O etanol brasileiro e a eleição americana

Por: Larry Rohter, Jornalista e escritor, é ex-correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia
Nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, desde a criação do Programa Proálcool em 1975 o etanol tem sido sempre uma questão tão perigosa quanto areia movediça. Todd Chapman, o recém-chegado embaixador americano em Brasília, acaba de aprender essa lição importante a sua própria custa. Mas não foi o primeiro – e nem será o último – a ser emboscado por um assunto cuja aparente natureza puramente técnica esconde um complicado jogo de orgulho nacional e interesses econômicos.

Segundo O Globo, em contatos com parlamentares brasileiros e funcionários de alto escalão, Chapman teria pedido que as tarifas de importação de etanol fossem zeradas. O objetivo seria fortalecer a reeleição de Trump no estado-chave de Iowa, maior produtor de milho nos Estados Unidos e baluarte da indústria do etanol americana, e a recompensa para Bolsonaro seria um segundo mandato para seu maior aliado.

O programa americano de etanol não tem o mínimo sentido econômico; sua lógica é política. Não somos um grande produtor de açúcar, então tivemos de recorrer ao milho. Só que o milho, quando comparado ao açúcar, é pouco eficiente: cada unidade de energia empregada na produção de etanol à base de açúcar gera ao menos oito unidades de energia, enquanto a proporção com milho nem chega a dois.

Mesmo assim, presidentes americanos de ambos os partidos têm apoiado o esforço, que requer enormes subsídios para sobreviver e desencadeou uma guerra de tarifas com um país amigo. As justificativas variam de um governo para outro: a segurança nacional, a proteção do mítico pequeno agricultor, a criação de novos empregos em novas indústrias etc. Mas o principal beneficiário é sempre o mesmo: o agronegócio americano e seu poderoso lobby em Washington.

Em 2008, quando terminei uma década como correspondente no Brasil, fui diretamente para a cobertura da campanha presidencial americana. Acompanhei Hillary Clinton, John McCain e Barack Obama e logo percebi a potência do lobby do milho. Até Obama, supostamente o mais progressista, se curvava ante sua força: “Não serve a nossa segurança nacional ou econômica substituir petróleo importado com etanol brasileiro”, declarou o então senador de Illinois, estado que é o segundo maior produtor de milho no país.

Fiquei surpreso ao ler do envolvimento de Chapman nessa polêmica. Mais de 40% dos embaixadores nomeados no governo Trump não são diplomatas, são amigos dele ou doadores de fundos de campanha, e se mostraram especialistas em confusões. O embaixador na Grã-Bretanha pediu que o governo escocês encaminhasse um torneio de golfe para um resort de Trump, o embaixador na Alemanha vivia se intrometendo em política interna alemã, e o embaixador na União Europeia foi peça essencial na secreta campanha de chantagem da Ucrânia que resultou no impeachment de Trump.

Mas Todd Chapman não é marinheiro de primeira viagem no Brasil. Quando criança, morava e estudava em São Paulo, fala português fluentemente e também trabalhou como o número dois na embaixada em Brasília no começo da década passada. É um profissional, capaz e normalmente discreto, e é por isso que desconfio do papel dele nesse imbróglio.

Em nota oficial de 3 de agosto, Chapman afirmou que “em nenhum momento solicitei aos representantes brasileiros que tomassem quaisquer medidas em apoio a qualquer candidato presidencial”. Tudo bem. Acredito que não tenha sido a intenção explícita dele ajudar Trump a triunfar em Iowa. Mas o efeito prático de qualquer suspensão, quatro meses antes da nossa eleição presidencial, das tarifas sobre o etanol americano seria dar a Trump uma vitória comercial e fortalecer as chances dele no estado. Todo mundo sabe disso, sobretudo um diplomata experimentado.

No mínimo, o timing foi muito inoportuno. Se o objetivo foi, como declara, a “defesa de interesses comerciais de longa data”, qual a urgência em buscar uma solução neste exato momento, numa conjuntura política altamente delicada? Por que não podia esperar até novembro, depois da eleição? Por acaso Bolsonaro e sua turma ainda não estarão no poder daqui a quatro meses? Foram os seus chefes no Departamento de Estado em Washington que mandaram botar o assunto na pauta de suas reuniões com brasileiros?

Com todas as incógnitas, é fácil entender por que o Comitê de Relações Exteriores da Câmara americana, controlada pela oposição democrata, pediu explicações ao diplomata e exige que “apresente cópias completas e sem supressões de todo e qualquer documento relacionado a qualquer discussão” sobre etanol. Tomara que o Congresso e um novo presidente também tenham a coragem de acabar quanto antes com o gigantesco sorvedouro financeiro que é o programa americano de etanol.

Por: Larry Rohter, Jornalista e escritor, é ex-correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia