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Opinião: Do trator ao tanque: por que as dívidas bilionárias do agro ameaçam o fluxo de diesel nas rodovias grandes postos VIBRA/SHELL/IPIRANGA

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O agro brasileiro segue forte. No primeiro trimestre de 2025, o PIB do setor cresceu 6,49%, com projeção de chegar a R$ 3,79 trilhões no ano. É o motor que há décadas puxa o Brasil morro acima, mesmo quando outros setores patinam.
Mas até o motor mais potente falha se faltar manutenção. E o barulho que vem do campo preocupa: as dez maiores empresas do agro em recuperação judicial devem mais de R$ 15 bilhões.

Só para ilustrar:
• AgroGalaxy — R$ 4,67 bi de passivo.
• Grupo Patense — R$ 2,15 bi.
• Montesanto Tavares — R$ 2,13 bi.

E o problema não se limita aos grandes: os pedidos de recuperação entre produtores rurais subiram 61% em um ano. Não é um soluço de safra ruim; é um aperto estrutural — um trem de carga descarrilando em câmera lenta.

O elo que liga o campo à bomba de diesel

Aqui começa a conversa com o downstream. Toda engrenagem do agro — da semeadora ao porto — depende de diesel.
• 73% da energia consumida na agropecuária brasileira ainda vem de combustíveis fósseis, principalmente diesel.
• Tratores e colheitadeiras consomem entre 10 e 20 litros por hectare.
• No milho safrinha, segundo a Embrapa, o consumo chega a 36,7 litros por hectare — cerca de R$ 141 por hectare só de combustível.
• O custo logístico do agro foi estimado pela ESALQ/USP em R$ 120 bilhões, sendo R$ 105 bi apenas com transporte.

Se o campo trava, o caminhão roda menos, o posto vende menos e o fluxo nas rodovias desacelera.
O diesel é o sangue que corre nas veias do Brasil produtivo. Quando a plantadeira para, a bomba sente — e as cidades de beira de estrada percebem primeiro.

O reflexo no downstream
• Menos safra significa menos máquinas e caminhões nas estradas.
• Empresas agrícolas em crise interrompem a cadeia de insumos, colheita e transporte.
• Os postos de rodovia, que vivem do fluxo de caminhoneiros, perdem volume e movimento.
• E nas cidades agrícolas, o comércio, os restaurantes e os empregos seguem a mesma toada: retração.

O que nasce no campo ecoa direto na bomba.
Campo → Diesel → Estrada → Posto → Cidade.
Essa é a cadeia invisível que move o interior — e o país.

Dois conselhos de quem já viu muita poeira de estrada:
1- Monitore o agro. Um boletim de safra ou uma RJ rural pode antecipar queda no volume de diesel vendido a ser vendido.
2 Entenda a engrenagem. Downstream e agro são primos: se um espirra, o outro pega febre.

Mineiro que sou, aprendi que quando o chão racha, não adianta reclamar da rachadura — é hora de reforçar o alicerce.
O Brasil precisa olhar para seu agro com mais responsabilidade e menos oba-oba. Diesel, lavoura e estrada são irmãos siameses: se um adoece, o outro manca.

Enquanto o trator silencia, o caminhoneiro espera e o frentista coça a cabeça, vale lembrar: cada litro que não roda no campo, falta na bomba, falta na cidade, falta na mesa.

 

*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.

As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade de seus respectivos autores e não correspondem, obrigatoriamente, ao ponto de vista da RPAnews. A plataforma valoriza a pluralidade de ideias e o diálogo construtivo.
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