Do campo para a usina: o uso de blockchain para certificar a produção de biocombustíveis

O setor sucroalcooleiro está de olho na blockchain como estratégia para determinar a sustentabilidade da produção. E vê na tecnologia uma solução para armazenar, registrar, organizar e rastrear os produtos para garantir confiabilidade e segurança das informações sobre a origem das matérias-primas e insumos.

Usada largamente para registro de transações financeiras, a tecnologia funciona como “um grande livro-caixa” com os dados registrados simultaneamente em vários computadores e está começando a ser aplicada na cadeia de biocombustíveis no Brasil.

Um dos projetos é conduzido pela Embrapa em parceria com a Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana), a Safe Trace e a Usina Granelli.

Os trabalhos em campo, liderados pela Embrapa Informática Agropecuária (SP), tiveram início no ano passado com experimentos em conjunto com produtores de Piracicaba, Tambaú e Charqueada, municípios no interior do estado de São Paulo.

O acordo inclui a geração de processos agropecuários, softwares, modelos, banco de dados e metodologia técnico-científica.

Alexandre de Castro, pesquisador da Embrapa que lidera o projeto, revela que a ideia inicial era a rastreabilidade da cadeia da cana-de-açúcar para agregar valor ao produto.

Mas, a partir do desenvolvimento dos trabalhos, a equipe percebeu que a tecnologia poderia ser estendida e aproveitada pelos produtores de biocombustíveis.

É o caso da Usina Granelli, que começou a parceria para estabelecer um padrão de qualidade para o açúcar mascavo e agora também pretende usar a tecnologia para preencher a RenovaCalc — a calculadora de eficiência energética e ambiental da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio).

Mariana Granelli, diretora jurídica da usina de etanol, conta que a parceria com a Embrapa para desenvolver essa especificação acabou motivando a empresa a se certificar para emitir os créditos de descarbonização (CBios) do RenovaBio.

“Como já estamos fazendo essa rastreabilidade da cana, a partir dela eu consigo preencher a RenovaCalc com uma exatidão muito maior. Isso garante que a quantidade de CBio que vem do meu combustível é aquele valor mesmo, e não um valor estimado, como é hoje”, explica Mariana.

Um CBIO equivale a uma tonelada de carbono que deixou de ser emitida no processo de produção do biocombustível.

O projeto da Embrapa prevê a criação de uma tecnologia baseada em sensoriamento remoto para organizar, processar e disponibilizar em nuvem imagens de satélite proximais, suborbitais e orbitais, aplicadas a análises de lavouras da cana-de-açúcar, que vão contribuir para apoiar o planejamento e controle operacional da cultura, tanto na fazenda como em talhões.

Outra novidade é que imagens aéreas de canaviais serão usadas para detecção de doenças das plantas e pragas daninhas, deficiências nutricionais, estresse hídrico e estimativas de produção de biomassa.
O diagnóstico vai permitir aos produtores a adoção de medidas de controle com mais rapidez e eficiência.