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[Opinião] Açúcar: produtividade preocupa e mercado busca direção

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Em uma semana encurtada pelo feriado de Páscoa, o mercado futuro de açúcar em Nova York registrou leve recuo. O contrato com vencimento em maio/25 encerrou cotado a 17.91 centavos de dólar por libra-peso, ligeiramente abaixo do fechamento da semana anterior. Os vencimentos seguintes também recuaram, com perdas em torno de 10 pontos, o equivalente a pouco mais de 2 dólares por tonelada.

No acumulado de um mês, o contrato maio/25 caiu 200 pontos, uma desvalorização de 10.39%. Entre as commodities, esse desempenho negativo só não foi pior do que o do gás natural, que recuou 19.96% no mesmo período. Apenas cerca de 15% dessa queda pode ser atribuída à desvalorização do real frente ao dólar (de 5.6705 para 5.8080). O restante parece ter origem no ambiente macroeconômico global, especialmente nas incertezas políticas nos Estados Unidos impulsionadas por Donald Trump.

No entanto, cabe a pergunta: por que o açúcar foi a única commodity agrícola a sofrer uma correção tão acentuada, enquanto outras — como cacau, suco de laranja e café — permaneceram em território positivo? A resposta provavelmente vai além da influência cambial ou do cenário macro. Há outros fatores ainda não totalmente precificados pelo mercado.

Os fundamentos suportam essa queda? Certamente que não. A safra 2025/26 teve início em diversas usinas nesta semana, e os primeiros relatos apontam para uma produtividade significativamente abaixo do esperado. Algumas áreas colhidas estão apresentando uma quebra de aproximadamente 15% em relação ao planejado — que, por sua vez, já previa uma redução frente à safra anterior. Informações não oficiais coletadas junto ao pessoal de produção, com base em dados de 34 usinas que iniciaram a moagem em março, indicam uma produtividade 13% inferior à observada no mesmo mês do ano passado.

Apesar da quebra parecer menos drástica à primeira vista, o mercado segue atento ao desempenho dos meses de abril e maio, considerados cruciais para traçar o tom da safra. Abril tem registrado volumes de chuva considerados adequados até o momento, o que pode colaborar para uma melhor formação do canavial e recuperação do ATR. No entanto, há preocupação com as previsões climáticas que apontam temperaturas de 2ºC a 3ºC acima da média para os meses de maio e junho — cenário que, caso se confirme, tende a prejudicar a qualidade da cana.

Do ponto de vista de mercado, os preços do açúcar em Nova York seguem pressionados, testando novamente a região de suporte dos 17.50 centavos de dólar por libra-peso — nível esse que tem funcionado como base desde outubro de 2022. O ambiente macroeconômico global, especialmente a instabilidade gerada por movimentos políticos nos EUA, tem ofuscado os fundamentos do mercado, que apontam para um cenário mais restritivo no balanço global.

Espera-se que a virada aconteça a partir da segunda quinzena de maio, com a divulgação dos próximos números oficiais da safra do Centro-Sul e maior clareza sobre o real potencial do canavial. Esse momento pode ser o catalisador de uma mudança de direção nos preços internacionais do açúcar, coincidindo com o Sugar Dinner em NY, que promete ser mais conturbado esse ano.

Tecnicamente, nosso colaborador Marcelo Moreira, aponta que contrato com vencimento em maio/25, após testar por duas vezes o importante suporte representado pela média móvel inferior da Banda de Bollinger de 50 dias, localizada em 17.45 centavos de dólar por libra-peso, encerrou a sessão cotado a 17.93 centavos de dólar por libra-peso. As próximas resistências técnicas estão posicionadas em 18.02, 18.66, 18.85, 19.07 e 19.50 centavos de dólar por libra-peso. Já os suportes permanecem em 17.45 e 16.61 centavos de dólar por libra-peso.

O contrato com vencimento em julho/25 fechou o pregão a 17.81 centavos de dólar por libra-peso. Os suportes mais próximos situam-se em 17.36, 17.00 e 16.50 centavos de dólar por libra-peso. As resistências, por sua vez, estão em 17.86, 18.29, 18.56 e 19.00 centavos de dólar por libra-peso. O indicador estocástico encerrou a semana na faixa dos 24%, sugerindo possível movimento de alta nos próximos pregões, diante de condições técnicas de sobrevendido. O spread entre os contratos outubro/25 e março/26 terminou a semana em +37 pontos, ainda distante da nossa meta de 80 pontos.

Recebi gentilmente do Professor Marcos Jank (Insper Agro Global) um trabalho sobre o “Impacto da Guerra Comercial EUA-China sobre o Agro Brasileiro”. Em um breve resumo de um robusto relatório de 19 páginas, o estudo aponta que a volta de Donald Trump à presidência dos EUA marca uma guinada protecionista, com forte impacto na ordem internacional e no comércio global. A imposição de tarifas generalizadas — com destaque para China, México, Canadá e União Europeia — e o abandono de princípios multilaterais sinalizam uma ruptura com o modelo de globalização vigente desde Bretton Woods.

Nesse cenário, o agronegócio brasileiro, fortemente integrado ao comércio internacional, enfrenta riscos e oportunidades. A guerra comercial entre EUA e China, por exemplo, abriu espaço para o Brasil se consolidar como principal fornecedor de soja e carnes à China. Em 2024, as exportações brasileiras para o país asiático superaram em US$ 20 bilhões as dos EUA. No entanto, a elevada dependência do Brasil em relação à China acende alertas sobre segurança alimentar e possíveis barreiras futuras por parte do governo chinês.

Outros mercados, como a União Europeia, também podem se tornar mais acessíveis ao Brasil diante das retaliações às tarifas americanas. No entanto, novas barreiras — tarifárias ou não, como a regulação antidesmatamento — representam riscos crescentes. Para produtos como etanol, suco de laranja e café, os EUA continuam sendo um mercado relevante, embora protecionista.

Diante disso, o estudo recomenda uma política comercial brasileira baseada na prudência diplomática, diversificação de mercados e produtos, defesa comercial estratégica e reforço da imagem do Brasil como fornecedor confiável. A habilidade do país em se posicionar de forma autônoma e pragmática será decisiva para transformar incertezas geopolíticas em vantagens competitivas.

*Arnaldo Luiz Corrêa é analista de Mercado e diretor da Archer Consulting

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