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O governo brasileiro consegue modificar trechos do relatório final do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, evitando que o etanol seja alvo de acusações explícitas de ser causador de desertificação e degradação de terras, além de fome. O documento será publicado nesta quinta-feira, depois de uma semana de debates em Genebra.

Num primeiro rascunho do informe, publicado com exclusividade pelo UOL e com base em um texto dos cientistas de abril de 2019, o IPCC alertava que os biocombustíveis poderiam promover degradação ambiental e fome se sua produção não for realizada de uma maneira adequada.

Ganhador do prémio Nobel da Paz, o IPCC tem sido o responsável por revelar ao mundo a dimensão das transformações climáticas que enfrenta o planeta. De uma forma técnica e não política, os cientistas do IPCC constatam agora que, da maneira que está organizada hoje, a agricultura não é sustentável e pode aumentar a pressão sobre florestas e sobre a própria temperatura média do planeta.

Hoje, o desmatamento contribui com cerca de 10% a 15% das emissões de CO2. Desde 1961, 5,3 milhões de quilômetros quadrados foram transformados em terras aráveis, o equivalente a dois terços da Austrália. Para os cientistas, “a taxa e extensão geográfica de exploração de terras nas últimas décadas é sem precedentes na história humana”

Para frear essa crise, os cientistas pedem que governos abandonem políticas que acentuam a degradação dos solos. Uma ação poderia, assim, evitar vulnerabilidade de “milhões de pessoas à degradação, desertificação e fome”. Para eles, o custo da inação supera o custo da ação, inclusive para a estabilidade e prosperidade econômica.

Mas um trecho em específico do documento causou um debate acalorado entre governos. Ao se referir à produção de biocombustíveis, o temor no texto original era sobre o avanço de cultivos em diversas partes do mundo para alimentar à indústria de energia. Na avaliação dos cientistas, havia um risco real de um “aumento da pressão sobre terras”.

Os cientistas não negavam que, de forma específica e em determinadas regiões, o uso de energia a partir de produção agrícola pode fazer sentido e até ter um impacto positivo para o clima. Mas o uso de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados no planeta para o cultivo de produtos que serão usados para energia já poderia se traduzir em perdas reais ao planeta.

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