O empresário João Mourad é praticamente um mito em Catanduva, no interior de São Paulo. Por quase dois anos, foi visto como o salvador da economia local, após alavancar usinas e retomar a produção de cana-de-açúcar.
Uma das lembranças que deixou consiste em uma obra faraônica, um esqueleto de cerca de 6 mil metros quadrados na zona industrial da cidade, que remete a adjetivos compatíveis com Mourad. Imponente, ousado e ostensivo.
João Mourad é Mohamad Hussein Mourad, também conhecido como Primo. Ao lado de Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, chefiou o principal núcleo do esquema criminoso alvo da operação Carbono Oculto.
Deflagrada em agosto de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), a Carbono Oculto é considerada a maior ação contra a infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.
Primo e Beto Louco estavam na mira dos investigadores pelo menos desde 2017, foram denunciados pelo MPSP em setembro de 2026 pelos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica e seguem foragidos.
Para entender o alcance da rede criminosa organizada pela dupla e os impactos dela no setor de combustíveis, um dos mais importantes para o funcionamento do país, o Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do MPSP e da Polícia Federal (PF).
O palácio do primo
A obra faraônica na zona industrial de Catanduva foi bloqueada pela Justiça ainda na primeira fase da Carbono Oculto.
Segundo a promotoria, o prédio estava sendo construído para abrigar a sede do grupo Itajobi e simbolizaria o êxito da organização criminosa liderada por Primo e Beto Louco. O grupo Itajobi, que reúne as usinas Itajobi, Carolo e Rio Pardo, foi comprado pela dupla em 2023.
Localizada a cerca de 3 quilômetros de uma delegacia da Polícia Civil, a construção intrigava a vizinhança: ninguém sabia ao certo o que estava sendo construído ali. Os trabalhos começavam antes das 7h, caminhões com material de construção chegavam o tempo todo e os donos de bares e restaurantes próximos se animavam com os fregueses que viriam.
Na manhã de 28 de agosto de 2025, com a deflagração da Carbono Oculto, a expectativa de movimento e lucro deu lugar ao pânico.
“Nunca tinha visto um fuzil, uma metralhadora na minha frente. Chegaram aqui uns carros pretos, pessoal armado. A gente ficou tudo escondido”, disse uma funcionária do comércio local, desviando o olhar para o balcão.
Segundo as investigações do MPSP, o terreno foi comprado por uma empresa de fachada em outubro de 2023 por R$ 3,9 milhões. Em seguida, como parte da engrenagem de ocultação de bens, outras camadas foram acrescentadas à engenharia financeira, com alterações de nomes e administradores.
Embora nos registros do imóvel a propriedade pertença à empresa RGP Property, que mudou de nome para FL Properties and Investments, todas as tratativas com a prefeitura para a obtenção de alvarás eram requeridas em nome da usina Itajobi.
O início de tudo
Primo e Beto Louco começaram no setor de combustíveis controlando empresas de produtos químicos e postos de gasolina. A partir de 2020, tornaram-se sócios e expandiram suas ações adquirindo a formuladora de combustíveis Copape – uma das maiores do país – e a distribuidora Aster. Em seguida, passaram a investir nos canaviais e nas usinas do interior paulista.
Os órgãos de investigação calculam R$ 8,4 milhões em fraude tributária e lavagem de dinheiro feitas pela organização criminosa, que também é acusada de estelionato. Segundo o MPSP, a estrutura empresarial do grupo era usada para lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Responsável pela primeira investigação a mirar na dupla, o promotor Alexandre Pereira, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, explica que, embora naquele momento inicial, em 2017, não fosse possível evidenciar os elos do grupo com o crime organizado, investigações posteriores mostraram as ligações entre os dois grupos.
“A Polícia Federal e o próprio Ministério Público de São Paulo promoveram investigações contra esse grupo criminoso, que têm conseguido avançar nessas questões sobre as relações com o crime organizado, mais precisamente com o PCC”, afirma o promotor.
Relação com o PCC
Um dos alvos da Carbono Oculto foi o empresário Ricardo Romano, apontado como figura-chave do grupo de Mohamad Mourad e Beto Louco. Segundo o MPSP, Romano administrava uma rede de lojas de conveniência nos postos do grupo, que servia à lavagem de dinheiro.
De acordo com o MPSP, desentendimentos nos negócios fizeram Romano ameaçar de morte Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, conhecido como o “delator do PCC”.
Gritzbach foi morto pelo PCC em plena luz do dia, no desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (SP). Segundo a Polícia Civil de São Paulo, a execução teria sido ordenada por Emilio Carlos Gongorra Castilho, envolvido com tráfico de drogas.
Além de Romano, outra ligação entre os alvos da Carbono Oculto e o PCC é José Carlos Gonçalves, o “Alemão”.
Os investigadores da Carbono Oculto o consideram como um dos articuladores da estruturação dos negócios entre os dois grupos. Documentos reunidos pelo Ministério Público mostram que Alemão foi sócio formal de Vinícius Gritzbach em empreendimentos comerciais.
As defesas de Primo e Beto Louco negam que eles tenham ligação com o PCC. Os investigadores admitem que os dois não são membros da facção, mas afirmam que as duas organizações criminosas operavam esquemas em conjunto, quando havia interesses coincidentes.
O fato de não admitirem elo com o PCC fez com que Primo e Beto Louco não conseguissem firmar acordo de colaboração premiada com o MPSP.
Informalidade e ostentação
No interior de São Paulo, os interlocutores de Mourad lembram que ele tratava a todos como “primo”, por isso o apelido. Para alguns usineiros, também se apresentou como Antônio. Seu estilo misturava informalidade e ostentação: deslocava-se em jatinho particular e contava ser proprietário de imóveis luxuosos em São Paulo.
Quando estava interessado em fechar negócios, Mourad convidava os donos de canaviais e/ou administradores para jantar no Lassù, restaurante localizado no topo do Edifício K1, na zona norte da capital paulistana. Celebrado pela fusão entre as cozinhas italiana e brasileira, o Lassù está incluído no famoso Guia Michelin de restaurantes de luxo.
As investigações dos órgãos de controle apontaram que o K1 era uma espécie de “hub” de negócios do grupo: no prédio estavam concentrados escritórios de empresas, transportadoras e fundos de investimento ligados aos investigados pela Carbono Oculto.
Além de adquirir o grupo Itajobi, Primo estabeleceu parcerias com outra usina tradicional da região, a Virgolino de Oliveira. Quando a Carbono Oculto estourou, ele já controlava cinco usinas no interior paulista: Itajobi, Catanduva, Carolo, Rio Pardo e Furlan.
De olho nos canaviais
Fundada na década de 1970, a unidade Catanduva do grupo Virgolino de Oliveira vivia seu pior momento quando atraiu o interesse de Primo: não operava havia três anos e, desde 2021, estava em recuperação judicial.
Os produtores de cana de açúcar da região estavam encurralados pelo modelo cartelizado que imperava no setor. Havia forte concentração de grupos estrangeiros, que passaram a controlar as usinas após a crise provocada pelo congelamento nos preços de combustíveis promovido pelo governo de Dilma Rousseff (PT). O quadro jogava o preço da cana para baixo.
Os produtores viram na usina desativada do grupo Virgolino de Oliveira uma oportunidade. A ideia era reativar o parque industrial no modelo de cooperativa. Foi marcada uma reunião na sede da associação dos produtores, em Catanduva, e a família proprietária apresentou o diagnóstico: seria necessário investir R$ 30 milhões em reformas para reabrir as portas.
Mourad ficou sabendo da reunião pela imprensa local e decidiu propor um contrato de “tolling” aos donos da usina. Ele forneceria a cana e a Virgolino faria a moagem, produziria o açúcar e o etanol e armazenaria a produção. A gestão da compra de cana, a logística e a venda dos produtos ficariam a cargo de Primo.
As partes acertaram um contrato válido para as safras de 2024 e 2025. Para reativar e manter o parque industrial, Mourad investiu ao menos R$ 43 milhões. A reabertura da usina Virgolino de Oliveira foi comemorada com churrasco na associação de produtores; entre os presentes, estava Beto Louco.
“Sempre fomos muito bem tratados por eles, tínhamos uma relação comercial, de venda de cana, parceria e contratos”, diz um produtor, sob condição de anonimato. Ele conta que o próprio João conduzia as negociações para a compra da cana, e sua forma de agir nas conversas não dava indícios de que pertencesse a um grupo criminoso.
“A gente até ouvia falar, mas nunca teve nada, nunca viu nada. Era o João que se sentava na mesa com os produtores e brigava pelo preço da cana. Ele fazia questão de centavos. Quando a gente ouvia falar que ele era do PCC, a gente duvidava. Quando você pensa em PCC, pensa que tem muito dinheiro fácil e que não tem briga por porcaria. E ele brigava por porcaria”, relata o agricultor.
Em parceria com João, a Virgolino de Oliveira moeu uma tonelada de cana em 2024. O acordo, no entanto, não alcançaria a safra seguinte. Em dezembro, durante uma reunião realizada em São Paulo, Primo e Beto Louco comunicaram o encerramento unilateral do contrato aos donos da usina. A dupla alegou prejuízo financeiro.
De acordo com cálculos aos quais o Metrópoles teve acesso, a quebra do contrato resultou em prejuízos de R$ 50 milhões para a Virgolino de Oliveira. O valor já desconta o aporte inicial feito por Primo e Beto Louco. Além disso, a operação deixou um passivo de impostos não recolhidos de mais R$ 20 milhões.
Ameaças veladas
Antes do fim da parceria, ameaças veladas e atitudes excêntricas de João Mourad fizeram o sistema de alerta dos usineiros da Virgolino de Oliveira acender. O grupo de Primo e Beto Louco arrendou cerca de 12 mil alqueires dos Oliveira, o equivalente a mais de 40 mil campos de futebol.
Sem mostrar documentos, Primo alardeava que era o verdadeiro dono das terras, pois teria comprado os títulos de dívida emitidos pela família – papéis que tinham como garantia justamente aqueles terrenos. A aquisição dos direitos creditórios ocorreu por meio de um fundo de investimento, expediente que permite ocultar os reais controladores dos ativos.
Primo também comprou uma casa ao lado da residência de um dos diretores da usina Virgolino de Oliveira, em um condomínio fechado em Catanduva. Sentindo-se ameaçado, o executivo preferiu se mudar. A casa foi comprada em 2023, por R$ 1,6 milhão, em nome de um fundo de investimentos registrado no mesmo endereço do Edifício K1, o “hub de negócios” do grupo.
Decadência na região
Em 28 de agosto, após meses de atrasos nos pagamentos aos fornecedores de cana-de-açúcar, a usina Itajobi iniciou uma onda de demissões. A data coincidiu com o aniversário de um ano da Carbono Oculto.
Os trabalhadores recém-demitidos relatam que, para receber, os funcionários foram obrigados a abrir uma conta na fintech BK Bank e depois passaram por uma série de instituições financeiras das quais nunca haviam ouvido falar.
A incursão do bando de Primo e Beto Louco pelos canaviais do interior paulista e a consequente deflagração da Carbono Oculto impactaram, principalmente, duas cidades: Marapoama e Elisiário, ambas com menos de 4 mil habitantes.
A Itajobi fica sediada em Marapoama, mas é mais próxima do centro de Elisiário, onde mora a maioria dos trabalhadores. “Eles ficam com o dinheiro e a gente com os boias-frias”, desabafou um funcionário da prefeitura de Elisiário, ao se referir ao recolhimento de impostos na cidade vizinha.
O servidor expressou o que está encravado na percepção dos moradores da região: os funcionários com cargos e salários maiores moram em Catanduva; Marapoama fica com os impostos sobre a venda da cana; já Elisiário depende totalmente da renda dos operários. “Metade da cidade trabalha na usina, outra metade na prefeitura”, afirmou outro munícipe.
Pacto de silêncio
Os moradores de Elisiário verbalizam a tristeza deixada pela decadência da usina, mas o medo em relação ao grupo criminoso que tomou conta da região aparece em forma de pacto de silêncio. Quem aceitou falar com a reportagem preferiu não se identificar.
Na avenida principal da cidade, há uma lanchonete, uma sorveteria e três bares: um funciona junto com o açougue, e outro está fechado. João, ou Primo, até foi visto por ali, passando de carro blindado, mas nunca parou em nenhum dos comércios locais.
No único boteco aberto, a pergunta que os moradores se fazem, de forma discreta e entre murmúrios, é se “ele era mesmo do PCC”.
Outro lado
A defesa de Mohamad Mourad diz que as acusações são especulativas e “não encontram respaldo nos autos do processo”. Os advogados negam que Primo tenha relações com o PCC, afirmando que a inocência do cliente será provada na Justiça.
A defesa de Roberto Leme, o Beto Louco, diz que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e garante que responderá a todas as acusações quando isso acontecer. Os advogados consideram um “erro grave” estabelecer relações entre o cliente e o PCC.
O advogado William Martinez, que representa a usina Itajobi, nega que existam vínculos entre a usina e o PCC e reclama que as associações feitas após a deflagração da Carbono Oculto estão causando danos reputacionais à empresa.
Os advogados de Dema, Ricardo Romano, Alemão, Daniel Dias, Renato Martins e da família Gonçalves Cepeda não foram localizados pela reportagem.
Metrópolis| Ramiro Brites, Vinicius Passarelli e Enzo Marcus



