Uma das principais tecnologias de produção e um dos insumos mais baratos na cadeia de produção da cana-de-açúcar são as variedades. As variedades, muitas vezes, podem ser as responsáveis pelo sucesso ou fracasso na agroindústria sucroenergética.
Os principais programas de melhoramento genético do Brasil, indubitavelmente buscam variedades com alta produção de biomassa, produtividade, alto teor de sacarose (açúcar), resistência as principais doenças e pragas, colheitabilidade, não isoporizar (chochamento), facilidade de adaptação às diferentes regiões produtoras, diversificação aos ambientes de produção (solos), e o manejo na condução mais eficaz para as diferentes variedades.
Obter variedades com este perfil é um trabalho demorado e de alto custo para os órgãos de pesquisa. Simultaneamente a este processo, a análise do desempenho de novas variedades na usina é muito importante, sendo extremamente válido o uso da experimentação para ajudar a chancelar a avaliação dos referidos órgãos no conhecimento e recomendação das novas variedades e ao manejo ideal a ser adotado pela unidade.
Outra ferramenta importante, e que nos últimos anos também tem sido muito utilizada para corroborar na análise dos dados, é o Datacana (sistema de benckmarking da Consulcana), onde as informações são oriundas dos canaviais colhidos comercialmente pelas usinas que abastecem o banco de dados do sistema, com milhões de hectares por safra de informações de todo o Centro-Sul do Brasil, e regionalizados posteriormente.
Embasados por este sistema e paralelamente à essa coleta de informações, os dados são organizados por variedades, separados em cana de ano e meio (18 meses), cana de ano, cana de inverno, soqueiras, estágios de corte, idade média, regiões produtoras e ambientes de produção, onde são compilados diversos indicadores de desempenho como: produtividade (TCH – tonelada de cana por ha), ATR (açúcar total recuperável), Pol, Fibra, etc.
Com estes dados em mãos da performance das variedades, mais a expertise dos profissionais envolvidos no processo, juntamente com a integração das canas a serem entregues pelos fornecedores à usina, se elabora o planejamento de um elenco varietal ideal para a unidade, visando o equilíbrio entre diversas variáveis importantes a serem contempladas — canas precoces, médias, tardias, aliando a porcentagem da área adequada de cada variedade e a quantidade de cana a ser entregue mensalmente para atender a demanda da Indústria no decorrer da safra.
Associado às técnicas e ações acima, existem também ferramentas no mercado, plataformas e softwares, que visam contemplar diversas tarefas e variáveis no planejamento das variedades, otimizando e levando em consideração os impactos na definição da reforma, escolha da variedade e plantio, assim como, no planejamento da colheita, onde alguns intitulam esse conceito de maximização da Pol % Cana como “lei do mínimo arrependimento na safra”, pois nem sempre a recomendação de colheita da variedade pelo software seria a comumente realizada pelo responsável, mas, sim, visando a busca pelo maior retorno econômico global da safra.
Complementando a ferramenta é fundamental aliar a experiencia do agrônomo e/ou responsável pela colheita e logística da safra, considerar algumas restrições técnicas importantes como: idade mínima de corte, área onde foram aplicados maturadores químicos, área de reforma, florescimento, geada, cana bisada, assim como, premissas administrativas/jurídicas de vencimentos de contratos de áreas arrendadas, etc, pois no final, o que realmente interessa ao produtor, é a maior receita que se pode obter do canavial (R$/ha).
É importante ressaltar, independente da metodologia a ser utilizada na colheita da safra, que tudo depende impreterivelmente da alocação correta das variedades, na qual essa relevante decisão não ocasionará nenhum custo adicional, pois o custo da operação sendo realizado da forma correta ou errada será o mesmo. Sendo assim, fazer a escolha da variedade a ser plantada de forma assertiva, equalizando épocas de plantio e colheita, e sendo realizado no ambiente de produção correto, sem dúvida alguma trará um grande salto na performance e retorno econômico esperado, onde consequentemente, não haverá a necessidade de se conviver com uma decisão equivocada e esperar cinco ou seis cortes (anos) para corrigir um eventual erro cometido na formação do canavial.
Com estas variáveis sob controle, é factível buscarmos o manejo ótimo, equilibrando o elenco varietal de acordo com os ambientes de produção disponíveis na usina, se necessário, investir em mudas de variedades que talvez a usina não tenha, e insisto, principalmente fazer a alocação nas áreas adequadas, sem deixar a logística e/ou a muda mais próxima serem o fator determinante na tomada de decisão de qual variedade plantar na área a ser reformada, incorrendo em um erro que depois custará anos para ser corrigido, ou seja, até a próxima reforma da área.
O equilíbrio e escolha do elenco varietal ideal dentro das condições da usina, pode determinar uma ótima, regular ou péssima safra, inclusive invariavelmente refletindo nas safras futuras.
*Fábio Vidal Mina Junior é engenheiro agrônomo, pós-graduado, com MBA em Agronegócios e mestrado na ESALQ/USP, consultor técnico de muita experiência no setor sucroenergético e diretor da Consulcana – Soluções Aplicadas a Cana-de-Açúcar.

