Os preços dos Créditos de Descarbonização (CBIOs) atingiram em 2026 os menores níveis desde 2020, consolidando uma mudança estrutural no funcionamento do mercado do RenovaBio. A avaliação é do especialista em inteligência de mercado e biocombustíveis, Yan Ulrich, em análise sobre a evolução mensal dos preços e estoques de CBIOs.
Segundo o especialista, o mercado deixou para trás o ambiente de relativa escassez observado em 2024 e passou a operar sob uma lógica de excesso estrutural de oferta, cenário evidenciado pelo crescimento consistente dos estoques em relação às metas anuais do programa.
A análise mostra que, ao longo de 2024, o mercado operava em um ambiente de maior pressão compradora. Naquele momento, distribuidoras eram obrigadas a adquirir CBIOs em um contexto de demanda considerada alta e inelástica, sustentando preços mais elevados.
Em 2025, porém, o cenário começou a mudar com a obtenção de liminares judiciais por parte de distribuidoras, permitindo a substituição da compra dos créditos por depósitos judiciais. Segundo a análise, esse movimento reduziu a demanda efetiva por CBIOs e iniciou uma trajetória de queda dos preços.
Ainda naquele período, o mercado passou a incorporar gradualmente a percepção de que as liminares poderiam ser revertidas futuramente, promovendo uma repricificação antecipada do risco regulatório.

Suspensão das liminares não sustentou reação dos preços
A análise destaca que as recentes decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) representaram um marco importante para o restabelecimento da segurança jurídica do RenovaBio.
Em novembro de 2025, o STF confirmou a validade do programa. Posteriormente, em fevereiro de 2026, o STJ suspendeu liminares contrárias ao RenovaBio.
Em condições normais, segundo Yan Ulrich, a reversão dessas liminares tenderia a elevar a demanda pelos créditos e sustentar uma recuperação dos preços. No entanto, esse efeito não se materializou. Os preços dos CBIOs continuaram em trajetória de queda ao longo de 2026, passando de aproximadamente R$ 35 por crédito em novembro de 2025 para cerca de R$ 32 em fevereiro de 2026 e atingindo níveis próximos de R$ 29 por CBIO em abril deste ano.
Segundo a análise, o comportamento do mercado demonstra que as decisões judiciais já estavam amplamente internalizadas pelos agentes econômicos.
Mercado passa a responder aos fundamentos
Yan Ulrich afirma que o mercado de CBIOs deixou de reagir de forma imediata a choques regulatórios e passou a ser predominantemente guiado pelos fundamentos de oferta e demanda, especialmente pelos níveis de estoque acumulados.
A análise aponta que o mercado entrou em 2026 com volume significativo de CBIOs estocados, reduzindo a urgência de compra por parte das distribuidoras.
Atualmente, cerca de 30% da meta anual já está acumulada em estoques, fator que contribui diretamente para a perda de sustentação dos preços. Outro ponto destacado é que as distribuidoras passaram a adotar estratégias mais flexíveis de aquisição, mesmo após a retomada do enforcement do programa.

Segundo o especialista, esse comportamento indica uma mudança estrutural importante no funcionamento do mercado. “Uma brecha jurídica pode afetar profundamente todo o mercado. No entanto, seu fechamento não restabelece automaticamente as condições anteriores. A partir desse ponto, os preços passam a ser determinados pelos fundamentos de mercado, especialmente oferta e níveis de estoque, e não mais apenas por decisões judiciais”, destaca a análise.
Na avaliação de Yan Ulrich, o mercado de CBIOs entrou em uma nova fase, na qual os níveis de estoques acumulados e a dinâmica de emissão dos certificados passaram a exercer papel predominante sobre a formação dos preços, reduzindo a sensibilidade imediata do mercado a choques regulatórios.
Natália Cherubin para RPAnews


