De difícil identificação no campo, parasitas atacam o sistema radicular e exigem manejo desde o plantio até as soqueiras para reduzir impactos sobre produtividade e longevidade do canavial
A produtividade da cana-de-açúcar é resultado de uma combinação de fatores que envolve clima, nutrição, variedade, manejo e condições fitossanitárias. Parte desse potencial, porém, é definida abaixo do solo, onde o sistema radicular sustenta a absorção de água e nutrientes e dá suporte aos ciclos seguintes da cultura. É também nessa região que atuam os nematoides, parasitas microscópicos cujos danos podem ser confundidos com estresse hídrico ou deficiência nutricional, e podem provocar perdas de 30% a 40% na produtividade.
Durante o bate-papo no novo episódio do DaCanaCast, podcast da RPAnews Cana & Indústria, Letícia Melloni, especialista em Desenvolvimento de Mercado da BASF, destacou que a importância das raízes ganha uma dimensão ainda maior na cana-de-açúcar por se tratar de uma cultura que permanece no campo por sucessivos ciclos. Além de absorver água e nutrientes, o sistema radicular participa da formação da soqueira que dará origem ao próximo canavial após cada corte.
“Tudo começa na raiz. A planta, a fotossíntese são essenciais, a gente sabe, mas sem a raiz não tem água para fotossíntese, não tem nutriente, não tem nada. E se a gente for pensar em cana-de-açúcar, uma boa base, uma soqueira interessante que perpetue a longevidade do canavial é totalmente dependente do ciclo anterior”, afirmou.
Essa relação, segundo ela, ajuda a explicar por que os danos provocados pelos nematoides podem ultrapassar o ciclo em que a infestação ocorre. Ao comprometer a formação e o funcionamento das raízes, o ataque interfere na capacidade de a planta acessar água e nutrientes e pode contribuir para a perda gradual de produtividade ao longo dos cortes.
Danos podem passar despercebidos no campo
A identificação dos nematoides é uma das principais dificuldades do manejo desta praga, pois além de não serem vistos a olho nu, seus efeitos sobre a cana podem se parecer com problemas provocados por seca, deficiência nutricional, qualidade das mudas ou até mesmo comportamento varietal.
“Às vezes o produtor confunde com problema nutricional ou mesmo falta de água. E quando falta água, o sintoma de nematoide é ainda pior. Então, quando não se tem um comparativo, às vezes o produtor não consegue enxergar. São tantos fatores que interferem no enraizamento e na produtividade, que às vezes se esquece do nematoide, deixando-o de lado”, explicou Melloni.
Amarelecimento, murcha, folhas mais estreitas e desenvolvimento irregular em reboleiras estão entre os sinais que podem aparecer no campo. Entretanto, a semelhança com outros estresses torna a análise da área importante para confirmar a ocorrência e dimensionar a população presente.
Segundo Melloni, atualmente é difícil encontrar áreas completamente livres desses organismos. O nível de dano, no entanto, depende da população existente, das espécies presentes no solo e também da variedade cultivada.
“Um solo livre de nematoides, eu acredito que hoje em dia não se tem mais. Se o produtor fizer uma análise, com certeza vai encontrar. O que interfere é o tamanho da população desse nematoide, a variedade que está instalada lá e os tipos de nematoide que tem no solo. Isso que vai interferir também na cana-de-açúcar”, disse.
As variedades também apresentam respostas diferentes à presença do parasita. Melloni ressalta que algumas possuem maior resistência, mas que isso não significa ausência de perdas. Por isso, a escolha varietal deve considerar não apenas ambiente de produção e época de colheita, mas também o histórico fitossanitário da área.
O diagnóstico, contudo, ainda não faz parte da rotina de todos os produtores. Na avaliação da especialista, grandes grupos e usinas tendem a acompanhar mais de perto áreas com histórico ou sintomas de nematoides, enquanto entre fornecedores a realização de análises é mais frequente entre aqueles com maior nível de tecnificação.
Manejo deve continuar após o plantio
Conhecer a área é, para Melloni, o primeiro passo de um programa de manejo. A estratégia deve considerar conjuntamente análise de nematoides, histórico da lavoura, escolha da variedade, nutrição e proteção fitossanitária.
“As análises nutricionais têm que ser bem feitas. A gente precisa também investigar histórico da área para pragas, doenças, tudo isso, a variedade que vai ser utilizada. Então, é um manejo totalmente integrado. Nunca a gente pode pensar ou ter o foco em uma coisa só”, afirmou.
Dentro dessa estratégia, a especialista defende a combinação de produtos químicos e biológicos. Segundo ela, o avanço das soluções biológicas ampliou as ferramentas disponíveis ao produtor e, em alguns casos, trouxe também efeitos fisiológicos sobre a planta, mas sem eliminar o papel das tecnologias químicas.
“Eu não acredito que um seja concorrente do outro. Acredito no manejo integrado das duas tecnologias, porque, se você tem um biológico, a maioria deles trabalha preventivamente, já o químico, às vezes, também tem preventivo, mas também tem solução. Então, quando a gente usa de maneira integrada, é possível conquistar melhores resultados”, disse Melloni.
Outro ponto destacado é que o controle não deve se restringir ao plantio. De acordo com a especialista, uma parcela dos produtores realiza aplicações de nematicidas na implantação do canavial, mas não mantém o tratamento nas soqueiras. Como a cana permanece no campo por vários cortes e nenhum produto apresenta residual capaz de cobrir todo esse período, novas intervenções precisam ser consideradas ao longo dos ciclos.
“Não é só porque eu fiz no plantio que eu não vou fazer no corte. A gente tem que fazer porque o ciclo é rápido, aumenta-se muito rápido a população de nematoide e aí o dano vai sendo maior, cada vez maior”, alertou.
A preocupação com as soqueiras está diretamente relacionada à longevidade. Segundo Melloni, o sistema radicular formado em um ciclo dá suporte ao seguinte e, quando o problema não é manejado, as perdas podem se acumular até tornar-se necessária uma reforma antecipada.
“A gente tem que pensar que o que tem ali embaixo é para sempre. E a longevidade do canavial está nas raízes e na formação da soqueira no ciclo anterior. Se você já não está fazendo isso, você já está perdendo produtividade, você já está perdendo rentabilidade e, consequentemente, longevidade. Você vai ter que reformar esse canavial mais cedo”, afirmou.
Tecnologia biológico amplia opções para manejo de nematoides
Entre as soluções biológicas citadas durante o DaCanaCast está o Votivo® Prime, bionematicida da BASF à base de Bacillus firmus. Segundo Melloni, além da atuação sobre os nematoides, a tecnologia favorece o desenvolvimento do sistema radicular e a formação de radicelas, ampliando a estrutura disponível para absorção de água e nutrientes.
De acordo com a especialista, o microrganismo presente no produto atua também na colonização dos ovos dos nematoides. A proposta é que a tecnologia seja incorporada ao manejo integrado, complementando as demais ferramentas utilizadas na proteção do canavial.
“O biológico vai conseguir proteger por um bom tempo. Vai fazer mais raízes para que depois, na hora que começar a ter uma redução, porque o ciclo do nematoide é bem rápido, você tenha uma planta mais preparada”, disse.
A solução pode ser utilizada no plantio e também nas soqueiras. Para os ciclos posteriores, Melloni cita aplicações no corte de soqueira, em drench e associadas à vinhaça, característica que amplia as possibilidades de incorporação do produto às diferentes operações realizadas no canavial.
A formulação é outro aspecto destacado pela especialista. Segundo ela, a compatibilidade e o comportamento dos produtos em misturas têm importância operacional, já que diferentes tecnologias são frequentemente utilizadas na mesma operação. Melloni ressalta que nem todos os produtos biológicos são compatíveis entre si e que eventuais restrições devem sempre ser verificadas nas recomendações de cada fabricante.
Durante o episódio, ela também relatou resultados observados em uma área de produção de mudas de uma usina da região. Conforme Melloni, a área que havia recebido Votivo® Prime no plantio apresentou posteriormente maior quantidade e altura de perfilhos, maior número de folhas e diferenças visíveis no sistema radicular. No campo citado, o ganho chegou a 30 t/ha em relação à área comparada, embora a própria especialista ressalte que o resultado não é uma resposta padrão e depende de fatores como variedade, ambiente e conjunto do manejo adotado.
“Não é sempre que acontece isso. Existem também variedades mais responsivas. Mas você pensa: ele escolheu bem a variedade, o local onde foi plantado, fez bons tratamentos, todo o manejo integrado e, além disso, utilizou um bom nematicida biológico”, ponderou.
Outro diferencial está relacionado ao armazenamento. O Votivo® Prime possui tempo de prateleira de até dois anos, permitindo maior flexibilidade para distribuidores, usinas e produtores no planejamento de compra e utilização. Segundo Melloni, o produto também não necessita de refrigeração e pode ser armazenado em temperatura ambiente, respeitadas as condições recomendadas.
“Quando a gente tem dois anos de shelf life, o produtor consegue se planejar melhor para utilizar, sem exigir um planejamento tão prévio. Muitos produtos biológicos precisam de refrigeração. No caso do Votivo Prime, não há essa necessidade. Em temperatura ambiente, na embalagem dele, isso facilita para o produtor”, afirmou.
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A especialista também destacou a tolerância da tecnologia a temperaturas elevadas durante a aplicação. Segundo ela, o Bacillus firmus utilizado no Votivo® Prime apresenta tolerância a temperaturas de até 45°C, característica relevante principalmente no plantio, quando a temperatura nas camadas mais superficiais do solo pode ser elevada.
Para Melloni, o desenvolvimento de novas formulações tende a ampliar a participação dos biológicos na canavicultura nos próximos anos, mas dentro de uma lógica de integração com outras ferramentas. O avanço, segundo ela, deverá vir acompanhado de maior profissionalização e evolução tecnológica desse mercado.
“A gente vai ter ali os biológicos premium e eles vão cada vez mais ser relevantes no mercado. Eu não acho que a indústria química vai acabar. Eu acredito que é uma sinergia. Só que não vai mais ser amador. Daqui a cinco anos, as tecnologias e as inovações vão ser ainda mais tecnológicas”, afirmou.
Ao produtor, a recomendação final é olhar para o manejo do canavial de forma integrada e de longo prazo, considerando desde a implantação da área até os sucessivos cortes.
“O produtor tem que pensar no canavial a longo prazo, não só a curto prazo. Tem que estudar a terra, o histórico, conversar bastante com a área técnica das empresas que possam colaborar, usar as tecnologias, integrá-las e não esquecer de nada, não deixar as pontas soltas. Porque senão, cada vez mais nós vamos estar perdendo e cada vez mais nós vamos estar reformando mais cedo”, concluiu.
Natália Cherubin para RPAnews

