Raízen reduziu moagem em 2% na comparação com o atual portfólio de usinas; receita líquida consolidada cresceu 4%, para R$ 51,46 bilhões
A Raízen processou 19,7 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no primeiro trimestre da safra 2026/27, entre abril e junho, redução de 2% em relação às 20,1 milhões de toneladas registradas no mesmo período da safra anterior, considerando a base comparável do atual portfólio de 24 usinas. No consolidado, a companhia alcançou receita líquida de R$ 51,46 bilhões, alta de 4%, e EBITDA Ajustado de R$ 3,85 bilhões, mais que o dobro dos R$ 1,70 bilhão do mesmo período anterior. A Raízen, no entanto, encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão. Os dados foram divulgados pela companhia hoje, 14.
No segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia (EAB), o início da safra foi impactado pelas condições climáticas. Segundo a Raízen, os efeitos do El Niño provocaram um padrão atípico, com maior volume de chuvas e interrupções nas operações de colheita, afetando diretamente o ritmo de moagem.
A produtividade agrícola, medida em toneladas de ATR por hectare, caiu 3,2%, de 9,3 para 9,0 toneladas de ATR/ha. O ATR da matéria-prima recuou 2,9%, de 121,9 kg/t para 118,4 kg/t, enquanto o TCH da cana própria passou de 76,5 para 75,8 toneladas por hectare, redução de 0,9%.
De acordo com a companhia, a menor produtividade agrícola decorreu principalmente da colheita de cana imatura, em função do início antecipado das operações nesta safra, e do déficit hídrico registrado durante a fase de desenvolvimento dos canaviais, sobretudo nas regiões de Andradina e Araçatuba, no interior paulista.
Mix fica mais alcooleiro e produção de etanol cresce 9,4%
A Raízen aumentou a participação do etanol em seu mix produtivo no início da safra. No primeiro trimestre de 2026/27, 54% da matéria-prima foi direcionada à produção do biocombustível e 46% ao açúcar. Na mesma base comparável da safra anterior, o mix havia sido de 49% para etanol e 51% para açúcar.
Segundo a companhia, a mudança refletiu a dinâmica de rentabilidade entre os produtos, a estratégia de comercialização e a gestão do capital de giro.
Com o mix mais alcooleiro, a produção de etanol alcançou 737 mil m³, crescimento de 9,4% frente aos 674 mil m³ produzidos no primeiro trimestre da safra passada. Já a produção de açúcar recuou 13,6%, passando de 1,193 milhão para 1,031 milhão de toneladas.
A produção de etanol de segunda geração (E2G) permaneceu estável em 22,8 mil m³, mesmo diante da menor disponibilidade de bagaço. A produção total em açúcar equivalente ficou em 2,258 milhões de toneladas, queda de 2,9% ante as 2,325 milhões de toneladas do período comparável.
Preços realizados de açúcar e etanol recuam
Além da menor produção de açúcar, a Raízen enfrentou preços realizados inferiores aos do primeiro trimestre da safra anterior. O volume próprio de açúcar comercializado caiu 10,8%, de 995 mil para 888 mil toneladas, enquanto o preço médio realizado recuou 22,3%, de R$ 2.588 para R$ 2.011 por tonelada.
Segundo a companhia, o menor volume vendido refletiu a redução da produção e o mix adotado no início da safra, enquanto os preços acompanharam a retração das cotações de mercado. A estratégia de fixação de preços contribuiu, segundo a Raízen, para mitigar parcialmente os efeitos negativos da dinâmica das commodities e do câmbio.
No etanol, o movimento foi diferente em volume. As vendas próprias cresceram 24,1%, passando de 497 mil para 617 mil m³. O preço médio, entretanto, caiu 12,2%, de R$ 2.996 para R$ 2.629 por m³. A companhia atribuiu a pressão sobre os preços ao avanço da safra e à maior produção de etanol de milho no mercado brasileiro.
Na bioenergia, o volume de cogeração recuou 19,4%, para 433 mil MWh, diante da menor disponibilidade de biomassa. O preço médio também caiu 19%, para R$ 175/MWh.
Custo caixa cai, mas EBITDA de EAB recua 63%
Apesar da menor moagem, a Raízen registrou redução de 18,4% no custo caixa em açúcar equivalente, que passou de R$ 1.648 para R$ 1.344 por tonelada. Excluindo o efeito do Consecana, a redução foi de 8,7%, para R$ 1.504 por tonelada.
A companhia atribuiu a melhora do custo unitário aos ganhos de eficiência decorrentes das iniciativas de transformação do negócio e de otimização da estrutura operacional. Entre os fatores apontados estão os ganhos de produtividade nas atividades de corte, carregamento e transporte de cana, com aumento do volume colhido por máquina por dia, a melhoria da eficiência industrial e o menor custo da matéria-prima indexada ao Consecana. Esses fatores compensaram a menor diluição dos custos fixos provocada pela redução da moagem e as pressões inflacionárias sobre mão de obra, insumos e serviços.
Mesmo com a redução dos custos, o EBITDA Ajustado do segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia caiu 63,1%, de R$ 814,4 milhões para R$ 300,8 milhões. A receita operacional líquida de EAB ficou em R$ 8,18 bilhões, redução de 33,3% frente aos R$ 12,26 bilhões registrados no mesmo período anterior.
De acordo com a Raízen, o desempenho inferior do EBITDA de EAB refletiu principalmente a menor contribuição dos preços realizados de açúcar, etanol e bioenergia, com impacto negativo de R$ 617 milhões, além da redução dos volumes comercializados em função do menor portfólio de usinas após os desinvestimentos, com efeito de R$ 109 milhões. Em sentido contrário, a redução dos custos unitários e os ganhos de eficiência tiveram contribuição positiva de R$ 286 milhões.
Os investimentos no segmento somaram R$ 899,4 milhões, queda de 34,2%. Os aportes recorrentes, destinados à manutenção e operação, caíram 29,3%, para R$ 722,6 milhões, enquanto os investimentos em expansão e projetos recuaram 48,5%, para R$ 176,8 milhões.
Segundo a companhia, os investimentos foram priorizados para segurança, integridade dos ativos agroindustriais, manejo agrícola e tratos culturais. Nos projetos de expansão, os recursos permaneceram concentrados nas plantas de E2G de Vale do Rosário, que estava aproximadamente 98% concluída, e Gasa, com cerca de 65% de conclusão.
Receita consolidada cresce e prejuízo fica em R$ 1,64 bilhão
No resultado consolidado, a receita líquida da Raízen avançou 4%, de R$ 49,49 bilhões para R$ 51,46 bilhões. O lucro bruto passou de R$ 1,65 bilhão para R$ 3,71 bilhões, enquanto o EBITDA Ajustado atingiu R$ 3,85 bilhões, ante R$ 1,70 bilhão no primeiro trimestre da safra 2025/26.
A melhora do EBITDA consolidado foi sustentada principalmente pelo segmento de Distribuição de Combustíveis no Brasil, que compensou o desempenho inferior de EAB. Segundo a companhia, o negócio de açúcar, etanol e bioenergia foi afetado pela menor produção, menores volumes vendidos, redução dos preços realizados de açúcar e pela hibernação e alienação de cinco usinas na safra anterior.
Apesar da melhora operacional consolidada, a Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão, ante prejuízo de R$ 1,84 bilhão no mesmo período da safra anterior, redução de 11%. O resultado financeiro líquido negativo aumentou 42,4%, chegando a R$ 2,97 bilhões.
A companhia explicou que o resultado financeiro foi afetado principalmente pelo aumento das despesas com juros, decorrente do maior saldo de endividamento, e pelos efeitos relacionados à implementação do Plano de Recuperação Extrajudicial, incluindo a aceleração do reconhecimento dos custos de emissão e dos ajustes a valor justo das dívidas abrangidas pelo plano durante o período de standstill.
Dívida líquida encerra trimestre em R$ 56,9 bilhões
Ao final de junho, a dívida líquida da Raízen somava R$ 56,87 bilhões, crescimento de 15,5% frente aos R$ 49,22 bilhões registrados um ano antes. Em relação ao encerramento da safra 2025/26, quando estava em R$ 58,23 bilhões, houve redução de 2,3%.
A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e EBITDA Ajustado dos últimos 12 meses, ficou em 4,8 vezes, ante 5,2 vezes no trimestre anterior. A companhia informou que a redução da dívida líquida em relação ao quarto trimestre da safra passada refletiu majoritariamente o desinvestimento da operação na Argentina, com a reclassificação de R$ 2,2 bilhões em acervos patrimoniais para ativos e passivos disponíveis para venda, além da apropriação de juros sobre as dívidas.
No trimestre, os investimentos consolidados somaram R$ 1,05 bilhão, redução de 32,6% em relação aos R$ 1,56 bilhão do mesmo período anterior.
A companhia também apresentou melhora na geração de caixa. O fluxo de caixa operacional gerencial alcançou R$ 3,56 bilhões no trimestre, ante consumo de R$ 10,94 bilhões no mesmo período da safra passada. Segundo a Raízen, o resultado refletiu o melhor desempenho da Distribuição de Combustíveis e as iniciativas de gestão do capital de giro, especialmente em estoques e contas a receber.
A administração afirmou que iniciou a safra 2026/27 avançando nas medidas do Plano de Transformação Operacional e Financeiro, com foco no fortalecimento das operações, captura de ganhos de eficiência e preservação de capital. No segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia, a companhia reconheceu um ambiente impactado pelas condições climáticas e por uma conjuntura menos favorável para os preços das commodities.
Natália Cherubin para RPAnews




