Capacidade instalada pode chegar a 25,3 bilhões de litros até 2030; em cenário baseado apenas em eucalipto, setor demandaria cerca de 816 mil hectares de florestas plantadas
A rápida expansão do etanol de milho no Brasil pode colocar a disponibilidade de biomassa entre os principais desafios para o crescimento do setor nos próximos anos. Segundo o Radar Agro, da Consultoria Agro do Itaú BBA, divulgado em setembro, a capacidade instalada de produção do biocombustível deve avançar de 10,9 bilhões de litros, no fim de 2025, para 25,3 bilhões de litros em 2030, elevando também a necessidade de fontes de energia para abastecer as plantas industriais.
Em um cenário no qual o eucalipto fosse a única fonte utilizada pelas usinas, a expansão projetada exigiria aproximadamente 816 mil hectares de florestas plantadas no país até 2030. A estimativa considera uma produção próxima de 25 bilhões de litros de etanol de milho e consumo de cerca de 57 milhões de toneladas de milho, assumindo plena utilização da capacidade instalada.
O Itaú BBA ressalta, no entanto, que o cálculo tem o objetivo de dimensionar a ordem de grandeza do desafio. A matriz energética das usinas pode contar também com outras fontes, como bambu, casca de arroz, bagaço e palha de cana, capins e outros subprodutos agroindustriais. A disponibilidade regional, a sazonalidade, a densidade energética e os custos logísticos, porém, podem limitar a participação dessas alternativas.
Demanda cresce com avanço das usinas
Para o final de 2026, considerando um cenário de eficiência média, a capacidade projetada de 13 bilhões de litros de etanol de milho demandaria cerca de 35 milhões de m³ de biomassa de eucalipto. Para sustentar esse volume de forma recorrente, seriam necessários aproximadamente 440 mil hectares de florestas plantadas, com corte anual estimado em 63 mil hectares.
O relatório aponta que o avanço da indústria nos últimos anos foi favorecido pela expansão da oferta de milho no Cerrado, pelo ambiente de preços competitivos do cereal e pelo crescimento do mercado de DDG. O coproduto tornou-se uma importante fonte complementar de receita das usinas e pode cobrir até 40% dos custos de aquisição do milho em uma indústria, segundo o estudo.
Ao mesmo tempo, o crescimento da produção aumenta a pressão sobre a oferta de biomassa. Segundo o Itaú BBA, atualmente parte do suprimento ainda é proveniente de supressão vegetal legalmente autorizada, mas as incertezas regulatórias e ambientais reforçam a necessidade de ampliação das florestas energéticas e de contratos de longo prazo.
Em Mato Grosso, principal polo de produção de etanol de milho do país, a questão ganha peso adicional. A capacidade instalada do estado deve passar de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre o fim de 2025 e 2030, de acordo com os projetos considerados pelo banco. O Itaú BBA ressalva que alguns empreendimentos anunciados ainda dependem de viabilidade econômica e podem não se concretizar.
Considerando uma capacidade estimada em 8 bilhões de litros de etanol, Mato Grosso demandaria cerca de 259 mil hectares de eucalipto em produção no cenário de eficiência média. Com a expansão para aproximadamente 12 bilhões de litros até 2030 e consumo estimado de 27 milhões de toneladas de milho, a necessidade poderia chegar a 383 mil hectares, com corte anual de aproximadamente 55 mil hectares.
Mato Grosso teria déficit de 218 mil hectares
O Itaú BBA estima que Mato Grosso possui atualmente cerca de 165 mil hectares de eucalipto. Frente à necessidade projetada no cenário-base, o estado teria um déficit potencial de aproximadamente 218 mil hectares de novas florestas energéticas.
Para formar essa área adicional, considerando custo de implantação e condução de aproximadamente R$ 35 mil por hectare ao longo de 13 anos, seriam necessários investimentos próximos de R$ 7,6 bilhões. No cenário de menor eficiência, em que a demanda total poderia alcançar 572 mil hectares plantados, o investimento poderia subir para aproximadamente R$ 14,3 bilhões.
A logística também deve pesar nessa equação. De acordo com o relatório, raios de abastecimento superiores a 150 a 200 quilômetros começam a representar um desafio relevante para o custo da biomassa entregue às usinas. Para resíduos agroindustriais, como casca de arroz e bagaço de cana, as restrições podem ser ainda maiores devido à oferta regionalizada e sazonal.
Além das usinas de etanol, a madeira é demandada por outros segmentos da agroindústria de Mato Grosso. Segundo estimativas preliminares apresentadas pelo Itaú BBA, o etanol de milho representa pouco mais de 60% do volume total de biomassa consumido no estado, enquanto o restante está distribuído principalmente entre esmagadoras de soja e unidades armazenadoras, além de outros consumidores.
Para o Itaú BBA, a garantia de biomassa sustentável em volumes crescentes poderá se tornar um dos principais fatores limitantes para a continuidade da expansão do etanol de milho. Nesse cenário, investimentos antecipados em florestas próprias, contratos de longo prazo e ganhos de eficiência energética ganham importância para reduzir riscos de abastecimento e sustentar o crescimento da indústria.
Natália Cherubin para RPAnews



