Após veto do Cade à fusão, Ale faz novo plano de crescimento

Após sofrer um revés, por unanimidade, dos sete conselheiros do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que reprovou a aquisição da empresa pelo grupo Ipiranga, o presidente da distribuidora Ale, Marcelo Alecrin, disse ao Valor que a estratégia, agora, é crescer pelas próprias pernas. Por exemplo: aumentar o número de postos, avaliar possíveis aquisições ou fusões e talvez, mais à frente, abrir o capital.

A Ipiranga, controlada pelo grupo Ultra assinou com os acionistas da concorrente, em junho de 2016, a aquisição do controle da empresa por R$ 2,16 bilhões. A distribuidora mineira tem cerca de 4% do mercado nacional de combustíveis. A Ipiranga é a vice-lider, atrás da BR.

O empresário, que também é presidente da Ale, afirmou que não há como recorrer da decisão do Cade. O plano B, segundo ele, é fazer a ALE crescer. "Agora, é olhar as oportunidades que a gente não estava olhando porque estávamos vendidos", afirmou. "Oportunidades de embandeiramento, de aumentar nossa quantidade de postos organicamente e não descarto até fusões e aquisições de outras distribuidoras", disse.

Alecrim disse que recebeu o veto com surpresa, mas que está já com a "barriga no balcão". "Estou juntando, neste fim de semana, todos os meus executivos, com carta branca do conselho, para voltar ao que éramos antes: trabalhar para crescer até mesmo visando lá na frente um IPO [oferta de ações na bolsa] ou coisa assim", afirmou. "O que eu mais tenho recebido é ligação de bancos que estão me apoiando nisso."

O empresário detém 32% da companhia; o fundo de investimentos Darby, 18%; e o grupo Asamar, de Minas, 50%. No ano passado, a Ale registrou receita líquida de R$ 12,4 bilhões, 9,5% acima do resultado de 2015. Sua rede soma 2036 postos no país.

No processo de reprovação da compra, o relator do caso, o conselheiro João Paulo de Resende, disse que o remédio possível para a operação seria a venda de aproximadamente 65% da Ale. "Identificamos doze mercados de distribuição concorrencialmente problemáticos. Esses mercados correspondem a 65% da Ale e 943 postos revendedores", enumerou Resende. Ele votou pela reprovação porque as duas empresas não se interessaram pela sua proposta.

Em contrapartida, chegaram a fazer uma proposta de acordo para viabilizar o negócio, como antecipado pelo Valor, mas ela não foi julgada o suficientemente pelo Cade. A proposta envolvia, entre outras coisas, a venda de postos e infraestrutura de tancagem.

Em um parecer publicado na noite de terça-feira, o Departamento de Estudos Econômicos (DEE), do Cade, informou que, "considerando o remédio apresentado, a operação não aumenta significativamente os riscos de coordenação neste mercado, ainda que tais riscos possam ser existentes pré-fusão". Mas Resende pontuou que "a operação só poderia ser aprovada mediante aplicação de remédios não só na revenda mas também na distribuição já que a operação elimina na maioria dos mercados distribuidora que abastece bandeiras brancas e facilita colusão entre três grandes operadoras".

A Superintendência Geral (SG) do Cade, em parecer publicado no início de janeiro, apontou que a compra era "particularmente grave" para o setor, "eliminando a quarta marca do mercado, a única dentre as grandes com perfil de embandeiramento diferenciado e menos propício a cartelização".

E acrescentou: "A operação é preocupante. Se for aprovada, Ipiranga, Raízen e BR estarão em zona confortável para induzir ou impor a coordenação sobre centenas de mercados relevantes de revenda espalhados por todo o país, em grandes e pequenas cidades".

Ipiranga e Ale questionaram o parecer da SG. "O que se propõe é aquisição pela Ipiranga de distribuidora que tem atuação similar a outras 150 distribuidoras regionais cadastradas junto a Agência Nacional do Petróleo (ANP). A Ale não pode ser considerada a quarta distribuidora nacional porque o mercado não é nacional", disse a advogada Barbara Rosenberg, que defende a Ipiranga no caso.

Em nota, o grupo Ultra informou que o Cade reprovou a aquisição, "a despeito dos esforços da Ipiranga para esclarecer todos os questionamentos das autoridades, notadamente aqueles referentes à dinâmica do mercado de distribuição de combustíveis". A empresa destacou que a operação não mais ocorrerá, sem qualquer penalidade de parte a parte. E que a Ipiranga seguirá o curso habitual de seus negócios.

Foi a segunda reprovação consecutiva do Cade de uma grande operação em mercados concentrados. Em sua última sessão, em julho, o órgão antitruste reprovou a fusão entre a Estácio e a Kroton. (Valor Econômico)