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Jalles segue bem preparada para mudanças, mas margens estão limitadas

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Por Daniel Cobucci*

O BB Investimentos esteve presente no Jalles Day 2026, realizado na última semana na unidade Otávio Lage, na cidade de Goianésia (GO), o que nos ajudou a manter nossa visão construtiva sobre a gestão e estratégia da companhia.

A administração reforçou sua disciplina na alocação de capital e apresentou diversos projetos voltados para aumento de produtividade e redução de custos, com destaque para a expansão da irrigação na unidade Santa Vitória, em Minas Gerais, iniciativas de economia circular e novas frentes de crescimento e redução de custos.

A visita também reforçou nossa percepção positiva sobre os investimentos realizados nos últimos anos, incluindo a aquisição da unidade Santa Vitória e a construção da usina de açúcar, ativos que ampliaram a escala e a diversificação operacional da companhia.

Apesar da boa execução operacional e estratégica, os indicadores recentes continuam refletindo um ambiente bastante desafiador para o setor sucroenergético. A combinação de preços mais baixos de açúcar no mercado internacional, menor produção agrícola decorrente dos efeitos climáticos e custos unitários mais elevados tem limitado a expansão da rentabilidade.

Ainda assim, a Jalles conseguiu mitigar parte dessas pressões por meio de uma gestão eficiente de capital de giro, com redução de estoques ao longo da safra, e da política de hedge, que contribuiu para suavizar os impactos da queda dos preços do açúcar sobre os resultados.

No front operacional, destacamos o foco em irrigação, principalmente com expansão dos projetos de pivôs na unidade Santa Vitória e desenvolvimento de novos polos irrigados.

Na unidade Otávio Lage, local da visita, pudemos conferir o recém desenvolvido pátio de composto organomineral, aproveitando subprodutos industriais para reduzir dependência de fertilizantes externos e diminuir custos.

A companhia também abordou sobre o projeto de tratores autônomos, com racional que pode trazer redução de custos e aumento da produtividade, bem como um projeto de conversão de motores diesel para etanol em motobombas, com potencial de redução de custos e emissões de gases de efeito estufa.

Ambos se alinham à busca da companhia por maior competitividade e economia circular, trazendo ganhos concretos, ainda que marginais, em meio a um contexto de margens mais apertadas.

No campo, pudemos conferir as tecnologias utilizadas, como o controle de pragas orgânico, utilizando predador natural da broca e aplicação com drones, além da aplicação de vinhaça e pivôs de irrigação.

Após o início das operações com biogás, com capacidade instalada de 6 mil m³ por hora, a companhia avalia uma possível construção de planta de biometano, utilizando vinhaça como matéria-prima para abastecimento da frota agrícola.

Mas o mais relevante, em termos financeiros, é o estudo para implantação de uma planta de etanol de milho, que seria integrada aos ativos existentes da companhia. Tal projeto ajudaria na diversificação das receitas e traria maior produção, aproveitando a entressafra da cana.

No entanto, ainda que existam claros benefícios, como sinergias no aproveitamento da infraestrutura industrial, além de receitas adicionais com DDG e óleo de milho, o impacto da construção seria relevante no endividamento, dado que o custo estimado da planta é da ordem dos R$ 700 milhões.

Assim, mesmo fazendo o projeto com parceria estratégica, haveria uma elevação do endividamento em um contexto de sobreoferta de etanol e pouca visibilidade sobre melhoria das margens, motivos que entendemos serem responsáveis pela cautela com o avanço do projeto.

Em resumo, vemos de modo positivo a manutenção da disciplina financeira e iniciativas para lidar com o ciclo adverso. A companhia reduziu o ritmo de investimentos na safra atual e reforçou o foco em projetos com maior retorno esperado, especialmente irrigação e iniciativas voltadas para ganhos de eficiência.

Além disso, a Jalles apresentou um guidance para 2026/27 contemplando investimentos e tratos culturais inferiores ao ciclo anterior, ao mesmo tempo em que projeta recuperação da moagem.

A política de hedge segue sendo um importante fator, com elevada cobertura para as próximas safras em patamares considerados atrativos, o que contribui para reduzir a volatilidade dos resultados em um momento de maior incerteza para o setor.

Dessa forma, saímos do evento com uma percepção positiva sobre a qualidade da gestão, boa alocação de capital e baixa alavancagem financeira, mas o cenário setorial permanece desafiador, marcado por preços mais baixos de açúcar, perspectivas de margens pressionadas no etanol, menor produção agrícola e custos unitários ainda elevados, fatores que devem continuar limitando a geração de caixa e os retornos no curto prazo.

Assim, apesar do posicionamento estratégico favorável e da proteção proporcionada pelo hedge, entendemos que a companhia permanece inserida em um ciclo de rentabilidade mais comprimida, com visibilidade limitada para uma recuperação consistente das margens, o que sustenta uma visão neutra para a ação neste momento.

 

* Daniel Cobucci é especialista do BB Investimentos

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