Análise em campo identifica gargalos estruturais, impactos climáticos e oportunidades de ganho operacional, com projeções de aumento de produtividade e expansão da moagem nos próximos anos.
Duas usinas sucroalcooleiras localizadas em Mafambisse e Xinavane, em Moçambique, operam sob condições produtivas desafiadoras, marcadas por limitações estruturais no campo e eventos climáticos extremos que vêm pressionando a produtividade agrícola e a oferta de matéria-prima.
Dados operacionais das próprias usinas indicam realidades distintas entre as regiões. Em Mafambisse, restrições relacionadas à drenagem e à presença de solos rasos limitam o desenvolvimento dos canaviais e impõem desafios à evolução da produtividade. Já em Xinavane, enchentes registradas em fevereiro comprometeram áreas de produção agrícolas, reduzindo significativamente o volume disponível para moagem.
Na unidade de Xinavane, os impactos climáticos levaram a safra ao menor nível produtivo das últimas duas décadas, com rendimento médio em torno de 51 t/ha. A redução da oferta de cana também deve encurtar a duração da safra, estimada em 1.000.000 t, mesmo com capacidade industrial instalada de 380 toneladas por hora .
Base produtiva estruturada convive com gargalos operacionais
Apesar das limitações, as operações contam com uma base agrícola estruturada, com uso de diferentes sistemas de irrigação — como pivô central, sulco e aspersão — e infraestrutura relevante instalada, incluindo mais de 130 bombas e dezenas de pivôs.
Ainda assim, o sistema produtivo enfrenta entraves importantes, como o envelhecimento da infraestrutura, dificuldades na captação de água em função do assoreamento de rios, furtos recorrentes de equipamentos no campo e limitações na qualificação da mão de obra. A exposição a eventos climáticos, como enchentes, também aparece como fator crítico para a estabilidade da produção.
No manejo agrícola, as unidades adotam práticas técnicas modernas, como a utilização de variedades adequadas, consumo de 12 toneladas de muda por hectare e manejo nutricional ajustado ao potencial produtivo das áreas, com aplicação de até 160 kg de nitrogênio por hectare em talhões de maior rendimento. Há ainda monitoramento contínuo de pragas e doenças, como pulgões, trips, eldana e RSD.
A colheita permanece predominantemente manual, com meta operacional de até 48 horas entre o corte e a moagem e produtividade média de cerca de 6,5 toneladas por trabalhador por dia, evidenciando um modelo intensivo em mão de obra.
Roadmap busca estruturar recuperação da produtividade
Diante de um cenário desafiador, marcado por limitações agronômicas e impactos climáticos relevantes, a RPA Consultoria foi contratada para estruturar um roadmap operacional com foco na recuperação da produtividade, a partir de uma análise integrada de toda a cadeia agrícola.
A iniciativa parte do princípio de que ganhos sustentáveis de produção exigem mais do que intervenções pontuais — demandam organização sistêmica, disciplina operacional e excelência na execução.
Segundo Thiago Barros dos Santos, sócio da consultoria, o trabalho foi desenvolvido com base em informações previamente recebidas e uma análise aprofundada das condições reais de campo, confrontadas com as melhores práticas desenvolvidas pelo RPA Consultoria.
“Estamos diante de operações com base produtiva relevante, mas que enfrentam limitações distintas — desde questões estruturais, como drenagem no período de verão, irrigação durante a estiagem, como defasagem estrutural no nível de mecanização, impactando diretamente a eficiência operacional, até impactos climáticos severos. O avanço passa por organização do sistema, investimentos, qualificação da mão-de-obra, eficiência agronômica e consistência na execução”, afirma.
Esse roadmap evidencia um ponto-chave: o problema não está apenas no potencial produtivo, mas na capacidade de capturá-lo de forma consistente e eficiente ao longo dos ciclos.
As análises indicam um cenário positivo de recuperação ao longo dos próximos anos. As principais projeções incluem um crescimento de até 66% no volume de moagem até 2031, ganhos de produtividade superiores a 20 toneladas por hectare, expansão de área e replantio estratégico de talhões comprometidos
Esses resultados reforçam que, com direcionamento técnico adequado e disciplina operacional, é possível reverter quadros de baixa produtividade e capturar valor significativo no médio prazo.


