Relatório do Itaú BBA aponta alta superior a 10% nos fertilizantes nitrogenados, avanço do gás natural e alerta para impactos na safra 2026/27
A escalada do conflito no Oriente Médio após ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra o Irã já começa a pressionar o mercado global de fertilizantes e pode elevar os custos de produção da próxima safra no Brasil. Relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA aponta que a instabilidade na região provocou forte volatilidade nos mercados de energia e fertilizantes, com alta rápida da ureia e aumento do risco de restrições de oferta para países importadores de insumos agrícolas.
Segundo os analistas do banco, a região tem papel estratégico no funcionamento da economia global ao concentrar parte relevante da produção e do escoamento de petróleo, gás natural e fertilizantes. “Trata-se de um choque geopolítico de grande magnitude, com efeitos que extrapolam o campo militar e atingem diretamente os mercados globais de energia, fertilizantes e alimentos”, destacam os analistas no relatório.
Nesse cenário, o mercado de fertilizantes aparece como um dos mais sensíveis à instabilidade regional. O documento destaca que o Oriente Médio responde por mais de 40% das exportações globais de ureia, além de possuir participação relevante na oferta de amônia e fosfatados.
O Irã, especificamente, figura entre os maiores produtores e exportadores mundiais de fertilizantes nitrogenados e também desempenha papel importante no fornecimento de gás natural para países como Catar, Omã e Arábia Saudita, grandes exportadores desses insumos.
Ureia sobe mais de 10% e gás natural dispara
Com a escalada militar, fornecedores da região passaram a retirar ofertas do mercado internacional enquanto aguardam maior clareza sobre preços e logística. Como consequência, as cotações reagiram rapidamente.
Segundo o relatório, os preços da ureia registraram altas superiores a 10% em poucos dias, com valores no Egito ultrapassando 540 dólares por tonelada.
O movimento também está diretamente associado à elevação dos custos energéticos. O gás natural — principal matéria-prima utilizada na produção de fertilizantes nitrogenados — registrou forte valorização após ataques a instalações energéticas na região.
Após um ataque com drone iraniano atingir instalações no Catar, a produção de gás natural na maior planta exportadora do produto foi interrompida. Como resultado, os preços do gás natural, que já haviam subido cerca de 50%, avançaram mais 30% na Europa.
“O choque inicial nos preços decorre tanto do risco físico de interrupção de produção e transporte quanto da elevação dos custos energéticos”, afirmam os analistas do banco.
Dependência externa amplia exposição do Brasil
Para o Brasil, os impactos desse cenário são particularmente relevantes. Segundo o Itaú BBA, o país importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, o que amplia a exposição do setor agrícola às oscilações do mercado internacional.
No caso da ureia, aproximadamente um terço do volume importado pelo Brasil tem origem direta ou indireta no Oriente Médio, reforçando a importância estratégica da região para o abastecimento do mercado nacional.
Embora a participação direta do Irã nas importações brasileiras seja relativamente pequena, o relatório destaca que sua importância sistêmica é elevada, pois influencia os preços regionais e o fornecimento de gás natural para outros grandes produtores de nitrogenados.
No curto prazo, no entanto, o impacto tende a ser parcialmente amortecido pela sazonalidade do mercado brasileiro. O país não se encontra atualmente no pico de compras de fertilizantes nitrogenados, o que permite ao produtor adotar postura mais cautelosa na formação de estoques.
Para a segunda safra 2025/26, praticamente todo o volume de fertilizantes já foi adquirido. Já no caso da safra de verão 2026/27, as compras realizadas até o momento somam cerca de 30% da necessidade, ritmo inferior à média observada nos últimos anos, de aproximadamente 40%.
Nesse contexto, produtores passam a enfrentar um dilema estratégico entre antecipar novas compras diante do risco de restrições de oferta ou postergar aquisições esperando condições de preço mais favoráveis.
Energia, logística e comércio também entram no radar
O relatório destaca ainda que os impactos do conflito não se limitam ao mercado de fertilizantes. Um dos principais canais de transmissão da crise para a economia global ocorre por meio do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo.
Após os ataques ao Irã, restrições à navegação na região levaram companhias marítimas a evitar o corredor, pressionando custos de seguro e frete.
Como resposta imediata, o preço do petróleo tipo Brent registrou altas superiores a 10%, superando 80 dólares por barril, patamar não observado desde o início de 2025.
Segundo os analistas do banco, esse movimento tende a impactar diretamente o agronegócio brasileiro ao elevar o custo do diesel — insumo fundamental para operações agrícolas, transporte interno da produção e logística de exportação.
Além disso, o petróleo mais caro também encarece o frete marítimo, elevando o custo das exportações brasileiras de grãos, carnes e açúcar, além da importação de fertilizantes.
Estratégia de compras ganha importância
Diante desse ambiente de maior incerteza, o Itaú BBA avalia que acompanhar de perto o mercado internacional de fertilizantes torna-se fundamental para o produtor rural brasileiro.
A combinação entre tensões geopolíticas persistentes, volatilidade nos preços de energia e elevada dependência externa do Brasil aumenta significativamente o risco de novas altas ao longo dos próximos meses.
“Postergar integralmente a aquisição dos fertilizantes destinados à safra 2026/27 pode expor o produtor a custos ainda mais elevados e a eventuais dificuldades logísticas”, alertam os analistas do banco.
Nesse cenário, o relatório recomenda uma estratégia de compras escalonadas, com antecipação parcial das necessidades e monitoramento constante das relações de troca, como forma de reduzir a exposição a movimentos adversos de preços e preservar maior previsibilidade no custo de produção.
Natália Cherubin para RPAnews