Conecte-se conosco
 

Açúcar

Açúcar: o pêndulo

Publicado

em

Açúcar

Um dos mais notáveis investidores do planeta, falecido em 1976, foi sem dúvida o inglês Benjamin Graham, professor da Columbia Business School que teve como ilustre aluno Warren Buffett, que se inspirou no mestre quando repete seu principal ensinamento: o de investir em empresas de valor.

Graham escreveu um livro que é considerado um dos melhores na área de finanças: “O Investidor Inteligente”. Vale a pena recorrer a uma de suas frases lapidares que tomo emprestada e tento adaptá-la para o nosso universo do açúcar: “o mercado é como um pêndulo que sempre oscila entre o otimismo insustentável (que faz com que os preços subam irracionalmente) e o pessimismo injustificado (que derrubam as cotações em meio ao pânico despropositado).

Lembram-se do açúcar depois da eclosão da pandemia? Chegou a menos de 10 centavos de dólar por libra-peso. E o que a maioria das empresas faz naquele momento? Nada. Todos seguiram a multidão e esqueceram a racionalidade dentro de alguma gaveta. Pouquíssimos gestores olharam para aquele momento com a avidez de um caçador de oportunidades. Sabe quanto negociava o vencimento julho/22 há dois anos? Pouco mais de 11 centavos de dólar por libra-peso!. Esse era o pessimismo injustificado.

Outros tantos exemplos podem ser dados para ilustrar como seguimos a boiada. É o tal do pertencimento. Parece haver uma tendência humana para não discordar da multidão, mesmo quando se tem certeza do que vemos adiante. O mercado atingiu mais de R$ 2,500 por tonelada no passado recente, valor só ultrapassado em menos de 2% de todos os eventos de 10 anos para cá, corrigido pela inflação, mas ainda assim nenhum argumento foi bom o suficiente. Otimismo insustentável.

Agora, o mercado futuro de açúcar em NY explodiu essa semana, com os preços de todos os vencimentos correspondentes à safra 22/23 do Centro-Sul ultrapassando os 20 centavos de dólar por libra-peso. O que pode ter acontecido?

Antes de tudo, há um senso comum de que a moagem da safra de cana no Centro-Sul vai começar mais tarde do que anteriormente previsto e as usinas deverão privilegiar no início da safra a produção de etanol pelas razões expostas no nosso comentário da semana passada (veja aqui https://archerconsulting.com.br/artigos/O_ETANOL_DA_AS_CARTAS/). Nada disso era novidade. No entanto, o cenário macro (guerra na Ucrânia, nova variante da covid na China) dá sinais difusos.

Uns pensam que pode haver desabastecimento de qualquer commodity e/ou problemas logísticos que impedem o produto de circular. A maioria dos mercados se inverteu, ou seja, os contratos com vencimento mais curto negociam acima daqueles com vencimento mais longo, alimentados pela compra maciça dos spreads pelas casas comerciais. Lembrando que o spread é a manifestação no mercado futuro do sentimento que domina no mercado físico. Estão invertidos em praticamente todos os vencimentos o café, o açúcar (os dois primeiros vencimentos), o petróleo (WTI e Brent), o algodão, a aveia, a soja, o óleo de soja, o farelo de soja, o trigo, entre outros tantos.

O açúcar reflete notadamente o receio que alguns traders do mercado tem manifestado nas rodas privadas de que pode haver não apenas menor disponibilidade de açúcar no início da safra, mas uma onda de pedidos de wash-out de contratos de exportação de açúcar por parte das usinas objetivando aproveitar a melhor remuneração do etanol. A conferir.

Observe-se, no entanto, que o hidratado explodiu no mercado interno chegando a negociar a R$ 4,3500 o litro. Interessante como as distribuidoras não perceberam esse movimento que estava telegrafado, escrito na parede, nos sinais de fumaça de todas as tribos e, de repente…. BOOM!

Para contrapor esse entusiasmo do mercado do etanol é bom não esquecer que a paridade do petróleo hoje está zerada enquanto o mercado internacional voltou para os 100 dólares por barril. Algum evento exógeno será necessário para suportar os atuais níveis de preço além do início da safra. Tanto o Brasil, quando a América Central e a Ásia estão fixando preços do açúcar, que foi beneficiado pela visão do que ocorre no mercado interno de hidratado. Nada que acontece no mercado consumidor de açúcar, no entanto, traz algum ânimo.

Acredito que precisamos de um par de semanas para entender melhor esse movimento. Por outro lado, nossa segunda estimativa da produção de cana para o Centro-Sul para a safra 22/23 foi reduzida para 552 milhões de toneladas (anterior: 555). Encolhemos a produção de açúcar, de 33,792 para 33,000 milhões de toneladas e aumentamos a produção total de etanol para 28,611 bilhões de litros (anterior 28,368), sendo 102 milhões de litros de anidro e 141 milhões de litros de hidratado. Nada muito preocupante, mas o viés é de baixa.

O real encerrou a semana ligeiramente mais baixo em relação ao dólar: R$ 4,7100 contra R$ 4,6650. Como o mercado de açúcar encerrou a semana a 20.35 centavos de dólar por libra-peso, uma valorização de quase 100 pontos na semana (22 dólares por tonelada), o valor médio dos fechamentos do açúcar para a 22/23, já convertidos pela curva de juros, subiram mais de R$ 120 por tonelada na semana. O spot encerrou a R$ 2,200 1% acima da média de preços das fixações das usinas.

Sobre o dólar, o economista chefe do Banco BV, Roberto Padovani, acredita que “há muito otimismo no mercado cambial. Assim como no segundo semestre de 2020 e meados de 2021, o início deste ano tem sido marcado por uma expressiva apreciação da moeda brasileira. Os riscos à frente, no entanto, sugerem que a tendência de queda do dólar pode não ter muito fôlego. A ideia é que apenas os juros domésticos não são suficientes para compensar a pressão sobre a moeda gerada pela alta dos juros internacionais, fortalecimento global do dólar, menor crescimento externo e aumento dos riscos internos”. Bom não se apaixonar pelo real.

Por último, na semana passada, este comentário trazia na última linha uma citação de um executivo do setor em que profetizava que “no Brasil de hoje, amanhã é longo prazo”. Acertou na mosca. Elogiávamos a indicação de Adriano Pires para a presidência da Petrobras, que o mercado aceitou bem. No entanto, ele acabou declinando do convite e um outro nome deverá ser apreciado pelo Conselho da empresa na semana que vem.

 

*Arnaldo Corrêa é diretor da Archer Consulting

Continue Reading