Projetos de captura e armazenamento de carbono, aproveitamento de biomassa e mudanças no uso da terra ampliam as possibilidades de descarbonização do setor sucroenergético
A produção de etanol com intensidade de carbono neutra ou negativa começa a ganhar espaço no Brasil, impulsionada por investimentos em captura e armazenamento de CO₂, aproveitamento integral da biomassa e tecnologias voltadas à eficiência energética das usinas. Além de reduzir as emissões associadas à produção do biocombustível, essas iniciativas abrem novas oportunidades de negócios para o setor sucroenergético, embora sua expansão ainda dependa de avanços regulatórios e do reconhecimento de diferentes mecanismos de remoção de carbono.
O tema foi discutido durante o painel “Etanol rumo à intensidade de carbono neutra ou negativa”, realizado em outubro de 2026, com representantes da Cocal, FS, Mist Ressonance Engineering Pvt Ltd (MREPL) e Embrapa. O debate reuniu experiências de aplicação industrial, projetos de captura geológica e alternativas para ampliar os benefícios ambientais da produção de etanol.
Uma das estratégias em desenvolvimento é a integração de diferentes atividades produtivas dentro das usinas, buscando aproveitar ao máximo os recursos provenientes da cana-de-açúcar. Na Cocal, que administra 257 mil hectares e processa 16 milhões de toneladas de cana, o conceito de economia circular envolve a produção de açúcar, etanol, biogás, biometano, energia elétrica, biofertilizantes e créditos de descarbonização.
Segundo Abel Uchoa, diretor-presidente da companhia, a proposta é estruturar operações capazes de agregar novas atividades e ampliar o aproveitamento da biomassa.
“O nosso conceito de economia circular abrange desde o açúcar e o etanol até o biogás, biometano, energia elétrica, biofertilizantes e créditos de descarbonização. Quando desenhamos a nossa planta de biogás, projetamos uma estrutura aberta, capaz de impulsionar novos negócios e fechar praticamente toda a cadeia produtiva, aproveitando todo o potencial da biomassa da cana”, afirmou Uchoa.
A estratégia também contempla a transição energética das operações agrícolas, incluindo iniciativas de renovação das frotas utilizadas no campo.
Captura geológica pode viabilizar etanol com pegada negativa
Outra frente de descarbonização está na captura e no armazenamento permanente do carbono gerado durante o processo produtivo. No segmento de etanol de milho, a FS desenvolve um projeto de Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono (BECCS), que prevê investimento de US$ 90 milhões em infraestrutura de estocagem geológica no Mato Grosso.
A iniciativa passou por dois anos e meio de desenvolvimento e envolveu trabalhos de validação geológica e adequação regulatória. Segundo Daniel Lopes, vice-presidente executivo de Sustentabilidade e Desenvolvimento de Negócios da FS, o projeto foi conduzido como piloto junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), no âmbito do Combustível do Futuro.
“É um projeto inovador, onde vivemos as dores e as delícias de sermos pioneiros. Tivemos um trabalho muito robusto na área regulatória, atuando como projeto-piloto junto à ANP no escopo do Combustível do Futuro”, explicou Lopes.
Com os requisitos geológicos validados, a estrutura terá capacidade para armazenar 420 mil toneladas de carbono por ano. A expectativa da companhia é que o projeto permita a comercialização de 650 milhões de litros de etanol certificado com pegada de carbono negativa.
Para Lopes, além de representar um avanço na redução da intensidade de carbono do biocombustível, a tecnologia apresenta potencial de expansão para outras operações no país.
A redução das emissões também pode ocorrer por meio de melhorias nos processos industriais, especialmente nas etapas que demandam maior consumo de energia térmica e elétrica.
A indiana MREPL desenvolveu uma tecnologia de criação de névoa e condensadores de vácuo de entrada comum (MTCEC), apresentada como alternativa às tradicionais torres de resfriamento utilizadas nas instalações industriais.
De acordo com Makarand Chitale, diretor da empresa, o sistema permite acelerar a geração de vácuo e otimizar o ciclo de fervura, contribuindo para a redução do consumo de vapor e eletricidade nas usinas.
“Nossos produtos fornecem às usinas soluções práticas para reduzir o consumo de energia elétrica e a demanda térmica. O sistema proporciona uma geração de vácuo mais rápida, otimizando o ciclo de fervura e traduzindo-se em economia real de vapor”, destacou Chitale.
Segundo o executivo, os ganhos obtidos com a tecnologia podem ser convertidos em toneladas de CO₂ equivalente, permitindo mensurar os benefícios ambientais e econômicos da redução do consumo energético.
Uso da terra e biocarvão ampliam possibilidades de remoção de carbono
Além das soluções industriais, o manejo agrícola e o uso da terra podem desempenhar papel importante na obtenção de uma intensidade de carbono negativa.
A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente Marilia Folegatti destaca que uma das alternativas é a produção de biocarvão, também conhecido como biochar, material utilizado como condicionador de solo e capaz de manter o carbono armazenado de forma estável por mais de um século.
Outra possibilidade está relacionada à mudança direta do uso da terra (direct Land Use Change – dLUC), especialmente quando a expansão agrícola ocorre sobre áreas de pastagens severamente degradadas.
“A expansão agrícola sobre pastagens severamente degradadas nos dá a condição de chegar a uma emissão negativa. Com essa métrica, 62% dos municípios canavieiros teriam a possibilidade de reverter suas emissões”, afirmou Folegatti.
Apesar desse potencial, a pesquisadora ressalta que a consolidação dos modelos de produção com carbono negativo exige avanços nos mecanismos de reconhecimento e contabilização das emissões removidas.
Segundo Folegatti, o RenovaBio já prevê bonificações de até 20% para emissões negativas. Entretanto, o reconhecimento da mudança direta do uso da terra e a integração de diferentes instrumentos de mercado ainda representam desafios.
“O que falta para consolidar o carbono negativo é o reconhecimento do dLUC, além do empilhamento de instrumentos que integrem o RenovaBio, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os mercados voluntários com integridade”, explicou.
As experiências apresentadas indicam que o avanço do etanol de baixa intensidade de carbono não depende de uma única solução tecnológica. A integração entre eficiência industrial, economia circular, captura geológica, manejo agrícola e instrumentos de remuneração ambiental desponta como um dos caminhos para ampliar a descarbonização do biocombustível e criar novas oportunidades econômicas para as usinas.



