Home Opinião [Opinião] Raízen, Shell e Cosan: quando o sócio balança, a marca pesa
OpiniãoÚltimas Notícias

[Opinião] Raízen, Shell e Cosan: quando o sócio balança, a marca pesa

Compartilhar

A história da Raízen começa antes de 2011. O Grupo Ometto, via Cosan, entrou no setor de combustíveis ao comprar, em 2008, a operação da Esso no Brasil. Mas havia um detalhe: só podia usar a marca Esso por cinco anos. Depois? Precisava achar outro caminho.

Do outro lado, a Shell flertava com a ideia de sair do Brasil — como outras gigantes já haviam feito (Texaco, Esso, Atlantic).

E foi aí que surgiu a sacada: unir forças. A Shell trazia sua marca, seu know-how global e peso no downstream. A Cosan, seu império no agro, energia renovável e uma rede de postos herdada da Esso.

Assim nasceu a Raízen, com 41,5% da Cosan, 41,5% da Shell e 17% de investidores institucionais. Uma sociedade que juntou a força de uma multinacional centenária com a ousadia de um gigante do agro brasileiro que aprendeu rápido a jogar no campo da energia.

Mas como dizia meu avô Anselmo:
“Sócio bom é aquele que, além de dinheiro, traz sossego pro sono da gente.”

E é aqui que mora a reflexão.

O mercado observa, mais atento que benzedeira de roça, os desafios da Cosan: dificuldade em vender ativos (como as usinas de etanol 2G), dívida crescendo, caixa pressionado e um mercado que não costuma perdoar tropeços.

E a pergunta aparece, direta como mineiro quando oferece café: Será que a Shell, dona de uma marca que vale bilhões, começa a se preocupar?

Porque patrimônio, no mundo dos negócios, não é só dinheiro. É, antes de tudo, reputação. E proteger uma marca global vale, muitas vezes, mais que proteger o próprio balanço. Isso já aconteceu antes? Sim, e não foram poucas vezes:
• Shell na África: Saiu quando os sócios locais começaram a comprometer padrões de qualidade e compliance.
• BP e Castrol: A BP percebeu que, quando a marca é valiosa demais, é melhor não terceirizar nem o cafezinho. Preferiu assumir tudo e tocar a operação no seu próprio compasso.
• Exxon na Venezuela: Não pensou duas vezes. Pulou fora quando percebeu que nem lucro nem imagem estavam seguros.

Quando o risco reputacional entra pela porta, até o lucro sai pela janela. E se apertar?
Se a situação da Cosan se agravar, o contrato da Raízen não é feito de papel de pão, não. Tem cláusulas robustas: governança, proteção de marca e direitos de veto. A Shell pode exigir mudanças — reorganização, venda de ativos, novos sócios ou, no limite, rever a própria sociedade.

Fica a pulga atrás da orelha…
Empresas são feitas de ativos, passivos e percepções. E no jogo global, proteger a marca vale mais que proteger o caixa.
Se a Shell começa a farejar risco além dos números, pode apostar: reuniões discretas, e-mails cifrados e muita conversa de porta fechada já estão no roteiro.

Como dizia meu tio Anísio: “Marca, meu filho, é igual honra: você só percebe o tamanho do valor… quando vê que pode perder.”

*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.

As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade de seus respectivos autores e não correspondem, obrigatoriamente, ao ponto de vista da RPAnews. A plataforma valoriza a pluralidade de ideias e o diálogo construtivo.

 

Compartilhar

Ep. 27: Como a tecnologia está transformando as fábricas de açúcar?

Episódio 26: Manejo de plantas daninhas em cana: por que começar antes faz toda a diferença?

Enviamos diariamente um boletim informativo com destaques do setor bioenergético 

Artigo Relacionado
açucar
Últimas Notícias

Açúcar cristal segue oscilando no mercado paulista com negócios pontuais

Compradores aguardam queda nos preços diante da expectativa de maior oferta, enquanto...

Etanol
Últimas Notícias

Mercado de etanol ganha liquidez, mas preços seguem pressionados pela oferta e demanda fraca

Negócios aumentam no mercado spot, porém usinas continuam cedendo nos preços diante...

Últimas Notícias

Fenasucro: Rota Inova leva debates sobre transformação digital à Fenabio

Lideranças do programa de inovação que opera no Dabi Business Park assinam...

Últimas Notícias

Tarifa sobre etanol importado ainda é “relevante” para produtores, diz secretário

Augusto Billi defendeu a manutenção do imposto como forma de garantir a...