Desvalorização da moeda americana impulsiona contratos futuros, enquanto fundamentos globais seguem pressionados por oferta elevada
Os preços do açúcar registraram recuperação no mercado internacional impulsionados pela queda do dólar, movimento que estimulou a recomposição de posições vendidas (short covering) nos contratos futuros da commodity. O contrato do açúcar bruto com vencimento em maio fechou terça-feira, 14, em alta de 1,46%, a 14,09 centavos de dólar por libra-peso, enquanto o açúcar branco negociado na ICE de Londres, também para maio, encerrou com ganho de 3,16%, a US$ 419,70.
De acordo com análise da Barchart, a desvalorização do índice do dólar reduziu a pressão sobre as commodities e favoreceu a alta do açúcar, uma vez que a moeda mais fraca tende a tornar os produtos cotados em dólar mais atrativos para compradores globais.
O movimento ocorre após um período recente de forte volatilidade, marcado por liquidação de posições e pressão negativa decorrente da valorização do dólar e do aumento da oferta global.
Além do câmbio, fatores como a valorização do petróleo também contribuíram para sustentar as cotações. O avanço do óleo bruto tende a fortalecer os preços do etanol, o que pode incentivar usinas a direcionarem maior parcela da cana para biocombustíveis, reduzindo a oferta de açúcar no mercado.
Apesar da recuperação pontual, o cenário estrutural segue pressionado pelo aumento da produção global. No Brasil, maior produtor mundial, dados da UNICA indicam crescimento na produção do Centro-Sul, com maior destinação de cana para açúcar em relação ao ciclo anterior.
No cenário internacional, a perspectiva de excedente continua sendo um dos principais vetores baixistas. Projeções de consultorias e organismos internacionais apontam para superávits consecutivos no balanço global, impulsionados pelo aumento da produção em países como Índia, Tailândia e Paquistão.
Mercado opera em ambiente de alta incerteza e pressão estrutural
Na avaliação do analista e diretor da Archer Consulting, Arnaldo Luiz Corrêa, o mercado de açúcar tem operado em um ambiente marcado por elevada incerteza macroeconômica e geopolítica, o que dificulta a previsibilidade e o planejamento das usinas. “Existe uma palavra que descreve bem o mundo em que o mercado de açúcar opera hoje: distopia”, afirma.
Segundo ele, mesmo os movimentos de recuperação mais expressivos têm encontrado dificuldade para se sustentar diante da dinâmica de mercado e da atuação dos agentes. “Era o tipo de recuperação que os mais otimistas vinham esperando há meses. Durou menos do que uma pausa para o café.”
O analista também chama atenção para o papel das usinas na limitação das altas, com volumes ainda relevantes de fixação entrando no mercado em momentos de valorização. “As usinas retardatárias, sem alternativa, jogaram a toalha nos momentos de alta e coibiram exatamente o movimento que o mercado precisava para respirar”, destaca.
Assim, embora o recuo do dólar tenha oferecido suporte momentâneo às cotações, o mercado segue sensível aos fundamentos de oferta elevada e à dinâmica de comercialização, o que limita movimentos mais consistentes de alta no curto prazo. Como resume Corrêa, o desafio atual vai além do preço: “Construir um orçamento para uma usina de açúcar tornou-se um exercício de coragem — ou de resignação.”

