Relatório de outubro destaca impactos do El Niño sobre a safra brasileira, riscos de menor oferta mundial de açúcar e valorização do etanol no mercado doméstico
O avanço do El Niño e as chuvas registradas no Centro-Sul do Brasil têm dificultado a colheita e a moagem de cana-de-açúcar, reduzindo a oferta de açúcar e contribuindo para a sustentação dos preços do açúcar e do etanol. Segundo o relatório Agro Mensal de outubro de 2026, divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, as condições climáticas permanecem entre os principais fatores de atenção para o setor sucroenergético, em um cenário de valorização das cotações internacionais do açúcar, restrições produtivas em importantes países fornecedores e demanda doméstica firme por etanol.
De acordo com o banco, o El Niño ganhou força entre a segunda quinzena de setembro e o início de outubro, acentuando os contrastes climáticos no Brasil. Enquanto o Sul registrou precipitações frequentes, o Centro-Oeste apresentou chuvas mais irregulares. Nos canaviais, o retorno das precipitações favoreceu a recuperação da umidade do solo, mas também reduziu as janelas disponíveis para a colheita e a moagem.
Os efeitos sobre a produção já aparecem nos dados da safra. Na primeira quinzena de setembro, o Centro-Sul produziu 2,1 milhões de toneladas de açúcar, o menor volume para o período em sete anos. A moagem alcançou 30,2 milhões de toneladas de cana, próxima do mínimo histórico de 29,7 milhões de toneladas registrado na primeira quinzena de setembro de 2015, quando a região também enfrentava um episódio intenso de El Niño.
Segundo o Itaú BBA, usinas paulistas relataram perdas de oito a dez dias de moagem durante a quinzena em razão das chuvas. Para as próximas semanas, o banco destaca que a distribuição das precipitações continuará sendo determinante para o andamento das atividades agrícolas e industriais.
Açúcar: fundos e riscos de oferta sustentam valorização
No mercado internacional, o açúcar registrou forte valorização após o vencimento do contrato de outubro de 2026. Em Nova York, o contrato com vencimento em março de 2027 superou 21 centavos de dólar por libra-peso, depois de setembro apresentar preço médio de 17,91 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o movimento de alta também atingiu a curva de contratos futuros.
O Itaú BBA atribui a valorização ao aumento das posições compradas dos fundos de investimento, às dificuldades operacionais provocadas pelas chuvas no Brasil e às perspectivas de redução da produção em importantes países fornecedores.
Em 6 de outubro, os fundos especulativos acumulavam posição líquida comprada de aproximadamente 212,6 mil contratos em Nova York, o maior nível em mais de três anos. Segundo a análise, esse posicionamento, combinado aos riscos de oferta, mantém o mercado sensível a eventuais revisões negativas nas estimativas de produção.
Na União Europeia, o banco reduziu sua projeção de produção de açúcar de 13 milhões para 12,6 milhões de toneladas. A revisão considera a queda na produtividade agrícola estimada pela Comissão Europeia, de 77,7 para 67,4 toneladas por hectare, após os efeitos da onda de calor e da seca.
A Índia também apresenta sinais de restrição na oferta. Segundo dados da Associação dos Fabricantes de Açúcar e Bioenergia da Índia (ISMA), os estoques do país encerraram setembro em 3,8 milhões de toneladas, o menor volume em mais de uma década.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) reduziu sua estimativa de produção indiana em 4,1 milhões de toneladas, para 29,5 milhões de toneladas na safra 2026/27. O Itaú BBA trabalha com projeção de 29 milhões de toneladas, considerando um desvio praticamente nulo de cana para a fabricação de etanol.
Apesar da valorização dos contratos futuros, o mercado físico ainda apresenta sinais de demanda enfraquecida. Em setembro, o açúcar FOB Santos registrou desconto médio de 42 pontos, enquanto as exportações brasileiras recuaram 17% em relação ao mesmo mês de 2025. Na China, as importações entre janeiro e agosto somaram 2,3 milhões de toneladas, queda anual de 14%.
Para o banco, a demanda física mais fraca tende a limitar os prêmios de exportação, mas não impede novas altas das cotações internacionais diante dos riscos de redução da oferta.
No curto prazo, as condições climáticas no Centro-Sul brasileiro devem continuar orientando os preços. Posteriormente, as atenções devem se voltar aos primeiros dados oficiais da safra indiana e às perspectivas para a produção brasileira de 2027/28.
Em relação ao próximo ciclo, o Itaú BBA considera possível uma moagem próxima do recorde de 654 milhões de toneladas registrado em 2023/24, embora ressalte que ainda é cedo para projeções mais precisas. As estimativas de cana bisada variam entre 19 milhões e 50 milhões de toneladas, e o volume efetivo de açúcar dependerá também das decisões das usinas sobre ritmo de moagem e direcionamento da matéria-prima.
Etanol: preços avançam e agenda tributária ganha importância
No mercado doméstico, o etanol mantém trajetória de valorização, sustentada pelas restrições à moagem e pelo consumo firme, embora ainda abaixo de seu potencial, segundo o Itaú BBA.
Na semana encerrada em 9 de outubro, o preço do etanol hidratado combustível nas usinas paulistas atingiu R$ 2,64 por litro, patamar semelhante ao observado no início da safra. A paridade média em relação à gasolina no estado de São Paulo ficou em 60,7%, preservando a competitividade do biocombustível.
O banco avalia, entretanto, que a manutenção de um cenário favorável no longo prazo dependerá da ampliação do consumo de etanol pela frota de veículos flex, cuja participação atual de utilização do biocombustível é estimada em 32%.
Além dos fatores de oferta e demanda, a agenda tributária passou a concentrar as atenções do setor. Entre as mudanças recentes destacadas no relatório estão a flexibilização das obrigações e a ampliação do prazo da subvenção aos produtores de etanol hidratado, a aprovação da metodologia de cálculo do IBS e da CBS sobre combustíveis e a desoneração federal da gasolina, acompanhada pelo aumento da subvenção ao etanol.
Segundo o levantamento, a desoneração da gasolina permanece vigente até 9 de novembro. O Itaú BBA avalia que a medida pode abrir espaço para reajustes no preço da gasolina A pela Petrobras, uma vez que o impacto ao consumidor seria parcialmente atenuado pela redução dos tributos.
A defasagem do preço da gasolina A foi estimada pelo banco em R$ 0,60 por litro, após ter alcançado R$ 1,25 por litro no final de setembro.
No mercado internacional, o relatório também destaca avanços regulatórios que podem ampliar o consumo de etanol. Na Califórnia, a retirada de obstáculos à comercialização da gasolina E15, com 15% de etanol, poderá gerar demanda adicional de 2,5 bilhões de litros, caso a medida se concretize. Na Indonésia, o governo trabalha na ampliação gradual da mistura, com objetivo de alcançar o E50 em 2028.
Para os próximos meses, o Itaú BBA aponta que as restrições operacionais associadas às chuvas e o comportamento do consumo continuarão influenciando os preços do etanol, enquanto as medidas tributárias deverão permanecer no centro das discussões do setor.

