Oferta no Centro-Sul deve somar 36,9 milhões de m³; expansão do milho e melhora climática sustentam crescimento
A produção de etanol no Centro-Sul pode atingir 36,9 milhões de metros cúbicos na safra 2026/27 e, se confirmada, representará o maior volume desde o início da série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), iniciada na safra 2005/06, segundo levantamento da Argus. A estimativa supera os 33,6 milhões de m³ projetados para a temporada atual.
Segundo Maria Lígia Barros, responsável pela precificação de etanol da Argus, a projeção recorde está sustentada por três vetores principais. “A projeção de produção recorde de etanol na safra 2026-27 é fundamentada por um cenário climático mais favorável, pela expansão do etanol de milho e pela expectativa de menor mix de açúcar”, afirma.
De acordo com a especialista, os fatores climáticos e a menor preferência pelo açúcar devem resultar em incremento de 1,69 milhão de m³ na produção de etanol à base de cana-de-açúcar, avanço de 7% ante o ciclo atual, para 25,75 milhões de m³. “A expectativa é de recuperação na qualidade e na produtividade dos canaviais, após um 2024 e 2025 impactados pela seca e pela incidência de chuvas e geadas em momentos inoportunos. Em comparação, janeiro e fevereiro têm registrado chuvas favoráveis para 2026-27”, destaca.
Já o etanol de milho deve responder por 11,1 milhões de m³ no Centro-Sul, alta de 16% na comparação anual. Segundo Maria Lígia, o volume reflete a mediana das projeções dos principais agentes de mercado consultados pela Argus. “O número reflete a mediana das projeções dos principais participantes de mercado, incluindo empresas do setor, instituições financeiras e agências governamentais, que desenvolvem seus próprios modelos estatísticos”, explica.
Mix mais alcooleiro no início da safra
Embora a expectativa para o ciclo 2026/27 indique um mix de 50,95% para etanol e 49,05% para açúcar, a Argus avalia que o perfil mais alcooleiro deve se concentrar no primeiro semestre da safra.
“Entre maio e junho, deve ocorrer uma virada na preferência para o açúcar, à medida que o aumento da oferta de etanol derruba os preços do biocombustível e o adoçante se torna comparativamente mais rentável”, afirma Maria Lígia.
A curva futura negociada na B3 indica queda contínua nos preços do etanol hidratado em Paulínia (SP) entre fevereiro e junho, com estabilização próxima a R$ 2.946 por metro cúbico, com impostos, até agosto.
O movimento ocorre após o indicador de preços da Argus registrar máximas em quatro anos em janeiro, impulsionadas por estoques reduzidos. O indicador para o etanol hidratado comercializado em base PVU no estado de São Paulo atingiu R$ 3.805/m³ equivalente Ribeirão Preto em 23 de janeiro, maior nível desde 2022. O preço CIF Paulínia chegou a R$ 3.870/m³ em 27 de janeiro, também máxima desde o início da série histórica em 2022.
Expansão do milho e perspectiva estrutural
Para a consultoria, o crescimento do etanol de milho é visto como tendência estrutural de longo prazo. “O setor enxerga o crescimento do etanol de milho como uma mudança estrutural de longo prazo”, afirma a especialista.
Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a produção de etanol de milho pode alcançar 16,3 milhões de m³ em 2035, principal fator de expansão do volume total de etanol no país, estimado em 50 milhões de m³ nesse horizonte.
Ainda assim, a absorção do aumento de oferta dependerá da evolução da demanda doméstica e da abertura de novos mercados. “O setor encara o desafio de fomentar o consumo e encontrar novas fontes de demanda para escoar a produção crescente”, observa Maria Lígia.
Mesmo considerando o desenvolvimento de rotas ainda incipientes, como combustível sustentável de aviação (SAF) e combustível marítimo, o excedente estrutural pode aumentar para 1,82 milhão de m³ em 2035, ante 1,2 milhão de m³ em 2025, segundo dados da EPE.
Ainda de acordo com a Argus, que riscos climáticos e de mercado podem levar à revisão das projeções. “Há riscos que podem levar à revisão das projeções. O bom desenvolvimento dos canaviais depende de chuvas favoráveis nesta entressafra, e eventos imprevisíveis, como geadas ou incêndios, podem impactar a produção”, conclui a analista da Argus.
Natália Cherubin para RPAnews