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Vale fecha acordo com chinesa Shandong para afretar os primeiros navios movidos a etanol

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A Vale fechou um contrato de afretamento de 25 anos com a chinesa Shandong Shipping Corporation que prevê a construção pelo armador dos dois primeiros navios transoceânicos do mundo movidos a etanol, disse o diretor de navegação da mineradora, Rodrigo Bermelho, à Reuters.

A iniciativa é mais um passo da companhia em sua estratégia de descarbonização da frota de embarcações operada, mas ocorre em um momento em que a guerra no Irã e disrupções no Estreito de Ormuz elevaram preocupações globais ‌com a oferta e a logística de petróleo e derivados, reforçando o apelo por alternativas de combustível e maior diversificação no transporte marítimo.

Os dois navios do tipo Guaibamax de segunda geração, com 340 metros de comprimento, capacidade de 325 mil toneladas de minério de ferro e entrega prevista a partir de 2029, serão ainda equipados com velas rotativas para o aproveitamento da energia eólica, motores mais eficientes, dispositivos hidrodinâmicos, entre outras melhorias na eficiência energética, segundo o executivo.

“Vemos a descarbonização como uma tendência irreversível. Isso está no centro da estratégia da Vale, não só na parte do transporte marítimo, mas de todos os produtos que a gente tem desenvolvido para a siderurgia”, afirmou Bermelho, em uma entrevista por videoconferência na quarta-feira, 8, ao antecipar a informação à ⁠Reuters.

Ele complementa: “Situações como a que a gente está presenciando hoje (com a guerra no Irã) mostram a importância de você ter um sistema flexível, que possa se adaptar às diversas variações de mercado para manter a continuidade do nosso negócio. Isso valida a estratégia”.

O executivo acrescentou ainda que há muitas incertezas no mercado global relacionadas à regulação e ao fornecimento de combustível. “Então, é importante você ter um sistema de transporte que seja robusto e resiliente, que você possa se adaptar a diversas mudanças de mercado. A gente começou nessa jornada há muitos anos”, disse.

Questionado sobre eventuais impactos da guerra nas operações de navegação da Vale, Bermelho afirmou que a empresa está acompanhando de perto o cenário, mas que até o momento não teve nenhum impacto material relevante, sem dar detalhes.

A Vale tem informado que conta com flexibilidade na frota de navios e contratos de longo prazo, além de um hedge de combustível marítimo que a protege de grandes variações. Em encontro com analistas, o presidente da mineradora, Gustavo Pimenta, afirmou recentemente que a companhia tem 75% de sua exposição protegida.

Bermelho também não informou o valor do contrato de afretamento com a Shandong, por questões de confidencialidade, mas disse que é “significativo” considerando o prazo ‌de 25 ⁠anos. O acordo contém ainda a opção para mais embarcações.

Desde 2020, a Vale investiu cerca de US$1,4 bilhão para reduzir emissões de escopos 1, 2 e 3 e mantém a meta de cortar em 15% suas emissões de escopo 3 até 2035, informou a companhia, citando que este último inclui a maior parte das emissões do transporte marítimo.

O uso do etanol pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa nos navios em cerca de 90% em comparação com o óleo combustível pesado tradicional.

Há outras iniciativas para uso de transporte de etanol no transporte marítimo global, que responde, sozinho, por cerca de 3% de todas as emissões de gases do efeito ⁠estufa (GEE) do planeta.

A A.P. Moller – Maersk, líder em transporte marítimo de contêineres no mundo, afirmou no final do ano passado que testes iniciais para o uso de etanol em mistura de combustíveis de navios foram bem-sucedidos, anunciando a expansão das avaliações para uma mescla de 50%.

Além de etanol, embarcações contratadas pela Vale poderão utilizar metanol e óleo pesado, incluindo ainda um “design” que prevê a possibilidade de conversão para o uso de gás natural liquefeito (GNL) ou ⁠de amônia.

Bermelho explicou que os navios a etanol devem consumir aproximadamente 10 mil toneladas de etanol por viagem para a Ásia. Em geral, as embarcações Guaibamax realizam de três a quatro viagens anuais para a Ásia, principal destino do minério exportado pela companhia.

A empresa ainda não firmou contratos de fornecimento do biocombustível, mas negocia principalmente no Brasil. “Não tem nenhuma diretriz. A gente busca pelas melhores condições de mercado, mas os produtores brasileiros são muito competitivos e muito eficientes, então, a gente tem discutido principalmente com produtores brasileiros”, disse o executivo.

A Vale opera atualmente uma frota de cerca de 50 navios Guaibamax e já anunciou a contratação de outros dez navios bicombustíveis, movidos a metanol e óleo pesado, junto à Shandong, com entregas previstas entre 2027 e 2029. A mineradora estuda a possibilidade de converter essas embarcações também para o uso adicional de etanol.

Reuters|Marta Nogueira

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