Entidade solicitou ao IBGE a inclusão do tema no levantamento, mas recebeu resposta negativa; ausência de dados pode dificultar o acompanhamento da adoção de bioinsumos na agricultura brasileira
O 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, previsto para 2027, não deverá incluir perguntas sobre a utilização e a produção de bioinsumos nos estabelecimentos agropecuários brasileiros. A ausência do tema no questionário foi criticada pelo Instituto Escolhas, que solicitou ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a inclusão de informações sobre esses produtos no levantamento, mas recebeu resposta negativa. Segundo a entidade, a decisão poderá deixar o país sem estatísticas censitárias específicas sobre o uso de bioinsumos por mais uma década, já que o próximo censo está previsto apenas para 2037.
Em outubro, o Instituto Escolhas encaminhou uma carta ao IBGE propondo a criação de um módulo dedicado aos bioinsumos ou, caso não fosse possível, a inclusão de pelo menos uma pergunta sobre sua utilização nos estabelecimentos agrícolas. De acordo com a organização, o instituto respondeu negativamente à solicitação na semana anterior à divulgação do comunicado.
“É uma pena que o IBGE não tenha reconhecido a importância do tema. A construção de políticas públicas para uma agricultura mais sustentável depende de estatísticas robustas, que incorporem a questão dos bioinsumos”, afirma Sergio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas.
Segundo Leitão, a ausência dessas informações poderá comprometer a compreensão sobre a adoção dos insumos biológicos no país. “Esse apagão de dados se estenderá por mais dez anos, com prejuízos enormes à agricultura brasileira”, acrescenta.
Os bioinsumos, de origem vegetal, animal ou microbiana, são utilizados em diferentes atividades agrícolas, incluindo nutrição das plantas e controle de pragas, doenças e plantas daninhas. Sua utilização integra as estratégias de desenvolvimento de sistemas produtivos mais sustentáveis, com potencial para reduzir a dependência de determinados insumos sintéticos.
Para o Instituto Escolhas, a inclusão de perguntas sobre o tema no Censo Agropecuário permitiria dimensionar a presença desses produtos nas propriedades, identificar as culturas em que são utilizados e conhecer suas principais finalidades.
“Alguns levantamentos indicam que o mercado de bioinsumos está em expansão, mas precisamos de estatísticas mais robustas e abrangentes, que respondam a questões fundamentais. Quantos estabelecimentos utilizam bioinsumos? Em quais culturas? Para que finalidades?”, questiona Leitão.
Marco legal e desenvolvimento de bioinsumos
A entidade também relaciona a necessidade de ampliar a produção de informações estatísticas à Lei nº 15.070/2024, que estabeleceu o marco legal dos bioinsumos no Brasil.
Na avaliação do Instituto Escolhas, o avanço dessa agenda pode contribuir para a autonomia produtiva da agricultura brasileira, a adaptação às mudanças climáticas e a redução da dependência de insumos importados.
A organização destaca que a utilização de bioinsumos também pode favorecer práticas de conservação e regeneração do solo, além de contribuir para o desenvolvimento de alternativas aos produtos sintéticos empregados na produção agrícola.
A carta encaminhada ao IBGE também foi enviada à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
Segundo o Instituto Escolhas, o levantamento de informações sobre a adoção de bioinsumos contribuiria para orientar políticas públicas e fortalecer iniciativas nacionais de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Estudos apontam desafios no uso de insumos agrícolas
Para demonstrar a importância do tema, o Instituto Escolhas cita dois estudos publicados em 2025 sobre a produção de soja no Brasil.
O primeiro levantamento apontou aumento do peso dos custos com sementes, agrotóxicos e fertilizantes na produção da oleaginosa. Segundo a pesquisa, em 2013 eram necessárias 11 sacas de soja por hectare para cobrir essas despesas. Em 2023, o volume havia aumentado para 23 sacas.
Já o segundo estudo analisou a utilização de herbicidas na cultura da soja e relacionou seu crescimento à adoção do chamado plantio direto incompleto, caracterizado pela ausência de práticas complementares voltadas à regeneração do solo.
De acordo com a entidade, a adoção do Sistema de Plantio Direto (SPD), associado a práticas integradas de agricultura sustentável e à utilização de bioinsumos, pode contribuir para modificar esse cenário.
Embora os estudos sejam voltados à soja, o Instituto Escolhas defende a necessidade de informações mais abrangentes sobre o uso de insumos biológicos nas diferentes culturas agrícolas brasileiras.
Para Leitão, o Censo Agropecuário de 2027 representa uma oportunidade de acompanhar transformações ocorridas desde os levantamentos anteriores.
“É compreensível que os censos anteriores não tenham incorporado o tema a seus questionários, pois era uma prática incipiente. Mas o novo censo será realizado em outra realidade, na qual os produtores enfrentam novos desafios, entre eles os decorrentes da crise climática”, afirma.
A entidade também destaca o potencial brasileiro para o desenvolvimento de soluções biológicas, citando como exemplo a pesquisadora da Embrapa Mariângela Hungria, vencedora do World Food Prize de 2025 por suas contribuições ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura.



