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Biometano nas usinas: aproveitamento da torta de filtro e do digestato pode ampliar ganhos no campo

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Segundo Ricardo Pinto, da RPA Consultoria, viabilidade dos projetos depende também da logística das matérias-primas, da reciclagem de nutrientes e da economia efetiva com fertilizantes

A expansão da produção de biometano no setor sucroenergético abre novas possibilidades para o aproveitamento energético de coprodutos da cana-de-açúcar, como a vinhaça e a torta de filtro. No entanto, para que os projetos gerem resultados consistentes, é necessário integrar a produção de energia ao planejamento agrícola, considerando desde a disponibilidade das matérias-primas até o retorno dos nutrientes ao solo por meio do digestato. A avaliação é de Ricardo Pinto, da RPA Consultoria, em entrevista concedida à Insights, newsletter da AVENTRA, publicada em 2 de novembro.

Segundo Pinto, parte importante do resultado econômico e operacional desses projetos depende de fatores que vão além da produção do gás. A organização da oferta e da qualidade das matérias-primas, os custos logísticos e a destinação agronômica do material remanescente da biodigestão precisam ser considerados desde a concepção do empreendimento.

“Na usina, essa integração é especialmente interessante: vinhaça e torta de filtro já fazem parte da operação agrícola. A produção de biometano acrescenta uma etapa de aproveitamento energético, mas precisa preservar a lógica de reciclagem de nutrientes”, explica.

Para o especialista, o desempenho deve ser avaliado de forma conjunta, considerando a energia produzida, os custos de transporte e processamento e o valor efetivamente recuperado na lavoura com a substituição de parte da adubação mineral pelo digestato.

Torta de filtro: potencial energético e valor agrícola

Entre os coprodutos com potencial de utilização na produção de biogás e biometano está a torta de filtro, material que já possui valor agronômico devido à presença de matéria orgânica e nutrientes, especialmente o fósforo.

Segundo Pinto, a inclusão desse material em uma planta de biodigestão exige uma análise que considere sua utilização atual nos canaviais. O objetivo é verificar se o aproveitamento energético proporciona benefícios adicionais em relação às alternativas convencionais, como a aplicação direta no solo ou a compostagem.

“A pergunta é quanto valor adicional conseguimos obter ao passar esse material pela biodigestão e devolver o digestato ao campo. Essa avaliação deve comparar o sistema completo com a aplicação direta ou a compostagem, considerando energia, processamento, transporte e desempenho agronômico”, afirma.

O especialista ressalta que a melhor alternativa pode variar entre usinas, conforme as características da matéria-prima e as condições operacionais de cada instalação.

Antes de utilizar a torta de filtro na biodigestão, também é necessário conhecer suas características físico-químicas. Umidade, teor de sólidos, presença de impurezas e composição da matéria orgânica influenciam o recebimento, o preparo e o comportamento do material nos reatores.

Pinto explica que o planejamento deve contemplar armazenamento, mistura e alimentação dos biodigestores, além de ensaios de biodegradabilidade. Isso porque parte da matéria orgânica pode apresentar degradação mais lenta, exigindo atenção ao dimensionamento do sistema.

Digestato pode reduzir uso de fertilizantes minerais, mas exige manejo

Outro ponto central dos projetos é o aproveitamento do digestato, material remanescente da digestão anaeróbia após a conversão de parte da matéria orgânica em biogás.

De acordo com Pinto, esse material conserva potencial de utilização agrícola, mas seu valor depende da composição, da disponibilidade dos nutrientes para as plantas e das condições de aplicação.

O digestato pode substituir parte dos fertilizantes minerais utilizados nos canaviais, embora não exista um percentual de substituição aplicável a todas as situações. A quantidade efetivamente aproveitada depende das necessidades nutricionais de cada área, da época de aplicação e da disponibilidade dos nutrientes presentes no material.

“Também precisamos evitar um erro comum: calcular a dose para atender a um nutriente e acabar aplicando outro em excesso. O caminho é incorporar o digestato ao balanço nutricional da lavoura e complementar o que faltar”, explica.

Segundo o especialista, a economia deve ser medida pela quantidade de fertilizante mineral efetivamente substituída, mantendo a produtividade e a qualidade do solo. Para isso, análises laboratoriais, avaliações das condições do solo e recomendações agronômicas são fundamentais.

Outra possibilidade é a separação do digestato em frações sólida e líquida, que podem apresentar diferentes características de manuseio e aplicação. Entretanto, Pinto ressalta que essa alternativa deve ser analisada conforme a logística de distribuição, a localização das áreas agrícolas e os custos envolvidos.

A separação não elimina os nutrientes nem garante, por si só, a obtenção de um produto concentrado. Por isso, é necessário avaliar como os componentes nutricionais se distribuem entre as frações e quais benefícios operacionais podem ser obtidos.

A transformação do digestato em produtos de maior valor agregado, como fertilizantes organominerais, também representa uma possibilidade. Nesse caso, o especialista aponta a necessidade de regularidade na composição, controle de qualidade, viabilidade logística e definição do mercado consumidor.

Armazenamento e aplicação também influenciam os resultados

A utilização agrícola do digestato exige cuidados com armazenamento, distribuição e doses aplicadas. Entre os riscos apontados por Pinto estão as perdas de nutrientes, o desequilíbrio nutricional e, em situações de manejo completamente inadequado, a possibilidade de contaminação de águas.

Segundo ele, a infraestrutura precisa ser compatível com o calendário agrícola, considerando a capacidade de armazenamento, a disponibilidade de equipamentos de aplicação e as condições das áreas que receberão o material. “O armazenamento e a distribuição no campo precisam ser projetados com o mesmo rigor dedicado à produção de gás”, ressalta.

O especialista destaca que a biodigestão não elimina a necessidade de manejo adequado dos nutrientes e que os benefícios ambientais dependem do funcionamento de toda a cadeia, inclusive após a saída do digestato dos reatores.

Resultado precisa ser medido ao longo das safras

Para demonstrar a viabilidade da integração entre produção de biometano e atividade agrícola, Pinto defende o acompanhamento de indicadores energéticos, agronômicos e econômicos.

Na lavoura, devem ser considerados fatores como produtividade da cana, evolução da fertilidade do solo, custos de aplicação e substituição efetiva de fertilizantes minerais. Na planta industrial, os principais parâmetros incluem rendimento de biogás, estabilidade operacional e custos de processamento.

O especialista também destaca a importância de comparar áreas agrícolas com critérios consistentes, levando em consideração diferenças de solo, variedade de cana, condições climáticas e histórico de manejo.

“Um bom resultado pontual é um sinal positivo, mas decisões de expansão precisam de evidências ao longo de safras. O objetivo é demonstrar um ganho recorrente por hectare e para a operação como um todo”, afirma.

Na avaliação de Pinto, a participação da equipe agrícola desde as primeiras etapas do planejamento é fundamental para o desenvolvimento de projetos de biometano nas usinas. A disponibilidade das matérias-primas, a localização das áreas, o calendário de aplicação e a infraestrutura existente influenciam diretamente o dimensionamento e a viabilidade dos empreendimentos.

“O destino do digestato precisa estar resolvido no planejamento, com a mesma atenção dada ao destino do biometano. Quando conectamos produção de energia e manejo de nutrientes, criamos condições para capturar mais valor da cana e de seus coprodutos”, conclui.

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