Experiência brasileira na produção do biocombustível representa vantagem competitiva, mas utilização na navegação internacional ainda depende de avanços regulatórios e adaptações tecnológicas
A experiência brasileira na produção de etanol em larga escala pode colocar o país em posição de destaque na descarbonização do transporte marítimo internacional. Embora o Brasil já conte com uma indústria consolidada de biocombustíveis, a ampliação do uso do etanol na navegação depende de avanços regulatórios, adaptações tecnológicas e investimentos em infraestrutura para atender às demandas do setor.
O potencial brasileiro foi destacado pelos almirantes de esquadra José Augusto da Cunha de Menezes, ex-representante permanente do Brasil junto à Organização Marítima Internacional (IMO), e Claudio Mello, atual representante brasileiro na entidade, durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, realizada em outubro, em São Paulo. A discussão foi mediada por Mario Campos Filho, presidente da SIAMIG/Bioenergia Brasil.
Segundo Menezes, o Brasil reúne vantagens competitivas para participar da transição energética do transporte marítimo, especialmente por já dominar a produção e a utilização do etanol em larga escala. O desafio, na avaliação do almirante, é transformar essa experiência em reconhecimento internacional e ampliar a participação do biocombustível nas estratégias de redução de emissões da navegação.
“O Brasil está num momento privilegiado na Revolução Marítima Global. Não precisamos descobrir novas fontes, pois já dominamos o etanol, sendo o segundo maior produtor do mundo e com expertise no seu uso. Nossa maior vitória será provar para o mundo, em foros como a OMI, que somos a opção mais prática, limpa e abundante de transição de transporte marítimo global e sem perdas logísticas”, afirmou.
Para Menezes, a consolidação do etanol como combustível marítimo exige articulação internacional e avanços nas discussões regulatórias, além da integração entre os diferentes agentes da cadeia produtiva e logística.
A definição de regras internacionais para a redução das emissões do transporte marítimo também foi destacada por Mello. Segundo o atual representante brasileiro na IMO, a organização está desenvolvendo metas e regulamentações para a descarbonização da navegação, processo no qual o Brasil precisa buscar o reconhecimento das características ambientais de sua matriz energética.
“O desenvolvimento do etanol para navegação consolida o que temos de mais poderoso no Brasil, que é a energia de base renovável e o agronegócio de ponta. Enquanto os Estados Unidos apostam pesado na inovação e na frota circulante, nós do Brasil não dependemos de importar infraestrutura; o etanol nos dá protagonismo. A OMI está desenhando metas e regulamentações e nosso papel é assegurar que a nossa matriz limpa se encaixe sem resistência”, destacou Mello.
Além do reconhecimento regulatório, o representante brasileiro ressaltou a necessidade de atuação coordenada entre governo, produtores de biocombustíveis, armadores e operadores portuários. Essa integração será importante para desenvolver as condições de fornecimento, infraestrutura e utilização do etanol como combustível na navegação internacional.
Apesar das vantagens associadas à capacidade produtiva brasileira, a entrada do etanol nesse mercado ainda enfrenta desafios técnicos e regulatórios. A adaptação das tecnologias utilizadas nas embarcações, os investimentos necessários ao longo da cadeia logística e o reconhecimento das soluções de descarbonização pela IMO estão entre os fatores que podem determinar a viabilidade de sua utilização em maior escala.
Nesse contexto, a experiência acumulada pelo Brasil na produção de etanol representa uma oportunidade de ampliar a participação do setor de biocombustíveis na transição energética global, desde que acompanhada por avanços capazes de transformar o potencial produtivo em aplicações comerciais na navegação.



