O açúcar esteve entre os principais motores do crescimento das exportações brasileiras do agronegócio nas últimas duas décadas, período em que o Brasil se consolidou como o principal exportador líquido mundial de commodities alimentares e agrícolas. Segundo relatório do RaboResearch, assinado por Andy Duff, gerente regional de Food and Agribusiness para a América do Sul, a commodity respondeu por US$ 13 bilhões da expansão do valor exportado pelo agro entre as médias de 2003-2005 e 2023-2025, atrás apenas da soja entre os produtos apresentados no levantamento.
No período, o valor médio das exportações brasileiras do agronegócio passou de aproximadamente US$ 38 bilhões para US$ 167 bilhões. Além do açúcar e da soja, proteínas animais, milho, café, celulose e outras commodities contribuíram para esse avanço, sustentado especialmente pelo aumento da demanda da China e do restante da Ásia.
A expansão, porém, ocorre em um cenário internacional que, segundo Duff, se tornou mais fragmentado. O relatório avalia que a mudança da globalização e de uma ordem internacional baseada em regras para um ambiente de maior tensão geopolítica traz novas implicações para o comércio e exige maior capacidade de adaptação do agronegócio brasileiro.
Açúcar e a mudança dos mercados compradores
Uma das transformações mais importantes ocorreu no destino das exportações brasileiras. Entre 2003-2005 e 2023-2025, a participação da China nas vendas externas do agronegócio passou de 7% para 33%, enquanto a fatia da União Europeia caiu de 32% para 14%.
Atualmente, a China é, de longe, o maior mercado individual para os produtos agrícolas e alimentares brasileiros. União Europeia e Estados Unidos aparecem em seguida. Juntos, os três destinos concentram 54% do valor das exportações brasileiras do setor.
No caso específico do açúcar, o relatório mostra China, Indonésia e Índia entre os três principais destinos das exportações brasileiras no período de 2023 a 2025. Diferentemente de outras commodities analisadas, os três mercados somados representam menos da metade das vendas externas brasileiras de açúcar.
O levantamento mostra que, considerando as dez commodities avaliadas, a China aparece entre os três principais destinos de nove delas. Em seis dos dez produtos, os três maiores compradores concentram mais de 50% das exportações brasileiras.
Além dos grandes compradores, o Brasil mantém uma base ampla de mercados. Mais de 100 países aparecem como destinos do restante das exportações brasileiras de alimentos e produtos agrícolas, sem que nenhum deles, individualmente, represente mais de 3% do total.
Dependência externa entra no radar
Ao mesmo tempo em que se tornou uma potência exportadora, o Brasil aumentou sua exposição a insumos vindos do exterior. Segundo o RaboResearch, cerca de 80% dos fertilizantes e defensivos agrícolas utilizados no país são importados.
A dependência também aparece no setor de combustíveis. As importações correspondem a aproximadamente 25% a 30% do consumo brasileiro de diesel, uma vez que o crescimento da capacidade doméstica de refino ficou abaixo do avanço da demanda.
Para Duff, a combinação entre a posição do Brasil como grande exportador de commodities e a dependência significativa de insumos agrícolas importados aumenta a importância das mudanças geopolíticas para o agronegócio.
O relatório cita, entre os acontecimentos recentes, choques nos mercados de combustíveis e fertilizantes provocados por conflitos internacionais, mudanças na política comercial norte-americana e a maior ênfase da China em segurança alimentar, autossuficiência e gestão estratégica das importações.
Diversificação como estratégia
Diante desse cenário, o RaboResearch aponta três caminhos para ampliar a resiliência do agronegócio brasileiro: reduzir a dependência de insumos importados, diversificar mercados e ampliar a gama de produtos exportados. Entre as medidas destacadas estão investimentos na produção doméstica de fertilizantes e na capacidade local de refino de petróleo.
A diversificação dos mercados compradores, porém, não deve ocorrer rapidamente. Duff destaca que a China teve papel central no crescimento do consumo mundial de algumas das principais commodities agrícolas e que, no curto prazo, a interdependência comercial entre os dois países tende a permanecer. Por isso, além da busca por novos destinos, o relatório defende o aprofundamento do relacionamento e do diálogo com parceiros estratégicos, de forma a ampliar a capacidade de antecipação e adaptação a mudanças nas políticas agrícolas e comerciais.
No longo prazo, mudanças demográficas podem contribuir para uma redistribuição da demanda global. Regiões como África, Oriente Médio e Sudeste Asiático devem concentrar o crescimento populacional, enquanto China e União Europeia tendem a registrar redução de suas populações, movimento que pode se refletir na demanda por importações agrícolas.
O estudo também aponta que a diversificação pode ocorrer pela ampliação do portfólio exportado. Um dos exemplos citados são os grãos secos de destilaria (DDG), coproduto do etanol de milho. Praticamente inexistentes nas exportações brasileiras há uma década, os DDGs ganharam acesso a 21 mercados internacionais desde 2023.
Para Duff, o exemplo traz uma reflexão mais ampla sobre a estratégia do agronegócio brasileiro diante do novo cenário internacional. “O caminho para um crescimento resiliente pode não depender apenas de encontrar uma base maior e mais diversificada de compradores, mas também de desenvolver uma gama mais ampla de produtos exportáveis”, afirma no relatório.
Natália Cherubin para RPAnews



