Produção de combustíveis na Rússia está em queda em meio a uma série de ataques de drones ucranianos a refinarias; picos sazonais na demanda por gasolina e diesel podem desencadear uma grave crise, alertam especialistas
A escassez de combustíveis vem se agravando na Rússia. Os ataques de drones ucranianos a refinarias de petróleo interromperam o abastecimento em diversas regiões.
Este pode ser apenas o começo. A pressão sobre o mercado de combustíveis se intensificará ainda mais nos próximos meses. Se a intensidade dos ataques de drones não diminuir e as refinarias danificadas não puderem retomar suas operações a níveis normais, há o risco de que as interrupções locais se transformem em uma crise generalizada.
De acordo com fontes públicas analisadas pela DW, interrupções no fornecimento de combustíveis ocorreram em mais de dez regiões russas nas últimas semanas. Em alguns casos, postos de gasolina impuseram restrições ou pararam completamente as vendas.
Bloqueio logístico
A situação na Península da Crimeia – território ucraniano anexado pela Rússia em 2014 – é particularmente tensa. A escassez de combustíveis foi causada por ataques de drones que paralisaram o tráfego na chamada rodovia Novorossiya, que liga a península à região russa de Rostov e é uma rota vital para o abastecimento de combustível.
Este “bloqueio logístico”, como o vice-primeiro-ministro ucraniano, Mykhailo Fedorov, referiu-se aos ataques às rotas de transporte entre a Crimeia e a Rússia, forçou as autoridades russas a adotarem medidas rigorosas.
A gasolina premium agora só está disponível com cupons de racionamento. Segundo a imprensa local, as principais redes de postos de gasolina pararam de vendê-la a pessoas físicas há várias semanas. A gasolina comum só está disponível em quantidades de até 20 litros.
Há alguns dias, 15 postos de gasolina na região de Krasnodar, na Rússia continental, pararam de vender combustível. À primeira vista, esse número parece pequeno em comparação com os aproximadamente mil postos que as autoridades locais afirmam existir na região.
Onde há escassez de combustível?
No entanto, aumentam as reclamações nas redes sociais de que a gasolina se esgota regularmente até mesmo nos postos que não anunciaram o fechamento. Muitos atribuem isso ao fluxo de motoristas da Crimeia que se dirigem à região de Krasnodar para abastecer. O governador da região, Veniamin Kondratyev, descreve a situação como “difícil” e fala de uma “afluência artificial”.
A escassez de combustível, embora menos grave, ocorre agora em quase todo o país. Na Rússia Central, a falta de combustível ocorreu em postos de gasolina isolados nas regiões de Kursk, Belgorod, Ryazan e Oryol. Há relatos isolados até mesmo de Moscou e da região metropolitana.
Problemas também ocorrem no noroeste, como em São Petersburgo e nas regiões de Leningrado, Pskov, Novgorod, Murmansk e Carélia. Há relatos de falta de combustível também na Sibéria e no Extremo Oriente.
Na maioria dos casos, trata-se de pequenos postos de gasolina não afiliados a grandes companhias petrolíferas, o que significa que ainda não é uma crise generalizada. No entanto, as reclamações estão aumentando e os preços da gasolina têm subido constantemente há várias semanas – em até 0,5% por semana.
Que danos causam os drones?
A Rússia enfrenta quase todos os anos uma escassez de combustível mais ou menos aguda. Tradicionalmente, a demanda por gasolina e diesel aumenta no verão devido ao trabalho agrícola e à temporada de férias. Além disso, as refinarias de petróleo costumam realizar manutenções programadas.
Em 2024 e 2025, esses fatores foram agravados por ataques de drones ucranianos, o que levou a crises de proporções maiores do que o habitual. Este ano, a crise começou a surgir antes mesmo que os fatores sazonais surtissem efeito completo, com os ataques de drones começando mais cedo e, ao que tudo indica, tornando-se mais eficazes.
Segundo cálculos do portal de notícias financeiro Bloomberg, somente em maio, oito das dez maiores refinarias de petróleo da Rússia foram atacadas por drones, sendo que algumas, como as refinarias da Lukoil em Nizhny Novgorod e Perm, se tornaram alvos repetidas vezes.
Yaroslav Kabakov, diretor de estratégia da Finam, uma das maiores empresas de investimento da Rússia, com sede em Moscou, disse que os ataques afetam não apenas o processamento primário, como nos anos anteriores, mas também as instalações secundárias de produção de gasolina e diesel.
“O reparo dessas instalações leva meses e é ainda mais complicado pelas sanções que restringem o fornecimento de equipamentos”, explicou.
As estatísticas de produção de combustíveis da Rússia são em grande parte confidenciais. No entanto, alguns dados que foram divulgados indicam uma queda significativa em relação ao ano anterior.
Segundo a agência de estatísticas russa Rosstat, a produção de derivados de petróleo caiu 9% em abril de 2026 em comparação com abril de 2025. Em maio, a queda foi ainda mais acentuada, de 13% em relação ao ano anterior, de acordo com estimativas da Bloomberg.
Segundo o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea), uma organização de pesquisa independente, a refinaria da Rosneft em Tuapse foi particularmente afetada pelos ataques. Entre janeiro e maio de 2026, reduziu suas exportações de derivados de petróleo em 73% em comparação com o ano anterior. O Crea estima as perdas de exportação resultantes em 1,7 bilhão de euros (R$ 9,9 bilhões).
Preparativos para uma crise cada vez maior
Pessoas associadas ao mercado de combustíveis alertam para uma escassez sistemática de combustíveis caso as paralisações das refinarias continuem.
“Uma escassez significativa é atualmente perceptível apenas na Crimeia. Embora ainda existam reservas no restante da Rússia, os suprimentos atuais são insuficientes. Se a situação não melhorar, a escassez afetará muito outras regiões até o final de julho ou início de agosto”, disse uma fonte do mercado de combustíveis ao jornal russo Kommersant.
O Ministério da Energia da Rússia pretende evitar o agravamento da crise com a criação de uma “força-tarefa setorial” em 8 de junho. Esse grupo terá a missão de garantir o “funcionamento estável e eficiente de todo o complexo energético e de combustíveis do país”.
Anteriormente, as autoridades impuseram uma proibição às exportações de gasolina – medida que vem sendo repetidamente aplicada. A subsequente proibição às exportações de querosene, no entanto, foi inédita. O fornecimento de gasolina da Belarus aumentou significativamente na Bolsa Internacional de Mercadorias de São Petersburgo.
Dimensão da crise ainda é incerta
Os preços dos combustíveis devem subir, como já aconteceu no ano passado, mas não drasticamente, pois os preços da gasolina no varejo na Rússia são rigorosamente regulamentados pelo Estado. Alguns postos de gasolina independentes e pequenas redes poderão fechar temporariamente para evitar prejuízos.
“Os ataques de drones ucranianos causam custos significativos para o setor petrolífero russo. Eles interrompem as operações e reduzem a capacidade das refinarias, aumentam os gastos com reparos e medidas de segurança e causam gargalos logísticos”, afirmou o especialista do Crea, Isaac Levi.
Ao mesmo tempo, os danos ao Estado russo permanecem limitados, afirmou Levi. O petróleo que não pode ser processado internamente é exportado. Enquanto a guerra no Oriente Médio continuar a desestabilizar o mercado global, as condições para isso permanecerão favoráveis.
Os drones ucranianos também atacam a infraestrutura de exportação russa, mas esses ataques ainda não tiveram impacto significativo sobre o setor. De acordo com a Bloomberg, as exportações russas de petróleo por via marítima atingiram seu nível mais alto desde o início da guerra, no começo de junho.
Deutsche Welle| Oleg Loginov



