Agência aponta perda de diversificação após reestruturação da Raízen e afirma que holding ainda depende de novos desinvestimentos para fortalecer sua estrutura financeira
A S&P Global Ratings rebaixou a nota de crédito da Cosan S.A. de ‘BB-‘ para ‘B+’ e manteve a perspectiva negativa para a companhia. Segundo a agência, a decisão reflete o enfraquecimento do perfil de negócios da holding após a reestruturação da dívida da Raízen, além da expectativa de que os indicadores de cobertura da dívida permaneçam pressionados nos próximos anos, exigindo novos desinvestimentos para reforçar a estrutura de capital. A decisão foi anunciada em 8 de julho.
De acordo com a S&P, embora os riscos de contágio decorrentes da reestruturação da dívida da Raízen tenham diminuído e a agência não espere novos aportes de recursos da Cosan na subsidiária, a conversão de parte da dívida da Raízen em participação acionária deverá reduzir significativamente a fatia da holding na empresa, enfraquecendo sua diversificação de negócios.
A agência destacou que a Raízen era historicamente uma das principais fontes de dividendos da Cosan. Com a perda dessa contribuição, a geração de caixa da holding mudou de forma estrutural, aumentando a pressão sobre sua capacidade de honrar o serviço da dívida. Em março deste ano, a Cosan deixou de reconhecer os resultados da Raízen em suas demonstrações financeiras após registrar perdas por impairment que reduziram o valor contábil do investimento a zero.
Segundo a S&P, a estratégia recente de venda de ativos contribuiu para melhorar a liquidez e reduzir parte do endividamento, mas ainda não resolve a pressão sobre os indicadores financeiros. A agência projeta que o índice de cobertura de juros permanecerá abaixo de 1,0 vez em 2026 e 2027 caso a companhia não realize novos desinvestimentos, uma vez que os dividendos provenientes de Rumo, Compass, Moove e Radar não serão suficientes para cobrir as despesas financeiras.
A análise também observa que a reestruturação da dívida da Raízen reduziu os riscos imediatos para a Cosan. O plano, apoiado por mais de 80% dos credores, prevê um aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell, uma opção adicional de R$ 500 milhões pela holding da família Ometto e a conversão de 45% da dívida em participação acionária. A Cosan não participará do aumento de capital, o que limita desembolsos adicionais de caixa, mas a agência ressalta que a capacidade de captação e refinanciamento da holding ainda permanece incerta.
Para a S&P, novos desinvestimentos poderão melhorar a estrutura de capital da companhia, porém trazem um desafio adicional. Como a Cosan depende do fluxo de dividendos de suas subsidiárias para cumprir suas obrigações financeiras, a venda de ativos relevantes pode reduzir sua capacidade futura de geração de caixa e aumentar a dependência de um número menor de empresas do grupo. A administração já sinalizou que pretende alcançar dívida líquida zero e estuda alternativas envolvendo ativos importantes, como a Rumo.
Apesar da redução de aproximadamente R$ 9 bilhões da dívida desde o fim de 2025, impulsionada pelo follow-on de R$ 10 bilhões e pelo IPO da Compass, a agência estima que as despesas financeiras continuarão elevadas, em cerca de R$ 2,9 bilhões em 2026 e R$ 1,7 bilhão em 2027. Entre os fatores que pressionam esses custos estão despesas com liquidação antecipada de dívidas e operações de total return swap lastreadas em ações da Rumo.
Por outro lado, a S&P avalia que a liquidez da Cosan permanece sólida e que a alavancagem consolidada continua em trajetória de melhora. A expectativa é de que a dívida líquida consolidada fique entre 2,5 e 3,0 vezes o EBITDA em 2026, recuando para um intervalo entre 2,0 e 2,5 vezes em 2027, apoiada pelo desempenho operacional das subsidiárias remanescentes e por uma política mais conservadora de investimentos e distribuição de dividendos.
A perspectiva negativa indica que a S&P poderá promover um novo rebaixamento caso futuros desinvestimentos reduzam ainda mais a diversificação dos negócios, os recursos obtidos não sejam suficientes para fortalecer a estrutura de capital, a alavancagem volte a aumentar ou a liquidez se deteriore. Em contrapartida, a perspectiva poderá ser revisada para estável se a companhia conseguir simplificar sua estrutura financeira, reduzir as despesas financeiras e elevar de forma consistente a cobertura do serviço da dívida para acima de uma vez, preservando uma posição adequada de liquidez.
Natália Cherubin para RPAnews


