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Açúcar: quando o preço encosta no custo, a assimetria começa

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O mercado futuro de açúcar em NY encerrou a sexta-feira com o vencimento março/26, que expira na próxima semana, cotado a 14.30 centavos de dólar por libra-peso, alta de 52 pontos na semana, equivalente a quase 11.50 dólares por tonelada. Isso após o mercado testar 13.86 centavos na terça-feira, sob intensa pressão dos fundos que – acredite – adicionaram mais 14,381 lotes vendidos, atingindo novo recorde de posição descoberta: 265,824 lotes, ou aproximadamente 13.5 milhões de toneladas. Um número historicamente extremo.

A decisão judicial nos Estados Unidos contra o aumento de tarifas comerciais contribuiu para enfraquecer o dólar, que encerrou a semana a R$ 5.1700. Dólar mais fraco, em geral, sustenta commodities denominadas na moeda americana, ao torná-las mais competitivas para compradores internacionais.

Fevereiro avança sob narrativa de superávit, mas os fundamentos não são confortáveis quando observados pelo prisma de custo marginal, clima e política agrícola. Nova York negociou abaixo do custo de produção de parte relevante da oferta exportável global. Quando preço e custo se aproximam persistentemente, a semente da volatilidade está plantada. A cura para preços baixos, como se sabe, são preços baixos.

O Centro-Sul consolidou produção acima de 40 milhões de toneladas na safra 25/26, com mix açucareiro próximo de 50.8%. A disponibilidade na entressafra é limitada. Caso o açúcar permaneça abaixo de 14 centavos por libra-peso, a decisão de mix na abertura da safra 26/27 ganhará importância estratégica.

O custo estimado do VHP ex-mill gira ao redor de 15.30 centavos por libra-peso. Acrescidos custos de elevação e frete, o valor supera o patamar atual de NY, comprimindo margens e reduzindo incentivos à fixação agressiva.

A restrição hídrica no interior paulista projeta risco para 26/27. Ainda não é quebra, mas risco em commodities agrícolas costuma carregar prêmio.

A Índia revisa expectativas. De uma projeção próxima a 35 milhões de toneladas, o consenso migra para algo ao redor de 33 milhões. A produtividade decepcionou. Florescimento precoce em Maharashtra e Karnataka reduziu rendimento industrial. Embora o governo tenha autorizado cotas adicionais de exportação, dificilmente o volume ultrapassará 800,000 toneladas. Com custo estimado próximo de 19 centavos por libra-peso, exportações abaixo de 16–17 centavos exigiriam algum tipo de compensação interna.

Na Tailândia, a produção foi revisada para cerca de 10.4 milhões de toneladas. Problemas fitossanitários e competição com a mandioca – cuja rentabilidade supera a cana em aproximadamente 15% – deslocam área plantada.

A China deve produzir entre 11.5 e 11.7 milhões de toneladas, contra consumo próximo de 15.8 milhões. O custo doméstico supera 35 centavos por libra-peso. O país permanece estruturalmente deficitário e aproveitou os preços baixos para recompor estoques.

A União Europeia enfrenta redução de área entre 5% e 8% para 26/27. A produção pode recuar para cerca de 15.5 milhões de toneladas. Custos elevados e desafios fitossanitários limitam seu papel como exportador estrutural.

Em três semanas, NY recuou quase 100 pontos enquanto os fundos ampliaram significativamente a posição vendida. A assimetria cresce. Qual o limite da convicção especulativa quando preço tangencia custo?

Num cenário otimista, perdas climáticas na Ásia e ajuste de mix no Brasil podem reequilibrar rapidamente o balanço, abrindo espaço para 17–19 centavos por libra-peso.

Num cenário neutro, superávit entre 3 e 5 milhões de toneladas manteria o intervalo entre 14 e 15.50 centavos, mas à custa de menor investimento agrícola, preparando o ajuste para 2027/28.

No cenário pessimista, Brasil maximiza açúcar, Índia amplia exportações e a demanda global desacelera. Nesse ambiente, 12–13.50 centavos tornam-se plausíveis.

O ponto central é simples: o mercado negocia muito próximo do custo marginal da oferta exportável. Quando isso ocorre, dois movimentos se intensificam: menor fixação futura e maior volatilidade.

Não há escassez evidente. Há margem de segurança estreita. O equilíbrio global depende do clima no Hemisfério Norte, do mix brasileiro e da política indiana. Em commodities agrícolas, risco raramente é linear. Ele é assimétrico — e é nessa assimetria que o mercado começa a entrar.

Nosso colaborador Marcelo Moreira observa que o maio/26, após negociar na mínima da semana, reagiu e encerrou a 13.86 centavos por libra-peso, acima das resistências de 13.63 e 13.78, agora convertidas em suportes. Para manter o movimento, enfrenta resistências em 14.26, 14.48, 15.03 e, finalmente, na média móvel de 200 dias (15.62).

*Arnaldo Luiz Corrêa é analista de Mercado e diretor da Archer Consulting

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