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Estudo aponta que onça-parda mantém papel ecológico em paisagens dominadas pela cana-de-açúcar

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Pesquisa revela que a espécie permanece residente em áreas agrícolas, utiliza fragmentos florestais como habitats preferenciais e influencia a distribuição de mesopredadores em paisagem com predominância de canaviais

Mesmo em uma paisagem onde cerca de 76% da área é ocupada por canaviais, a onça-parda (Puma concolor) mantém sua presença e continua exercendo um importante papel ecológico, desde que haja fragmentos de vegetação nativa capazes de garantir abrigo, alimento e conectividade entre os habitats.

A constatação é de um estudo publicado na Revista do Instituto Florestal e desenvolvido pelas pesquisadoras Camila Menezes Siqueira e Eleonore Zulnara Freire Setz, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa investigou como a espécie utiliza uma paisagem agrícola dominada pela cultura da cana-de-açúcar em Iracemápolis (SP), município onde aproximadamente 76% do território é formado por canaviais e remanescentes florestais.

Considerada um dos principais predadores de topo da fauna brasileira, a onça-parda exerce importante influência sobre a estrutura das comunidades de vertebrados. Além do controle de populações de presas, sua presença interfere na distribuição de outros carnívoros, contribuindo para o equilíbrio ecológico. Segundo as autoras, compreender como a espécie utiliza paisagens agrícolas é fundamental para conciliar a conservação da biodiversidade com a expansão das atividades agropecuárias.

Monitoramento em paisagem canavieira

O estudo foi desenvolvido entre julho de 2023 e julho de 2025, durante 38 campanhas de campo realizadas em dois roteiros de monitoramento instalados em Iracemápolis. As áreas escolhidas apresentavam características distintas: uma delas localizada na borda de um canavial associado a uma área de brejo, sujeita à intensa movimentação de máquinas agrícolas durante a safra, e outra composta por bordas de canaviais, mata de galeria e uma represa, formando uma paisagem mais heterogênea.

A pesquisa empregou armadilhas fotográficas com sensores infravermelhos, monitoramento de pegadas, coleta de fezes, análise tricológica para identificação dos pelos encontrados nas amostras e acompanhamento da altura dos canaviais ao longo da safra e da entressafra. A combinação dessas metodologias permitiu avaliar a presença da espécie, seu comportamento, alimentação e utilização dos diferentes ambientes da paisagem.

Ao longo das 38 campanhas de campo, a pesquisa gerou mais de 48 mil fotografias e centenas de vídeos, permitindo o registro de 23 espécies de vertebrados, entre mamíferos, aves e répteis. A onça-parda foi registrada 59 vezes, incluindo imagens de uma fêmea acompanhada por dois filhotes e de dois jovens adultos deslocando-se juntos, evidências que indicam não apenas o uso da área para deslocamento, mas também sua utilização para reprodução e permanência na região.

Alimentação reflete disponibilidade de presas

A análise das amostras fecais revelou uma dieta predominantemente composta por pequenos roedores, responsáveis por 54% dos itens alimentares identificados. Também foram registrados lagartos (16%), aves (14%), além de capivaras e tatus, ambos representando 8% da dieta.

Segundo as autoras, esse padrão alimentar demonstra a elevada plasticidade ecológica da onça-parda. Como predador generalista, a espécie adapta sua alimentação à disponibilidade de presas presentes na paisagem. Em áreas agrícolas cultivadas com gramíneas C4, como a cana-de-açúcar, a elevada abundância de pequenos roedores torna esses animais uma importante fonte de alimento para o felino. A composição da dieta observada acompanha justamente a oferta de presas existente no ambiente estudado, evidenciando a capacidade da espécie de explorar diferentes recursos alimentares sem perder seu papel como predador de topo.

Fragmentos florestais concentram maior ocorrência

Embora a onça-parda utilize áreas agrícolas durante seus deslocamentos e atividades de caça, a pesquisa mostrou que sua ocorrência foi significativamente maior na área que reunia maior diversidade de ambientes naturais.

Dos 59 registros obtidos durante o monitoramento, a maior parte ocorreu no roteiro composto por mata ciliar, represa e bordas de canaviais, enquanto a área submetida à maior intensidade de operações agrícolas apresentou menor frequência de registros.

Os resultados reforçam que os canaviais podem ser utilizados pela espécie como parte de sua área de vida, mas não substituem a importância dos remanescentes florestais. Esses ambientes oferecem abrigo, disponibilidade de recursos e conectividade entre fragmentos, fatores considerados essenciais para a permanência do felino em paisagens agrícolas.

Safra e altura dos canaviais não alteraram a ocorrência da espécie

Um dos objetivos da pesquisa foi verificar se as atividades agrícolas realizadas durante a safra influenciariam a ocorrência da onça-parda.

Os resultados não identificaram diferenças significativas entre os períodos de safra e entressafra. A frequência de registros permaneceu semelhante ao longo do monitoramento, indicando que a espécie continua utilizando a paisagem mesmo durante a intensa movimentação de máquinas agrícolas.

Da mesma forma, a altura dos canaviais também apresentou influência limitada sobre a presença da onça. A pesquisa não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre áreas com cana inferior ou superior a um metro para a ocorrência da espécie, embora alguns mamíferos de médio porte tenham apresentado respostas distintas em função da estrutura da vegetação.

Onça influencia a distribuição de mesopredadores

Outro aspecto investigado foi a relação entre a onça-parda e os chamados mesopredadores, grupo formado por carnívoros de médio porte, como quatis, iraras e gatos-do-mato.

A análise estatística mostrou que esses animais foram registrados com maior frequência no roteiro mais sujeito às perturbações provocadas pelas atividades agrícolas, enquanto a onça-parda concentrou sua ocorrência na área mais heterogênea. Segundo as autoras, esse padrão é compatível com o mecanismo conhecido como predação intraguilda, no qual predadores de menor porte evitam áreas utilizadas por predadores maiores.

Entretanto, as autoras ressaltam que os resultados não demonstram a ocorrência de uma cascata trófica completa, nem permitem afirmar a liberação de mesopredadores em decorrência da ausência da onça. O estudo evidencia, contudo, que o predador de topo continua influenciando a distribuição espacial desses animais, mantendo um importante componente das interações ecológicas que estruturam a comunidade de vertebrados na paisagem agrícola.

Conservação e produção podem coexistir

As autoras concluem que a permanência da onça-parda em paisagens agrícolas depende da manutenção de uma matriz ambiental heterogênea, formada por fragmentos florestais, matas ciliares, áreas úmidas, represas e outros remanescentes de vegetação nativa. Esses ambientes oferecem abrigo, alimento e conectividade entre os habitats, favorecendo tanto a presença do predador quanto a diversidade de outras espécies registradas durante o estudo.

Embora a espécie demonstre elevada capacidade de adaptação e utilize frequentemente áreas cultivadas com cana-de-açúcar para deslocamento e caça, as autoras destacam que esses cultivos não substituem a função ecológica dos remanescentes florestais. A maior frequência de registros da onça ocorreu justamente na área com maior heterogeneidade ambiental, indicando que a conservação desses elementos continua sendo essencial para sua permanência na paisagem.

Outro resultado considerado relevante foi o registro de uma fêmea acompanhada por dois filhotes e de dois jovens adultos caminhando juntos, evidências de que a espécie está se reproduzindo na região e pode ser residente no município. Para as autoras, esse conjunto de resultados demonstra que a produção agrícola e a conservação da biodiversidade podem coexistir, desde que a paisagem preserve os ambientes naturais responsáveis por sustentar a conectividade entre os habitats e as interações ecológicas exercidas por um predador de topo.

Para as autoras, os resultados reforçam a importância da manutenção dos remanescentes de vegetação nativa em paisagens agrícolas, uma vez que esses ambientes oferecem abrigo, alimento e conectividade para a onça-parda e para outras espécies registradas durante o monitoramento. O estudo indica que, embora a espécie utilize áreas cultivadas com cana-de-açúcar, os fragmentos florestais continuam desempenhando papel fundamental para sua permanência na região.

Natália Cherubin para RPAnews

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