Relatório prevê entregas de 46,6 milhões de toneladas de fertilizantes e mercado de defensivos de US$ 20,9 bilhões, mas alerta para custos elevados e dificuldades financeiras dos produtores
O mercado brasileiro de insumos agrícolas deverá apresentar recuperação gradual em 2027, após um ano marcado pela elevação dos custos de produção, restrições financeiras e redução das compras pelos produtores. A expectativa é que as entregas de fertilizantes alcancem 46,6 milhões de toneladas no próximo ano, enquanto o mercado de defensivos deverá movimentar US$ 20,9 bilhões e o segmento de produtos biológicos poderá superar R$ 7 bilhões. As projeções constam do relatório Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2027, divulgado em novembro pelo RaboResearch, departamento de pesquisa e análise setorial do Rabobank.
Segundo o banco, 2026 deverá encerrar mais um período de margens pressionadas para os produtores rurais, agravado pelos efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre os preços dos fertilizantes. Embora a expectativa seja de maior estabilidade em 2027, a recuperação do mercado dependerá principalmente da situação financeira dos produtores, que continuam enfrentando juros elevados, endividamento e dificuldades para financiar suas atividades.
O RaboResearch aponta que a cana-de-açúcar, o café e os citros devem registrar aumento moderado dos custos de produção em 2026, enquanto soja, milho e algodão deverão apresentar elevações mais expressivas. O principal fator para esse movimento é o encarecimento dos fertilizantes.
A instituição também destaca que a inadimplência no campo continua atingindo níveis recordes, aumentando os custos financeiros e dificultando a retomada das margens operacionais.
Entregas de fertilizantes devem crescer em 2027
O Rabobank estima que as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro totalizem 44,4 milhões de toneladas em 2026, queda de 9,6% em relação ao ano anterior, quando o volume atingiu o recorde de 49,7 milhões de toneladas.
Para 2027, a projeção é de recuperação para aproximadamente 46,6 milhões de toneladas, crescimento de cerca de 5% sobre a estimativa de 2026, embora o volume ainda permaneça abaixo do registrado em 2025.
De acordo com o relatório, o mercado de fertilizantes enfrentou forte volatilidade em 2026, especialmente após a intensificação dos conflitos no Oriente Médio, que restringiram o fluxo internacional de ureia, gás natural, enxofre e outras matérias-primas essenciais à produção de adubos.
A dependência brasileira da ureia produzida naquela região contribuiu para a transmissão dessas restrições aos preços. As cotações chegaram a US$ 815 por tonelada antes de recuar, influenciadas pela redução da demanda, pela diminuição das compras indianas, pelo aumento da oferta chinesa e pelas expectativas de normalização das rotas comerciais.
No mercado de fertilizantes fosfatados, a elevação dos custos do enxofre e da amônia também pressionou os preços. O fosfato monoamônico (MAP) atingiu níveis próximos de US$ 900 por tonelada, na condição CFR Brasil, estimulando a substituição parcial por outras fontes de fósforo, como SSP e TSP.
Já o cloreto de potássio (KCl) foi menos afetado diretamente pelas restrições de oferta, mas sofreu os efeitos do aumento dos fretes e, posteriormente, da maior disponibilidade do produto e do enfraquecimento da demanda.
Outro ponto de atenção é o atraso nas importações de fertilizantes nitrogenados. Segundo o levantamento, até setembro de 2026, o volume importado de ureia e sulfato de amônio, convertido em equivalente de nitrogênio, apresentava defasagem de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O RaboResearch avalia que esse atraso dificilmente será compensado até o encerramento de 2026, aumentando os riscos de disponibilidade de nutrientes para a segunda safra de milho e outras culturas que demandam esses insumos a partir de janeiro.
Para as importações totais de fertilizantes, a projeção é de 43,5 milhões de toneladas em 2026, redução de 4,3% na comparação anual.
Defensivos devem movimentar US$ 20,9 bilhões
O mercado brasileiro de defensivos agrícolas também deverá apresentar recuperação moderada em 2027, embora permaneça pressionado pela situação financeira dos produtores e pelo aumento da concorrência.
Segundo o Rabobank, parte das empresas do setor ainda enfrenta os efeitos da crise de estoques de 2024 e da queda posterior das receitas. A ampliação da oferta de produtos pós-patente por empresas chinesas intensifica a competição, oferecendo alternativas de menor custo aos produtores que buscam reduzir suas despesas operacionais.
Nesse cenário, o RaboResearch projeta que o mercado de defensivos químicos alcance US$ 20,4 bilhões em 2026, crescimento de aproximadamente 1% em relação a 2025. Para 2027, a expectativa é de avanço para US$ 20,9 bilhões, condicionado à recuperação gradual da demanda e à capacidade financeira dos agricultores.
No segmento de produtos biológicos, a perspectiva também é de crescimento. O relatório cita dados da CropLife Brasil que apontam aumento de 4,2% no valor comercializado no primeiro semestre de 2026.
O banco ressalta, entretanto, que aproximadamente 73% das vendas desses produtos estão concentradas no segundo semestre, tornando o desempenho desse período determinante para os resultados anuais.
Para 2026, a projeção é que o mercado brasileiro de biológicos alcance aproximadamente R$ 6,7 bilhões. Em 2027, o valor poderá superar R$ 7 bilhões, embora o crescimento dependa da evolução da demanda e da capacidade financeira dos produtores.
Segundo o RaboResearch, a pressão sobre as margens agrícolas também tem levado empresas de produtos biológicos a utilizar recursos de caixa para manter a competitividade e preservar sua participação no mercado.
Além dos fertilizantes e defensivos, o banco prevê continuidade da recuperação do mercado de sementes em 2027. Já o setor de máquinas agrícolas deverá permanecer pressionado pelas dificuldades financeiras dos produtores, com vendas ainda limitadas.
Apesar das perspectivas de recuperação em diferentes segmentos, o Rabobank ressalta que o desempenho do mercado de insumos em 2027 continuará condicionado à capacidade dos produtores de superar as restrições financeiras e recompor suas margens operacionais. A expectativa é de estabilização gradual, mas ainda em um ambiente desafiador para a produção agrícola.
Natália Cherubin para RPAnews



