Avaliação mudou para neutra diante de possíveis ações do governo para evitar repasses da alta do petróleo para a gasolina
O BTG revisou sua recomendação para as ações das sucroenergéticas São Martinho, Jalles e Adecoagro para neutra diante de uma perspectiva de que o governo não vai permitir uma transferência de toda a alta observada até agora nas cotações internacionais do petróleo para os preços da gasolina nos postos.
Em relatório divulgado nesta terça-feira, 7, e assinado pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla, o banco aposta que o governo deve preferir reduzir ou até eliminar os impostos que recaem sobre a gasolina para compensar eventuais ajustes nos preços da Petrobras.
“Em um ano de eleição, assumir que o governo vai simplesmente permitir um aumento que alcance completamente os consumidores parece uma aposta um pouco difícil”, escreveram os analistas.
Eles seguem: “No limite, é provável tentar suavizar o movimento, especialmente dado o quão impopulares os aumentos de preços de combustíveis tendem a ser. Um caminho óbvio para fazer isso poderia ser reduzir, ou até eliminar, impostos federais sobre combustíveis, como acabou de ser feito para o diesel”.
Segundo eles, o argumento do espaço fiscal para impedir a redução de impostos não tem força porque o Brasil tende a ter receitas adicionais com as exportações de petróleo, que podem elevar os dividendos pagos ao governo pela Petrobras, os valores pagos em impostos de exportação e royalties, entre outros.
“Na prática, essas receitas adicionais podem mais do que compensar um corte nos impostos sobre os combustíveis, abrindo espaço não apenas para neutralizar a alta dos preços, mas potencialmente subsidiar os preços ainda mais”, avaliaram os analistas.
Nas contas do BTG, com a alta do Brent de US$ 80 o barril para US$ 100 o barril, a receita com impostos federais (PIS/Cofins e Cide) sobre gasolina e diesel subiria de R$ 55 bilhões anuais para R$ 90 bilhões anuais. A diferença (R$ 35 bilhões), segundo eles, poderia ser usada para subsidiar os preços e mantê-los “artificialmente” baixos.
Em um cenário em que a Petrobras repasse integralmente a alta do petróleo para a gasolina e o governo elimine os impostos federais, o preço da gasolina nas bombas subiria no máximo R$ 0,46 o litro. Se o etanol hidratado registrar uma paridade média de 70% nas bombas nesta safra, isso significaria que as usinas venderiam o biocombustível em média por R$ 3,07 o litro.
Na última semana, o preço do etanol hidratado vendido pelas usinas de São Paulo ficou em R$ 3,3095 o litro, segundo o indicador Cepea/Esalq.
No cenário de base do banco, o preço médio do Brent deve ficar em US$ 90 o barril, a correlação do etanol hidratado com a gasolina nas bombas deve ficar em 65%, e o preço do açúcar deve ficar em 20% acima do preço do etanol.
Ainda neste cenário, o banco estima que as ações das sucroenergéticas devem ser negociadas com um múltiplo de 9% no caso da São Martinho, 13% no caso da Jalles e 14% no caso da Adecoagro – indicadores que o BTG considera como “não atrativos”.
O BTG lembra ainda que as ações destas três companhias já subiram neste ano apenas como reflexo do início da guerra no Oriente Médio e acredita que novas altas nos papéis são improváveis.
Globo Rural| Camila Souza Ramos

