Auditoria de terras é crucial para reduzir custo agrícola

Auditoria de terras: representando o segundo maior custo de uma usina paulista, atrás apenas da Folha de Pagamento, o dispêndio com arrendamentos e parcerias agrícolas está encarecendo muito a produção de cana

*Ricardo Pinto

Para adequado entendimento da recente voracidade por terras para plantio de cana-de-açúcar na região Centro-Sul do Brasil, vamos usar dados referentes ao Estado de São Paulo. De 2000 a 2018 aconteceram importantes mudanças no uso das terras paulistas.

Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), neste período as pastagens diminuíram em 3,61 milhões de ha, seguidas de milho, que se reduziu em 0,22 milhão de ha, e de laranja, com menos 0,80 milhão de ha.

Auditoria de terras: representando o segundo maior custo de uma usina paulista, o dispêndio com arrendamentos está encarecendo muito a produção de cana
Auditoria de terras: representando o segundo maior custo de uma usina paulista, o dispêndio com arrendamentos está encarecendo muito a produção de cana

As culturas que mais cresceram no mesmo período foram cana-de-açúcar, com novos 3,34 milhões de ha, seguida de soja, com mais 0,42 milhão de ha, e de eucalipto/pinus, com expansão de 0,35 milhão de ha. A Figura 1 mostra estas mudanças nas áreas ocupadas em 2000 pelas 10 culturas até então com maior participação em área no Estado de São Paulo.
Pode-se dizer que praticamente 92% de toda a área perdida pelas pastagens em São Paulo foram ocupadas pela cana-de-açúcar, restando um pouco ainda para a expansão de soja e de eucalipto/pinus. A cana, portanto, mais que dobrou sua área em 18 anos.

Auditoria de terras: representando o segundo maior custo de uma usina paulista, o dispêndio com arrendamentos está encarecendo muito a produção de cana
Auditoria de terras: representando o segundo maior custo de uma usina paulista, o dispêndio com arrendamentos está encarecendo muito a produção de cana

MAIS ÁREA, MAIS CARA
Ainda segundo o IEA, em 2000 pagava-se, em média, 35,09 t de cana por alqueire. Este número médio subiu para 43,96 t por alqueire em 2018, ou seja, houve um incremento de 24,7% na quantidade de toneladas de cana pagas por alqueire em 18 anos.
Especialmente onde há maior concentração de usinas e nas terras mais próximas às indústrias, não é difícil achar contratos que paguem de 60 a até 75 toneladas por alqueire. Isso pode ser verificado em regiões como Catanduva, Ribeirão Preto, Orlândia, Franca, Jaboticabal, Limeira, Araçatuba, Araraquara e São José do Rio Preto.

Paralelamente, o preço da tonelada de cana, que é a base do cálculo do preço a se pagar pelas terras, cresceu ainda mais. Em 2000/01, o valor do quilograma de ATR (Açúcar Total Recuperável) estava em R$ 0,19. Já na safra 2018/19, este valor fechou em R$ 0,58. Como o preço do quilograma do ATR deve ser multiplicado por 121,97 kg para se chegar ao preço da cana colocada na esteira da usina de cada safra, em 2000/01 a cana era precificada a R$ 23 por tonelada e na safra passada, 18 anos depois, subia para R$ 71,06 por tonelada. Assim, o preço da cana elevou-se em 197,1%
Juntando o aumento da quantidade média de toneladas de cana pagas por alqueire pela terra em São Paulo com o crescimento do preço da cana nestes 18 anos, a terra paulista evoluiu seu custo para as usinas em 272,2%. Logo, as terras vêm crescendo, em média, 7,2% ao ano.

AUDITORIA: IMPACTO NO CUSTO DE PRODUÇÃO DA CANA
Num trabalho que vem sendo realizado de forma contínua há vários anos, a empresa Sucrotec monitora o custo caixa – ou seja, somente o que foi realmente desembolsado, sem depreciação – das mesmas usinas, que representam aproximadamente 5% da cana processada no Estado de São Paulo. Com dados deste monitoramento até a safra 2015/16, foi possível produzir a Figura 2, que aponta o peso do que as usinas pagam para arrendamentos e parcerias em relação ao seu custo final de produção da cana própria.
É visível o crescimento do peso do desembolso das usinas para arrendamentos e parcerias agrícolas frente ao seu custo final de produção. Tal item representava ao redor de 10% de todo o custo na virada do século e já tinha alcançado 24% na safra 2015/16, numa tendência crescente.
Aliás, este mesmo levantamento apontava que o desembolso com terras numa usina só perdia da Folha de Pagamento (mão de obra) como maior desembolso para produzir cana própria, conforme aponta a Figura 3.

AUDITORIA: GESTÃO MINUCIOSA

Dado o expressivo custo das terras nas usinas, torna-se crucial que sua gestão seja mais acurada e tenha maior profundidade para se conseguir frear tal encarecimento.

Justamente por isso que a RPA Consultoria passou a oferecer às usinas o serviço de Auditoria de Terras. Nele, de forma neutra e isenta, nossos consultores trabalham nos seguintes tópicos:

1) Conhecer os padrões que a usina cliente pratica com seus “fornecedores de terras”:

a) de precificação das terras;

b) de definição de área a ser contratada (só área com cana plantada ou área com carreadores ou mesmo área com demais usos);

c) da forma de pagamento;

d) de subsídios ao contratado, se existem;

e) de outros fatores usados nas negociações.

2) Comparar os padrões listados acima com os das demais usinas da região, identificando práticas que possam ser reduzidas e até eliminadas nas renovações de contratos e novas contratações;

3) Revisar os padrões adotados, definindo parâmetros para a contratação/renovação de contratos de terras que reduzam seu custo sem afetarem sua disponibilidade à usina, inclusive propondo critérios e um sistema de negociação que sejam controláveis e auditáveis;

4) Auditar todos os contratos de parceria agrícola e arrendamentos, identificando aqueles que estejam acima dos padrões que a usina está adotando ou passará a adotar após o benchmarking que a RPA Consultoria fará junto ao mercado regional, isolando os casos que extrapolem os padrões;

5) Identificar se há terras sem contrato ou com contrato vencido;

6) Elencar os contratos vencendo nos próximos anos, definindo previamente o plano de ação para cada um deles no tocante aos seus limites de negociação;

7) Levantar as áreas efetivamente ocupadas com cana nas áreas constantes nos contratos, identificando áreas em pousio ou “em estoque” (sem cana por incapacidade de plantio da usina) e áreas realmente não plantadas;

8) Finalmente, mapear o valor que poderá ser reduzido e mitigado ano a ano com terras em função de cada uma das ações listadas acima, de forma a facilitar o monitoramento e a cobrança da efetiva concretização destas ações.

É complicado de se estimar o quanto este trabalho pode agregar em economia ao caixa das usinas, posto que cada caso é um caso, mas certamente não estamos tratando de quantias pequenas.

* Ricardo Pinto é engenheiro agrícola, administrador de empresas e mestre em Agronomia, além de fundador da RPA Consultoria, com 31 anos de experiência no setor sucroenergético, sendo 24 anos como consultor

 

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