Escolha de pneus ainda é guiada pelo preço nas usinas, apesar do avanço tecnológico e dos impactos comprovados em eficiência operacional e compactação
O pneu deixou de ser um item operacional para assumir papel estratégico dentro das operações canavieiras, com impacto direto no custo por hectare, na eficiência energética e na produtividade agrícola. Em um ambiente marcado por operações severas, mecanização crescente e pressão por eficiência, a escolha técnica desse componente passa a influenciar diretamente o desempenho das usinas ao longo da safra.
No transporte e nas operações agrícolas da cana-de-açúcar, as condições de trabalho são consideradas de alta severidade, combinando ciclo misto entre terra e pavimento, cargas elevadas e contínuas, terrenos irregulares e abrasivos, além de esforços intensos de tração, frenagem e impactos laterais e verticais. “O transporte de cana-de-açúcar é, sem dúvida, uma operação severa”, afirma Fábio Torres, gerente de Vendas e Marketing da Dunlop Tires.
Segundo Torres, esse tipo de operação impõe uma combinação de esforços que aceleram o desgaste estrutural dos pneus, principalmente pelo aquecimento gerado sob carga constante e pela alternância frequente entre campo e rodovia. Nesse cenário, ele destaca que o controle de pressão — sempre aferido a frio — é determinante para evitar falhas prematuras, uma vez que desvios operacionais tendem a intensificar a geração de calor, deformações na carcaça e perda de desempenho ao longo do ciclo.
Torres também chama atenção para fatores como recapabilidade, resistência a impactos laterais e estabilidade em condições de carga elevada, que passam a ser determinantes para o desempenho ao longo da vida útil do pneu. Em operações contínuas, como no setor sucroenergético, esses elementos influenciam diretamente o custo total da operação e a previsibilidade do desempenho dos equipamentos.
Decisão sobre pneus ainda é guiada pelo custo inicial
Embora o impacto técnico dos pneus já seja conhecido e discutido no setor, na prática a escolha ainda é fortemente influenciada pelo investimento inicial. A análise do custo total da operação passa a ganhar espaço no discurso técnico, mas ainda não se consolida como critério dominante na tomada de decisão.
“O pneu mais barato normalmente não possui tecnologias de construção de carcaça que favorecem essas performances”, afirma Pedro Fernandes, diretor comercial para a área agro da Michelin. Ainda de acordo com ele, a escolha inadequada pode gerar impactos diretos como aumento da compactação do solo, danos à soqueira e maior consumo de combustível nas operações de transbordo.
Apesar desse avanço conceitual, na prática, a decisão ainda não é plenamente tratada como estratégica dentro das usinas. Segundo Dário Sodré, especialista em motomecanização da D2G Consultoria, isso ocorre porque muitas empresas ainda não possuem dados estruturados e confiáveis sobre durabilidade dos pneus, análise de vida útil (LDA) e custo por hora das máquinas. “Infelizmente ainda não é uma decisão estratégica”, afirma.
De acordo com Sodré, as decisões de compra ainda não contemplam, na maioria dos casos, a escolha do pneu mais adequado para cada operação, considerando tecnologias como radial, diagonal, VF (Very High Flexion) e IF (Increased Flexion). No campo agronômico, ele aponta que as comprovações ainda são incipientes, enquanto, na aquisição de máquinas, predomina o pneu que já vem instalado de fábrica. No mercado de reposição, o critério de escolha segue fortemente baseado no preço inicial, em grande parte pela dificuldade de traduzir tecnicamente as diferenças entre marcas em linguagem de negócios.

Compactação, patinagem e pressão definem eficiência no campo
A compactação do solo aparece como um dos principais pontos de atenção dentro da operação canavieira. Segundo Fernandes, a pressão exercida pelos pneus está diretamente relacionada à área de contato com o solo: quanto maior essa área, menor a pressão específica e menor o impacto sobre a estrutura do solo, influenciando diretamente o desenvolvimento radicular e a produtividade da cultura.
Na mesma linha, Fábio Metidieri, diretor de pneus agrícolas da Yokohama TWS, reforça que “o pneu deve ser tratado como decisão estratégica dentro do custo por hectare”. Segundo ele, a distribuição inadequada de carga não apenas aumenta o risco de compactação, como também compromete a soqueira — ativo produtivo da lavoura — impactando diretamente o potencial produtivo do canavial ao longo dos ciclos.
Sodré, no entanto, pondera que o impacto da compactação vai além do pneu isoladamente e está diretamente ligado à especificação do conjunto máquina-implemento. “O pneu é o elemento que tem contato com o solo e o pressiona, mas a especificação correta do trator e do implemento é o que impacta mais na compactação”, afirma.
A eficiência operacional também é diretamente impactada. Operar fora de uma condição adequada de patinagem pode gerar perda de eficiência energética. Nesse contexto, Torres ressalta que o patinamento excessivo está diretamente associado ao aumento do consumo de combustível, ao desgaste acelerado dos pneus e à perda de eficiência operacional, especialmente em operações de alta carga e longa jornada, como no setor sucroenergético.
Na prática, Sodré afirma que ainda há falhas relevantes na especificação e no uso dos pneus nas usinas. Ele aponta que decisões são frequentemente influenciadas por vieses cognitivos. Além disso, o setor sucroenergético gasta, em média, entre R$ 0,45 e R$ 0,50 por tonelada trabalhada por ano com pneus, enquanto ainda são poucos os casos em que se mede efetivamente as perdas de eficiência operacional associadas ao tipo de pneu utilizado.
Tecnologia avança, mas adoção ainda é desigual
No campo tecnológico, os pneus radiais vêm se consolidando especialmente em aplicações agrícolas off-road. Segundo Fernandes, não há aplicações agronômicas que justifiquem o uso de pneus diagonais em tratores, enquanto tecnologias como IF e VF permitem operar com menor pressão mantendo a mesma carga, ampliando a área de contato com o solo e reduzindo a compactação.
Para Metidieri, a escolha entre radial e diagonal deve considerar a aplicação específica, especialmente em operações agrícolas e de transbordo. Em tratores de alta potência, o pneu radial tende a maximizar a eficiência operacional e preservar o solo, enquanto, em operações como transbordos de alta capacidade, soluções com maior foco em estabilidade estrutural sob carga dinâmica podem ser mais adequadas, diante das exigências operacionais.
Segundo as fontes ouvidas, o avanço tecnológico também passa por estruturas de carcaça mais robustas, compostos mais resistentes ao desgaste e desenhos de banda de rodagem voltados para maximizar tração e reduzir o patinamento em condições severas de operação.
Olhando especificamente para aplicações mistas, on e off road, o especialista da Dunlop ressalta que a evolução tecnológica dos pneus passa principalmente pelo desenvolvimento da carcaça e pela capacidade de suportar ciclos térmicos severos sem comprometer a integridade estrutural.
Ainda no contexto de uso misto, Torres destaca que testes de campo indicam ganhos relevantes. Ele cita como exemplo o modelo SP571 da marca, com até 21% mais performance e durabilidade, e o SP926, com rendimento quilométrico 8% acima do principal concorrente. Além disso, tecnologias como o sistema TAIYO (Sun), baseado em fabricação sem emendas, ampliam a integridade da carcaça e o potencial de recapagem, reduzindo o custo por quilômetro.
Tanto nas aplicações mistas quanto nas operações off-road, a pressão de inflação segue como variável crítica. Torres, Metidieri e Fernandes convergem ao apontar que o desafio não está apenas na definição da pressão ideal, mas na sua manutenção ao longo da operação.
Na avaliação de Sodré, custo, tecnologia e exigência agronômica são fatores fundamentais na evolução da escolha de pneus no setor canavieiro, embora custo e tecnologia ainda tenham maior peso dentro da realidade operacional das usinas.

