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Acúcar: virada dos fundos pode trazer mais volatilidade aos preços

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Especuladores fizeram compras líquidas de 145 mil contratos em duas semanas, maior movimento para o período em 20 anos

Os fundos especulativos mudaram de forma expressiva seu posicionamento no mercado futuro de açúcar em Nova York em meio a revisões nas projeções para o balanço global da commodity. Em apenas duas semanas, foram realizadas compras líquidas de 145 mil contratos futuros, maior volume para esse intervalo em 20 anos, segundo levantamento da consultoria FG/A com base em dados da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), divulgado pela Globo Rural.

Os fundos passaram de uma posição líquida vendida em 33 mil contratos na semana encerrada em 28 de julho para uma posição líquida comprada em 117 mil contratos em 11 de agosto. A mudança ocorreu paralelamente à forte valorização do açúcar: entre 30 de julho e 11 de agosto, o contrato outubro avançou 14%, de 14,66 para 16,73 centavos de dólar por libra-peso.

Em artigo sobre o movimento recente do mercado, o consultor Arnaldo Luiz Corrêa destaca um ambiente marcado pela redução das estimativas de safra, incertezas climáticas e políticas restritivas. “Os fundos não-indexados viraram a mão”, afirma.

Corrêa chama atenção ainda para operações com derivativos do tipo knock-in, knock-out e acumuladores, que, segundo ele, “podem trazer mais volatilidade nos preços no momento do ajuste e correção dessas posições”.

Projeções de déficit são revisadas

A mudança no posicionamento dos fundos ocorre em um período de revisões nas estimativas para o balanço mundial de açúcar.

A Green Pool elevou sua projeção de déficit global em 2026/27 de 1,76 milhão para 3,3 milhões de toneladas. Outra estimativa mencionada por Corrêa passou de déficit de 550 mil para 1,7 milhão de toneladas.

A Czarnikow, por sua vez, estima déficit de 900 mil toneladas em 2026/27, resultado de uma produção mundial projetada em 178,3 milhões de toneladas frente a um consumo de 179,2 milhões. Para 2027/28, a consultoria projeta déficit de 2,9 milhões de toneladas, diante da menor disponibilidade de cana e beterraba na Índia, União Europeia e Tailândia.

Corrêa pondera, entretanto, que o consumo mundial é de aproximadamente 500 mil toneladas por dia e avalia que um déficit entre 2 milhões e 3 milhões de toneladas, embora contribua para a alta, “não representa grande coisa” diante desse volume.

Para o Centro-Sul brasileiro, a Czarnikow reduziu sua estimativa de produção de açúcar de 39,5 milhões para 38,6 milhões de toneladas. Segundo Corrêa, a revisão considera as chuvas intensas de junho e julho, que reduziram o teor de açúcar da cana, além de ajustes para baixo nas premissas de moagem e mix.

Clima entra no radar dos fundos

Segundo Willian Hernandes, sócio da FG/A, em avaliação publicada pela Globo Rural, os fundos “parecem estar com receio de um El Niño muito forte”.

A expectativa é de que o fenômeno possa afetar a produção na Índia e na Tailândia, além da Europa. No Centro-Sul brasileiro, o El Niño também poderia afetar a oferta caso antecipe um volume maior de chuvas durante o inverno, provocando interrupções na colheita e redução da qualidade da cana-de-açúcar.

A dimensão da movimentação financeira chama atenção. Segundo o levantamento da FG/A, desde 2006, as maiores inversões de posição dos fundos especulativos em intervalo semelhante haviam ocorrido em janeiro de 2006 e dezembro de 2019, mas sem alcançar o atual volume de contratos.

Em março deste ano, os fundos chegaram a realizar compras líquidas de 125 mil contratos em duas semanas. Na ocasião, o açúcar passou de 14,19 para 15,77 centavos de dólar por libra-peso, mas posteriormente perdeu força.

Índia pode ser contrapeso à narrativa de déficit

Na Índia, o governo avalia restringir o uso de cana-de-açúcar para a produção de etanol na safra que começa em novembro, segundo Corrêa. Na temporada atual, cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar, aproximadamente 10% da produção, foram desviadas para o biocombustível.

Segundo o consultor, se confirmada, a medida devolveria açúcar à oferta indiana e seria “o primeiro contrapeso relevante à narrativa de déficit que sustenta os preços”. Uma decisão pode sair até o fim de setembro, com milho e arroz sendo considerados matérias-primas alternativas para a produção de etanol.

As monções na Índia, segundo o artigo, seguem 12% abaixo da média.

Mercado forte, mas com risco de correções

Para Corrêa, o comportamento das cotações ao longo da semana sinalizou força do mercado. Após atingir 17,11 centavos de dólar por libra-peso, maior nível em 15 meses, o contrato outubro/26 fechou a quarta-feira em queda de 1,85%, a 16,42 centavos, e voltou a subir na quinta-feira, encerrando a 16,60 centavos.

“Mercado que renova máxima de 15 meses, corrige 1.85% e recupera no dia seguinte é mercado forte — mas mercado forte também é aquele que pune quem espera o pico perfeito”, afirma Corrêa.

Para quem realiza hedge, o consultor defende o escalonamento das fixações nos movimentos de alta. Segundo ele, os níveis de preços observados, combinados com o câmbio acima de R$ 5,2200, resultam em valores em reais por tonelada que “há doze meses seriam motivo de festa na usina”.

Corrêa também destaca que uma eventual mudança nas regras para a destinação da cana na Índia pode alterar o cenário do mercado. “E com a Índia podendo mudar as regras do jogo até setembro, ter parte do dever de casa feito antes da decisão de Nova Délhi não é pessimismo — é gestão de risco.”

Segundo o consultor, a combinação entre “redução de safra, incertezas climáticas e políticas restritivas” deu o tom ao mercado. Ele alerta ainda para o potencial de aumento da volatilidade no momento do ajuste e da correção de determinadas operações com derivativos.

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