Presidente do Sifaeg avalia que ciclo 2026/27 ainda carrega impactos da seca, aponta maior foco no etanol — inclusive de milho — e destaca novos investimentos em biocombustíveis e transição energética em Goiás
Mesmo com a retomada das chuvas em janeiro e sinais iniciais de recuperação dos canaviais, a safra de cana-de-açúcar em Goiás segue marcada por desafios produtivos e de mercado. A avaliação é de André Rocha, presidente executivo do Sifaeg (Sindicato das Indústrias de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás) e presidente da FIEG (Federação das Indústrias de Goiás), que ressalta os efeitos da seca registrada em 2025 e afirma que uma avaliação mais precisa do tamanho da safra dependerá do comportamento climático nos meses de fevereiro e março.
Segundo Rocha, o canavial sofreu impactos relevantes ao longo do último ano, especialmente em função da estiagem prolongada e da ausência de volumes significativos de chuva nos meses de novembro e dezembro. Embora o Centro-Sul tenha sido menos afetado do que outras regiões, ele destaca que Goiás também sentiu os efeitos do clima adverso. “A safra foi bastante impactada, mas agora estamos tendo uma boa recuperação com as chuvas de janeiro e um clima quente que favorece a cana”, afirmou à RPAnews.
Rocha explica que, apesar da expectativa de uma safra maior no Centro-Sul em relação ao ciclo que se encerra, ainda é cedo para cravar números. Algumas unidades devem encerrar a moagem de cana nos primeiros meses do ano, enquanto a produção de etanol de milho segue forte no Centro-Oeste, incluindo Goiás. “Vamos observar o comportamento de fevereiro e março para termos uma avaliação mais clara do tamanho da safra”, acrescentou.
Pressão de preços reforça vocação alcooleira do estado
Do ponto de vista econômico, Rocha observa que a queda nos preços do açúcar, especialmente nos últimos meses, tem sido influenciada pelo aumento da produção e dos estoques globais. Esse cenário tende a reforçar a vocação histórica de Goiás para a produção de etanol. De acordo com ele, cerca de 70% da cana processada no estado é destinada ao etanol, percentual que se mantém mesmo em períodos de maior atratividade do açúcar, em função da estrutura industrial instalada.
“Em Goiás, nós já temos uma vocação muito grande para a produção de etanol. Muitas destilarias não têm capacidade de produzir açúcar, o que faz com que o mix seja estruturalmente mais alcooleiro”, explicou. Segundo Rocha, o estado opera atualmente com algo em torno de 75 milhões a 77 milhões de toneladas de cana, além de registrar crescimento contínuo da produção de etanol a partir do milho.
Etanol de milho ganha espaço na matriz produtiva
O avanço do etanol de milho tem alterado o perfil industrial de Goiás e deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Segundo Rocha, o estado já conta com unidades flex e projetos dedicados ao biocombustível, com expectativa de expansão acelerada. “O milho tem sido cada vez mais relevante em Goiás e, com os investimentos anunciados, o estado tende inclusive a alcançar a segunda posição nacional, superando Mato Grosso do Sul”, afirmou.

Ele ressalta que o bom desempenho recente das culturas de soja e milho também tem levado à reoferta de áreas agrícolas anteriormente arrendadas para grãos, criando novas possibilidades de expansão. Ainda assim, o principal desafio do ciclo atual, segundo ele, está relacionado ao mercado. “Precisamos produzir mais etanol, cerca de três bilhões de litros a mais do que no ano passado, mas isso exige crescimento do consumo e preços que consigam remunerar o produtor”, avaliou.
Atualmente, Goiás conta com cerca de 38 unidades produtoras de açúcar e etanol, incluindo pequenas plantas e unidades de milho. Rocha explica que esse número tem se mantido relativamente estável, com cerca de 35 usinas operando de forma recorrente nos últimos anos, enquanto outras podem interromper atividades pontualmente em função das condições de mercado.
Para a safra 2026/27, a expectativa é de entrada de uma nova unidade de etanol de milho da Inpasa em Rio Verde, com início de operação previsto para o final do ano. “Devemos ter, ao final de 2026, a entrada de mais uma unidade relevante, o que reforça o crescimento da produção de etanol no estado”, afirmou.
Embora considere cedo para falar em números consolidados, Rocha avalia que a produção deve registrar crescimento, sobretudo no etanol. Ele cita a ampliação do período de moagem de algumas unidades, o início de processamento de milho em plantas que antes operavam apenas de forma parcial e a entrada gradual de novos projetos.
“O mix em Goiás tende a ser ainda mais dedicado ao etanol, em função da logística, dos preços e da liquidez do açúcar. Acredito que essa tendência também se repita no Centro-Sul como um todo”, disse. Segundo ele, a confirmação de uma safra maior dependerá da consolidação das condições climáticas após as chuvas recentes.
Investimentos avançam também em biogás e biometano
Rocha afirma que os financiamentos e investimentos anunciados nos últimos anos têm impulsionado especialmente o segmento de etanol de milho. Entre os exemplos citados estão a nova planta da Inpasa em Rio Verde, os investimentos do Grupo São Martinho em Quirinópolis e Serranópolis e as expansões do Grupo CerradinhoBio, que ampliam de forma relevante a capacidade de processamento de milho.
Além disso, ele aponta investimentos em biogás e biometano, com expectativa de novos anúncios nos próximos meses. “Alguns projetos já estão em andamento e outros devem ser anunciados em breve”, afirmou.
Goiás ocupa hoje uma posição estratégica na transição energética brasileira. Além da produção de etanol de cana e de milho, o Estado já registra produção significativa de biogás e biometano e conta com políticas públicas voltadas à descarbonização, como a encomenda estadual de ônibus movidos a biometano.
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Dados do governo do Estado de Goiás, estimam que até março deeste ano, a oferta mensal projetada pelos projetos em desenvolvimento é de 2 milhões de m3 de biometano por mês. No futuro, estima-se que esse número pode chegar a 2,2 bilhões de m³ anuais de biometano.
Rocha destaca a relevância de Goiás na geração de energia renovável, com forte presença de energia solar, pequenas centrais hidrelétricas e usinas hidrelétricas, além do avanço da mineração de minerais críticos, incluindo terras raras. “Goiás é um grande gerador de energia limpa e renovável e também um grande consumidor de etanol”, afirmou, lembrando que o estado é o terceiro maior consumidor de etanol do país, com participação superior a 40% do combustível na matriz local.
Mão de obra, logística e reforma tributária seguem como desafios
Entre os principais desafios para a competitividade das usinas goianas, Rocha aponta a escassez de mão de obra, os custos logísticos elevados no Centro-Oeste e a necessidade contínua de ganhos de produtividade. Ele ressalta o papel do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural ) na capacitação profissional, mas avalia que o tema seguirá sensível nos próximos anos.
Outro ponto de atenção destacado por ele é a reforma tributária, que tende a trazer impactos mais severos para estados produtores, com menor população e consumo local. “É um desafio adicional para regiões como o Centro-Oeste, que precisam manter competitividade mesmo diante dessas mudanças”, concluiu.
Natália Cherubin para a RPAnews