Aumento da gasolina ajuda a ampliar demanda por etanol

As vendas de etanol hidratado (usado diretamente nos tanques dos veículos) das usinas do Centro-Sul do país às distribuidoras surpreenderam em outubro e registraram incremento de 21% em relação ao mesmo mês de 2016. Foi a primeira vez neste ano que esse tipo de comparação resultou em variação positiva.

O salto é explicado basicamente pelo aumento dos preços da gasolina. Como o derivado do petróleo está cada mais caro nos postos, em razão de repasses de valorizações no mercado internacional, o biocombustível tem se tornado uma alternativa economicamente vantajosa nos grandes centros de consumo do país, como São Paulo.

Conforme a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), as usinas do Centro-Sul venderam às distribuidoras 1,5 bilhão de litros de hidratado em outubro, melhor resultado mensal desde outubro de 2015. Mesmo que nem todo esse volume tenha necessariamente sido vendido nos postos, o dado é um termômetro do comportamento da demanda ao longo da cadeia produtiva.

Analistas concordam que o aquecimento da demanda, que começou a ganhar força em agosto, não teria acontecido se não fosse a forte alta da gasolina, que reflete a nova diretriz da Petrobrás de repassar ao mercado interno as variações internacionais de preços.

Do início do ano até a semana passada, o preço médio da gasolina nos postos de São Paulo subiu 0,37% (já descontada a inflação), para R$ 3,687 o litro. No exterior, a gasolina tem acompanhado o petróleo, cujas cotações atingiram o maior nível em cerca de dois anos em meio a tensões geopolíticas.

Embora também estejam em ascensão nas últimas semanas, os preços do etanol têm se mantido vantajoso em grandes Estados consumidores. Em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso, que concentram mais de dois terços da demanda nacional pelo biocombustível, os preços do etanol seguem equivalentes a menos de 70% dos valores cobrados pela gasolina.

No padrão mais aceito pelo mercado, 70% é o limite para a manutenção da vantagem econômica do etanol em relação à gasolina. Mas em muitos Estados onde o percentual está acima de 70%, como Rio de Janeiro, Paraná e Goiás, a diferença nominal está acima de R$ 1 por litro, o que favorece o etanol, como lembra Martinho Ono, presidente da SCA Trading. "Talvez o brasileiro nunca tenha pago uma gasolina tão cara como agora. E o etanol, mesmo com preços altos, mostra-se muito competitivo".

Segundo Ono, a demanda por etanol deverá continuar forte no país ao menos até dezembro por causa dessa vantagem. Mas há uma possibilidade de que as vendas sejam ligeiramente menores em novembro que em outubro por causa dos feriados e porque o mês tem um dia útil a menos. Mas em dezembro a demanda tende a ser vultosa, até porque normalmente as compras aumentam com viagens de fim de ano e associadas às férias escolares.

Ono avalia, entretanto, que o etanol poderá subir mais no início de 2018, durante a entressafra, e perder sua vantagem ante a gasolina, caso as usinas precisem "forçar" uma redução da demanda para adequá-la à oferta. Mas ele não vê risco de desabastecimento.

A eventual continuidade da "escalada" dos preços do etanol e seus efeitos sobre a demanda preocupa o mercado como um todo. Para uma fonte do setor de combustíveis, se o etanol deixar de ser uma opção mais econômica que a gasolina, o consumo do ciclo Otto - que inclui etanol e gasolina - poderá recuar, já que a renda da população ainda não se recuperou. (Valor Econômic)