Compartilhar

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) está buscando “educar” potenciais investidores antes de retomar seu processo de oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), que foi interrompido em abril deste ano. Na ocasião, havia uma forte concorrência com várias outras ofertas, e a janela de IPOs no mercado brasileiro começava a se fechar. A previsão da empresa era levantar em torno de R$ 1 bilhão com a operação.

Embora a companhia venha apresentando resultados financeiros que possam agradar aos investidores mais tradicionais, com elevação contínua de margens e fluxo de caixa nos últimos quatro anos, o CTC quer que os investidores entendam o que é uma empresa de biotecnologia agrícola, disse ao Valor Gustavo Leite, CEO da empresa. Hoje, o setor está completamente ausente da bolsa brasileira.

“Não somos como uma usina, que tem um ?´desespero?´ pela excelência operacional com menor custo. Aqui, inovação é o driver, e, para isso, é preciso haver certa tolerância ao erro”, afirmou Leite. No último exercício (encerrado em março), que segue o período das safras sucroalcooleiras, o CTC investiu 43% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento (R$ 146 milhões). Mesmo assim, a companhia melhorou seu resultado operacional, e seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) chegou a R$ 178 milhões, o triplo da safra anterior.

O “perfil dos sonhos” de um investidor do CTC é parecido com o que frequenta hoje as ações da Nasdaq, diz o CEO. “Esses estão acostumados a investir em empresas de longa maturação. É interessante para as turmas que olham do ponto de vista estratégico, mas não para quem quer reportar ganhos muito rapidamente”, afirmou Leite, ex-executivo da Monsanto.

Isso não tem impedido o CTC de atrair gestoras de fundos para um programa intensivo de imersão na empresa, que envolve visitas de dias inteiros a seus laboratórios e campos de experimento em Piracicaba (SP). “Os fundos vêm um por um, passam um dia inteiro aqui. Começamos às 9h e ficamos até às 13h em uma sala de aula, explicando e tirando dúvidas. À tarde, todos fazem visita para ver como é o laboratório de biotecnologia, o projeto de sementes de cana, os viveiros”, conta. “O programa tem sido muito bem sucedido”.

Segundo o executivo, o que falta para o CTC voltar a colocar seu IPO na praça é perceber que os investidores estão “prontos” e “enxergaram valor” na companhia. Para ele, uma reabertura do processo neste ano até seria viável, “mas não acho recomendável”.

O CTC tem prazo para abrir seu capital. Por contrato com o BNDES, que hoje detém 18,9% de participação, a empresa precisa fazer sua oferta de ações até 2023, com margem para estender essa data por mais dois anos caso a companhia não encontre janela a tempo. Mas Leite não tem pressa. “Vão usar medidas [de precificação] como o Ebitda. Como nosso Ebitda tem crescido a taxas estonteantes, esperar um ou dois anos pode ser até benéfico”, disse.

O plano é que o IPO seja uma oportunidade não apenas para o BNDESPar e alguns sócios minoritários saírem do negócio, mas também para levantar recursos para as frentes de inovação do CTC: transgenia na cana, produção de sementes de cana e edição genômica. Por seu potencial de atrair novos aportes, as duas últimas são as prioridades.

Com a edição genômica, técnica que ainda está em fase de pesquisa nas ciências e que difere da transgenia por não precisar de genes de outras espécies, o CTC poderia chegar a plantas resistentes a pragas. A técnica é desenvolvida em um laboratório da empresa instalado em 2018 nos Estados Unidos.

O projeto de sementes, por sua vez, já está mais perto de alcançar sua meta. Na última safra, de todas as sementes desenvolvidas pelo CTC, 77% obtiveram sucesso na germinação. O plano, segundo o CEO, é lançar a semente quando a taxa de sucesso for de 95%.

Ipsis Litteris

Embora a maior parte das usinas tenha reduzido significativamente a área de plantio de cana na safra passada (2020/21), o CTC continuou aumentando seus ganhos com os royalties das variedades vendidas no país. A empresa encerrou a temporada com lucro de R$ 224,9 milhões, mais que cinco vezes o do ciclo anterior. A receita líquida, composta basicamente de pagamento de royalties, cresceu 38,1%, para R$ 337,9 milhões. O CTC alcançou a meta de ampliar sua participação de mercado. Das variedades plantadas no ciclo, 39,5% eram do CTC, 3,5 pontos percentuais a mais do que na safra anterior.

Cadastre-se em nossa newsletter