Estudo conduzido na usina São Luiz avalia a eficácia de protocolo biológico e hormonal no manejo de nematoides, integrando pesquisa aplicada, cocriação e ferramentas digitais
A adoção de modelos colaborativos de inovação no agronegócio brasileiro tem mostrado resultados concretos no manejo de nematoides na cana-de-açúcar.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Avançado de Pesquisa Smart B100 (CCD-SB100), em parceria com o Laboratório de Monitoramento e Proteção de Plantas (LMPP), a usina São Luiz e a Stoller do Brasil, analisou o potencial dos chamados “living labs” agrícolas como instrumentos de cocriação, pesquisa aplicada e geração de conhecimento em condições reais de campo.
Os nematoides fitoparasitas representam um dos principais desafios fitossanitários da agricultura tropical. Estimativas globais citadas pelos pesquisadores indicam perdas entre 12% e 14,6% da produção agrícola, com prejuízos que superam US$ 173 bilhões ao ano. No Brasil, as perdas chegam a cerca de R$ 35 bilhões, especialmente em culturas de hortaliças e frutas.
Na cana-de-açúcar, ainda conforme os estudiosos, espécies como Pratylenchus zeae, Helicotylenchus, Criconemella e Xiphinema comprometem o sistema radicular, reduzem o vigor das plantas e afetam a produtividade dos canaviais.
Mas, ao mesmo tempo em que representam uma ameaça econômica, os nematoides também podem atuar como bioindicadores da qualidade do solo, por serem sensíveis a variações ambientais e a práticas de manejo. Segundo os pesquisadores, esse paradoxo reforça a necessidade de estratégias integradas, que conciliem controle fitossanitário, sustentabilidade e eficiência produtiva.
Nesse contexto, o estudo avaliou a aplicação do modelo de “living lab” agrícola em uma área produtiva de 10,57 hectares da usina São Luiz, localizada no município de Ourinhos (SP). Entre março de 2024 e maio de 2025, foi conduzido um experimento colaborativo envolvendo pesquisadores, técnicos da usina e especialistas da Stoller do Brasil, com o objetivo de testar a eficácia de um protocolo no controle de nematoides em cana-de-açúcar.
O protocolo avaliado combina hormônios vegetais, ácidos húmicos e um nematicida biológico. O delineamento experimental foi realizado em faixas, com três tratamentos: área controle, tratamento com o protocolo da Stoller e o manejo padrão adotado pela usina. As coletas de solo e raízes ocorreram antes da aplicação dos produtos e novamente aos 60 e 140 dias, seguindo metodologias clássicas de extração e contagem de nematoides.
Além das análises nematológicas e da biometria manual das plantas, o experimento incorporou ferramentas digitais, como imagens de satélite, além de voos com drone multispectral. Esses recursos permitiram o cálculo de índices de vegetação, possibilitando o monitoramento georreferenciado do vigor e da cobertura vegetal ao longo do ciclo da cultura.
De acordo com os pesquisadores, os resultados indicaram uma redução significativa da população total de fitonematoides nos tratamentos que receberam o protocolo. Sessenta dias após a aplicação, a redução foi de 47,1%, com manutenção de 15,8% de controle residual aos 140 dias. Para a espécie Pratylenchus zeae, principal nematoide identificado na área, a redução chegou a 40,4% no tratamento com o protocolo avaliado.
Eles ainda relatam que as avaliações biométricas realizadas aos 60 dias também apontaram maior altura das plantas e maior perfilhamento nas áreas tratadas com o protocolo, resultados que foram confirmados pelas análises digitais. As imagens de satélite e drone mostraram índices de vegetação mais elevados nessas áreas, com cobertura vegetal média de 52%, superior ao tratamento padrão da usina e à área controle.
No momento da colheita, realizada em maio de 2025, o tratamento com o protocolo apresentou produtividade média de 148,1 toneladas de cana por hectare, superando tanto a área controle quanto o manejo convencional da usina. A equipe também observou melhores resultados de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) e de toneladas de açúcar por hectare, com maior uniformidade produtiva entre as faixas tratadas.
Segundo os autores do estudo, o caso da usina São Luiz demonstra como o modelo de “living lab” pode ampliar as fronteiras da pesquisa agrícola ao integrar ciência, tecnologia e prática produtiva em um mesmo ecossistema de inovação. Para eles, a interação contínua entre pesquisadores, técnicos e produtores permitiu ajustes metodológicos em tempo real e a construção coletiva das interpretações dos resultados.
O estudo também destaca o papel das tecnologias digitais como ferramentas estratégicas para o monitoramento agronômico, ao permitir a correlação entre dados climáticos, índices de vegetação e desempenho da cultura. Neste caso, os pesquisadores afirmam que a integração entre sensoriamento remoto, coletas manuais e análises estatísticas resultou em um modelo híbrido de pesquisa, que combina rigor científico e aplicabilidade imediata no campo.
Assim, além da validação técnica do protocolo, eles acreditam que a experiência reforça o valor da inovação colaborativa no agronegócio brasileiro. Ao transformar o produtor em agente ativo do processo de experimentação, o modelo de “living lab” pode contribuir para a adaptação das estratégias de manejo às condições edafoclimáticas locais, acelera a adoção de práticas mais sustentáveis e fortalece a integração entre pesquisa, extensão rural e setor produtivo.
Os resultados obtidos, de acordo com os envolvidos, indicam que os “living labs” agrícolas podem se consolidar como instrumentos estratégicos da agricultura 4.0, ao unirem sustentabilidade, competitividade e geração de conhecimento contextualizado. No caso específico do manejo de nematoides na cana-de-açúcar, o modelo demonstrou potencial para apoiar decisões de gestão com base em dados produzidos em condições reais de produção.
Informações de CCD-SB100