cadeia produtiva (considera extração, transporte e queima). A nossa gasolina que contém 27% de etanol (E27) anidro emitiria 80 gCO2/MJ.

ü  Seguindo seu estudo, carros com consumo de 1,68 MJ/km (existem 61 modelos no Brasil) utilizando gasolina (E27) liberam 134 gramas de CO2 por km. Com hidratado, o mesmo carro emite 45 gramas. A AEA chama a atenção para a necessidade de aumento da eficiência dos motores, mas também da necessidade de evolução do etanol, reduzindo a quantidade de água de 7,5% para cerca de 2%, o que melhoraria o rendimento.

ü  AEA diz que os EUA testam o E25-E30 HOF (high octane fuel) com bons resultados. Entre outras tecnologias que citam para melhoria da eficiência estão os sistemas que desligam os carros quando parados, pneus de menores resistências, compressores de ar condicionado, sistemas que armazenam e recuperam energia, de redução de atritos e de peso e uso de turbo.

ü  O mês de março foi de fechamento dos contratos de fornecimento de 70% do etanol anidro para os próximos 12 meses (cerca de 8 bilhões de litros foram contratados). Apesar de prêmios melhores, os preços não foram suficientes para cobrir a volta do PIS e COFINS (R$ 0,12/litro). Os preços são calculados com base no hidratado (que caiu 18% na comparação deste período com o ano passado pelo CEPEA) e os prêmios foram de 12 a 13%. Até o final de maio este percentual contratado deve chegar a 90% do consumo necessário, sendo que 10% ficam para contratos de mercado físico. Preços atuais do petróleo e da gasolina e a perspectiva da economia brasileira ainda fraca e menor consumo de combustíveis foram fatores baixistas.

ü  Pela ANP o consumo de combustíveis caiu 6,2% em fevereiro quando comparado ao mesmo mês de 2016 e no bimestre, caiu 3,6%. Diesel tem queda de 2,8% no bimestre, gasolina tem alta de 7,1% e o hidratado caiu 24,1% em fevereiro e 25,7% no bimestre.

ü  Como já cansei de falar, o aumento do consumo do hidratado passa por um ajuste nos modelos de precificação.  Segundo a ANP, as margens dos postos do estado de SP foi de R$ 0,401/l na segunda semana de março, e de 0,36 no mês, 7,5% acima do mês anterior. Cálculo das margens das distribuidoras pelo Valor Econômico mostra que a média foi de R$ 0,562 o litro, alta de 4,2% sobre o período anterior. Pela FG/A a margem bruta média da distribuidora foi de R$ 0,624 o litro na safra 2016/17, valor 14,5% acima da safra anterior. Nas Usinas o preço caiu quase 20% desde o começo do ano e nas bombas apenas 6% (ANP). Isto impede que o preço caia a abaixo de 70% e o consumo volte de forma vigorosa.

ü  Enfim:nosso ano de ouro de consumo de etanol foi 2015, quando tivemos baixos preços do açúcar no mercado mundial, a volta parcial da incidência da CIDE, reajustes nos preços da gasolina, alíquota de PIS e COFINS vindo a zero e alguns ajustes em Estados, com redução do ICMS sobre o etanol e aumento sobre a gasolina. Neste momento é necessário voltar este consumo até para interferir favoravelmente nos preços do açúcar.

 

Marcos Fava Nevesé Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana. Este material é um resumo mensal feito sobre assuntos de relevância à cadeia da cana de açúcar.