A importância do posto para comunicar a sustentabilidade do etanol

Por: Marcos Fava Neves

Vamos aos nossos fatos relevantes do mês de junho e as perspectivas para julho. Na cana…em relação ao processamento, de acordo com a UNICA, no acumulado da safra 2020/21 até 15 de julho estamos com uma moagem 6,5% maior, atingindo quase 276 milhões de toneladas e provavelmente neste momento já passou de 50% o total moído desta safra.

O mix para açúcar saltou de 34,9% para 46,7%, quase 12% a mais. Isto fez com que a produção acumulada de açúcar esteja 50% maior que na safra anterior, saltando de 10,9 para 16,3 milhões de toneladas. Com isto a produção de etanol caiu quase 5,9%, vindo de 12,9 para 12,1 bilhões de litros.

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A produtividade apurada pelo CTC é de quase 86 toneladas por hectare, 1,6% acima da safra anterior. A concentração de ATR está em 132,91 kg, contra 126,35 kg na safra 2019/2020 (5,2% acima).

A importância do posto para comunicar a sustentabilidade do etanol
A importância do posto para comunicar a sustentabilidade do etanol, por Marcos Fava Neves

Na cana, o ponto de atenção para o segundo semestre deve ser os investimentos para manejo e plantio da cultura que será colhida na safra 2021/22, principalmente por conta da alta do dólar.

Um levantamento do PECEGE com 88 usinas do Centro-Sul estima o custo com formação de canavial da safra atual de R$ 3,039 mil por hectare – valor 5% maior que na anterior. O manejo da cana soca, os custos devem aumentar 4,8%, chegando ao valor por hectare de R$ 1,258 mil.

A análise do valor real entre as safras 2018/19 e 2019/20 mostrou quedas de 3,5% e 6,6% para os custos de formação do canavial e tratos de cana soca, respectivamente. Embora o aumento do dólar entre a safra atual e anterior tenha sido de 35%, com média de R$ 5,44, o PECEGE estima que parte do efeito cambial foi neutralizado pela queda no preço dos insumos. Fertilizantes como MAP, KCl e Ureia tiveram queda de 22,6% em dólar.

Ainda segundo o PECEGE, na safra 2019/20, os fertilizantes representaram 49,5% dos custos com insumos para cana, seguido de herbicidas, com 26,1%, e inseticidas com 13,4%. Apesar da crise causada pelo COVID-19, o orçamento das usinas para compra de defensivos aumentou 5,8% no acumulado até maio desse ano, e a demanda por fertilizantes cresceu 2,1%.

As metas do RenovaBio passaram por reavaliação, sendo reduzidas pela metade (14,53 milhões de Cbios) pelo Governo Federal.

As metas do RenovaBio passaram por reavaliação, sendo reduzidas pela metade (14,53 milhões de Cbios) pelo Governo Federal. No entanto a Frente Parlamentar vem relutando para que a redução seja de 30%.

O total de usinas certificados no RenovaBio soma cerca de 220 unidades. A Copersucar finalizou o processo de certificação de suas 34 unidades no programa RenovaBio, estando habilitadas a emitir 6 milhões de Créditos de Descabonização (CBios) por ano. É o Brasil ambiental avançando!

A Raízen anunciou reforçar o apoio técnico e financeiro para produtores integrados de cana-de-açúcar, os quais são responsáveis atualmente pelo fornecimento de 50% do total de cana processado pelo grupo. O programa intitulado “Cultivar” já suporta 350 grandes produtores, e a meta é de encerrar a safra atual com 400 participantes e um volume de 22,6 milhões de toneladas recebidas por meio destes.

A produtividade média dos fornecedores participantes do programa é de 80 toneladas por hectares – superior ao índice da própria Raízen — valor 11% maior em comparação dos fornecedores que não participam do programa. Investir no relacionamento para mim sempre foi primordial.

O grupo Zilor reverteu a situação financeira negativa, com faturamento de R$ 2,2 bilhões e lucro de R$ 184 milhões na última safra. Tal resultado foi alcançado com aumento no volume de moagem de cana (10,8 milhões de toneladas), maiores investimentos no canavial e eficiência industrial, além de ter recebido valor de precatório.

A Biosev registrou prejuízo de R$ 1 bilhão durante janeiro a março desse ano. O valor é resultado da variação cambial que gerou cerca de R$ 1,6 bilhão de impacto contábil negativo. Assim, o prejuízo na safra 2019/20 foi de R$ 1,5 bilhão, o que fez com que a companhia tivesse resultado de R$ 1 bilhão acima do valor de ativos.

As exportações de açúcar cresceram 80,4% em junho, atingindo impressionantes US$ 810,80 milhões.

Desse modo, as safras 2021/22 e 2022/23, o grupo terá, em cada uma, mais de R$ 3 bilhões em quitações com credores. Entretanto, o grupo aposta na rápida recuperação, principalmente pelo aumento de 47,5% na receita líquida no último trimestre da safra 2019/20. O resultado final para safra foi de R$ 6,8 bilhões, 7,6% maior que na anterior. Operação melhorando sempre.

No açúcar…As exportações de açúcar cresceram 80,4% em junho, atingindo impressionantes US$ 810,80 milhões. Tal montante é explicado pelas quebras de safra de Índia e Tailândia no ciclo 2019/20. O volume exportado desde o início da safra atingiu 6,44 milhões de toneladas, contra 3,85 milhões do mesmo período do ano passado, aumento de 67%. Julho também foi muito forte o volume exportado. O gol de placa da safra 2020/21 é a exportação de açúcar.

Entre os meses de abril a junho, o envio de açúcar brasileiro para os EUA chegou a 176 mil toneladas, valor três vezes maior que o mesmo período do ano passado. Precisamos abrir mais o mercado americano.

Ao fechar este texto o açúcar estava ao redor de 12,65 cents de dólar/libra peso. Segundo a Archer dá um valor de R$ R$ 1,491 por tonelada para a safra 2021/22, o que pode estimular mais fixações.

Entre os meses de abril a junho, o envio de açúcar brasileiro para os EUA chegou a 176 mil toneladas

As importações de açúcar seguem firmes, e cresce a demana na China e na Indonésia, entre outros emergentes. Porém a janela não deve durar muito tempo mais, pois nesta próxima safra do hemisfério norte (inicio em outubro deste ano) tudo indica que a Índia deve voltar forte ao mercado exportador. O importante é que a janela foi aproveitada.

No etanol…segundo a UNICA, as vendas de etanol hidratado no primeiro semestre tiveram uma queda de 16,7% em comparação ao mesmo período do ano passado, fechando em 8,96 bilhões de litros. Já a comercialização de etanol desde o início da safra acumula queda de 22,71%, chegando a 6,4 bilhões de litros, com 493,3 milhões sendo destinados ao mercado externo e 5,9 bilhões ao doméstico.

O consumo total de combustíveis para frota de veículos leves recuou 12,7% no primeiro semestre de 2020, com 22,72 bilhões de litros de gasolina equivalente comercializados. Além disso, no acumulado de 2020, a participação do etanol no ciclo Otto ficou em 47,2%.

Em junho, as vendas domesticas de etanol pelas unidades do Centro-Sul somaram 2,40 bilhões de litros, queda de 11,43% em comparação a 2019, sendo 1,47 bilhões de hidratado (-19,64%) e 663,86 milhões de anidro (-4,70%). É importante pontuar que as quedas nesse mês foram menos acentuadas que as observadas em maio e abril.

“Em junho, as vendas domesticas de etanol pelas unidades do Centro-Sul somaram 2,40 bilhões de litros, queda de 11,43% em comparação a 2019.”

Houve aumento de 43% nas vendas externas de etanol em relação a junho de 2019, chegando à cifra de US$ 122,71 milhões. Já o volume cresceu 44,31%. Nos três primeiros meses da safra, as exportações de etanol saltaram de 305 milhões para quase 540 milhões de litros.

A Petrobras elevou novamente o preço da gasolina nas refinarias, em 4%. O valor médio nacional nas bombas de combustível deve ficar em torno de R$ 4,097. Segundo a Petrobras, impostos como o ICMS e CIDE correspondem a 46% do preço final da gasolina, enquanto que 28% se referem ao preço de saída da refinaria. Os outros 13% são divididos entre o etanol anidro, o valor da distribuição e a revenda.

A determinação da ANP (resolução 807/2020) que estabelece padrões maiores para a gasolina passa a valer a partir de 3 de agosto. De acordo com a Petrobras, o novo produto deve gerar uma economia entre 4 a 6% no consumo. Além disso, deve acontecer um aumento no preço final, o que pode favorecer o etanol. A Petrobrás reforça que apesar do aumento de preço, o novo combustível será mais eficiente e reduzirá as emissões de CO2.

A cota para entrada de etanol importado sem cobrança de tarifa externa comum (TEC) é tema de muitas discussões em Brasília e no setor. Está próxima de expirar, o governo pretende acabar com a cota, que garante a entrada de 750 milhões de litros anuais de etanol com alíquota zero. Enquanto os EUA pressionam para a definição de uma TEC igual ou menor que 2,5% para todo volume importado, bancadas do Nordeste defendem a aplicação da tarifa cheia como medida de proteção ao setor no Brasil.

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Segundo a UNICA, o Brasil deixou de emitir 515 milhões de toneladas de gases de efeito estufa desde a adoção dos carros flex no Brasil em 2013. Para se ter uma noção, esse valor corresponde a cerca de 100 milhões de elefantes. O RenovaBio deve impulsionar ainda mais os biocombustíveis, com a meta de retirar quase 700 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera em 10 anos. A FS Bioenergia, gigante brasileira de etanol de milho, captou financiamentos atrelados ao alcance de metas “verdes”, tanto via empréstimos quanto CRI. Caso a empresa atinja as metas apontadas, terá um custo de capital mais baixo vinculado aos contratos.

Finalmente, fiz a proposta ao setor para que nos postos, seja informado ao consumidor o volume de emissões por litro de cada tipo de combustível, baseados numa tabela da ANP. A proposta foi prontamente aceita e os estados produtores todos correram com seus lideres e deputados para tentar escrever os projetos de lei e tramitar nas Assembleias.

Com isto o consumidor será melhor informado e questões ambientais também pesarão em sua decisão. Ficarei feliz se conseguir isto para o setor. Quem me ouve sabe do apreço histórico que tenho pelos postos de combustíveis como o principal agente de comunicação da sustentabilidade do etanol.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar agora em agosto na cadeia da cana:

1) A política de isolamento e impactos no consumo de combustíveis no Brasil. Principalmente a velocidade de recuperação do consumo de hidratado em agosto. Ao fechar esta coluna pelos dados da SCA o litro do hidratado estava R$ 2,09 com impostos nas usinas.
2) Acompanhar os impactos do coronavírus no consumo mundial do açúcar e nos preços do petróleo, principalmente. Ao fechar a coluna o barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 43 e o açúcar a cerca de 12,6 cents/libra peso.
3) O clima e o andamento da safra de cana no Brasil, por enquanto vem vindo muito bem e já passou da metade. Resta saber se esta seca que estamos vivendo vai afetar o desenvolvimento da safra 2021/22.
4) O andamento da safra de açúcar no hemisfério norte e o déficit na produção advindo das quebras na Tailândia e observar as estimativas de produção para a safra 2020/21. O comportamento das exportações de açúcar do Brasil, que vêm surpreendendo as melhores apostas agora em agosto.
5) Observar o que deve acontecer com as tarifas e cotas para o etanol americano entrar no Brasil e se teremos contrapartidas de acesso às necessidades de açúcar dos EUA, que seria a minha estratégia.

 

Minha previsão hoje para o fechamento do valor do ATR (valor médio safra 2020/21): RS$ 0,707/kg

Por: Marcos Fava Neves, Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

*Este texto contou com a inestimável ajuda de Vinicius Cambauva e Vitor Nardini Marques.