ois centavos eram um exagero tendo em vista que para continuar moendo sem pagar os fornecedores de cana, a usina teria um custo caixa de 3.84 centavos de dólar por libra-peso. No início de maio daquele ano o açúcar bateu 4.36 centavos de dólar por libra-peso. A consequência de preços baixos foi uma drástica redução na oferta de cana (praticamente 1/6 do canavial que não fora renovado devido ao caixa que sangrara no ano anterior).  Um ano após, NY negociava 7.30 centavos de dólar por libra-peso e uma vez confirmada a falta de produto para a safra 2000/2001, o mercado estourou para 11.40 centavos de dólar por libra-peso alguns meses depois. Os dois centavos nunca ocorreram.

Maio de 2010. O mercado de açúcar em NY negociava 13 centavos de dólar por libra-peso e os humores no Jantar Anual de Gala do Açúcar, no Waldorf Astoria, em NY, estavam bem azedos. A sabedoria que emanava dos gurus de plantão mostrava que o mercado certamente iria buscar os 10 centavos de dólar por libra-peso. Alguns, mais céticos, profetizavam que 8 centavos de dólar por libra-peso era bem possível. O Brasil ia ter uma safra recorde de 560 milhões de toneladas de cana e 34 milhões de toneladas de açúcar. A ATR estava muito acima da ATR do ano anterior. Parece que oito centavos de dólar por libra-peso eram favas contadas. O comprador olhava os preços com desdém. Importadores usavam os estoques no destino antes de pensar em reconstruir suas posições. O que aconteceu depois disso? Chuvas, atraso na moagem, porto congestionado, chuva em Santos por 38 dias, filas quilométricas de caminhões, prêmio explodindo e apenas 100 pregões depois o preço dobrara para 26 centavos de dólar por libra-peso! Os dez centavos nunca ocorreram.

Fevereiro de 2011. O açúcar bate 36 centavos de dólar por libra-peso. Um gestor de fundos da Ásia afirmava do alto do Monte Olimpo, onde eles vivem às custas de polpudas taxas de administração, que o açúcar iria para 66 centavos de dólar por libra-peso. Usinas ficaram animadíssimas, algumas até pensaram em comprar calls (opções de compra) de 40 centavos de dólar por libra-peso. Ora, por que não? Fortalecia essa convicção o fato de Jim Rogers, lendário investidor, sempre usando sua indefectível gravata borboleta, reverenciado por uma horda de fanáticos, dizer que o açúcar iria para 75 centavos de dólar por libra-peso, o maior preço desde novembro de 1974. O que aconteceu depois disso? Bem, o mercado iniciou uma trajetória de queda, combinada com a desvalorização do real e alcançou 18 centavos (metade, portanto) um ano depois. O maior valor em reais por tonelada (corrigido pela inflação) obtido pelo açúcar VHP equivalente FOB foi de em janeiro de 2010 quando NY negociava 29.90 centavos de dólar por libra-peso e o real estava a 1.8850. Os 66 centavos de dólar por libra-peso nunca ocorreram.

Maio de 2016. O mesmo cenário do Jantar Anual de Gala do Açúcar. Açúcar negociando 16 centavos de dólar por libra-peso. Um grande comprador que andava pelos corredores carpetados do Waldorf, vaticinava aos quatro cantos que compraria açúcar apenas a 10 centavos de dólar por libra-peso. O que aconteceu depois disso? Bem, o mercado absorveu os fundamentos e, ajudado pelos fundos comprados, bateu 24 centavos de dólar por libra-peso. A compra de açúcar a 10 centavos de dólar por libra-peso nunca ocorreu.

Agosto de 2017. O mercado fechou a semana a 13.41 centavos de dólar por libra-peso, ligeiramente melhor do que a semana passada. Os fundos aumentaram ainda mais sua posição vendida a descoberto. Agora estão 122.000 contratos vendidos. Adicionaram 38.000 lotes na semana e afundaram o mercado 80 pontos no período. Ou seja, para derrubar o mercado em 1 ponto foram necessárias 24.000 toneladas de venda.

Onde está a vulnerabilidade do mercado: nas mãos de quem está comprado ou nas mãos de quem está vendido? Não é uma resposta fácil. No entanto, por mais que se fabriquem novas e espetaculares notícias ao longo do dia, o grosso das notícias baixistas já estão no sistema há muito tempo. Maior produção de açúcar no Centro-Sul, aumento do superávit, Índia produzindo mais, a vilanização do açúcar responsabilizado pelo aumento da obesidade. (Não, não é porque um turbilhão de famílias sedentárias se entope de hambúrgueres e pizzas, com baldes de refrigerantes...o culpado é o açúcar !!).

Alguns analistas acreditam que ainda exista 20% de fixação a ser feita contra o outubro. Se isso for verdade, 20% sobre 10 milhões de toneladas de cana, que é o volume que estimamos haver ao longo do ano a ser fixado contra esse mês. Usando a mesma proporção do parágrafo anterior, podemos dizer que o chão do mercado é 12.58? Nada disso, hoje alguns gurus falam em 10 centavos de dólar por libra-peso.

Não acreditamos nesse volume de fixação em aberto. E vemos muitas usinas simplesmente virando a chave, ou seja, vão produzir mais etanol porque este remunera 4-6% melhor. O consumo de etanol está subindo. O petróleo fechou bem nesta sexta-feira e aponta – provavelmente – para um ajuste de preços da Petrobrás consequentemente melhorando o etanol. Qualquer faísca no mundo perfeito dos baixistas pode acionar a tomada de lucro por parte dos fundos. O açúcar lidera as perdas no ano (31%) entre as commodities.

Em tempo: o preço mais baixo da história foi em janeiro de 1967 quando o açúcar negociava 1,23 centavos de dólar por libra-peso. O valor ajustado pela inflação americana no período representa hoje 9.01 centavos de dólar por libra-peso. Os 4.36 de maio de 1999 foram mais baixos em valores reais (hoje seriam equivalentes a 6.41).