Mais milho no tanque de combustível

O presidente Michel Temer e o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, receberam de um grupo de produtores mato-grossenses um convite do qual não abriram mão. No dia 11 de agosto, logo de manhã, cercados por uma imensa comitiva, os dois desembarcaram no município de Lucas do Rio Verde, localizado no Médio Norte, em uma das áreas agrícolas mais ricas do País. Na agenda estavam dois compromissos. O primeiro foi a visita a uma plantação de algodão, a cultura que mais cresce na região. O outro encontro, o principal do dia, foi a inauguração de um marco na história do agronegócio brasileiro: a primeira usina para processar etanol somente a partir do milho. "Estou animado. Aqui está o Brasil que prospera", disse Temer.

"Tenho certeza que essa usina vai se transformar em um exemplo para o País", afirmou Maggi. Os dois participaram do início dos trabalhos da FS Bioenergia, um projeto de R$ 450 milhões, que vai produzir 240 milhões de litros de etanol por ano. Para isso, serão necessárias 600 mil toneladas de milho, por safra. O anfitrião, o produtor e empresário, Marino José Franz, fez as honras da casa. "Conseguimos viabilizar esta unidade com os americanos. Ela será muito importante para a região", disse Franz. A FS Bioenergia é uma joint venture criada em 2014 pela Fiagril Participações, da qual Franz é o presidente do conselho administrativo, e a americana Summit Agricultural Group, com sede em Iowa, empresa que nasceu em 1990 e pertence ao agrônomo e investidor Bruce Rastetter, 60 anos. O empresário criou em 2003 a Hawkeye Energy Holdings, hoje um dos maiores grupos americanos de produção de etanol, com cerca de 815 milhões de litros por ano.

O alto investimento e a aposta da FS Bioenergia no etanol de milho são justificados pelas características do produto e também pela estratégia da companhia. Uma tonelada de cana-de-açúcar produz entre 80 e 90 litros de etanol, enquanto que uma tonelada de milho produz 400 litros. A cana-de-acúcar precisa ser moída em menos de 36 horas após ser colhida e o cereal pode ser estocado por um ano. E a safra 2016/2017, com aumento de aproximadamente 60% com relacão à passada, atingiu quase 30 milhões de toneladas em Mato Grosso. Além disso, a empresa também pretende exportar o excedente de etanol produzido para países do Caribe e para os Estados Unidos. Isso será possível com a duplicação de sua nova unidade. Mas a decisão sobre a ampliação só será decidida no primeiro semestre de 2018.

O País possui atualmente oito usinas que produzem etanol de milho, mas seis são as chamadas flex. Produzem etanol de cana-de-açúcar na safra e etanol à base do cereal na entressafra. Entre elas está a Usimat, no município de Campos de Júlio, também em Mato Grosso, a pioneira na produção de etanol de milho em 2012. O marco da FS Bioenergia é que ela abre uma temporada de novos projetos para os próximos anos. Entre eles estão a flex Santa Clara, no município de Vera (MT), já em construção, e o projeto-piloto Safras Biocombustíveis, na cidade de Sorriso, onde, desde julho, já são produzidos 10 mil litros diários de etanol de milho. O plano é atingir 50 mil litros diários, a partir do ano que vem. "Os Estados Unidos transformam 100 milhões de toneladas de milho em etanol", diz Franz. "Mas o Brasil já colhe mais de 90 milhões de toneladas por safra". De acordo com Franz, é isso que coloca no País no jogo do biocombustível de cereal. Atualmente, os americanos, com 58 bilhões de litros a partir do milho, e os brasileiros, com 28,7 bilhões de litros a partir da cana-de-açúcar, são os maiores produtores mundiais de etanol. Respondem por cerca de 85% da produção global, que, no ano passado, foi de 101,7 bilhões de litros, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da RFA (Renewable Fuels Association). Durante a inauguração, Maggi deu um recado que sinaliza uma boa intenção do governo. "Queremos colocar no plano de governo facilidades de financiamentos para incentivar a abertura de mais unidades de etanol de milho", disse o ministro. "O caminho pode ser através do BNDES ou mesmo do Banco do Brasil."

De todo o milho cultivado no País, 29,5 milhões de toneladas desta safra vêm de Mato Grosso. Isso equivale a 32% do total cultivado (leia mais na pág. 24). Para Henrique Ubrig, CEO da FS Bioenergia, a inauguração da usina de etanol vem para solucionar o gargalo do escoamento da produção de milho. Isso porque a expectativa é que as super safras sem onde armazenar, aliadas a uma logística ainda deficitária para o Estado, ainda farão parte do cenário de negócios nos próximos anos.

"Temos uma competência agrícola ímpar em Mato Grosso e isso se torna um elemento decisivo", diz Ubrig. "Seremos uma opção para a safra de milho que cresce a cada ano." Não por acaso, a usina já nasce pronta para ser duplicada em uma segunda fase do projeto, que contará com investimentos da ordem de R$ 250 milhões. Na atual estrutura, além do etanol, a usina vai produzir 180 mil toneladas de DDGS (farelo com alto teor de proteína), produto destinado à alimentação animal, mais seis mil toneladas de óleo de milho e pode cogerar até 60 mil megawatts de energia por ano, volume suficiente para abastecer uma cidade de cerca de 25 mil habitantes. "Vamos multiplicar os ganhos com produtos de alto valor agregado", afirma Ubrig.

Entre os fornecedores de cereal para processar etanol está a Cooperativa Agropecuária Terra Viva (Cooavil), de Sorriso, a 66 quilômetros da usina. São 22 cooperados na região, que cultivam uma área de 76 mil hectares, entre soja na primeira safra e milho na segunda safra. O gerente da cooperativa, Anderson Oro, afirma que a produção do grão deve valorizar daqui para frente. "Não teremos o custo de frete para os grandes portos e beneficiaremos o milho em nossa região", diz Oro. "É uma saída, porque em Mato Grosso não há demanda que dê conta de superproduções." Cleiton Tessaro, proprietário da fazenda Santa Ernestina, também em Sorriso, que colhe soja e milho em dois mil hectares, diz que vender para a FS Bioenergia pode de fato se tornar um ótimo negócio. "Com a indústria instalada é mais um para consumir nosso milho", diz Tessaro. "Agora, a nossa produção irá para o etanol, ou sairá do País pelos portos do Arco Norte." Para Rafael Abud, vice-presidente e diretor financeiro da FS Bioenergia, a usina será um comprador cativo na região. "O produtor ganha uma alternativa de liquidez no mercado interno", afirma Abud. Nas últimas cinco safras, os produtores da região do Médio Norte aumentaram a área cultivada de milho em 33%, passando de 1,5 milhão de hectares para os atuais 2 milhões. Em um raio de cerca de 150 quilômetros de Lucas do Rio Verde, a produção que era de 9,6 milhões de toneladas na safra 2012/2013 deve ficar em 12,9 milhões. Vale registrar que naquela safra, todo o Mato Grosso colheu 18,4 milhões de toneladas, 60% menos que o atual ciclo.

O agricultor Joci Piccini, proprietário da fazenda Três Pinheiros de dois mil hectares, também em Lucas do Rio Verde, já vendeu 60% de sua produção de 12 mil toneladas à FS Bioenergia. "A usina é uma ótima alternativa porque, além da facilidade da venda e da entrega, a empresa possui armazéns próprios", afirma Piccini. São 120 mil toneladas de capacidade de armazenagem, muito próxima de tradings gigantes instaladas no município, como a Amaggi, que tem capacidade de 210 mil toneladas e é controlada pela família do ministro da Agricultura. Em um primeiro momento, a usina deve comprar de produtores que estejam em um raio de 50 quilômetros. Isso, para que o frete não comprometa a operação. Segundo Franz, hoje o transporte de milho por rodovia é incoerente por causa do alto custo. No fim do mês passado, a cotação da Aprosoja indicava como preço para venda R$ 15,40 a saca do grão em Lucas do Rio Verde, ante R$ 18 por saca para transportá-lo até o porto de Santos, a 2,2 mil quilômetros de distância. "Não dá para pagar mais em frete do que a liquidez do produto na usina", diz ele. Franz conhece o seu negócio como a palma da mão. Além de empresário, ele possui fazenda de grãos, foi prefeito de Lucas do Rio Verde entre 2005 e 2012 e sempre teve trânsito livre entre os produtores da região.
Cauê Vizzaccaro
Fonte: Revista Dinheiro Rural