CO₂ concentrado gerado durante a fermentação pode ser armazenado permanentemente e abre possibilidades de monetização para o setor sucroenergético
Depois de transformar vinhaça, bagaço e palha da cana-de-açúcar em insumos para novas atividades, o setor sucroenergético começa a olhar para o dióxido de carbono (CO₂) gerado na produção de etanol como mais uma possibilidade de geração de receita. A oportunidade está na captura e armazenamento de carbono, conhecida pela sigla CCS (Carbon Capture and Storage), que permite armazenar permanentemente o gás em reservatórios geológicos profundos.
No caso das usinas de etanol, uma das vantagens está nas características do próprio processo produtivo. Durante a fermentação, os açúcares são convertidos em álcool e ocorre a liberação de um fluxo de CO₂ com elevado grau de concentração, diferentemente de outros processos industriais nos quais é necessário separar o dióxido de carbono de outros gases.
Atualmente, esse CO₂ é liberado para a atmosfera na maior parte das unidades. A possibilidade de capturá-lo, comprimi-lo, transportá-lo e armazená-lo geologicamente abre uma nova frente para a descarbonização e para a geração de valor a partir da produção de etanol.
Segundo Everton Oliveira, presidente da Hidroplan e um dos organizadores do Carbonless Summit, uma das possibilidades envolve a participação de empresas especializadas no armazenamento do carbono.
“Neste modelo de negócios, a usina vende o carbono a uma outra empresa que irá armazená-lo, o que torna o retorno sobre o investimento excepcionalmente atrativo”, afirma.
De acordo com Oliveira, a concentração do CO₂ proveniente da fermentação representa uma vantagem para o setor.
“Na produção de etanol, a fermentação converte os açúcares em álcool e libera CO₂ praticamente puro, que na maior parte das usinas é simplesmente liberado para a atmosfera. Entretanto, esse fluxo relativamente concentrado de CO₂ oferece uma oportunidade singular”, explica.
Após a compressão, o gás pode ser transportado para reservatórios geológicos profundos, onde permanece armazenado. Segundo Oliveira, como o carbono foi originalmente retirado da atmosfera pela cana durante a fotossíntese e não retorna à atmosfera após o armazenamento, o processo pode resultar em remoção líquida de CO₂.
Monetização pode ir além da venda do CO₂
Entre as possibilidades apontadas para monetizar o carbono está a própria venda do CO₂ capturado para empresas responsáveis por seu armazenamento.
O material também aponta modelos mais avançados que podem envolver a comercialização de créditos de carbono, certificação do etanol com pegada negativa e geração adicional de Créditos de Descarbonização (CBios) a partir de uma melhora na Nota de Eficiência Energético-Ambiental do RenovaBio.
Outras possibilidades citadas incluem acesso a fundos globais destinados a projetos de sustentabilidade e entrada diferenciada em mercados de baixo carbono, como os segmentos de aviação e navegação comercial.
A cadeia de CCS aproveita tecnologias desenvolvidas e aperfeiçoadas ao longo dos anos pela indústria de petróleo, especialmente conhecimentos relacionados ao armazenamento de fluidos em formações geológicas.
No setor sucroenergético, a aplicação dessas tecnologias pode adicionar uma nova etapa à trajetória de aproveitamento de produtos e subprodutos da cana. A vinhaça passou a ser utilizada na fertilização dos canaviais, enquanto bagaço e palha ganharam espaço na geração de bioeletricidade, na produção de etanol de segunda geração e em outras aplicações.
CCS será debatido em evento em Ribeirão Preto
As oportunidades de aplicação e monetização do armazenamento de carbono pelas usinas estarão entre os temas da segunda edição do Carbonless Summit, marcada para 2 de setembro, no Centro de Convenções da Cana do Instituto Agronômico (IAC), em Ribeirão Preto (SP).
Organizado pelo Instituto Água Sustentável, com apoio da CCS Brasil, o encontro também discutirá regulação, licenciamento e o mercado de armazenamento de carbono.
O evento deverá reunir representantes do setor sucroenergético, autoridades e empresas ligadas à cadeia de CCS, incluindo fornecedores de tecnologia e engenharia e profissionais das áreas financeira, de seguros, jurídica e de consultoria.
SERVIÇO:
Carbonless Summit – 2ª. edição
Data: 02 de setembro de 2026
Local: Centro de Convenções da Cana do IAC (Agrishow), Ribeirão Preto (SP)
DETALHES E INSCRIÇÕES:
https://carbonless.org.br/




